DESPROTEÇÃO – Eulálio

– Não sei se dou conta, não é uma boa ideia.

– Claro que é. Você está totalmente errado, primo. – Camila começava a ficar insatisfeita com a recusa. – Isso é tão básico, só precisa organizar papéis, atualizar o livro de finanças… Pelo que sei, é trabalho simples de contabilidade. Por que insiste em recusar?

– E por que você insiste em me ajudar? Não estou precisando de nada! – Eulálio se arrependeu. Mais tarde, agradeceria ter topado um trabalho tão tranquilo, pois sua situação teria uma nova reviravolta.

Enquanto Camila ia até a janela para respirar e não perder a paciência com o primo cabeça dura, ele tomou consciência de que não precisava ser tão mesquinho e orgulhoso. A prima agia de boa-fé. Solidarizava-se com a falta de grana, já que fora expulso do estágio nas empresas Bersani.

Mais uma vez, se tornara o primo mais pobre. Suzana e Bianca não precisavam se importar com finanças. Camila trabalhava e, desde então, estava tranquila financeiramente. Além de bastardo e sem perspectivas, não sabia por onde começar a sair da fossa que estava há algumas semanas:

– Ok! Eu faço. Qual é o meu prazo de tempo?

– Duas semanas! – Camila abriu um sorriso. – Não temos pressa.

– O Leo vai me pagar como se fosse um mês de estágio para cuidar das pendências pessoais e do consultório? Realmente é muito simples para tanto dinheiro. Não quero parecer que vou explorá-lo. Vou fazer tudo bem rápido. Obrigado, Camila.

Os dois se abraçaram:

– Talvez você seja a irmã que não tive, já que não temos irmãos. – Eulálio percebeu o quanto a prima ficou sem graça com o elogio. O que havia de inusitado naquilo? Seria o beijo que eles trocaram? – Foquei em Bianca, mas ela tem Nando e Nei.

– Falando na Bibi, que história bizarra! O que você está sabendo? – ela desconversou.

– Sei muito pouco, não nos encontramos.  Minha mãe quem me contou. Teve uma festa organizada por Nei e começou a pegar fogo. Foi uma confusão danada. Acabou com a sala.

– Foi. Ninguém entende como a vela de sétimo dia, que fica no oratório, no hall, gerou aquele incêndio todo. Há suspeitas, está sabendo? – Lio fez negativamente com a cabeça. – Andam desconfiando da Suzana.

– Por que ela colocaria fogo na casa? Espera aí. A mãe contou que viram ela saindo abraçado com a Bianca que, por sua vez, estava pelada.

– Bianca?! Pelada?! Isso não é típico dela. Gente, o que estava acontecendo naquele lugar? Só sei que ninguém fala. Colocaram todo mundo na parede, nenhum dos cinco disse nada de concreto, nem Nei e Sandro, que não têm escrúpulos, estão bem quietos. Nando diz ter estado bêbado e não viu nada, o que é mentira, pois ele ajudou a apagar o fogo. Suzana alega que estava ficando com um carinha, só confessa ter ido resgatar Bianca. Ela foi a única que não deu uma palavra.

– Suzana está solteira?

– O lance com Igor acabou faz tempo.

Eulálio precisava sair mais, interagir nem que fosse com as primas. De repente, altos acontecimentos pipocaram, mas ele não sabia de nada. Apenas Teresa trouxera algumas revelações, enquanto Camila tinha pontos mais picantes.

Tanta coisa que não sabíamos, tantos detalhes não revelados. Se abaixasse a cabeça para a avó naquele momento, sabia que seria subjugado sempre. Por isso, decidiu retomar as buscas, agir sorrateiramente para desmascarar a fera. Mal sabia que mais botes e golpes iriam ao encontro dele:

– Eulálio José! Filho! Corre aqui!

Os dois primos se entreolharam. Havia urgência. Eles foram para a varanda. Acabavam de entregar um carro zero Km na calçada. Ele tinha um laço na parte de cima. Era vermelho forte e metálico. Aquela cor o assustou. Por um tempo, desconfiou que boa coisa não seria:

– Deve haver algum engano. – Teresa comentara.

– Alguém poderia assinar a entrega? – Um dos homens perguntou.

Na impossibilidade, devido ao choque dos dois, Camila pegou a prancheta e deu uma rubrica. Dois envelopes pardos foram entregues, um para mãe, outro para o filho.

A prima acompanhou o recado da avó: “Conforme combinamos, eis os documentos. É só assinar e deixar de ser um de nós. O carro é o presente pelo seu aceite. Pela oficialização, vou conceder mais um desejo. Lina Bersani”

– Não compreendo. – Camila disse.

– Nossa avó quer que eu tire o sobrenome do meu pai. Ela me dá qualquer coisa se eu deixar de ser um Bersani.

– O quê? – Teresa estava atônita. – Além de nos expulsar, quer anular o Gabriel da nossa vida!

– Expulsar? – Foi a vez de Eulálio ficar sem entender.

– A avó monstruosa de vocês acaba de nos expulsar. Ela está tomando a casa de volta, quer que nos mudemos em um mês. Também vai cortar a nossa ajuda de custo. “Acabou a farra, vocês devem andar com as próprias pernas” são as palavras dela.

– Como ela pôde? Foi longe demais. – Camila se revoltou.

– Não há limites para Lina Bersani. E eu ainda me surpreendo. – Teresa ficou ressentida.

– Abusa do poder, nos intimida, nos derruba… – a prima estava chocada.

– Parece que não há fim. – Teresa voltou-se para dentro de casa.

Eulálio foi abraçado pela prima:

– Ela mordeu e assoprou. Debochou! Pra que preciso de um automóvel se não tenho onde morar? Que ódio! Minha mãe não merece passar por isso! Que vontade de quebrar esse carro!

– Não faça isso, Lio! Use o carro para te favorecer. Você pode vendê-lo e investir numa casa nova.

Estava desapontado consigo mesmo. Essa pequena reviravolta atestava o despreparo e o afastamento da tranquilidade. O caminho era longo e complicado.

Eulálio foi até o carro. Passou a mão pela lataria, admirou-o. Era um presente dado por motivos errados. Ressaltava o defeito, ao invés de uma congratulação. Pensou se realmente é possível se erguer e atingir o sucesso sem a ajuda de ninguém, muito menos da família. Atestou que sem apoio seria complicado, imagine com a interferência negativa, sempre puxando mais para baixo:

– Eu e o André vamos ao teatro. Vem com a gente! Hoje é sábado. Nada de bom vai sair se ficar sozinho e recluso. – propôs.

– Não quero estragar o encontro de vocês.

– Não vai. A gente vem pegar você, não precisa se preocupar com ônibus e horário.

– Eu não acho…

– Não quero saber. Você vai e pronto. – Camila abraçou o primo. – Não posso combater a vovó ou ajudar com mais propriedade. – disse com muita calma. – Mas, posso estar ao seu lado. Pode não ser nada a minha presença. Só que ela é muito verdadeira. Torço muito por nós, Lio. Um dia, vamos superar isso tudo. Sabe, ainda estamos nos construindo, fortalecendo as bases. Ainda não temos telhado, por isso sofremos tanto as intempéries. Quando menos esperarmos, vamos estar prontos. E nada, nada mesmo, vai nos derrubar.

– Vai demorar? Não aguento mais tanta porrada da vida.

– Infelizmente a construção é complexa e longa. Só que chegaremos lá! Pode crer.

Eulálio sempre teve crença em si mesmo. Isso já era um começo. Sem levar fé em nós mesmos, certeiramente estaremos fadados ao fracasso.

DESPROTEÇÃO – Suzana

Era mais difícil do que imaginava. Contudo, era até prazeroso. Os primeiros momentos como monitora configuravam-se como paradoxais. Suzana se espantava com a burrice e a falta de atenção, ao mesmo tempo em que se maravilhava e se orgulhava quando eles, enfim, compreendiam.

Havia todo um preparo e uma paciência a serem aplicados e desenvolvidos. Tinha de dominar e revisar o conteúdo antes da sessão de monitoria. A cada plantão, percebia o quanto afortunada era por assimilar mais rapidamente a matéria.

De início, passava e cobrava exercícios. Então, perdia alguns momentos, em casa, corrigindo-os. Parou com aquilo. Ganhava bem menos, se comparasse os dois estágios anteriores de prática. Não ia fazer em demasia. Com tantas decepções, não precisava se sentir desvalorizada. No entanto, aquele dia seria um exemplo de como as pessoas sempre podem afundar, não há limites para a queda.

O começo do sucumbir foi silencioso e sorrateiro. Poderia esperar tudo, menos a presença daquele colega de faculdade tão odiado: Marcus, o estagiário que a fez passar por um dos maiores constrangimentos. Quando foi expulsa, acusada de um assédio mentiroso, nunca o viu pelos corredores da faculdade. Ele era alguns períodos acima dela. Se ia assistir à aula de monitoria, isso era sinal de que ele tinha pendências.

A princípio, Suzana fechou a cara. Que direito ele tinha? Era um sem vergonha, falso e arrogante. Decidiu não responder qualquer solicitação vinda de Marcus. Depois, percebeu que precisava separar os fatos. Naquele espaço, era uma bolsista, encarregada de tirar dúvidas. Não importava quem deveria ajudar.

Com o desenrolar, acabou se esquecendo dele. Estando distraída, escrevendo no quadro, não se tocou que a pergunta veio de Marcus. Se segurou e respondeu com simpatia. Era passado. Precisava se desapegar. Isso era mais difícil na prática…

Enquanto a turma conversava e resolvia exercícios, pensou sobre os percalços que passara por causa daquela distante safadeza. Fora há tão pouco tempo… No entanto, outras coisas haviam ocorrido: o novo estágio na firma de Igor e a recente bolsa de monitora, as declarações de amor, a viagem, o término… Realmente houve um efeito cascata de proporções inexplicáveis. Sabíamos que a vida tende a ser surpreendente e cheia de reviravoltas. Só que nunca estamos preparados.

Assim que dispensou a turma, teve outro susto. Marcus se prostrou em frente pra mesa. Se pudesse, dava-lhe um tapa na cara:

– Você deve estar querendo me bater…

– Você é um bom leitor de linguagem corporal. – continuou a desprezá-lo.

– Eu fiquei abismado. Você é uma boa professora. Me ajudou pra caramba.

– É para isso que estou aqui. – Suzana se levantou da mesa.

– Eu acho que eu me arrependo. – ela travou, encarando-o. – O escritório perdeu uma ótima estagiária. Aquele lugar nunca foi o mesmo depois que você saiu. Perdeu o brilho.

Suzana voltou a se sentar. Ficara contente e vaidosa com aquela revelação. Porém, não podia caiar nas garras ou lábias daquele homem. Quanto tempo gastou odiando-o, pensando em maneiras de se vingar…

– O que você quer? O que você ganha em me dizer isso? – acusou.

– Nada. Só estou sendo honesto, falando a verdade. Fizemos algo errado contigo apenas.

– Apenas? Vocês me escorraçaram sem me dar chance para nada. E você sabia que era tudo mentira.

– Eu não sabia. Juro que não sabia! Havia insinuações, olhares…

– Que não significavam nada! Você tem ideia do inferno que passei? Das noites mal dormidas? Do ódio que senti de mim? Eu me vi a mercê de pessoas que não me conhecem. Tive de recomeçar em outra empresa, parei numa área que não gosto. Tive de abrir mão do estágio porque essa história inventada caiu nos ouvidos de outras pessoas. Deve ter saído de você! Para quem contou o meu caso?

Marcus ficou branco, assustado. Parecia que ela havia descoberto algo:

– O que foi? Fala! – Suzana se impôs.

– Nada! É melhor eu ir.

A garota agarrou no pulso dele. Uma força incontrolável a fez enterrar as unhas contra a própria mão, ferindo-se:

– Você, Marcus, não faz nada de graça. Anda! Conta! Quem te subornou a revelar os detalhes do suposto assédio? Quanto você recebeu?

– Eu não sei quem são… – ele miou.

– Sabe sim! Você deve ter recebido e procurou saber quem era o seu benfeitor.

– É melhor você não saber. – ele se repuxou. Suzana se manteve firme, colocando-se de pé. A mesa que estava entre eles quase virou. – Quando eles me abordaram, eu não sabia. Mas foi tanto dinheiro, fiquei curioso. Acabei descobrindo.

– Eu vou ter que bater em você! Conta!

– Foi a sua avó, junto de seu primo Nei.

Suzana soltou Marcus. A mão estava dormente, mas ela nem sentiu. Havia um roxo no pulso do garoto:

– Como é?

– Eles me chamaram para um café após o expediente. Queriam detalhes. Eu não podia dizer, mas eles me ofereceram dinheiro. Acabei reunindo o material sobre você.

Suzana estava incrédula. Sentia um ódio percorrer toda a espinha. Se pudesse, voltava ao tempo e empurraria Nei para o meio das labaredas de fogo provocadas por ela:

– Eu queria propor algo a você para que eu fique de boca calada. – Mais descrente, Suzana ficou. – Prometo nunca falar com mais ninguém sobre isso, se você me indicar para a vaga de estágio de onde você saiu. Preciso ganhar novas experiências. Boa que é, tanto no sentido de trabalho quanto no sexual, deve ter deixado portas abertas. Pode, muito bem, me indicar para substituí-la.

Num súbito, ela enfiou um tapa na cara de Marcus. A mão, não recuperada da cãibra, doeu muito. Porém, estava aliviada:

– Você pode contar essa história pra qualquer pessoa, para a presidente, para o papa. Foda-se, não me importo! De mim, você não recebe nada. E some da minha monitoria. Você nunca mais vai dividir uma sala comigo.

Bufando de ódio, deu um grito de ódio ao ser bloqueada no corredor. Paulo, da Química, sorria sem graça:

– O que é? O que você quer? – ela disse extremamente atemorizante. Se arrependeu. Ele não tinha culpa de nada.

– Vejo que não é uma boa hora, mas não posso mais evitar. Há dias, tenho te rodeado, tentando criar coragem.

– Pra quê? – Suzana, de repente, ficou apreensiva.

– É melhor eu dizer logo. Tenho sífilis. Você pode estar contaminada.

A informação demorou a ser processada. Suzana se sentia voando, como se o corpo tivesse se desprendido da alma. Esta estava subindo, perdida, descompassada:

– Você está bem? – ele pôs as mãos no ombro dela.

– Sai! – desvencilhou-se de Paulo, sentindo nojo.

Cambaleando, foi ao estacionamento. Entrou no carro. A cabeça latejava. Não conseguiria tirar aquilo da mente. Isso a atormentaria para sempre. Numa manobra brusca, mudou de direção e parou no Hospital Universitário.

Andando a esmo pelos corredores, sentiu-se uma louca. Tinha plano de saúde, não precisava estar ali, até que a reconheceu, carregando uns materiais numa bandeja de inox:

– Catarina, não é? Você não faz faculdade particular?

– Faço, mas pedi para ser voluntária. Você está estranha, está tudo bem?

– Não. Preciso colher meu sangue. Eu pago se for preciso. Acho que estou contaminada com alguma doença venérea.

Agarrou-se no pescoço da estudante. Catarina era bem mais baixa e mais magra, porém, não sucumbiu, manteve-se firme. Carregou Suzana até um cubículo, recolocou-a numa cadeira:

– Não saia daqui! Já volto.

Sozinha, indefesa, atacada e finalizada. Suzana não sabia a quem recorrer. Foram dois baques tremendos. Sempre soube do ódio da avó. Não esperava tamanha destruição. E adorava sexo. Não conseguia conceber que estava contaminada com alguma doença. Olhou um armário cheio de remédios. Na ousou ver se estava aberto. Se conferisse, faria uma besteira.

DESMORONAÇÃO – Bianca

O cheiro típico de churrasco, a música sertaneja animada e o falatório condenavam que Bianca teria dificuldades em ler ou dormir. Não se lembrava de alguém ter comentado com ela sobre uma festinha na sexta-feira. Se soubesse, teria acampado na casa de Suzana ou Camila. Na verdade, ninguém ia contar sobre o evento, pois os irmãos claramente se aproveitaram da ausência dos pais para se divertirem.

Pelo basculante, averiguou os convidados. Por que perdera tempo conferindo? Eram os mesmos de sempre, os típicos filhos de papai, as dondocas fúteis. Nei se sentia o rei, o dono do palco. Ria de todos, chamava a maior atenção. Nando estava mais reservado, junto de Sandro. Será que Suzana iria aparecer? Ela nunca via problema em socializar com os primos.

Enquanto bebia um suco, refletia sobre as distâncias naturais. Aos poucos, as pessoas vão se afastando, se separando. A graça da vida é a influência que ela tem em nós. Nossos gostos mudam, as percepções se transformam, os desejos tendem a não serem fiéis, outros tomam lugares.

Antes, Bianca queria ter uma vida tranquila, ser funcionária pública, passar despercebida pela família. Encontrar alguém para casar logo e anular a pressão que a avó colocava sobre ela. Isso era enfadonho demais, típico demais. Hoje se enxergava como uma advogada bem sucedida e respeitada. Séria e admirada. Totalmente desvinculada dos Bersani’s. Solteira, pois se casaria com a profissão e aceitava o defeito da falta de prazer sexual.

Tomou banho, checou os e-mails e migrou para o quarto dos pais. Era mais afastado da algazarra, teria mais sossego. Tentando ler para puxar o sono, deu um pulo de susto quando a porta bateu com estrondo. Demorou até que alguém entrasse. Deveria tê-la trancado:

– Achei você! – Nei apareceu.

– Achamos você. – Júnior surgiu em seguida.

Com os olhos sobressaltados, viu mais sete garotos entrarem no quarto, após o fechamento da porta. Eles cercaram a cama. Bianca se sentia uma oferenda, prestes a ser trucidada a qualquer momento. Tentou se acalmar, afinal, seu próprio irmão não seria capaz de abusá-la. Não tinha tanta certeza…

– Irmã querida, pensamos que você ia se juntar a nós quando chegasse. Já de pijama. Que broxante!

– Essa é a maior característica dela. – Os garotos caíram na gargalhada graças ao comentário de Júnior.

– É, estamos sabendo. Que decepcionante! – Nei fez carinha de tristonho. – Eu achava que só homem poderia ter impotência. Não poderia imaginar que minha própria irmã fosse… que você é… como é a palavra? – ele estava bem bêbado.

– Frígida! – alguém respondeu.

– Isso! Frígida, fria, insensível! Mas me conta! Por que você é assim? O que trava você? Eu ainda acho que a culpa é do Júnior. Ele é um brocha! – mais risos entre todos.

– Ah, vai tomar naquele lugar. Você sabe o quanto sou dotado.

– Explica, Bianca! Algum médico já examinou você? Pode ser psicológico, algum trauma.

– Talvez eu tenha traumatizado ela com meu tamanho. – Júnior esfregava o zíper. Os garotos riam de novo.

Cada vez mais vermelha, Bianca deixou o livro de lado. Tirou o edredom de cima de si:

– Não precisa sair da cama. – Nei se aproximou, sentando-se na beirada. – Eu, como bom irmão, vim ajudar. Alguém teve essa ideia agora na festa: você precisa se deitar com outro cara. Resolvemos nos juntar, você pode escolher quem quiser.

– Quantos quiser! – um garoto debochou.

– Isso é ultrajante… – Bianca soçobrou. – Não quero nada disso!

– Não tem o que querer. Não quero continuar sendo alvo de palhaçadas e brincadeiras por ter uma irmã fraca e defeituosa. Você escolhe um e nós trancamos vocês dois. Só abriremos quando ouvirmos os seus gritos e urros de prazer. Só acho que o Júnior não deveria entrar nessa lista.

– Todo mundo sabe? – ela não acreditava.

– Claro! Não cumpriu o combinado. – o ex-namorado deixou no ar. – Cansei de fazer um favor para você em segurar esse segredo vergonhoso.

Bianca deu um salto. Nei voou até ela, imobilizando-a, esmagando-a:

– Eu quero ver você deixar de ser dondoca e puritana. – ele sussurrou em seus ouvidos. – Ser uma freira por vocação é uma coisa, mas carregar uma dificuldade é algo impensável para um Bersani. Aprendi com vovó a forçar quando for preciso, a fazer as coisas acontecerem. E hoje você vai arrebentar esse seu problema, não importa com quem! Pode até ser comigo.

Bianca não conseguia chorar, estava em choque ao sentir o membro de seu irmão duro, recostando-a. Nei ria da situação:

– Não tem escapatória. Daqui você não sai a não ser se realizar o que eu mando. Desse quarto, você não passa. Tem muita gente tomando conta.

– Isso… é… Isso… – Bianca tentava dizer. – Tentativa. De estupro!

– Não, na verdade. Isso é. – Repentinamente ele rasgou a blusa do pijama e puxou o sutiã. Bianca gritou de dor, pois a peça demorou a rasgar. Marcas vermelhas e pulsantes ficaram na sua pele. Estava nua, mas não sentia vergonha. – Até que você é bem bonitinha! – Nei elogiou.

– Passamos do limite. Achei que era uma brincadeira. – um dos garotos disse. – Eu quero ir embora.

– Ninguém sai! – Ele gritou.

– Estão sentindo…? Parece… – Júnior olhou ao redor.

– É o cheiro do prazer, da libertação da minha irmã. Hoje ela se tornará uma Bersani melhor, quase uma Suzana. – No meio dos risos, de repente, Bianca deu duas cuspidas na cara do irmão.

– Com certeza, serei mais valiosa que você, seu imundo.

Um tapa voou até a bochecha dela:

– É fumaça! – alguém gritou.

Nesse momento, todos ficaram em silêncio. Puderem ouvir a movimentação na festa. As pessoas gritavam e clamavam por bombeiros. Os garotos saíram em debandada. A preocupação com as perdas e a confusão latente desviaram a atenção de Nei que saiu junto dos amigos. Bianca permaneceu deitada, totalmente devastada com aquela cena humilhante. Não conseguia conceber como alguém podia ser tão malvado com seu semelhante, com a própria irmã.

Sem que percebesse, o quarto começava a se inundar de fumaça. Uma sombra se formava de longe, aproximando-se da porta. Ela se assustou. Podia ser alguém reminiscente querendo abusar de si. Deveria ter fugido, aproveitado. Estava desnuda e indefesa. Esperando pelo pior, não acreditou quando Suzana parou no batente e comentou:

– Foi por pouco… O que fiz não foi em vão. Vamos embora daqui!

A prima puxou um lençol e a enlaçou com ele. Desceram correndo as escadas, passando pelos fundos. Alguns, dentre eles Nando, tentavam apagar o fogo das cortinas da sala.

Bianca se reteve. Mirou as chamas. Em um segundo, tudo estava se consumando, se esvaindo. Ela havia secado também? Toda a sua essência, depois de tanta pressão e abuso, também teria sido erradicada?

– A fumaça está forte. Vamos! – Suzana a puxou. – Também não quero estar aqui quando a perícia chegar, não conseguiria imaginar uma desculpa para o que fiz.

Bianca fez um semblante de incredulidade:

– Uai, eu tinha de desviar a atenção deles para chegar até você. Eu só encostei a vela de sete dias da tia por dois segundos no forro da cortina.

Deitada no carona, mais uma vez, Bianca apagou. Fugir da realidade e afundar no obscuro estavam se tornando constantes consolos.

DESMORONAÇÃO – Suzana

As mãos pra cima da cabeça, agarradas numa prateleira. O pescoço esticado, deixando a cabeça encurvada para trás. Os olhos fechados, introjetanto Paulo, com seus músculos e a sua pegada intensa. As pernas totalmente abertas, já trêmulas de câimbra. E prazer.

De repente, Suzana escutou um barulho. Alguém estava no escritório. Rapidamente, voltou à realidade. Ela pegou a cabeça de Gui, enterrada no encontro das duas pernas, e a afastou com força:

– Quero mais! Você é deliciosa… – ele tentou retomar o trabalho oral.

– Chega! Acho que não estamos sozinhos. – ela justificou.

– Que nada! Ninguém nunca vem aqui tão tarde.

Ele voltou a afundar dentro dela, enquanto Suzana se concentrava para gozar, pois Gui era um dos poucos caras que lhe davam zero de deleite. Tocando-se, ele atingiu o prazer antes. Ela foi em seguida, imaginando ser Paulo o causador daqueles espasmos. Nunca pôde pensar em Igor quando gozava por meio de outra pessoa.

Doida para chegar em casa, saiu do cubículo ao lado do almoxarifado, localizado na parte mais distante do escritório, desamassando a roupa e ajeitando o cabelo. Quando chegou até sua mesa, ainda conferia o look. Suzana ia se sentar, mas percebeu uma luz acesa. Estremeceu no mesmo tempo em que levantava a vista. A sala iluminada era a de Igor. O que estava fazendo ali?

Ele falava ao telefone, despreocupadamente. Abriu um enorme sorriso e fez sinal para que ela fosse até lá. Suzana não sabia o que fazer. Era incapaz de se mover. Ia retornar, para pedir que Gui se escondesse, porém, fora lenta demais. O amante acabava de adentrar no espaço, sendo percebido por Igor.

Assustadiça, se jogou na cadeira. Igor também disfarçou, colocando-se de costas. Gui se divertiu com a situação. Mandou um beijo caloroso e debochado para Suzana. Não se demorou e foi embora.

Queria sumir, desaparecer, apagar-se. Sentia-se suja. Poucas vezes, foi inundada pelo sentimento de desvalor e imundície pós-coito. Vasculhou a bolsa desesperadamente em busca de uma bala. Apesar de melada, chupou-a assim mesmo.

Bem devagar, a fim de se controlar, foi até a sala de Igor. Bateu e entrou. Recostou-se na parede. Ele permanecia numa conversa, sorrindo. Suzana fez uma “cara branca”, não devia revelar nada. Não prestou atenção em nada do que ele conversava ao telefone. Ficou repassando em que momento perdera as estribeiras e começou a traí-lo. De quem era a culpa? Dela por ser fraca, ou dele por ser tão ausente? Eram tantas viagens e afastamentos. Nunca sabia por onde ele passava. Igor não era um ser acessível, não reportava o que fazia ou aonde ia. Suzana permanecia no escuro.

Antes de ele terminar, ela focalizou uma caixinha preta de veludo na mesa. Era uma joia, certamente:

– Não imaginava que haveria alguém no escritório. Espero não estarmos sugando muito você e o… Gui em algum projeto. – Suzana apenas balançou a cabeça negativamente. – Ok! Estou errado! Sei disso, não nego. Mas, não mereço um beijo? Não vejo você há semanas, depois prometo recompensá-la.

Ele estendeu os braços, bem receptivo. Por um triz, ela quase se decidiu por virar as costas e sair correndo, abandonando-o de vez.

O abraço não a acalmou. Ela o apertou, enterrando a parte interna dos cotovelos na altura das axilas dele, deixando as mãos espalmadas perto dos ombros. Igor encaixou as mãos nos bolsos traseiros dela. Tudo o que não desejava era beijá-lo. Era uma infidelidade além da palavra:

– Não mereço você, não é? Isso um dia vai acabar, vamos ficar juntos como deve ser.

Suzana queria dizer que não dava mais, não tinham futuro, precisavam se libertar. Porém, não conseguia:

– Vamos comer algo? Me espera um pouco? Só preciso fazer mais um telefonema?

– Claro. – E lhe deu um beijo rápido no rosto.

Dando meia volta, sentou-se em uma das cadeiras de frente para a mesa de Igor, que começou a discar os números e se conteve:

– Exatamente… o que você e o Gui estavam fazendo nos fundos da empresa?

Ela segurou a respiração. Ele colocou o telefone no gancho:

– Tomávamos café.

– Você não está com hálito de café.

– Eu só comi.

Um clarão de decepção se acendeu no rosto de Igor. Sentou-se:

– Eu sei o que aconteceu. É surreal. Já notei a forma como você fica depois de ter gozado. Não posso acreditar que você estava transando no escritório!

– O que é deixa você com mais desprezo: a traição em si ou o ato dentro do escritório? – Suzana perguntou calmamente.

– Tudo! Tudo me deixa enojado de você. Pensei que tivéssemos cumplicidade e sinceridade.

– Eu ia dizer que perdemos isso, mas acho que nunca tivemos. – ela debochou.

– Não vai ao menos negar?

– Não. Não é do meu feitio.

– Logo agora… – ele pegou a caixinha de veludo, guardou-a na gaveta. – Ainda bem!

Suzana queria perguntar, mas tinha medo da resposta. Tanto a confirmação de um pedido de compromisso quanto a decepção por não ser isso gerariam um torpor e uma angústia enormes.

Igor ficou encurvado, olhando para os pés. Não chorava, embora estivesse totalmente tristonho:

– Não vai pedir desculpas? – ele sussurrou. – Mereço uma justificativa. Ou não! Você sempre deixou claro o quanto era diferente. Eu não quis enxergar a sua condição. Via uma pureza escondida, não aceitei que você fosse baixa e vulgar a todo custo e a todo momento. Me iludi com uma… mercenária. Quase me entreguei a uma bandida, uma vadia.

Já escutara tanto aquelas palavras. Dessa vez, dilaceraram. No entanto, era orgulhosa. Não ia chorar, não ia pedir desculpas:

– É uma pena você ter descoberto toda a minha verdade suja e eu não saber o que aconteceu a você, com quem esteve nas viagens, se fez…

– Eu não sou um infiel como você! – ele a cortou. – Tenho dignidade e respeito.

– Parabéns pelo exemplo! – debochou. – Agradeço por ter tentado me consertar. – Suzana se levantou. – Desejo a você uma ótima vida!

Saiu da sala, mas retornou:

– Ah, estou fora. Não faço mais estágio aqui. Você pode comunicar minha saída? É só me ligarem e eu venho para assinar o desligamento.

– O que vai fazer? Você não sabe ficar parada! – por um momento, ele se preocupou.

– Estou de boa! – riu. – Virei monitora remunerada na faculdade. Vou me dedicar à pesquisa.

Em poucos minutos perdera um amor e um estágio. Por que temos sempre de perder? O que a incomodava era a falta de informação. Igor nunca saberia da chantagem de Gui, do medo de um novo escândalo de assédio, da saudade que a impeliu a cair nos braços de qualquer um e do sentimento genuíno que possuía. Melhor assim! Ter conhecimento podia ser bem árduo e complicado.

Dirigindo, passando por um caminho mais longo que o normal, desejava não ser inundada por depressão e tristeza. Não queria ser uma típica mulherzinha. Ao contrário, iria passar tardes e noites na faculdade lendo e estudando. Seu luto pelas perdas seria transformado em vitória.

Sentia-se firme e segura. Não tinha medo da vida, da solidão e do recuo. No entanto, não ligou o rádio. Não aguentaria qualquer balada romântica internacional. Teria sido o romper de uma potente barragem emocional.

DESMORONAÇÃO – Camila

Mesmo cansada, ficou de papo por um bom tempo com Leo na calçada em frente ao prédio. Camila prestava assistência ao amigo e chefe, ansiando para que ele se cansasse de desabafar. Ele se questionava sobre as escolhas, as dúvidas e o medo de ficar sozinho. Tinha conhecido um novo cara que mexia muito com ele. Porém, foram tantas desilusões e traições. Que garantia tinha de que a situação não iria se repetir?

No elevador, ela se olhou no espelho. Estava um bagaço de cansaço. Queria banho, comida e cama. Não tinha condições de ler o texto para a aula da Diana. Pensava até em matar para dormir mais. Odiava aquela mulher.

Abriu a porta da frente. Sentiu um clima pesado e estranho. A sala estava escura. Passou direto, mas se assustou com um movimento:

– Pai. Nem te vi.

Camila acendeu a luz antes de dar um beijo no topo da cabeça dele. Pedro não reagiu, era como se fosse uma estátua. Um envelope jazia na mesa, estava aberto.

Ela pensou em abstrair e ir para o quarto, mas não achou correto. Se fora solícita com o chefe, deveria também agir com passividade e apoio perante o pai:

– Aconteceu alguma coisa? – Camila se sentou.

Ele olhava para o nada, perdido:

– Você me desapontou… Uma grande, imensa decepção.

Camila recuou na cadeira, colocou as mãos debaixo do tampo, largou a bolsa no chão:

– Onde está mamãe?

– Não tive coragem de chamá-la, ou de contar pra ela. Quanto desgosto…

Camila fitou a escuridão, repassando o que teria feito de errado. Não se lembrava de nada. Não conseguia associar. Sentiu o sangue acelerar, a respiração se intensificar:

– Acho que a culpa é minha. Fechei a cara, não quis questionar. Se eu tivesse brigado, essa catástrofe teria sido evitada. Antes, me diz quem é ele? Quem é o homem que levou você para o mal caminho?

– O quê? – Os dois se encararam pela primeira vez. Pedro estava desolado, Camila tinha tremores por todo o corpo. O assunto era André.

– É claro que eu percebi, é claro que eu vi as suas fugas à noite. Inúmeras vezes, não dormiu em casa. Sabíamos que você tinha alguém, só não suspeitávamos que haveria problemas. Quem é? O que vocês escondem? – uma lágrima rolou pela face do pai. – Por que deixei você se afastar? Se pudesse, eu batia em você, espancava com força.

Camila deu um salto, pondo-se em pé. Teve medo. A cadeira se revirou, criando um baque forte e surdo. Ficaram em silêncio:

– Minha aposta é que ele é casado. Como pôde ser tão ingênua? Como se deixou levar? Camila, sempre tive orgulho de você, mas por que foi tão ingênua? Que futuro vocês têm juntos?

– Você não sabe o que fala! Temos, sim, um futuro, uma possibilidade.

– Deixa de ser estúpida e boba! Você está se estragando! – ele gritou. – Não enxerga o que tem a perder? Ele deve ser mais velho…

– É, é sim um pouco mais velho. Já tem emprego e uma vida organizada! Não vejo problema.

– Por quê, meu Deus? Por quê? Mais um desgosto pra família, mais um desgosto vindo de mim. – E chorou copiosamente.

Camila queria consolá-lo, mas sentia repulsa. Não compreendia o que havia feito de mal. Pedro se dissolvia em lágrimas. Por vezes, tentou falar algo, balbuciava e não conseguia. A fim de se sentir mais humana com ele, buscou um copo d’água com açúcar. Ela colocou em cima da mesa, rapidamente Pedro deu um tapa. Mesmo quebrando na parede distante, Camila se recurvou para voar do líquido e dos cacos.

Enquanto o pai se acalmava, ela se perguntou como as mudanças podem ser tão repentinas, capazes de nos pegar totalmente desprevenidos. Buscava a felicidade, não imaginava ter carregado tanto desapontamento:

– Sinto muito se tenho de esconder André pelo que ele é. Concordo que não deveria ser assim, mas eu o amo, pai. Estou disposta a tudo.

– Evidente. – ele disse apontando para o envelope.

Afinal, o que era aquilo? O que havia nele? Fotos comprometedoras?

– Não posso me arrepender, pai.

– Ao contrário de mim… Já não bastasse eu ser o mais fracassado dos irmãos, o que tem a condição pior. Sou o único que não tive um filho homem. Quem sabe agora você, além da vergonha, me dá um neto?

– Hã?! O quê?

Camila voou até o envelope e o abriu. Era um resultado de teste de gravidez com o seu nome, atestando positivo:

– Achei isso ontem, não consigo parar de pensar nisso. Vai desmentir? Ou vai dizer que não sabia? Quando pretendia me contar?

– Isso… Eu não fiz.

– Como não? – ele gritou mais uma vez. – Está aí: paciente ‘C. Bersani’.

– Na verdade, é meu! – Os dois ficaram pasmos. Constância apareceu na sala, de pijama. – É ‘C’ de Constância, não de Camila.

Pai e filha não ousavam dizer nada. Que notícia inimaginável era essa?

– Aconteceu. Estou de dez semanas.

– E a eritroblastose? – Pedro perguntou.

– Não sei. Estou me sentindo bem, mas vamos monitorar, além de rezar. – Constância sorriu como se não esperasse uma vitória.

Pedro foi até ela. Beijou e a abraçou com força. A decepção dera lugar à felicidade. O que uma mudança de perspectiva não era capaz?

– Um filho? Nessa idade? Somos muito velhos! É muito… louco. – O casal ria e chorava de emoção.

Sim, muito incompreensível e inesperado. Camila não acreditava estar prestes a ganhar um irmão ou irmã. Sempre quis um para serem companheiros.

De repente, os pais a puxaram. Eles se abraçaram coletivamente. Ela pensou em André. Será que conseguiria sedimentar tamanha afetividade e ligação com ele? Atingiriam uma solidez em conjunto, capaz de derrubar adversidades como as que foram ditas pelo pai? Por um tempo, temeu e se sentiu incerta:

– Nossa conversa está suspensa por enquanto, Camila. Mas, quero conhecer esse André logo. – era uma ordem, branda, mas era um comando.

– Pois eu acho que precisa, pai. André nunca me colocaria em risco, ele é um cavalheiro. É professor universitário. Antes de tudo é uma gentileza em pessoa.

– Podemos guardar segredo sobre minha gravidez? Não quero muito alarde. – Constância pediu.

Apesar do cansaço, saíram para comer algo fora e comemorarem. Camila estava feliz pela nova oportunidade aos pais. Sorria vendo os abraços, o carinho de Pedro na barriga de Constância, os planos para o novo Bersani. Era um recomeço. No entanto, rezava para que nada derrubasse esse sonho. Nunca alcançar algo não se compara à dor de ter tido e perdido.

DESMORONAÇÃO – Eulálio

Estava tão cansado e abatido. Os dias estavam ensandecidos de rápidos e esgotadores. Apenas torcia pelo fim de semana, quando podia dormir até mais tarde. Não saía de casa, pois estava esgotado com tanta correria. Além disso, Eulálio precisava adiantar leituras e estudos para as provas, uma vez que durante a semana não encontrava tempo.

Sozinho, num recôncavo das empresas Bersani, estava quase terminando de organizar uma parte do arquivo morto. Os olhos estavam bem avermelhados pela coceira e poeira. Os espirros eram incontáveis, já que o cheiro era pavoroso de pesado e fungoso.

O único lado positivo do trabalho silencioso, recluso e paciente envolvia o pensar na vida. Mais de dois anos como estagiário, começava a gerar dúvidas se ainda teria o que aprender e crescer. Começava a se questionar se não deveria buscar algo novo, diversificar.

Deixara de lado a investigação pela verdade com relação à sua família. Não tinha como gastar suor e disposição procurando pessoas. Realmente, mente vazia se torna casa do diabo. Sem a moto para facilitar e os afazeres se intensificando, Eulálio não podia se permitir dispersar.

Desconcentrado era a palavra certa a resumir sua atitude. Ela entrou calmamente, leve e imperceptível. Cruzou os braços e o observou por muito tempo. Passara tantas semanas sozinho, nunca imaginaria que qualquer pessoa iria conferir o andamento daquela organização chata e melancólica.

Quando olhou para o lado e viu quem era, em meio segundo, perdeu os próprios sentidos. De repente, não experimentava as pernas, os braços, o corpo. Ficou pálido. A pasta escorregou do colo, esparramando folhas pela sala. No entanto, eles não deixaram de se olhar.

Eulálio ficou mudo, enquanto ela se aproximava sorrateiramente. Comparou-a com o deslizar de uma cobra, ainda mais por causa da indumentária preta, clássica e rente:

– Achou realmente que eu não descobriria, meu espúrio? Nunca vou gostar de você, mas é o meu neto mais intrépido.

Engoliu em seco. Não se atrevia a falar ou a se mexer. Lina foi até um canto, arrastou uma cadeira. O som lembrou-lhe algum tipo de tortura. Ela a pôs de frente, assoprou para espalhar a poeira e se sentou. Cruzou as pernas e fez um bico de puro desdém:

– Meu neto adulterino fingindo que pode conseguir uma vaga na minha empresa! É inacreditável! Por quanto tempo, você está aqui? Rosa não quis me dizer ao certo.

Eulálio sabia que era o momento de brigar, revidar, questionar. Tinha que partir para o ataque. Contudo, não conseguia. Era surreal. Nesse tempo todo, esperava por humilhação e escândalo quando a avó descobrisse. Nunca pôde supor um confronto íntimo e calculista:

– Não se preocupe com a Rosa, aquela ingrata. Ainda não me decidi se a despeço, já que, com aquela idade avançada, terá problemas em encontrar outro trabalho, muito menos um que pague o que nós a ofertamos. Ou talvez eu a traga para ser minha segunda secretária. Aí sim terá o castigo diário que merece por encobrir você.

O tom de voz era insensivelmente frio e agressivo. A vontade de chorar era grande. Sentia o olho se inundar:

– Quando me contaram, não acreditei. “Meu próprio neto trabalhando como estagiário?”, não podia ser. Deve ser alguém muito parecido. Até que não aguentei tantas denúncias, afirmando com tanta convicção, tive de confirmar. Quase caí para trás. Vou fazer uma confissão. – ela se aproximou, fingindo uma afeição por ele. – Tive uma pontada no coração, achei que teria um derrame de desgosto. Você quase me levou ao hospital. Sente-se poderoso com essa revelação? Só que eu sou bem mais forte que você. Sou bem mais vivida e inteligente. Você acha que precisávamos de uma arrumação aqui? É claro que não! Antes de dispensá-lo, quis que penasse, isolei você para que se sentisse inútil. Eu o rebaixei. Aqui é o seu lugar, no escuro, na poeira, na imundície. Onde mais um bastardo deve ficar?

Eulálio deu um salto da cadeira e deu às costas em pé. Recostou a testa numa das prateleiras. Chorou silenciosamente. Não conseguia segurar:

– Quantas vezes preciso afirmar que odeio você? Que tenho lástima por você? Que preferia vê-lo morto ou não concebido? Será que preciso tatuar no meu corpo ou na minha cara: ‘Eu odeio Eulálio’? Desprezo você, não me importo contigo. Tenho raiva profunda. Você não existe no meu mundo. Mesmo assim, continua se aproximando, desejando ser aceito, rastejando. Me diga! Por que tenta afastar um estigma que sempre vai carregar?

A cabeça doía, as pernas tremiam. Ele se agarrou à prateleira. Lina pôs se de pé. Foi até o ouvido e sussurrou:

– Quanto você quer para sumir da minha vida? O que preciso dar para que você deixe de ser um Bersani?

Sem entender, Eulálio virou-se para olhá-la. Queria perguntar, mas estava mais que embargado. A voz estava perdida, impedida de romper pela garganta, ao contrário das lágrimas que escorriam livremente:

– Espúrio, você teria coragem de assinar um documento tirando o meu sobrenome? Quanto você quer para deixar de assinar Bersani? Você sabe que posso te dar um carro, sei que sua moto foi roubada. Tenho condições de comprar uma casa para a vagabunda que chama de mãe. Peça algo e eu dou. Só peço que assine Eulálio José e qualquer coisa. Largue de uma vez algo que nunca vai pertencer a ti.

Nesse momento, Rosa adentrou no lugar. Ela estava descabelada, esbaforida e com os olhos esbugalhados:

– Você poderia nos dar licença? É uma conversa de vó e neto, totalmente particular. Você sabe que não deveria se intrometer. Nunca! – Mesmo sem algo concreto, havia muita ameaça naquelas palavras.

– Posso explicar, a culpa é…

– Cala a boca! Resolvo o seu caso mais tarde. Só quero que você supervisione o desligamento de Eulálio. Ele larga essa palhaçada de estágio agora. Saia!

Rosa lançou um olhar rápido de apoio a Eulálio. Retirou-se, sabendo estar próxima a sua retaliação:

– Diga, Eulálio. O que você tanto quer? Não quero que se defenda. Essa sua ousadia é irretratável. Só espero satisfazer seu desejo para que satisfaça o meu.

Ele não conseguia pensar, não tinha condições de raciocinar:

– Eu… – respirou. – Não devo… – Abaixou a cabeça e chorou. – Vou me afastar.

Sentindo que estava deslizando, Eulálio se dirigiu para fora da sala:

– Não pense que acabamos. Ainda tenho muito que compatibilizar pela enganação. – Lina proferiu.

Eulálio sabia que sim. Esperava por isso. No entanto, não tinha certeza se aguentaria ou se tentaria amortecer o ataque. Cansou. Talvez deixar de ser um Bersani fosse uma dádiva, o aliviar de um difícil fardo. Apesar de doída, a oferta de sua avó poderia ser uma salvação ou o início da liberdade. De que adianta passar pelos mesmos erros ou problemas? Progresso e desprendimento seriam possíveis soluções para um novo começo.

ADAPTAÇÃO – Suzana

Suzana entrou como bala na sala de aula. Não viu o tempo passar enquanto estava com os primos, durante o almoço no Restaurante Universitário. O professor já passava teoria no quadro, ela se assustou com a disposição do docente. Grande parte da turma nem sonhava em começar a copiar. Também ficou intrigada com os diversos olhares em cima de si. Por um tempo, suspeitou se a roupa estava ousada demais.

Na carteira, tentou se concentrar, apesar de alguns ainda estarem encarando-a. Já não bastava toda a atenção no estágio, que parecia aumentar cada vez mais? Suzana fez uma vistoria ao redor. Para quem perguntaria o que estava acontecendo?

Ser solitária tinha suas vantagens. Era libertador, você não desapontaria seus companheiros, conseguia focar naquilo que gosta e não se gasta tempo com fofocas, aparências e cortesias. Passar pela faculdade sem tantos laços não a incomodava. O futebol aos finais de semana já bastava.

No entanto, naquele momento, a garota se questionou se poderia viver sem a referência dos outros. A vida em comunidade ansiava pela alteridade. Lembrou-se de um enunciado dos tempos de teatrinho da escola. Adorava a frase de Shakespeare: “Sabemos o que somos, não o que podemos ser.” Será que no fundo nos conhecemos realmente? Talvez nunca precisássemos de terapia se nos olhássemos por nós próprios, sem esperar pelo retorno ou averiguação alheia.

Rapidamente, varreu o sentimento de solidão que brotava. Estava bem daquela forma. Não esperava mudança alguma. Engenheira e pragmática que era, precisava da vida sólida e certeira. Porém, apesar das regras, o universo carrega o caos e a desordem. Muitas das vezes, eles são incontidos e até mesmo necessários.

Durante a aula, Suzana fez todas as tarefas, compreendeu a matéria, mas não interagiu. Não quis se mostrar, nem dividir conhecimento. Antes do fim, um colega sentou-se na cadeira vazia mais próxima:

– Suzana, você é tão calma. Vai até esperar o fim dessa aula.

Ela o encarou. Que constatação era aquela?

– Eu estaria bem nervoso. – continuou. – Tem uns três da turma que nem vieram na aula pra se prepararem.

Suzana fez cara de dúvida, como se ele fosse um lunático. Ou ela fosse uma tapada. Não compreendia o propósito daquela conversa:

– Jonas, eu não sei do que você está falando.

– Você é Bersani, não é? – ela confirmou com a cabeça. – Então, é você mesma! Tanta gente ficou desconfiado com o seu interesse repentino. Se vai ser bom pra você…

De repente, tudo fazia sentido. Os olhares, o clima tenso… Algo estava acontecendo. Como não transparecer que não sabia do que se tratava?

– É… Eu não esperava mesmo, porque…

– Que isso?! Você é boa demais. É claro que você vai ser uma das primeiras colocadas na seleção de monitoria do professor Mattoso. Até acho que você vai ganhar bolsa.

Suzana abriu um sorriso enorme. Porém, estava entorpecida. Desde quando ela tentava ser monitora? E pra ganhar bolsa? Com uma calma impressionante, arrumou o material e saiu da sala antes do término, sem pegar a segunda frequência.

Voou pelos corredores. Sabia aonde deveria ir: quadro de avisos. Entupido de todos os tipos de papeis, recados e promoções, demorou a encontrar, no canto direito, mais para baixo. Era o resultado da primeira fase, análise de currículo e de histórico escolar. Suzana estava em terceiro lugar, entre nove candidatos, buscando quatro vagas, apenas duas com bolsa.

Em breves segundos, xingou. Como assim? Ela não tinha se inscrito em nada. Nunca comentara ter qualquer desejo em se tornar monitora. Será que era uma pegadinha ou um tipo de brincadeira? Voltou à leitura do aviso. A segunda fase, relativa à prova, era naquele dia, mas já tinha começado há mais de 20 minutos.

Na dúvida se participaria ou não, decidiu tirar satisfações com professor Mattoso. Quem a havia colocado naquela situação esdrúxula?

Assim que pisou na sala, mais uma vez, tudo ficou em suspenso, com olhares voltados a ela. Calmamente, foi até a mesa do professor:

– Pensei que não viesse. – ele disse, estendendo uma folha com questões e outra de papel almaço. – Não poderei estender o tempo pelo seu atraso. Você tem quase uma hora e meia.

– Quem disse que eu vim fazer? – Suzana foi ríspida. – Só quero saber por que estou inscrita numa seleção que não desejo participar.

– Como irei saber? Eu só recebi os documentos, ponderei e pontuei, e fiz as classificações.

Os dois se olharam. Ela sentia a mentira, ou melhor, a fala cínica. Antes que pudesse atacar, ele fez sua cartada:

– Sempre constatei que os melhores alunos de engenharia são, antes de tudo, ousados. Não temem o desafio. Tornam-se profissionais que pegam e resolvem, sempre contornando prazos e problemas. Talvez eu tenha me enganado com você.

Suzana ficou rubra. Que provocação! Quando ele desceu a mão com os papeis estendidos, ela rapidamente os tomou:

– Não tenho nada pra fazer agora. Vou me distrair.

Quebrou a cara literalmente. A lista era pesadíssima, cheia de exercícios complicados e pegadinhas. Tudo era um suplício de tão difícil. Aos poucos, os alunos iam saindo, fazendo-a se sentir uma burra.

Após o prazo final, a sala estava vazia. Mattoso foi até Suzana, sentou-se em cima do tampo da mesa à frente:

– Não posso ficar mais, terei de recolher.

– Faltam quatro. Só mais um pouco!

– Quatro? – ele se assustou. – Você resolveu o resto? – Suzana ficou sem entender a pergunta. – O que deixou menos sem fazer, entregou faltando dez. Você foi muito bem.

Fora a vez de ela se surpreender. Mattoso pegou as folhas e a deixou atordoada:

– Quando sai o resultado?

– Em cinco dias, na semana que vem.

Suzana estava tão esgotada, com a mão e o pescoço doendo. Não se importava de ficar sozinha por alguns minutos. Mattoso demorou a se organizar e sair:

– Posso ser a primeira a ser entrevistada? Na terceira fase, na semana que vem? – Suzana disse olhando para o quadro.

O professor parou no batente da porta. Virou o pescoço e deu um leve sorriso:

– Só se você trouxer seu currículo e histórico. Preciso corrigir uma falha no meu processo seletivo. Não posso transparecer impessoalidade ou preferências. – e saiu.

Suzana respirou fundo. De onde tiraria os requisitos para ser uma boa monitora? Do que mais ela seria capaz sem nunca desconfiar de ter outros potenciais?

ADAPTAÇÃO – Bianca

Assim que chegaram ao Restaurante Universitário, eles se dividiram. Eulálio ficou conversando com um colega de curso, Camila tinha se dirigido ao banheiro, Suzana entrou na fila pra comprar os tickets, e Bianca foi deixar o material de mão no guarda-volumes.

Durante o trajeto, ela só escutou reclamações. O primo tinha sido deslocado para um trabalho penoso de arquivamento e eliminação de documentos. Ficava enfurnado numa sala mofada e fechada, relendo inúmeros materiais. Por incompetência, o volume de arquivos havia triplicado sem que houvesse qualquer ação de gestão.

Suzana não se sentia mais desafiada. Atuava no automático, totalmente estagnada. Passou a estagiar por três dias na semana, a fim de fazer matérias eletivas e obrigatórias. Transparecia que gostaria de sair da firma, no entanto, o ócio seria bem pior que o trabalho sem valor.

Já Camila comentava sobre o excesso de tarefas, leituras e atividades que o novo ciclo de Antropologia requisitava. Como era difícil ser caloura de novo. Para piorar, com vários novos clientes, não conseguia adiantar os afazeres no consultório. Queria muito pedir uma folga a Leo, mas não consegui pensar em deixá-lo na mão. O namoro com André também contribuía para esse turbilhão acadêmico.

Bianca, por outro lado, não tinha do que reclamar. Amava o que fazia, adorava o ambiente, tinha respeito pelos advogados da equipe, não podia conceber abandonar a firma. Porém, sempre há desvios que não estão na nossa alçada. Não depende de nós fugir ou evitá-los.

Prestes a ser atendida, uma mão pousou em seus ombros e amparou o excesso de material que carregava. Por ínfimo instante, curtiu a cortesia. Ao descobrir que era Júnior, empalidecera:

– O que você está fazendo aqui? – ele sorria como se não soubesse o teor de ameaça e medo que fazia atravessar o corpo dela.

– Vim encontrar minha namorada pra almoçarmos. Que bom que te encontrei. Posso matar o tempo. Quanto livro! Você é mesmo muito aplicada. Vai longe! – debochou.

Bianca olhou pra frente. Não gostaria que Junior se encontrasse com os primos:

– Vocês vão almoçar no RU?

– Tenho uma carteirinha falsa. – mostrou, com ares conspiradores. – Quando você vai voltar a minha casa? Dessa vez, Nando não estará lá, eu garanto. Você deu sorte.

– Se você está namorando, por que me deseja tanto? Passo a achar que você me ama e não sabe.

Junior deu uma risada sarcástica. Foi a vez de Bianca ser atendida no balcão. Ela contava com a saída dele. Não podia se ausentar dos primos por tanto tempo sem levantar suspeitas:

– Que curso sua namorada faz?

– Você ainda pergunta? Claro que é medicina. Então, você pode escolher entre hoje ou amanhã. É só aparecer. Estou doido pra testar você.

O dia estava ameno, o vento agradável. Inúmeras pessoas circulavam felizes e dispostas. Bianca queria ser uma delas, não desejava mais sofrimentos. Por uns segundos, o semblante zombeteiro de Junior a deixou proativa e determinada. Um basta necessitava irromper. Como voltar a crescer se continuava subjugada?

– Eu não vou! Prefiro virar freia a me deitar com você de novo. Faz o que você quiser. Publica no jornal, conta pra todos. Não me importo mais. Pra mim, você é totalmente desprezível.

E saiu anestesiada. Estava envolta numa névoa de indeterminação. Com aquele confronto, tinha certeza de que o retorno seria impactante. A resposta de Junior tenderia a ser catastrófica.

Quando retornou aos primos, eles conversavam sobre um assunto que não conseguiu romper a dispersão de Bianca. Sentia-se blindada. Sabia que uma revolução estava por vir, de maneira mais prodigiosa.

Não tinha medo, pois entendia que era pra bem. Às vezes o fogo destrói, poda, derruba. Porém, dá oportunidade para o novo se sobrepor e ressaltar. Uma virada, uma sacudida e uma remexida poderiam ser melhores que a inércia do terror:

– Você está quente demais! – Camila comentou quando os braços se encostaram na hora de arrumar os pratos. – Está tudo bem?

Bianca só balançou a cabeça. Na mesa, nem se lembrava do que colocou. Eulálio tinha um típico “prato de pedreiro”, com uma montanha de todas as opções do RU. Suzana priorizou mais a salada. Camila trazia uma arrumação mais balanceada:

– Eu não poderia supor o quanto a vida pode se transformar tão rápido. Há um ano, nunca poderia imaginar que eu estivesse trabalhando, cursando Antropologia e namorando. Nem eu acreditava em tanta potencialidade. – disse de maneira melancólica, mas estava satisfeita.

– Tenho mais de dois anos de experiência como estagiário da nossa futura empresa. – Eulálio debochou. – Não fui descoberto até hoje. Ah, também namorei, perdi minha moto.

– Eu não vou dizer que tenho ou estou tendo um relacionamento. – Suzana refletiu. – Só posso destacar que existe um homem em minha vida, pelo menos com mais constância, porque ele viaja tanto e não nos vemos com a frequência necessária. Troquei de estágio…

Os três fitaram Bianca. Esperavam um balanço. Apesar de ter escutado e entendido a insinuação, teve medo de falar. Tanto tempo segurando, sempre se fechando, parece que seu segredo havia estagnado. Não conseguia colocar pra fora as dúvidas sexuais, o medo de não ser capaz de ter prazer. Confortavelmente, o pavor havia se instalado a meio caminho: não descia e se assentava, nem explodia e se revelava:

– Somos tão novos… – disse, brincando com o garfo pelos alimentos. – Tudo isso pode ruir a qualquer momento. Ainda não dá pra controlarmos. Nem sei se é possível. Nós nos consideramos tão importantes e grandiosos, mas fazemos parte de um universo bem maior.

– Nos esquecemos disso. – Camila contribuiu.

– Quando menos esperamos, uma onda de devastação pode surgir sem qualquer chance de preparativo. – Bianca profetizou.

Os três pararam de comer. Lio deixou o garfo no ar. Suzana, de repente, não tinha mais fome:

– Não sabemos o que nos espera depois da faculdade, após a formatura. – Camila largou os talheres e olhou ao redor. – Achamos que é de um jeito e acabamos nos surpreendendo. Somos todos despreparados.

– Não concordo com vocês. Tem muita coisa imprevisível, mas com o tempo nos tornamos mais fortes, eu acho. – Suzana rebateu.

– Esse papo está muito cabeça para um almoço descontraído. – Eulálio cortou.

– Estou sem fome. – Bianca reclamou.

– Então, deixa comigo. – Lio enfiou o garfo e roubou o bife, além do potinho de gelatina.

Era costume do primo agir assim, fazendo a limpa nos pratos alheios. Porém, se sentiu magoada. Não queria mais interferências das pessoas. Como se tratava de seu caminho, deveria tralhar consigo mesma. Por isso, precisava demarcar bem seu espaço e a si mesma. Uma proteção partindo de dentro configurou-se em seus olhos. Mais um desafio, mais uma luta. Até quando? Em que momento estamos satisfeitos plenamente?

ADAPTAÇÃO – Eulálio

Sentiu ciúmes sim. Era normal e natural. A aproximação configurava-se como sutil, mas já era perceptível. As meninas da turma não ignoravam mais Bianca. Encostavam na prima, riam entre si. A intimidade começava a fluir. Enfim, ela havia se incluído:

– Sabia que fui chamada por três equipes diferentes para atuar no escritório de prática jurídica? – estava totalmente satisfeita.

– Quem te viu, quem te vê… – ele deixou no ar.

– Você está com inveja, Lio? Achei que você quisesse meu bem. – Bianca parou de arrumar o material.

– Claro que quero. Só estou surpreso.

Eles se levantaram no mesmo momento. Eulálio sentiu-se culpado por se sentir assim. Mesmo um estrangeiro no Direito, por várias vezes, era mais entrosado que a prima. Culpou a onda de azar na qual estava inserido desde que a moto fora roubada. Tudo tinha desandado.

Não conseguia se acostumar com o acordar mais cedo para enfrentar duas conduções até a faculdade. Passou a pegar o ônibus coletivo das empresas Bersani’s. Isso era um terror, pois se expunha mais. Quem fosse mais atento poderia descobrir que era um herdeiro. Com a correria e o estresse, o cansaço havia duplicado com a falta do veículo próprio. Se tivesse condições, compraria outra imediatamente:

– Sem resposta da polícia? – ela parecia ter escutado seus pensamentos.

– Desisti. Essa moto está perdida. Minha vida está perdida.

– Hum… As meninas não estão por aqui conforme combinamos. Vou ligar pra Suzana.

Eulálio se afastou da prima. Não gostava da situação atual. Logo agora que teria de fazer uma matéria obrigatória à tarde, não tinha como chegar no estágio por conta própria. Teve de pedir liberação de um dia. Pelo empenho, obteve, mas se sentia mal em receber um privilégio.

Sempre se irritava com as vantagens que os primos tinham. Havia se cansado de proteções e regalias gratuitas. Era contra isso, apesar de concordar com a meritocracia. No fundo, ele só queria ser igual, ansiava por fazer parte sem qualquer discriminação.

Naquele momento, se assustou. Ao longe, com os cabelos loiros voando, toda animada e descontraída, reconhecia-a: Catarina. Desde a festa do aniversário da empresa, não a tinha visto. Foi se afastando delicadamente da prima. A ideia era entrar na rota de colisão. Repentinamente se encontrava feliz novamente. Há tempos queira um reencontro. No entanto, não era ela.

A ‘falsa’ Catarina percebeu o olhar intenso. Ela retribuiu com um meio sorriso. Era muito igual de longe, totalmente parecidas. Eulálio pensou: se não teria a original, poderia se contentar com a similar:

– Elas estão a caminho. Vamos subir a pé para o Restaurante Universitário.

– Aquele grupinho que passou é do Direito? – Eulálio iniciou as investigações.

– Não sei. Acho que é sim.

Caso estivesse sozinho, teria se aproveitado e se aproximado:

– Sabe quem está me dando mole? – ele perguntou.

– Quem dessa vez?

– A Fatinha. Estou notando um interesse. Só que ela é tão amiga da Hélida. – explicou.

– A Hélida não tem direito algum sobre você. Ela namora.

– Não gosto de magoar.

– Lio, você consegue perceber se uma mulher finge, ou não está gostando do sexo?

Por um momento, ele parou de andar. Que pergunta era aquela? Desde quando a prima estava tão imersa em questões sexuais?

– Por que você está perguntando isso pra mim? Pergunta pra Suzana! Ela tem muito mais bagagem que nós.

– Ah, eu quero opinião masculina. Até que ponto um cara percebe que a mulher não está de corpo e alma no ato?

Eulálio não tinha tido tantas parceiras assim. Monique fora a última. Ela estava mais tranquila e aberta a experimentações. Com certeza, curtiram juntos. Talvez com Sheila, nunca fosse saber o quanto era fingimento:

– É uma percepção que não tem muita explicação. Pode ser clichê, mas o sexo é ato de comunhão, de ligação. Dá pra identificar sem compreender as razões.

Os dois ficaram pensativos. A vida é feita de máscaras. Existe sempre a necessidade de se encaixar às diversas situações. Com o sexo, não seria diferente. Às vezes, torna-se necessário simular, arriscar, esconder, se proteger. Não havia láurea ou classificações, mas os relacionamentos eram, sim, jogos. A felicidade seria o maior prêmio? O se sentir bem sem machucar o próximo representaria o ‘com louvor’ acadêmico de uma história de amor?

– Um namoro… Às vezes, parece uma grande competição.

– Sempre perdi. – Bianca disse baixinho, embora Eulálio tenha escutado.

– Se não nos preocupássemos apenas com nós mesmos, com nossos prazeres e com o medo de se mostrar, acho que seríamos mais libertos. – Eulálio filosofou de novo. – A gente sempre espera o que o outro vai dar, sem notar que também devemos oferecer… É mútuo.

– Cobra-se muito num relacionamento.

– Pior é quando cobramos de nós. Ficamos apertados sem curtir.

Suzana e Camila pararam no corredor, esperando o encontro:

– Que cara é essa? – Lio perguntou a Camila.

– André disse que me ama.

– Do nada? – Bianca perguntou e olhou para o primo. – Realmente existe muita convenção entre um casal.

– Tudo é tão simples, ou pelo menos deveria de ser. – ele respondeu.

– Um homem comentando sobre sentimentos. É algo inédito. – Suzana debochou. – O ser humano tem tudo menos a simplicidade. – completou. – Pra mim, foi essa efervescência que nos fez chegar onde estamos, nos evoluiu.

– O que eu faço? Como expressar que o amo sem parecer que fui forçada por que ele falou? – Camila soltou.

– Não faz nada. Ele ama você pela maneira que tem agido. Só mantém. – Ele estava inspirado.

– É…

Os quatro mudaram de rumo em direção ao Restaurante Universitário. Também trocaram de assunto. As convenções vieram com a pluralidade. Tantas situações pediam comportamentos menos simples. Com várias personalidades, o ser humano se desconheceu.

ADAPTAÇÃO – Camila

– Camila, o seu trabalho foi o primeiro que corrigi. É claro que te dei nota máxima. Você é muito boa.

Pela milésima vez, a sala inteira olhava para a garota que sorria disfarçando, com timidez, o ódio mortal experimentado. Aquilo era uma constante durante a aula de Diana. Nessas duas primeiras semanas, todas as vezes, a professora dava um jeito de elogiá-la: comentava sobre as roupas, pedia comentários e ficava muito satisfeita, colocava-se em discussão para sempre ressaltar o quanto era inteligente.

Para a adaptação na nova turma, aquele destaque era péssimo. Camila estava mais isolada. A inveja criada por Diana só não afastou Victor. Todas as atividades em dupla e em grupo eram desempenhadas com ele:

– Já escutou o que falam da Diana em relação a você? – perguntou na inocência. Camila, por um triz, pediu pra não saber. – Dizem que ela é lésbica e está afim de você.

Isso de novo? Mais uma vez, era o epicentro da fofoca envolvendo um professor. Dessa vez, o assunto era bem mais tórrido por ser homossexual:

– É lógico que isso não procede. Para que ela ia se expor assim, na frente de todos? Se Diana me quisesse, teria me procurado fora da sala. Nosso contato se resume às aulas. Além do mais, esqueceu que ela está em estágio probatório. É muito ruim pra reputação.

Fingindo revisar a recente escrita, ela pensou em André. O estágio probatório não evitou o namoro dos dois. A atração foi bem mais forte. No entanto, ainda estavam em segredo perante a faculdade:

– A turma vai ao cinema hoje. Vamos? – Victor mantinha a esperança de que, um dia, ela aceitasse.

– Vou trabalhar até tarde de novo. Não posso.

Até o fim da aula, Camila divagou sobre a professora. O que ela ganhava com isso? Ela não deveria, pelo contrário, tentar denegri-la, fazê-la se sentir mais burra e menos capacitada? Se realmente queria André, essa tática era bem fajuta:

– Claro que não é. – opinou Suzana. – Ela é bem mais esperta do que eu imaginava. Tenho que tirar o chapéu. Ela é uma gênia.

– Você escutou o que acabei de dizer? Não tem sentido ela me levantar e me colocar no topo, se quer me destruir pra acabar comigo.

– Espera aí. – Suzana a segurou pelo braço, cortando a caminhada. Elas tinham acabado de sair dos corredores da Faculdade de Ciências Sociais. – Você tem certeza de que ela sabe que você e o André estão juntos?

– Suzana, é claro que sei. Eu sou mulher, a gente sente essas coisas. Diana é uma cobra ou uma loba em pele de cordeiro. Tenho certeza de que ela está tramando. O olhar dela entrega.

– Então, é mais ardilosa do que eu pensava. Ela não quer destruir você. Simplesmente está tramando para que você se destrua. Ela se insinua com o André?

– Morro de ciúmes vendo os dois conversarem. É tão íntimo.

– Diana está agindo em duas frentes.

– Fala baixo. – ralhou Camila. – Pode ter conhecido.

– Que se dane! É bom que ela saiba que matei a charada. Pois bem, num primeiro momento, ela está, na verdade, diminuindo suas certezas em relação ao André. Ela quer te fazer acreditar que ele estaria melhor com ela, que eles se merecem, que o namoro de vocês é fadado ao fracasso. Essa atitude é bem sutil. Por outro lado, ela te valoriza onde? Na sala de aula! Assim, ela ajuda você a criar admiradores e possíveis ficantes que vão atentar.

– Claro… Para que, naturalmente, eu acabe traindo o André por minha causa mesmo. Você tem muita razão, prima. Ela é muito esperta. Ela age para que eu cause o término.

– Não te falei?

As duas voltaram a caminhar. A mente de Camila fervilhava. Era um jogo. Por enquanto, estava perdendo, ou melhor, deixara a adversária avançar e dominar. Era a hora de contra-atacar:

– Você se importa se eu voltar à faculdade?

– O que você vai fazer?

– Revidar.

– Eu quero ir junto. Vou dar uma olhada nessa biscate.

A situação tinha mudado. Podia perder muito se deixasse a vida levá-la, se não fizesse nada. Pisando fundo, quase correndo, não se importava se Suzana a acompanhava ou não.

Passaram primeiro no gabinete próprio de André, estava fechado. Na secretaria, não o tinham visto. Se dirigiram ao estacionamento:

– Ele tem uma reunião à tarde. Deve ter ido almoçar bem rápido. Com ela! – Camila constatou.

– Liga pra ele. – Suzana sugeriu. – Opa! Bianca está chamando. Vou atendê-la.

Suzana virou as costas para a prima. Camila hesitou. O sangue estava mais calmo. Não queria transparecer desespero para André. Há poucos dias, ele questionou que ela estava mais quieta, irritada e ciumenta. Agora tudo parecia culpa da influência de Diana. Naquele momento, o telefone tocou. Era André:

– Ei.

– Camila, eu nem confirmei se você ia realmente almoçar com seus primos no Restaurante Universitário. Vocês estão juntos?

– Sim. Suzana está comigo já. Vamos encontrar com Bianca e Eulálio daqui a pouco. Por que você quer saber isso?

– Acabei de chegar ao shopping sozinho. Se você não tivesse companhia, ia voltar pra te pegar.

– Que lindo! – ela transpareceu mais melancólica que amorosa.

– Você está bem? – quis saber. – A aula foi boa? Está cansada?

– Não. Nada aconteceu. Obrigado pela lembrança, mas preciso conversar com os primos. Posso passar na sua casa depois do trabalho?

– Eu tenho que organizar minhas aulas.

– Eu não vou atrapalhar, tenho que ler um caminhão de xerox. – Camila justificou.

– Tudo bem, espero você.

– Obrigada. Tchauzinho.

– Até mais, amo você.

Camila ficou muda. Era a primeira vez que ele se declarava. A ligação ficou em suspenso. Nenhum dos dois sabia o que dizer.

Queria dizer que o amava também. Contudo, não desejava parecer que tinha sido apenas como uma resposta:

– André, eu… tenho de desligar. As meninas…

– É, eu sei. Vá lá. – e desligou.

– O que foi? – Suzana estava tensa. – Você está branca! Eles estão juntos? Quer que eu te leve até eles de carro?

– Não. André disse que me ama, de maneira natural. Ele está sozinho.

– Vamos. Acho que nos preocupamos demais. – Suzana abraçou-a pelo ombro. –Tudo está garantido.

Estaria mesmo? A vida era tão imprevisível. Por mais que nos preparemos, ela dá um jeito de abalar e assustar.