FORMAÇÃO – Eulálio

– José, a hora de provar o quanto você é bom chegou. A organização da próxima corrida de rua das empresas ‘Bersani’ está por sua conta a partir de agora. Todos os detalhes, você resolve.

Eulálio ficou parado. Aquilo era mais do que ele pedira. Esboçou um sorriso. Olhou para o lado. A incredulidade perpassava apenas o rosto dele. Os colegas de trabalho, por outro lado, sorriam e concordavam. Seria mais uma oportunidade de ele brilhar. Porém, ele não via desse jeito. A chance de ouro era, na verdade, o fim de uma longa farsa, iniciada há mais de um ano.

Um dos estágios mais requisitados pelos estudantes de Administração era o das empresas ‘Bersani’. Mesmo sendo um herdeiro, Eulálio sabia que nunca teria uma chance. Nem na seleção, ele passaria. A avó Lina faria com que ele ficasse em último lugar.

Apesar do insucesso certeiro, ele se inscreveu com o segundo nome, José, e o sobrenome da mãe, Ferreira. Por ironia do destino, foi o primeiro colocado. Eulálio era muito estudioso e conhecia a trajetória comercial da família. Era muito fácil ressaltar nas provas orais e escrita os ideais e objetivos dos fundadores antecessores dele.

A fim de experimentar todo o gostinho daquela vitória amarga, Eulálio participou da visita às dependências das fábricas, teve reuniões prévias, pegou a roupa de uso obrigatório e tirou a foto para o crachá. Sustentou a ilusão até o momento da entrega dos documentos no RH:

– Como assim?! Você é um dos netos dos Bersani’s. E vai ser um estagiário? – indagou Dona Rosa, chefe do departamento.

– Não. Não vou ser nada. Passei na seleção, mas serei dispensado assim que minha avó souber que faço parte. Ela me detesta, sou um bastardo, um apátrida pra ela. Meu sobrenome, que deveria ser um trunfo, será minha condenação.

Eulálio não contava que Dona Rosa odiava Lina com todas as forças. Foram tantas judiações, mau tratos e desprezo. Como forma de ludibriar o poder da chefe, a diretora do RH teve a ideia de fichá-lo em segredo. Só ela teria acesso à documentação de Eulálio. Ninguém saberia quem ele realmente era. No enorme mundo das fábricas Bersani, um dos herdeiros seria apenas um estagiário de nome simplório, José.

Não foi fácil manter a farsa. Ele sempre entrava no estágio no meio da hora do almoço, por volta de meio-dia e meia, quando a avó Lina já tinha saído da sua cotidiana visita matinal. Ele deixava o local de estágio sempre pontualmente às 17h, temendo que a avó não se adiantasse na inspeção de fim de expediente. Algumas vezes quase se esbarraram. O mesmo ocorreu com os primos e tios. Por muito pouco, não foi descoberto. No entanto, demoraria até Eulálio perceber que no quesito laboral, a sorte balançava para o lado dele.

Agora que estava prestes a chegar o fim do complô, ele se ressentia. Queria aproveitar mais. Não estava preparado para abandonar o estágio. Contudo, ele nunca poderia acreditar que seu futuro estava atrelado às empresas ‘Bersani’.

Para comemorar o possível fim de uma etapa, aceitou o convite de um happy hour. Ele não costumava sair com os colegas de trabalho. Quanto menos se envolvesse, menos chance teria de ser descoberto. Como tudo estava, aos olhos dele, finalizando, poderia começar a abusar.

Bebeu, como não bebia há tempos. Riu, como se fosse um bobo da corte. Os colegas nunca viram aquele lado descontraído. Eles estavam descobrindo a face oculta e leve de Eulálio, já que ele sempre estava atento e tenso no estágio. O happy hour foi esticando, pularam de bar. Conversavam sobre futuro, sonhos, desejos. Eulálio revelou que queria ser bem-sucedido para provar à família o quanto era capaz.

Numa dessas reflexões, foi ao banheiro. Se olhou no espelho. Estava embargado. Bêbado, também. Não se reconhecia. Aquela saideira estava deprimindo-o. Tinha aula bem cedo, além de ter que finalizar uns parágrafos de um trabalho a ser entregue naquele dia seguinte.

Ao retornar para mesa, viu a prima Suzana passar. Eles se viram, se acenaram e ele, com medo de que ela quisesse se juntar ao grupo e colocar a farsa da sua origem a perder, correu para o meio-fio:

– Lio, você na pegação, em pleno dia de semana? – surpreendeu-se a prima.

– É tanta pressão no estágio do banco… Precisei relaxar. Saindo da aula agora?

– Sim. Mas estou sem cabeça, nem tenho condições de te acompanhar. Fica pra próxima!

Suzana estava distante, pensativa, fechada. Não se lembrava de ter visto a prima assim. Alguma coisa relativa a homem deve ter acontecido. Ao voltar à mesa, um dos garotos do estágio tinha ficado com a prima e brincou com Eulálio. Este disse que a conhecia da faculdade e, com falsidade, se fez de assustado, ao descobrir naquele momento que ela era uma Bersani.

Desmotivado, sentindo-se sozinho, como se fosse um ser desconhecido, não quis voltar para casa. Topou ir para uma boate. Bebeu mais, dançou e ficou com uma garota até o fim da noite. Não conseguia se lembrar do nome dela, até porque tinha mentido o dele.

A garota tinha carro. Ao perceber o quanto ele estava ruim, ela decidiu que não valia a pena transar com ele. Em casa, na cama, Eulálio deitou na hora em que o celular apitou, com o horário de despertar diário. Ele olhou para o teto. Tanta mentira, tanta falsidade. Ninguém o conhecia, nem na faculdade, nem as primas, muito menos no estágio. As duas famílias não sabiam dos seus desejos, do que ele queria. Era frustrante e decepcionante. O garoto resolveu entregar os pontos. Não ia a aula, tomaria zero no trabalho e mataria o estágio. Estava fechado para balanço.

No entanto, a sorte estava do lado dele, sempre esteve. Não teve chamada naquele dia, o colega fez o trabalho e colocou o nome de Eulálio, por todos os galhos que ele quebrou, e, no estágio, abonaram a ausência sem que ele perdesse a remuneração. Quando parasse de olhar para os outros e passasse a focar no interior, Eulálio enxergaria o quanto de potencial ele tinha. Seria bem mais feliz.

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FORMAÇÃO – Suzana

O vento nos cabelos, o olhar distante, a paisagem passando rapidamente… Suzana não estava curtindo a visita a um canteiro de obras, sendo que a prática sempre funcionava como uma bomba de excitação e adrenalina. Não estava tão animada. Deveria retornar, mais tarde, à faculdade. Por que puxara aquela matéria no noturno?

A resposta era óbvia: adiantar a formatura. Ao contrário dos demais, ela se sentia preparada. Se deixassem uma construção por conta dela, conduziria perfeitamente. Ela sabia que era capaz. A certeza em si própria transparecia, aos outros, convencimento e ilusão. Para ela, era a alavanca para o sucesso.

De óculos escuros, desviou o olhar para dentro do carro. Começou a perceber que tanto o motorista, quanto o outro estagiário, Marcus, estavam incomodados, um pouco eufóricos, numa típica parceria entre homens. Odiava a cumplicidade masculina. Sutilmente percebeu que ela era o motivo daquilo. Sua saia tinha subido, as coxas retumbavam, sua calcinha estava prestes a aparecer. Ferveu por dentro, agarrou a saia, mas antes de se recompor, resolveu entrar na brincadeira. Ela ditaria as regras.

Subiu a saia ao máximo do erotismo. Jogou a cabeça para trás, soltando espasmos sedutores. Passava os lábios na boca, esfregava os dedos no decote. Mal sabia Suzana que seus problemas próximos envolveriam esse potencial. No futuro, ela teria de provar a si mesma e às pessoas que não precisava conseguir os êxitos profissionais com sexo.

Quando começou a gostar e a esquentar o clima, eles chegaram ao destino. Desceu no canteiro extremamente excitada. Se não tivesse se aquecido, não teria aprontado naquele dia. Suzana só saberia depois que não fora a única. Enquanto circulavam pelo terreno, o motorista, chamado Emanuel, teve de se masturbar pensando nela.

Por mais que quisesse passar despercebida, Suzana não conseguia. Naquela visita com futuros engenheiros civis, era a única mulher. Muitos pensavam que ela era uma secretária de luxo, até mesmo uma prostituta, pelas roupas de classe. Por isso, fazia questão de logo soltar comentários sobre fundação e questionar o tipo de solo com o qual estavam lidando:

– Você já está estagiando? – perguntou um homem mais velho, certamente um engenheiro pelo porte e pelo ar pragmático.

Na verdade, Suzana sabia quem ele era: Danilo Cortez Neto, mais conhecido como Netinho. Herdou a construtora da família. Era uma pena que não admitia estagiários:

– Sim. Não consigo ficar parada. – insinuou.

No ouvido dela, ele insinuou:

– Por você, abriria uma exceção.

– Eu não acredito. – Ela se afastou.

Suzana sabia que ele era mulherengo e nunca faria concessões, e que não dava certo se envolver com outros engenheiros civis, como foi com Igor no último jantar de sua família. Ela gostou de conhecê-lo, ele estava disposto a ter algo mais, mas ela não retornou às investidas dele. Afinal, se queria construir um nome, deveria evitar distrações como aquela. Pena que a carne de Suzana fosse tão mais fraca que a dos demais.

Ela tentou se afastar dele, mas a caçada tinha se iniciado. E ela não gostava de ser a presa. Voltando ao jogo da sedução, ela o atraiu para os vestiários dos peões. Sem vergonha como era, Suzana entrou. Se tivesse medo de encontrar algum cara nu, aí sim, isso aconteceria. O espaço estava deserto:

– Obras não foram feitas para mulheres. – Netinho disse assim que entrou.

Fingindo um susto, Suzana transpareceu um espanto:

– Eu sei. Mas não me incomodo. Nasci para mudar as coisas.

Ela se dirigiu para uma das cabines:

– Quer que eu tome conta da entrada pra você?

– Tem medo de que alguém queira entrar e abusar de mim? – falou de maneira inocente.

– Então, eu tenho de tomar conta de mim mesmo. Não é todo dia que uma mulher linda aparece numa obra, desfilando e provocando.

– Conta outra. Aposto que você já teve várias nas suas obras. Deve dar a desculpa de mostrar o que faz e aproveita para traçá-las em todos os lugares mais inusitados.

– Você se engana! Nunca possuí uma mulher num canteiro de obras. Meu sonho é ser desvirginado.

Suzana riu. Foi mais forte que ela:

– Você está insinuando que agora não seria sua primeira vez? – ele se espantou com a possível constatação.

– Sim. Você seria simplesmente a minha quinta vez.

Ela não estava blefando, era a pura verdade. Suzana sabia se jogar e aproveitar. Danilo certamente se assustou. Ele percebeu que aquela mulher tinha muito mais experiência e decisão que ele, um simples homem que teve tudo de mão beijada.

A fim de mostrar seu potencial, ele empurrou Suzana, fechou a porta e avançou. Após as revelações iniciais, ninguém quis confessar o quanto foi gostoso e excitante, atingir o prazer silenciosamente, enquanto outros homens entravam, usavam o banheiro e até tomavam banho. Ela gozou duas vezes. Certamente Netinho era um homem que deveria ser mantido na lista de contatos.

Assim que o vestiário ficou vazio, eles resolveram sair. Eram cúmplices. Sentiam-se desse jeito. Porém, não por muito tempo. Quando cruzaram a porta, Suzana poderia esperar qualquer pessoa e qualquer reação vinda desta. Poderia ser sua avó Lina chamando-a de vagabunda, seu chefe despedindo-a, seu irmão dando-lhe uma surra.

A decepção no olhar de Igor, ao vê-la saindo junto de Netinho, conseguiu destruir a garota. Ela viu ira, ódio, rancor, desonra e ilusão. A imagem mais suja de Suzana refletiu no olhar dele. Enquanto Igor saía em disparada, ela não conseguiu se mover. Naquele dia, Suzana teve o maior ânimo em ir pra faculdade e ser apenas uma estudante. Assistiu à aula com o maior afinco. O mundo real era muito ramificado e difícil de ser conciliado.

FORMAÇÃO – Camila

Camila tinha perdido a noção do tempo. A aula tinha acabado mais de uma hora antes. Prometendo ser rápida, não cumprira o que planejava. Estava perdida na biblioteca, olhando lombadas, roçando em livros, pensando na vida. Constância, sua mãe, já tinha ligado duas vezes. O celular estava na mochila, guardada num armário, pois não se podia adentrar na área de consulta com bolsas. Mesmo não querendo, ela irritava a progenitora.

A terapia de Camila era estar nos livros. No meio de tanto saber, do ar pesado e empoeirado, ela conseguia se clarear, se entender. Ultimamente, perguntava-se por que motivo estava nas Ciências Políticas. Ao contrário dos outros colegas de classe, ela não era engajada, não era afiliada a partido algum, não era radicalista. Por outro lado, ela adorava o curso, as reflexões, o ambiente. Só não sabia o que faria depois.

Estava na metade, fechando o primeiro ciclo, que continha as matérias básicas. No entanto, ela tinha receio do momento em que deveria abandonar a Faculdade e andar com as próprias pernas. Não sentia que estaria preparada, não tinha conseguido estágio ainda. Ser professora não era um desejo nato. Pensou nos primos. Estavam encaminhados: Suzana e Eulálio estagiavam e amavam o que faziam; Bianca fazia Direito, o que abria muitas possibilidades de concursos.

E ela? O que a vida lhe revelaria? O que ainda teria de ver e descobrir? Rodeada de páginas bem preenchidas, sentiu-se infeliz e incompleta. Estava longe de adquirir qualquer relevância. As palavras da avó eram verdadeiras. Camila era ordinária. Mesmo encaminhada, anos à frente dos comentários passados de Lina, Camila ainda se lembrava do sentimento incerto a respeito de si própria. Constantemente se visualizava como se nada de diferente e ousado fosse acontecer com ela.

Pela primeira vez, estar na biblioteca trouxe mais depressão do que catarse. De cabeça baixa, numa das saídas, foi interrompida:

– Camila! Ainda na Universidade?

Era o professor André. Muito inteligente, com cara de novo, era desejado pela capacidade e por transparecer tanta intelectualidade. E também pelos ares atléticos, ressaltados por camisas sociais muito justas:

– Professor! Eu tive de fazer uma pesquisa…

Ele a olhou de cima a baixo, antes de lançar um olhar zombeteiro:

– Na verdade, não consegui me concentrar e escolher, por isso, não estou carregando nada.

– Imaginei… Eu estou descendo da Universidade. Quer uma carona?

Ela pensou um pouco e notou uma pequena apreensão da parte dele. Se os dois fossem mais claros e diretos, teriam se beijado naquele dia. Eles podiam ser decididos no campo das Ciências Sociais, mas na arena social dos namoros, eram travados. Camila assentiu com a cabeça, ele respondeu com o sorriso.

Depois disso, no carro, os dois ficaram em silêncio. Tinham vergonha. Aquilo era novo para ambos. André nunca deu carona para alguma aluna, pois estava no estágio probatório. Elas insinuavam, mas ele se negava com desculpas esfarrapadas. E se algo acontecesse e pudesse marcar a trajetória acadêmica dele? Já Camila não se envolvia tanto com as pessoas da Faculdade, não tinha amigos, não fazia questão de conhecer e ser conhecida.

Durante o trajeto, eles se olhavam e sorriam. Ambos estavam vermelhos. Camila percebeu que tinha de falar algo por causa da hospitalidade dele:

– Como você soube que queria dar aula? Quando você percebeu que ser professor é o seu caminho?

O carro estava parado num sinal. André olhou fundo nos olhos dela. O mundo ficou em suspenso:

– É o ‘gostar’. Quando você percebe que gosta de algo, descobre que é aquilo a que você vai doar sua vida. Você se dedica ao que gosta.

Camila suspirou, os lábios dela tremeram. Ela virou a cabeça para a direita. Ele mirou pra frente, parando no lugar definido por Camila, mais rápido do que ela percebeu:

– Aqui está ótimo, obrigada.

Antes que ela escapulisse, ele colocou as mãos na coxa da garota. Ela se assustou com o toque. Olhou para o que ele fez, antes de suspender o olhar. Ele ficou sem graça. Recuou:

– Eu… Bem… Acho que você… Troque de curso. – ele soltou rapidamente.

– Como?

– Acho que o seu perfil é Antropologia. Pelo que vejo em classe, pelo que leio do que você escreve, talvez a Antropologia seja o seu caminho.

Uma buzina ressoou para os dois, no mesmo momento em que um alarme disparou dentro de Camila. Ela observou o carro de André indo embora, sentindo-se desamparada, abandonada, sozinha. Demoraria semanas para ela entender que deveria experimentar, enquanto a Faculdade permitia, outras possibilidades; e que, pela primeira vez, fora tomada pela paixão verdadeira.

FORMAÇÃO – Bianca

Duas horas de tormento, intermináveis olhadas no relógio. Enquanto Bianca suspirava de alívio, Eulálio, se pudesse, ficava mais dois tempos de aula debatendo e anotando sobre Direito Econômico:

– Não consigo gostar de Comercial, Empresarial, Tributário. Você vai continuar puxando essas matérias do Direito? – perguntou ela, enquanto esperava o primo arrumar o material, já que nem tinha tirado nada da bolsa.

– Parece que você não gosta de ter minha companhia.

– Não é nada disso. Só não é pra mim. Quero algo público, como promotoria, magistratura. Defensoria, não mais. – completou baixinho.

Eulálio se levantou rápido e puxou papo com duas garotas da turma. Na certa, iria saber qual era a festa do momento. Ele não perdia nenhuma. Ela, por outro lado, evitava. Não queria perder tempo badalando. Lia o máximo que podia, estudava pelos menos cinco horas por dia, reduziu os períodos da academia e do lazer. O foco era passar num concurso público. No entanto, nem em seleção de estágios conseguia êxito.

Sacudindo a cabeça, como se fosse diminuir o baixo-astral constante, Bianca deixou a sala e se recostou no corredor. Os colegas de classe saíam, se dispersavam, poucos a cumprimentavam. Sentiu-se, mais uma vez, invisível, embora soubesse o nome de todos e o que desejavam na área do Direito. A maioria queria concurso, igual a ela, mas pra ganhar dinheiro. Bianca só intentava ter um cargo que a definisse, poder olhar pra porta e constatar seu nome em dourado, com o cargo embaixo.

– Eu adoro ter aulas no Direito. Conheço mais pessoas e aprendo uns jargões jurídicos para gastar na Administração. – soltou Eulálio, retirando-a de seus devaneios. A verdade é que das cinco horas de estudo de Bianca, mais da metade eram gastas mentalizando o depois, o dia a dia quando trabalhasse, a independência a ser adquirida. Se pensamento positivo fosse o único necessário às pessoas, o mundo deixaria de ser Terra para ser Próspera.

– Liu, como você consegue? Ser tão despachado, tão amigável com todos, se enturmar tão fácil? Você parece ser mais da turma que eu.

– Prima, vou repetir. Você pensa tanto no adiante e esquece o agora. Você tem os dois olhos no futuro e se esquece de que precisa do presente para alcançá-lo.

Bianca apertou no peito o Vade Mecum, que antes carregava debaixo do braço. Quem sabe a amargura e a certeza abrasadora daquelas palavras pudessem sair do peito e se instalar na lei seca?

Eulálio parou em frente da prima. Pegando-a pelos ombros, sacudiu-a:

– Eu não quero te deixar mais introspectiva e triste. Quem sou eu pra apontar defeitos? Tenho tantos entraves e neuras. Só acho que você deve dar uma chance a outras oportunidades. Você pode se surpreender. Por causa dos parceiros da empresa de nossa família, você consegue estágio em qualquer firma de advocacia facilmente.

– Eu não quero advogar pra particular. – disse impaciente.

– Você não sabe como é. Precisa saber, antes de descartar. É melhor do que ficar sozinha em casa, estudando igual uma louca. Às vezes, aprendemos mais fazendo. Eu vou te arrumar um estágio. Confia?

– O quê?

– Só promete que vai participar da entrevista e vai ficar por duas semanas. Depois disso, você larga e sai. Aceite.

– Tudo bem.

Uma dupla de palavras boba nunca carregou tanta transformação. Bianca não poderia imaginar a guinada prestes a se desenrolar. Afinal, ela pensou no que poderia perder ao aceitar a proposta. Depois, constataria que teria muito a ganhar.

Eulálio jogou um capacete no peito da prima, que se assustou:

– Eu estou de saia. Não posso pegar carona contigo.

Ele olhou pra ela e arrematou:

– Quando você vai se permitir sentir a liberdade?

RETALIAÇÃO – Suzana

Seus primos tinham sumido, já tinha percebido. Isso era o normal. Contudo, ela não iria a lugar algum tão cedo, muito menos para casa. Aquele jantar formal, mascarado de informal, tinha tudo para render. Desde o início, ela paquerava um conhecido do irmão, um engenheiro chamado Igor. Eles conversaram, se esfregaram, trocaram cantadas com terceiros sentidos e no jantar se olharam incessantemente.

Gostaria muito de ver a cara dele ao descobrir que ela era uma estudante de Engenharia Civil. Intencionalmente Suzana vestira a carapuça de uma dondoca bem viajada, instruída, sensual e provocante. Em momento nenhum, deixara transparecer que tinha alguma formação. Era um prazer predador quebrar paradigmas.

A vida toda, a garota buscou se distanciar da imagem que traçavam. Bonita e atraente, deixava bem claro que não era interesseira, nunca namorou. Endinheirada e bem intencionada, não gostava de pisar nas pessoas, de esbanjar. Filha de engenheiro elétrico e irmã de engenheiro de produção, escolheu cair na engenharia civil, terra típica dos homens. E estava indo muito bem, tacando na cara de todos que uma mulher podia reinar num mundo masculino.

Após o jantar, decidiu que iria fumar com os senhores. Nada melhor que uma jovem entre os idosos. Todos ganhavam atenção. Ela era cobiçada e desejada. Eles se sentiam prestigiados com aquela figura espontânea e delicada. Naquela casa tão grande, estar numa das sacadas era uma forma de deixar Igor procurando-a. Isso aumentaria o tesão entre eles.

No meio da terceira piada engraçada, narrada com realismo por um baixo e simpático senhor, Lina prostrou-se na porta e olhou espantada para a cena. A história parou, as pessoas endureceram, Suzana sabia que era o foco daquela atenção. Com dois dedos, a anfitriã fez sinal para que ela acompanhasse a avó.

Nem bem chegaram ao corredor mais próximo, e Lina empurrou a garota contra a parede:

– Desde quando eu autorizo um tipo de comportamento como este em minha casa? Eu me envergonho de ti. Pode ser toda feminina e sensual, mas pra mim, esconde uma lésbica sodomita por dentro. Fazer Engenharia é mais um sinal de que você tem algo de errado, Suzana. Você é tudo menos uma mulher decente.

Suzana abriu a boca pra rebater:

– Calada. Na minha casa, você não tem voz, nem vez. Porte-se como é, uma mulher bem educada. Onde foi que seus pais erraram? Se fosse minha filha, estava na linha.

Quando Lina virou as costas e a deixou sozinha, Suzana agarrou a barra do vestido e o apertou com força. Que ódio! Não conseguira rebater a avó. Ela tremia de raiva. Que pessoa destrutiva! Nesse momento, Igor apareceu e se assustou com o que viu. A garota respirou fundo, se recompôs e o pegou pelo braço.

Ela o conduziu para os fundos da casa, decidindo tudo de supetão. Se não podia falar com a avó, retrucar, berrar, Suzana iria agir. Deixaria um recado apropriado. Sem nunca se dar conta, esse foi o primeiro ato a derrubar e desrespeitar a hierarquia da matriarca dos Bersani’s. Suzana levou Igor para o escritório da avó. Com a porta aberta, os dois fizeram sexo em cima da mesa de madeira escura. Foi um dos orgasmos mais libertadores que teve.

Antes de sair, Suzana fez questão de deixar a camisinha no lixo e o pacote aberto em cima dos documentos.

RETALIAÇÃO – Bianca

Era tão cansativo forçar a conversa e a atenção, quando sua cabeça estava em outro lugar. Bianca só pensava no dia de amanhã. Só queria saber do resultado da seleção de estagiários para a Defensoria Pública. Pra complicar, um dos defensores estava no jantar de sua avó Lina. Como evitar se aproximar dele? De que maneira interagir com ele, como sempre fez, sem perguntar sobre as questões e a prova? Conseguiria não transparecer todo seu entusiasmo e nervosismo?

Bianca não tinha tanta certeza, mas no fundo ela conseguia esconder o que sentia. O que muitos definiam como apatia era uma carcaça poderosa. Muitos a viam como a mais apagada neta dos Bersani. O vestuário confirmava. Ela já se vestia como uma futura advogada. Nesse jantar, isso estava mais ressaltado: um vestido creme, com um casaquinho azul e sapatos combinando. Olhando sua prima Suzana, num vestido colante, decotado, saliente e vermelho, sancionou que nunca teria porte para ter escolhido o ousado sapato escarlate, acompanhado do batom de intenso rubro. Envergonhada ficou, só de se imaginar assim.

Sem saber o que fazer, decidiu ficar calada. ‘Não perguntar, nem responder’. Assim, não transpareceria o que realmente sentia. Mais uma vez, percebeu que estava adiando. Como gostaria de saber soltar as palavras, os sentimentos, a verdade. Pelo contrário, Bianca só contava os dias para se tornar uma força no Judiciário e poder se impor.

Adoraria confrontar a avó, mostrar que o futuro de uma mulher não significava casamento de conveniência. Não aguentava mais encontros arrumados, como nessa noite, com amigos de seus dois irmãos. Por não ter conversado tanto, o pretendido deve ter encontrado algo melhor. Quando seria a vez de Bianca encontrar aquilo que era especial?

Perto de uma estante, ela se sentou e pegou uma revista. Lendo, seria bem provável que os minutos iriam passar mais rápidos. O que importava era amanhã. Enquanto estava na quarta reportagem, a revista foi retirada das suas mãos. Ao levantar a cabeça e protestar, recuou as costas, batendo a cadeira contra a parede:

– Meu jantar está entediando você? Onde está a sua companhia? Aproveite a beleza, enquanto pode. Não vai durar, ainda mais se você só estudar.

Lina puxou as duas mãos da garota e a levantou. Segurando os ombros de Bianca, foi conduzindo-a até o grande salão, onde o jantar já era servido:

– Eu não entendo. Seus irmãos têm tantos amigos. Você tem uma cartilha de possibilidades a escolher e fazer um bom casamento. Mas não. Você insiste em ser inteligente. Você não é, querida. Talvez amanhã você possa perceber isso…

Bianca tinha a pele muito alva, por isso, ao ficar pasma e assustada, foi difícil, até para a avó, perceber. Lina rapidamente puxou a cadeira e a ofereceu para a neta. Com o susto daquelas palavras, Bianca se jogou, caso contrário iria cair.

Sem fome, passou o jantar todo olhando para a comida, desconcertada. Para piorar, o defensor estava ao seu lado. Realmente ela não queria ou podia conversar com ele. Estava chorando por dentro.

RETALIAÇÃO – Eulálio

Tinha a encontrado. Um dos motivos de se sujeitar a estar como um indesejado, nas reuniões de família indesejáveis, era poder se encontrar com as filhas de médicos, juízes, empresários que acompanhavam os pais. Nem sempre conseguia um telefone, muito menos um beijo, mas com ela, sentia estar no caminho certo. Era a terceira vez que Eulálio e Catarina se olhavam impacientemente. Se procuravam durante todo o evento. Ele soltava piscadinhas discretas. Ela, sorrisos abafados.

Estava recostado na escada, encarando-a com fisionomia de ciúme pelo fato de ela estar cercada por outros dois garotos. Interrompeu o contato, ao sentir os lances de madeira tremer em suas costas. Ao se virar, viu Camila descer pisando fundo, de cabeça em pé, rebolando de um jeito que não condizia com ela. Ameaçou deter a prima, mas ao voltar a olhar para Catarina, descobriu que ela tinha escapulido. Entre o desejo e a curiosidade, escolhera o primeiro.

Circulou pelos aposentos de maneira sorrateira. Era como fazia. Não podia chamar atenção. Carregaria sempre o estigma de ser filho da empregada, um legítimo bastardo. De acordo com a família Bersani, Eulálio era fruto do aproveitamento de uma copeira, interessada em garantir dividendos com um rebento. De acordo com a mãe, Eulálio representava a dificuldade ao perder um emprego, a decepção dos pais pelo destino da filha mais nova, e a amargura por ter sido iludida. Como ele gostaria que o pai não tivesse morrido. Melhor não, já tinha versões suficientes sobre sua vinda ao mundo.

Antes de adentrar na segunda sala, ele foi barrado pela querida avó Lina. Ela colocou-se por trás do garoto, esticou-se e sussurrou em seu ouvido, não deixando que ele olhasse pra ela:

– Apesar da boa educação dada a mim, a contragosto, o atrevimento continua sendo o seu forte. O que você faz aqui, querido espúrio? Procurando por mais migalhas? Nada do que tem aqui será seu. Nunca!

Anos e anos de ameaças, de deboches, de escárnios e de desprezo não tornaram Eulálio mais forte ou preparado. Ele ainda tinha raiva e medo de Lina. Tremia se tivesse de ficar a sós com ela. De cabeça baixa, retirou-se. Passou do lado de Catarina, que roçou o braço no dele. No entanto, Eulálio não sentia nada físico, apenas a solidão e a inadequação dentro de si.

Com a moto em grande velocidade, não se sentia afastado ou seguro. Os Bersani’s sempre o enxergavam como o neto não genuíno. A família materna, por sua vez, não fazia questão de se agregar com o ‘riquinho’. Parado na porta da casa da mãe, num bairro periférico, Eulálio constatou que não podia se mover, não era capaz de entrar. Ninguém entenderia que o problema dele e do mundo era este: tudo gira e acaba voltando para o mesmo ponto.

RETALIAÇÃO – Camila

Não sabia por qual razão tinha vindo. Não gostava de perder tempo com as frivolidades da família, não queria rever ricos e poderosos insolentes, não conseguia disfarçar o desgosto. No entanto, era sempre pior contrariar o desejo da avó, senhora Paulina Bersani, conhecida como Lina. Se ela queria os netos reunidos em um jantar informal, eles deveriam comparecer.

Atrasada pelos afazeres da faculdade, Camila respirou fundo antes de bater à porta da frente. O vestido branco floral batia no joelho e não combinava com as sandálias. Decidiu entrar pelos fundos. Depois percebera o quanto essa decisão fora certeira. A retaliação teria sido pública. Camila voltaria para casa, assim que tivesse adentrado. No que tangia ela, Suzana, Eulálio e Bianca, sua avó não segurava o que pensava.

Na cozinha, percebeu que estava com fome. Comeu diretamente da bandeja petiscos. Se Lina a pegasse surrupiando a comida destinada a circular, outro pior se concretizaria.  Geraria mais uma neura na memória da garota de 21 anos, que se considerava a patinha feia dos sete primos. Se ao menos tivesse um irmão ou irmã, poderiam odiar a matriarca em parceria.

A festa só mudava de data. Os moveis ficavam nos mesmos lugares, as pessoas agiam sempre de maneira educada e robotizada, era tudo uma empáfia. Se fizesse Antropologia, ao invés de Ciências Políticas, poderia fazer o trabalho de conclusão de curso sobre este povo mesquinho, supérfluo e bajulador. Por que nascera numa família tão tradicional?

Procurando por alguém que a distraísse, deu de cara com sua mãe. Rapidamente vira a fisionomia da mãe perder o ar sereno e se tornar pálida. Como uma bala, ela foi até Camila, agarrou-a pelos cotovelos e a levou para o andar de cima, de maneira rápida. Tal cena já se sucedera tanto, por inúmeros motivos. Camila se sentiu assim aos oito anos por ter se sujado; aos doze, por ter respondido a avó; aos quinze por estar com maquiagem exagerada. O que seria dessa vez?

Ainda dispersa, sem ter trocado uma palavra com a mãe, foi parada rapidamente, na mesma intensidade que a mão apertava o cotovelo. Lina materializara-se no corredor. Olhava fixamente para a neta:

– Constância, me deixe a sós com Camila. Volte para a festa, não vamos demorar.

A mãe abaixara a cabeça e obedecia. Que falta de coragem! Quem iria desafiar a toda poderosa algum dia?

– Querida, espero que não tenha circulado tanto por minha festa. A reputação e a fineza de nossa família não merecem tamanho desrespeito. Você está um traste, parece uma empregadinha grávida, uma vergonha. Tire essa roupa já ou saia da festa. Pegue qualquer vestido que encontrar nesta casa. Qualquer um ficará melhor que essa imundície.

Camila encarou a avó por alguns segundos, sem reação. Pensou se Lina algum dia iria se cansar de humilhá-la, de demonstrar desprezo, e de apontar as imperfeições da neta.

De maneira infantil, Camila sacudiu os ombros, deu meia volta e desceu as escadas em direção à saída principal. Queria que todos a vissem se retirando. Sem saber, esse simples gesto foi a primeira arranhadura dos quatro primos diante do poder sem limites da avó.