FORMAÇÃO – Eulálio

– José, a hora de provar o quanto você é bom chegou. A organização da próxima corrida de rua das empresas ‘Bersani’ está por sua conta a partir de agora. Todos os detalhes, você resolve.

Eulálio ficou parado. Aquilo era mais do que ele pedira. Esboçou um sorriso. Olhou para o lado. A incredulidade perpassava apenas o rosto dele. Os colegas de trabalho, por outro lado, sorriam e concordavam. Seria mais uma oportunidade de ele brilhar. Porém, ele não via desse jeito. A chance de ouro era, na verdade, o fim de uma longa farsa, iniciada há mais de um ano.

Um dos estágios mais requisitados pelos estudantes de Administração era o das empresas ‘Bersani’. Mesmo sendo um herdeiro, Eulálio sabia que nunca teria uma chance. Nem na seleção, ele passaria. A avó Lina faria com que ele ficasse em último lugar.

Apesar do insucesso certeiro, ele se inscreveu com o segundo nome, José, e o sobrenome da mãe, Ferreira. Por ironia do destino, foi o primeiro colocado. Eulálio era muito estudioso e conhecia a trajetória comercial da família. Era muito fácil ressaltar nas provas orais e escrita os ideais e objetivos dos fundadores antecessores dele.

A fim de experimentar todo o gostinho daquela vitória amarga, Eulálio participou da visita às dependências das fábricas, teve reuniões prévias, pegou a roupa de uso obrigatório e tirou a foto para o crachá. Sustentou a ilusão até o momento da entrega dos documentos no RH:

– Como assim?! Você é um dos netos dos Bersani’s. E vai ser um estagiário? – indagou Dona Rosa, chefe do departamento.

– Não. Não vou ser nada. Passei na seleção, mas serei dispensado assim que minha avó souber que faço parte. Ela me detesta, sou um bastardo, um apátrida pra ela. Meu sobrenome, que deveria ser um trunfo, será minha condenação.

Eulálio não contava que Dona Rosa odiava Lina com todas as forças. Foram tantas judiações, mau tratos e desprezo. Como forma de ludibriar o poder da chefe, a diretora do RH teve a ideia de fichá-lo em segredo. Só ela teria acesso à documentação de Eulálio. Ninguém saberia quem ele realmente era. No enorme mundo das fábricas Bersani, um dos herdeiros seria apenas um estagiário de nome simplório, José.

Não foi fácil manter a farsa. Ele sempre entrava no estágio no meio da hora do almoço, por volta de meio-dia e meia, quando a avó Lina já tinha saído da sua cotidiana visita matinal. Ele deixava o local de estágio sempre pontualmente às 17h, temendo que a avó não se adiantasse na inspeção de fim de expediente. Algumas vezes quase se esbarraram. O mesmo ocorreu com os primos e tios. Por muito pouco, não foi descoberto. No entanto, demoraria até Eulálio perceber que no quesito laboral, a sorte balançava para o lado dele.

Agora que estava prestes a chegar o fim do complô, ele se ressentia. Queria aproveitar mais. Não estava preparado para abandonar o estágio. Contudo, ele nunca poderia acreditar que seu futuro estava atrelado às empresas ‘Bersani’.

Para comemorar o possível fim de uma etapa, aceitou o convite de um happy hour. Ele não costumava sair com os colegas de trabalho. Quanto menos se envolvesse, menos chance teria de ser descoberto. Como tudo estava, aos olhos dele, finalizando, poderia começar a abusar.

Bebeu, como não bebia há tempos. Riu, como se fosse um bobo da corte. Os colegas nunca viram aquele lado descontraído. Eles estavam descobrindo a face oculta e leve de Eulálio, já que ele sempre estava atento e tenso no estágio. O happy hour foi esticando, pularam de bar. Conversavam sobre futuro, sonhos, desejos. Eulálio revelou que queria ser bem-sucedido para provar à família o quanto era capaz.

Numa dessas reflexões, foi ao banheiro. Se olhou no espelho. Estava embargado. Bêbado, também. Não se reconhecia. Aquela saideira estava deprimindo-o. Tinha aula bem cedo, além de ter que finalizar uns parágrafos de um trabalho a ser entregue naquele dia seguinte.

Ao retornar para mesa, viu a prima Suzana passar. Eles se viram, se acenaram e ele, com medo de que ela quisesse se juntar ao grupo e colocar a farsa da sua origem a perder, correu para o meio-fio:

– Lio, você na pegação, em pleno dia de semana? – surpreendeu-se a prima.

– É tanta pressão no estágio do banco… Precisei relaxar. Saindo da aula agora?

– Sim. Mas estou sem cabeça, nem tenho condições de te acompanhar. Fica pra próxima!

Suzana estava distante, pensativa, fechada. Não se lembrava de ter visto a prima assim. Alguma coisa relativa a homem deve ter acontecido. Ao voltar à mesa, um dos garotos do estágio tinha ficado com a prima e brincou com Eulálio. Este disse que a conhecia da faculdade e, com falsidade, se fez de assustado, ao descobrir naquele momento que ela era uma Bersani.

Desmotivado, sentindo-se sozinho, como se fosse um ser desconhecido, não quis voltar para casa. Topou ir para uma boate. Bebeu mais, dançou e ficou com uma garota até o fim da noite. Não conseguia se lembrar do nome dela, até porque tinha mentido o dele.

A garota tinha carro. Ao perceber o quanto ele estava ruim, ela decidiu que não valia a pena transar com ele. Em casa, na cama, Eulálio deitou na hora em que o celular apitou, com o horário de despertar diário. Ele olhou para o teto. Tanta mentira, tanta falsidade. Ninguém o conhecia, nem na faculdade, nem as primas, muito menos no estágio. As duas famílias não sabiam dos seus desejos, do que ele queria. Era frustrante e decepcionante. O garoto resolveu entregar os pontos. Não ia a aula, tomaria zero no trabalho e mataria o estágio. Estava fechado para balanço.

No entanto, a sorte estava do lado dele, sempre esteve. Não teve chamada naquele dia, o colega fez o trabalho e colocou o nome de Eulálio, por todos os galhos que ele quebrou, e, no estágio, abonaram a ausência sem que ele perdesse a remuneração. Quando parasse de olhar para os outros e passasse a focar no interior, Eulálio enxergaria o quanto de potencial ele tinha. Seria bem mais feliz.

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