FORMAÇÃO – Camila

Camila tinha perdido a noção do tempo. A aula tinha acabado mais de uma hora antes. Prometendo ser rápida, não cumprira o que planejava. Estava perdida na biblioteca, olhando lombadas, roçando em livros, pensando na vida. Constância, sua mãe, já tinha ligado duas vezes. O celular estava na mochila, guardada num armário, pois não se podia adentrar na área de consulta com bolsas. Mesmo não querendo, ela irritava a progenitora.

A terapia de Camila era estar nos livros. No meio de tanto saber, do ar pesado e empoeirado, ela conseguia se clarear, se entender. Ultimamente, perguntava-se por que motivo estava nas Ciências Políticas. Ao contrário dos outros colegas de classe, ela não era engajada, não era afiliada a partido algum, não era radicalista. Por outro lado, ela adorava o curso, as reflexões, o ambiente. Só não sabia o que faria depois.

Estava na metade, fechando o primeiro ciclo, que continha as matérias básicas. No entanto, ela tinha receio do momento em que deveria abandonar a Faculdade e andar com as próprias pernas. Não sentia que estaria preparada, não tinha conseguido estágio ainda. Ser professora não era um desejo nato. Pensou nos primos. Estavam encaminhados: Suzana e Eulálio estagiavam e amavam o que faziam; Bianca fazia Direito, o que abria muitas possibilidades de concursos.

E ela? O que a vida lhe revelaria? O que ainda teria de ver e descobrir? Rodeada de páginas bem preenchidas, sentiu-se infeliz e incompleta. Estava longe de adquirir qualquer relevância. As palavras da avó eram verdadeiras. Camila era ordinária. Mesmo encaminhada, anos à frente dos comentários passados de Lina, Camila ainda se lembrava do sentimento incerto a respeito de si própria. Constantemente se visualizava como se nada de diferente e ousado fosse acontecer com ela.

Pela primeira vez, estar na biblioteca trouxe mais depressão do que catarse. De cabeça baixa, numa das saídas, foi interrompida:

– Camila! Ainda na Universidade?

Era o professor André. Muito inteligente, com cara de novo, era desejado pela capacidade e por transparecer tanta intelectualidade. E também pelos ares atléticos, ressaltados por camisas sociais muito justas:

– Professor! Eu tive de fazer uma pesquisa…

Ele a olhou de cima a baixo, antes de lançar um olhar zombeteiro:

– Na verdade, não consegui me concentrar e escolher, por isso, não estou carregando nada.

– Imaginei… Eu estou descendo da Universidade. Quer uma carona?

Ela pensou um pouco e notou uma pequena apreensão da parte dele. Se os dois fossem mais claros e diretos, teriam se beijado naquele dia. Eles podiam ser decididos no campo das Ciências Sociais, mas na arena social dos namoros, eram travados. Camila assentiu com a cabeça, ele respondeu com o sorriso.

Depois disso, no carro, os dois ficaram em silêncio. Tinham vergonha. Aquilo era novo para ambos. André nunca deu carona para alguma aluna, pois estava no estágio probatório. Elas insinuavam, mas ele se negava com desculpas esfarrapadas. E se algo acontecesse e pudesse marcar a trajetória acadêmica dele? Já Camila não se envolvia tanto com as pessoas da Faculdade, não tinha amigos, não fazia questão de conhecer e ser conhecida.

Durante o trajeto, eles se olhavam e sorriam. Ambos estavam vermelhos. Camila percebeu que tinha de falar algo por causa da hospitalidade dele:

– Como você soube que queria dar aula? Quando você percebeu que ser professor é o seu caminho?

O carro estava parado num sinal. André olhou fundo nos olhos dela. O mundo ficou em suspenso:

– É o ‘gostar’. Quando você percebe que gosta de algo, descobre que é aquilo a que você vai doar sua vida. Você se dedica ao que gosta.

Camila suspirou, os lábios dela tremeram. Ela virou a cabeça para a direita. Ele mirou pra frente, parando no lugar definido por Camila, mais rápido do que ela percebeu:

– Aqui está ótimo, obrigada.

Antes que ela escapulisse, ele colocou as mãos na coxa da garota. Ela se assustou com o toque. Olhou para o que ele fez, antes de suspender o olhar. Ele ficou sem graça. Recuou:

– Eu… Bem… Acho que você… Troque de curso. – ele soltou rapidamente.

– Como?

– Acho que o seu perfil é Antropologia. Pelo que vejo em classe, pelo que leio do que você escreve, talvez a Antropologia seja o seu caminho.

Uma buzina ressoou para os dois, no mesmo momento em que um alarme disparou dentro de Camila. Ela observou o carro de André indo embora, sentindo-se desamparada, abandonada, sozinha. Demoraria semanas para ela entender que deveria experimentar, enquanto a Faculdade permitia, outras possibilidades; e que, pela primeira vez, fora tomada pela paixão verdadeira.

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