RETALIAÇÃO – Suzana

Seus primos tinham sumido, já tinha percebido. Isso era o normal. Contudo, ela não iria a lugar algum tão cedo, muito menos para casa. Aquele jantar formal, mascarado de informal, tinha tudo para render. Desde o início, ela paquerava um conhecido do irmão, um engenheiro chamado Igor. Eles conversaram, se esfregaram, trocaram cantadas com terceiros sentidos e no jantar se olharam incessantemente.

Gostaria muito de ver a cara dele ao descobrir que ela era uma estudante de Engenharia Civil. Intencionalmente Suzana vestira a carapuça de uma dondoca bem viajada, instruída, sensual e provocante. Em momento nenhum, deixara transparecer que tinha alguma formação. Era um prazer predador quebrar paradigmas.

A vida toda, a garota buscou se distanciar da imagem que traçavam. Bonita e atraente, deixava bem claro que não era interesseira, nunca namorou. Endinheirada e bem intencionada, não gostava de pisar nas pessoas, de esbanjar. Filha de engenheiro elétrico e irmã de engenheiro de produção, escolheu cair na engenharia civil, terra típica dos homens. E estava indo muito bem, tacando na cara de todos que uma mulher podia reinar num mundo masculino.

Após o jantar, decidiu que iria fumar com os senhores. Nada melhor que uma jovem entre os idosos. Todos ganhavam atenção. Ela era cobiçada e desejada. Eles se sentiam prestigiados com aquela figura espontânea e delicada. Naquela casa tão grande, estar numa das sacadas era uma forma de deixar Igor procurando-a. Isso aumentaria o tesão entre eles.

No meio da terceira piada engraçada, narrada com realismo por um baixo e simpático senhor, Lina prostrou-se na porta e olhou espantada para a cena. A história parou, as pessoas endureceram, Suzana sabia que era o foco daquela atenção. Com dois dedos, a anfitriã fez sinal para que ela acompanhasse a avó.

Nem bem chegaram ao corredor mais próximo, e Lina empurrou a garota contra a parede:

– Desde quando eu autorizo um tipo de comportamento como este em minha casa? Eu me envergonho de ti. Pode ser toda feminina e sensual, mas pra mim, esconde uma lésbica sodomita por dentro. Fazer Engenharia é mais um sinal de que você tem algo de errado, Suzana. Você é tudo menos uma mulher decente.

Suzana abriu a boca pra rebater:

– Calada. Na minha casa, você não tem voz, nem vez. Porte-se como é, uma mulher bem educada. Onde foi que seus pais erraram? Se fosse minha filha, estava na linha.

Quando Lina virou as costas e a deixou sozinha, Suzana agarrou a barra do vestido e o apertou com força. Que ódio! Não conseguira rebater a avó. Ela tremia de raiva. Que pessoa destrutiva! Nesse momento, Igor apareceu e se assustou com o que viu. A garota respirou fundo, se recompôs e o pegou pelo braço.

Ela o conduziu para os fundos da casa, decidindo tudo de supetão. Se não podia falar com a avó, retrucar, berrar, Suzana iria agir. Deixaria um recado apropriado. Sem nunca se dar conta, esse foi o primeiro ato a derrubar e desrespeitar a hierarquia da matriarca dos Bersani’s. Suzana levou Igor para o escritório da avó. Com a porta aberta, os dois fizeram sexo em cima da mesa de madeira escura. Foi um dos orgasmos mais libertadores que teve.

Antes de sair, Suzana fez questão de deixar a camisinha no lixo e o pacote aberto em cima dos documentos.

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