FORMAÇÃO – Suzana

O vento nos cabelos, o olhar distante, a paisagem passando rapidamente… Suzana não estava curtindo a visita a um canteiro de obras, sendo que a prática sempre funcionava como uma bomba de excitação e adrenalina. Não estava tão animada. Deveria retornar, mais tarde, à faculdade. Por que puxara aquela matéria no noturno?

A resposta era óbvia: adiantar a formatura. Ao contrário dos demais, ela se sentia preparada. Se deixassem uma construção por conta dela, conduziria perfeitamente. Ela sabia que era capaz. A certeza em si própria transparecia, aos outros, convencimento e ilusão. Para ela, era a alavanca para o sucesso.

De óculos escuros, desviou o olhar para dentro do carro. Começou a perceber que tanto o motorista, quanto o outro estagiário, Marcus, estavam incomodados, um pouco eufóricos, numa típica parceria entre homens. Odiava a cumplicidade masculina. Sutilmente percebeu que ela era o motivo daquilo. Sua saia tinha subido, as coxas retumbavam, sua calcinha estava prestes a aparecer. Ferveu por dentro, agarrou a saia, mas antes de se recompor, resolveu entrar na brincadeira. Ela ditaria as regras.

Subiu a saia ao máximo do erotismo. Jogou a cabeça para trás, soltando espasmos sedutores. Passava os lábios na boca, esfregava os dedos no decote. Mal sabia Suzana que seus problemas próximos envolveriam esse potencial. No futuro, ela teria de provar a si mesma e às pessoas que não precisava conseguir os êxitos profissionais com sexo.

Quando começou a gostar e a esquentar o clima, eles chegaram ao destino. Desceu no canteiro extremamente excitada. Se não tivesse se aquecido, não teria aprontado naquele dia. Suzana só saberia depois que não fora a única. Enquanto circulavam pelo terreno, o motorista, chamado Emanuel, teve de se masturbar pensando nela.

Por mais que quisesse passar despercebida, Suzana não conseguia. Naquela visita com futuros engenheiros civis, era a única mulher. Muitos pensavam que ela era uma secretária de luxo, até mesmo uma prostituta, pelas roupas de classe. Por isso, fazia questão de logo soltar comentários sobre fundação e questionar o tipo de solo com o qual estavam lidando:

– Você já está estagiando? – perguntou um homem mais velho, certamente um engenheiro pelo porte e pelo ar pragmático.

Na verdade, Suzana sabia quem ele era: Danilo Cortez Neto, mais conhecido como Netinho. Herdou a construtora da família. Era uma pena que não admitia estagiários:

– Sim. Não consigo ficar parada. – insinuou.

No ouvido dela, ele insinuou:

– Por você, abriria uma exceção.

– Eu não acredito. – Ela se afastou.

Suzana sabia que ele era mulherengo e nunca faria concessões, e que não dava certo se envolver com outros engenheiros civis, como foi com Igor no último jantar de sua família. Ela gostou de conhecê-lo, ele estava disposto a ter algo mais, mas ela não retornou às investidas dele. Afinal, se queria construir um nome, deveria evitar distrações como aquela. Pena que a carne de Suzana fosse tão mais fraca que a dos demais.

Ela tentou se afastar dele, mas a caçada tinha se iniciado. E ela não gostava de ser a presa. Voltando ao jogo da sedução, ela o atraiu para os vestiários dos peões. Sem vergonha como era, Suzana entrou. Se tivesse medo de encontrar algum cara nu, aí sim, isso aconteceria. O espaço estava deserto:

– Obras não foram feitas para mulheres. – Netinho disse assim que entrou.

Fingindo um susto, Suzana transpareceu um espanto:

– Eu sei. Mas não me incomodo. Nasci para mudar as coisas.

Ela se dirigiu para uma das cabines:

– Quer que eu tome conta da entrada pra você?

– Tem medo de que alguém queira entrar e abusar de mim? – falou de maneira inocente.

– Então, eu tenho de tomar conta de mim mesmo. Não é todo dia que uma mulher linda aparece numa obra, desfilando e provocando.

– Conta outra. Aposto que você já teve várias nas suas obras. Deve dar a desculpa de mostrar o que faz e aproveita para traçá-las em todos os lugares mais inusitados.

– Você se engana! Nunca possuí uma mulher num canteiro de obras. Meu sonho é ser desvirginado.

Suzana riu. Foi mais forte que ela:

– Você está insinuando que agora não seria sua primeira vez? – ele se espantou com a possível constatação.

– Sim. Você seria simplesmente a minha quinta vez.

Ela não estava blefando, era a pura verdade. Suzana sabia se jogar e aproveitar. Danilo certamente se assustou. Ele percebeu que aquela mulher tinha muito mais experiência e decisão que ele, um simples homem que teve tudo de mão beijada.

A fim de mostrar seu potencial, ele empurrou Suzana, fechou a porta e avançou. Após as revelações iniciais, ninguém quis confessar o quanto foi gostoso e excitante, atingir o prazer silenciosamente, enquanto outros homens entravam, usavam o banheiro e até tomavam banho. Ela gozou duas vezes. Certamente Netinho era um homem que deveria ser mantido na lista de contatos.

Assim que o vestiário ficou vazio, eles resolveram sair. Eram cúmplices. Sentiam-se desse jeito. Porém, não por muito tempo. Quando cruzaram a porta, Suzana poderia esperar qualquer pessoa e qualquer reação vinda desta. Poderia ser sua avó Lina chamando-a de vagabunda, seu chefe despedindo-a, seu irmão dando-lhe uma surra.

A decepção no olhar de Igor, ao vê-la saindo junto de Netinho, conseguiu destruir a garota. Ela viu ira, ódio, rancor, desonra e ilusão. A imagem mais suja de Suzana refletiu no olhar dele. Enquanto Igor saía em disparada, ela não conseguiu se mover. Naquele dia, Suzana teve o maior ânimo em ir pra faculdade e ser apenas uma estudante. Assistiu à aula com o maior afinco. O mundo real era muito ramificado e difícil de ser conciliado.

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