RETALIAÇÃO – Eulálio

Tinha a encontrado. Um dos motivos de se sujeitar a estar como um indesejado, nas reuniões de família indesejáveis, era poder se encontrar com as filhas de médicos, juízes, empresários que acompanhavam os pais. Nem sempre conseguia um telefone, muito menos um beijo, mas com ela, sentia estar no caminho certo. Era a terceira vez que Eulálio e Catarina se olhavam impacientemente. Se procuravam durante todo o evento. Ele soltava piscadinhas discretas. Ela, sorrisos abafados.

Estava recostado na escada, encarando-a com fisionomia de ciúme pelo fato de ela estar cercada por outros dois garotos. Interrompeu o contato, ao sentir os lances de madeira tremer em suas costas. Ao se virar, viu Camila descer pisando fundo, de cabeça em pé, rebolando de um jeito que não condizia com ela. Ameaçou deter a prima, mas ao voltar a olhar para Catarina, descobriu que ela tinha escapulido. Entre o desejo e a curiosidade, escolhera o primeiro.

Circulou pelos aposentos de maneira sorrateira. Era como fazia. Não podia chamar atenção. Carregaria sempre o estigma de ser filho da empregada, um legítimo bastardo. De acordo com a família Bersani, Eulálio era fruto do aproveitamento de uma copeira, interessada em garantir dividendos com um rebento. De acordo com a mãe, Eulálio representava a dificuldade ao perder um emprego, a decepção dos pais pelo destino da filha mais nova, e a amargura por ter sido iludida. Como ele gostaria que o pai não tivesse morrido. Melhor não, já tinha versões suficientes sobre sua vinda ao mundo.

Antes de adentrar na segunda sala, ele foi barrado pela querida avó Lina. Ela colocou-se por trás do garoto, esticou-se e sussurrou em seu ouvido, não deixando que ele olhasse pra ela:

– Apesar da boa educação dada a mim, a contragosto, o atrevimento continua sendo o seu forte. O que você faz aqui, querido espúrio? Procurando por mais migalhas? Nada do que tem aqui será seu. Nunca!

Anos e anos de ameaças, de deboches, de escárnios e de desprezo não tornaram Eulálio mais forte ou preparado. Ele ainda tinha raiva e medo de Lina. Tremia se tivesse de ficar a sós com ela. De cabeça baixa, retirou-se. Passou do lado de Catarina, que roçou o braço no dele. No entanto, Eulálio não sentia nada físico, apenas a solidão e a inadequação dentro de si.

Com a moto em grande velocidade, não se sentia afastado ou seguro. Os Bersani’s sempre o enxergavam como o neto não genuíno. A família materna, por sua vez, não fazia questão de se agregar com o ‘riquinho’. Parado na porta da casa da mãe, num bairro periférico, Eulálio constatou que não podia se mover, não era capaz de entrar. Ninguém entenderia que o problema dele e do mundo era este: tudo gira e acaba voltando para o mesmo ponto.

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