RETALIAÇÃO – Bianca

Era tão cansativo forçar a conversa e a atenção, quando sua cabeça estava em outro lugar. Bianca só pensava no dia de amanhã. Só queria saber do resultado da seleção de estagiários para a Defensoria Pública. Pra complicar, um dos defensores estava no jantar de sua avó Lina. Como evitar se aproximar dele? De que maneira interagir com ele, como sempre fez, sem perguntar sobre as questões e a prova? Conseguiria não transparecer todo seu entusiasmo e nervosismo?

Bianca não tinha tanta certeza, mas no fundo ela conseguia esconder o que sentia. O que muitos definiam como apatia era uma carcaça poderosa. Muitos a viam como a mais apagada neta dos Bersani. O vestuário confirmava. Ela já se vestia como uma futura advogada. Nesse jantar, isso estava mais ressaltado: um vestido creme, com um casaquinho azul e sapatos combinando. Olhando sua prima Suzana, num vestido colante, decotado, saliente e vermelho, sancionou que nunca teria porte para ter escolhido o ousado sapato escarlate, acompanhado do batom de intenso rubro. Envergonhada ficou, só de se imaginar assim.

Sem saber o que fazer, decidiu ficar calada. ‘Não perguntar, nem responder’. Assim, não transpareceria o que realmente sentia. Mais uma vez, percebeu que estava adiando. Como gostaria de saber soltar as palavras, os sentimentos, a verdade. Pelo contrário, Bianca só contava os dias para se tornar uma força no Judiciário e poder se impor.

Adoraria confrontar a avó, mostrar que o futuro de uma mulher não significava casamento de conveniência. Não aguentava mais encontros arrumados, como nessa noite, com amigos de seus dois irmãos. Por não ter conversado tanto, o pretendido deve ter encontrado algo melhor. Quando seria a vez de Bianca encontrar aquilo que era especial?

Perto de uma estante, ela se sentou e pegou uma revista. Lendo, seria bem provável que os minutos iriam passar mais rápidos. O que importava era amanhã. Enquanto estava na quarta reportagem, a revista foi retirada das suas mãos. Ao levantar a cabeça e protestar, recuou as costas, batendo a cadeira contra a parede:

– Meu jantar está entediando você? Onde está a sua companhia? Aproveite a beleza, enquanto pode. Não vai durar, ainda mais se você só estudar.

Lina puxou as duas mãos da garota e a levantou. Segurando os ombros de Bianca, foi conduzindo-a até o grande salão, onde o jantar já era servido:

– Eu não entendo. Seus irmãos têm tantos amigos. Você tem uma cartilha de possibilidades a escolher e fazer um bom casamento. Mas não. Você insiste em ser inteligente. Você não é, querida. Talvez amanhã você possa perceber isso…

Bianca tinha a pele muito alva, por isso, ao ficar pasma e assustada, foi difícil, até para a avó, perceber. Lina rapidamente puxou a cadeira e a ofereceu para a neta. Com o susto daquelas palavras, Bianca se jogou, caso contrário iria cair.

Sem fome, passou o jantar todo olhando para a comida, desconcertada. Para piorar, o defensor estava ao seu lado. Realmente ela não queria ou podia conversar com ele. Estava chorando por dentro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: