RETALIAÇÃO – Camila

Não sabia por qual razão tinha vindo. Não gostava de perder tempo com as frivolidades da família, não queria rever ricos e poderosos insolentes, não conseguia disfarçar o desgosto. No entanto, era sempre pior contrariar o desejo da avó, senhora Paulina Bersani, conhecida como Lina. Se ela queria os netos reunidos em um jantar informal, eles deveriam comparecer.

Atrasada pelos afazeres da faculdade, Camila respirou fundo antes de bater à porta da frente. O vestido branco floral batia no joelho e não combinava com as sandálias. Decidiu entrar pelos fundos. Depois percebera o quanto essa decisão fora certeira. A retaliação teria sido pública. Camila voltaria para casa, assim que tivesse adentrado. No que tangia ela, Suzana, Eulálio e Bianca, sua avó não segurava o que pensava.

Na cozinha, percebeu que estava com fome. Comeu diretamente da bandeja petiscos. Se Lina a pegasse surrupiando a comida destinada a circular, outro pior se concretizaria.  Geraria mais uma neura na memória da garota de 21 anos, que se considerava a patinha feia dos sete primos. Se ao menos tivesse um irmão ou irmã, poderiam odiar a matriarca em parceria.

A festa só mudava de data. Os moveis ficavam nos mesmos lugares, as pessoas agiam sempre de maneira educada e robotizada, era tudo uma empáfia. Se fizesse Antropologia, ao invés de Ciências Políticas, poderia fazer o trabalho de conclusão de curso sobre este povo mesquinho, supérfluo e bajulador. Por que nascera numa família tão tradicional?

Procurando por alguém que a distraísse, deu de cara com sua mãe. Rapidamente vira a fisionomia da mãe perder o ar sereno e se tornar pálida. Como uma bala, ela foi até Camila, agarrou-a pelos cotovelos e a levou para o andar de cima, de maneira rápida. Tal cena já se sucedera tanto, por inúmeros motivos. Camila se sentiu assim aos oito anos por ter se sujado; aos doze, por ter respondido a avó; aos quinze por estar com maquiagem exagerada. O que seria dessa vez?

Ainda dispersa, sem ter trocado uma palavra com a mãe, foi parada rapidamente, na mesma intensidade que a mão apertava o cotovelo. Lina materializara-se no corredor. Olhava fixamente para a neta:

– Constância, me deixe a sós com Camila. Volte para a festa, não vamos demorar.

A mãe abaixara a cabeça e obedecia. Que falta de coragem! Quem iria desafiar a toda poderosa algum dia?

– Querida, espero que não tenha circulado tanto por minha festa. A reputação e a fineza de nossa família não merecem tamanho desrespeito. Você está um traste, parece uma empregadinha grávida, uma vergonha. Tire essa roupa já ou saia da festa. Pegue qualquer vestido que encontrar nesta casa. Qualquer um ficará melhor que essa imundície.

Camila encarou a avó por alguns segundos, sem reação. Pensou se Lina algum dia iria se cansar de humilhá-la, de demonstrar desprezo, e de apontar as imperfeições da neta.

De maneira infantil, Camila sacudiu os ombros, deu meia volta e desceu as escadas em direção à saída principal. Queria que todos a vissem se retirando. Sem saber, esse simples gesto foi a primeira arranhadura dos quatro primos diante do poder sem limites da avó.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: