COMUNHÃO – Camila

Invejou a serenidade de sua mãe, Constância. Isso era uma primeira vez para Camila. Sempre se via tão diferente da progenitora, tão afastadas. Não desejava ter qualquer laço ou vínculo com ela, muito menos, qualquer semelhança. Contudo, ao vê-la tão tranquila e perseverante, rezando na Igreja de Santo Antônio, teve vontade de absorver como as pessoas conseguem ter fé.

Católica por formação, Camila sempre considerou a religião como obrigação. Tem que ir a missa todos os dias, tem que confessar uma vez por ano. Seguindo o caminho natural, teve de fazer primeira comunhão, passar pela perseverança e cair na crisma. Em todos esses momentos, nunca se sentia tão próxima de Deus. Achava que era mais mulher de ciência do que de fé. Custava a acreditar no poder do divino, do sagrado.

Apesar de ser tão prática, Constância demonstrava uma proximidade grande e certeira com o Todo-poderoso. Anualmente, ela arrastava a filha à igreja para poderem agradecer uma cura milagrosa  Aos quatro para cinco anos, Camila teve nefrite. Foi assolador, embora a garota não se lembre de nada. Ela se deitou tranquilamente e, no dia seguinte, estava inchada, monstruosa, defeituosa. Passou uma temporada longa internada, sempre insistindo para que saísse de lá. Talvez nunca tenha cogitado cair numa área de saúde pelos traumas.

Por ter se recuperado sem qualquer sequela, Constância prometeu, em todo ano aniversário daquele incidente, doar cestas básicas a alguma instituição de caridade, além de rezar uma missa ao Santo que deu nome ao seu pai, o avô de Camila. Na época, o senhor Antônio quase se compadeceu pela neta. Não saiu do hospital, chegou a pernoitar em hotéis perto do local. Tão diferente de Lina e do resto dos Bersani’s…

Então, naquela quarta-feira, Camila teve de se juntar à mãe, obrigada, mais uma vez, a pagar sua conta perante o Senhor. Sabia que era um desrespeito pensar dessa forma. Só que não fora ela que adquiriu a dívida. Por que tinha de arcar com uma promessa feita por sua mãe, sem ser consultada na época? Parecia injusto e também enfadonho. Tinha de chegar mais cedo e rezar um rosário. Como tinha sido rápido, a mãe meditava, enquanto ela rememorava os fatos da sua doença:

– Fiz outra promessa para você. Acho que fui atendida. – Constância falou da maneira mais suave e delicada.

Camila ficou ressaltada, de sobreaviso. Desde quando estava precisando de algo em sua vida? Outra promessa como aquela seria um disparate:

– Esse ano será o início do seu sucesso, da sua ascensão. Eu vou ajudá-la. Vou colocá-la num prumo profissional.

Constância deixou de ajoelhar, sentou-se no banco e sorriu de soslaio para a filha. Esmola demais, o santo certamente desconfia. Camila podia não ser pura e casta como os mártires católicos, mas compreendia que a atenção e o cuidado da mãe vinham com algum preço, um sacrifício:

– Todos os seus primos fizeram ou fazem estágio. Você, quase no meio da faculdade, não arranjou nada.

Camila fez cara de contestação, Constância a silenciou com o olhar e dois tapinhas no braço da filha:

– Eu não estou brigando, estou pontuando o que vejo. Me preocupo contigo. Sua avó Lina já deixou escapulir várias vezes o quanto acha que suas escolhas são errôneas. O que você vai fazer formada em Ciências Políticas?

Camila estremeceu. Quase compartilhou, no trajeto para a igreja, o que andava pensando: trocar de curso. Ainda bem que se conteve. Era ilusão achar que tinha alguma conexão pura com Constância:

– Eu sabia que tinha a vovó nesse meio… – comentou mais para si mesma.

– Eu acho que a Lina está certa no que diz. Não quero que você troque de curso, faça o que quer. Porém, eu e seu papai concordamos que você deve ter uma outra ocupação. Decidimos que você deve ter um emprego, nem que seja de meio expediente.

– Você e meu pai decidiram? Como assim? – exasperou-se.

– A situação não pode ficar desse jeito. Todos estão conquistando, ganhando independência. Até a Bianca passou a procurar um estágio. Faz prova para defensoria ou promotoria, não sei. Soube que ela ficou uma semana num escritório.

– Mãe, ela detestou. Deu errado. Colocaram ela numa área que ela considera terrível, tributário.

– Mesmo assim, ela tentou. Até ela que só estuda e lê decidiu que é hora de progredir, fazer contatos. Você está parada, filha.

– Isso não deveria ser escolha minha? O futuro é meu!

– Você tem razão, mas como vive debaixo do nosso teto, vai ter que arcar com nossas imposições. Tudo isso é para o seu bem. – Constância transmitiu temor.

– Um argumento de autoridade? Como competir com ele?

– Não é autoridade, é preocupação de mãe. Quero seu melhor, por isso, estou informando a você que na segunda seguinte você tem uma entrevista de emprego. Isso é tão excitante.

– Eu tenho o quê?

A música começou a tocar para a chegada do celebrante. Uma leitora se pôs a pronunciar a mensagem de entrada, em seguida, pontuou as intenções. Constância estava de pé, enquanto Camila permanecia sentada, derrubada, incompreensível e incompreendida.

A mãe cantava a música de entrada, no momento em que ela não se conteve. Levantou-se e sussurrou no ouvido dela:

– Que história é essa de emprego, mãe?

– Explico melhor depois. – e continuou a cantar.

– Pois fique sabendo, desde já, que não vou.

– Vai sim! Não vai fazer uma desfeita com meu amigo de longa data, o doutor Jairo.

– Ah, entendi. Vou ser como a senhora, antes de casar. Serei secretária do doutor Jairo. Inacreditável!

– Tão esperta, você! Mas errou por um detalhe. Você vai trabalhar para o filho dele, que também fez odontologia, o Leonardo. Quem sabe vocês dois…

Ela deixou no ar a sugestão. No entanto, era Camila que estava suspensa, sentindo-se apunhalada pelo pai, por ele não ter comentado nada a respeito dessas conversas conspiratórias. Pecado era, ainda mais na casa de Deus, mas odiou a mãe por obrigá-la a ser, a agir e a se parecer como ela. Não queria ser igual à Constância. De jeito nenhum, isso era um pesadelo.

A missa voou. Camila ficou no automático. Não absorveu nada do que foi dito. Ao fim, depois da bênção, levantou-se e saiu sem olhar a mãe:

– Camila! Vamos falar com o padre.

– Não, mãe. Vou seguir meu rumo. Nos vemos depois.

Saindo da igreja, enfim sem os olhos maternos, recostou-se na parede. Que cobrança difícil! Que novidade tenebrosa! Por que estavam lhe impondo mais isso? Por que não podia ter ou fazer o que queria?

– Camila! Não sabia que você vinha nessa igreja. – era Bianca. – Veio assistir a missa carismática das oito e meia? É ótima. Sempre que posso, quando não tenho tanta coisa, venho aqui.

As duas se abraçaram. Camila permaneceu encostada:

– Não. Chega de missa. Nada tem jeito mesmo.

– Não fale assim. O que foi?

– Imposições. Não aguento mais ser impelida a fazer o que não quero. Se pudesse, eu sumia.

Bianca pegou a mão da prima. Compartilhava desse sentimento. Porém, não sabia se teria forças para consolar quando ela mesma também se encontrava retraída, menosprezada e impossibilitada.

Na verdade, naquela noite, Bianca não teve de fazer nada. Só escutou, sendo solícita. Elas caminharam juntas até chegarem em casa. Juntas, em comum, ambas precisavam apenas reforçar a ideia de que nem tudo estava comprometido e decidido.

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COMUNHÃO – Bianca

Adentrando velozmente numa pequena Igreja de Nossa Senhora Aparecida, Camila, de cara, percebeu que estava vestida inapropriadamente, com calça jeans e blusa de alcinha fina. Todos estavam bem arrumados demais para sete da noite. Ela estava (ou era)  simplista. Bianca transparecia um ar chique também. Usava um conjunto bem cortado de saia e blazer num azul marinho fechado:

– Desculpa não ter te encontrado antes. – disse Camila, beijando a prima. – Eu não consegui passar em casa. Vim direto pra cá.

Bianca permaneceu ereta, de olhos fechados, como se rezasse:

– Tudo bem. Agradeço ter aceitado o convite. Eu tinha de comparecer, mas não podia estar sozinha. Eu cheguei mais cedo. Pra rezar.

– Eulálio vem? Ele era chegado na Tânia.

– Lio era afim dela. Ele não vem. Nunca viria. A Tânia conheceu o marido na mesma noite em que deu um toco no Eulálio.

– Ui! Não sabia disso. Quem serão os padrinhos do pequeno? – inquiriu Camila, arrependendo-se em seguida.

– O irmão dela que vem de Manaus e a Lulu. – respondeu secamente.

Bianca não se conformava. Era ela quem deveria ser a madrinha do primogênito da grande amiga. Ou seria ex-amiga e não quisesse assumir isso? Prometeram, desde crianças, que seriam comadres assim que os rebentos nascessem. Porém, Tânia tinha chegado à maternidade rapidamente, claramente com sinais de esquecimento. Nem cogitou em chamar Bianca para madrinha de toalha. Preterida, a garota estava fingindo alegria por um momento especial e acabada por dentro pelo descaso.

Apesar de terem se afastado, Bianca nunca quis acreditar que fosse se tornar incompatível a Tânia. Elas eram tão íntimas. O noivado pôs fim à junção. Já no casamento, fora convidada apenas por mera formalidade. Não pertencia mais ao círculo íntimo da amiga:

– Olha a Suzana! Você a chamou? – Camila interrompeu os pensamentos da prima. No mesmo momento, acenou para a recém-chegada.

As duas sentadas não deixaram de notar, chocadas. Suzana estava deslumbrante num vestido de pêssego bem curto e marcado. Não era traje para uma missa, mas sim para uma festa:

– Que roupa é essa? Vai a uma formatura? – Camila teve de perguntar.

– Que nada! Eu estou tão normal. – Suzana respondeu. – Chega pra lá, Bianca! Tenho de ficar na ponta.

– Por que, Suz?

– Tudo bem, eu confesso. Tenho de aparecer nesse evento.

– Mais uma vez, por quê? – Bianca repetiu. – Você e Tânia não se dão pelo que eu saiba. Sempre tiveram uma animosidade.

– Deve ser por causa de homem. Não acredito que você pegou o marido dela?! – soltou Camila.

– Acho que sou muito previsível… Foi por homem sim. Só não foi aquele marido feioso e asqueroso dela que me cantava insistentemente. Foi o irmão. Ele me convidou pessoalmente por telefone semana passada para o batizado.

– Você pegou o Carlos? – Bianca ficara assustada. – Como eu nunca soube disso?

– A história é simples e rápida. Foi uma vez só, numa noite. Ele se apaixonou perdidamente. Ficou insistindo depois dessa transa única. Eu não sou de namorar. – ressaltou Suzana. – Aparentemente fiz ele sofrer demais.

– Shiu. Chega de conversa, já vai começar. – cortou Bianca.

– Até que enfim. Quero que isso acabe logo. Quem tem tempo de batizar em plena sexta-feira? Foi um custo pedir dispensa depois do almoço no estágio pra poder me produzir.

– Agora é fato. Estou um lixo! – concluiu Camila.

A cerimônia de batismo foi linda. No entanto, Bianca nem prestou tanta atenção. Só se imaginava na posição de madrinha, segurando o afilhado, rindo para fotos, abençoando-o. O tempo todo se fantasiava naquela posição. Por outro lado, Suzana passou a missa toda se insinuando a Carlos, que não desgrudava os olhos dela, para ódio de Tânia que não ia aceitar o irmão cair na teia de uma típica predadora de novo. Camila reparava nas pessoas, decidindo se vestir melhor dali em diante.

No final, elas foram cumprimentar as pessoas no altar. Naquele burburinho, fizeram uma descoberta interessante que chateou Bianca mais um pouco:

– Suzana! Você não se modifica, está igual! Nos vemos na recepção depois? – Carlos revelou, sem imaginar que as três primas não foram convidadas. – Temos tanto o que conversar.

– Recepção? – Bianca murmurou a si mesma, incrédula.

– Que anel é esse?

– Estou noivo em Manaus, Suzana.

– Ah… Parabéns, querido! Boa sorte! Vamos ver o novo cristão. – disse sem graça.

Ao se afastarem de Carlos, Bianca percebeu a cara de insatisfação da prima:

– Suzana, você não achou que ele ia se guardar para você, achou?

– Achei. Ele tinha cara de apaixonado.

– Cara de safado, isso sim. – comentou Camila. – Está noivo e desejando. Parabéns, você conseguiu o que queria. Ele está no papo, é só carregá-lo para o quarto e… O resto é contigo. Com a segurança de que ele voltará a Manaus, sem insistências.

– De jeito nenhum! Estou fora dele. Do jeito que ele é, se eu pegá-lo, ele termina o noivado por telefone por minha causa. Não quero essa confusão de novo.

Camila e Suzana cumprimentaram pais e padrinhos muito rapidamente. Já Bianca fez questão de papear e agarrar um pouco com as pessoas. Na vez de Tânia, brotou um silêncio constrangedor. Era claro que as duas se lembravam do pacto:

– Parabéns, Tânia. Você escolheu muito bem os padrinhos.

– Apenas segui meu coração. – ela disse sem graça.

Com a deixa sentimental, Bianca extravasou no que sentia.

– Eu sinto muito que estejamos afastadas. Era inimaginável essa distância. Queria tanto manter você perto de mim. É difícil aceitar que fizemos promessas falsas. Eu ainda te considero muito.

– Bianca, esse não é o momento. Podemos marcar um almoço, que tal? Eu te ligo – Tânia tentou contornar, meio sem graça.

– E a recepção mais tarde? Não seria um bom lugar para conversarmos?

– É só para família e amigos íntimos. – Tânia deixou escapar. Bianca estava indignada. – Você sabe como essas coisas são caras. Não dava pra fazer festa grande.

– Você mudou muito, não é a minha amiga que conheci.

– Eu não tenho culpa de ter amadurecido e ser uma mulher decidida. Não consigo ser contemplativa, ver as coisas e ficar quieta, esperando.

– Você está me julgando? Até você?

Percebendo que o embate já chamava atenção, as primas se colocaram ao lado de Bianca:

– Vamos, querida. Outras pessoas querem cumprimentar a mãe da criança. – disse Camila.

– Vamos, Bianca. Vamos ser contemplativas na noitada, vendo muito homem bonito e disposto a nos beijar, enquanto a Tânia contempla choro e cocô de neném. – remendou Suzana, para espanto dos que escutaram o comentário.

Na porta da Igreja, Bianca ameaçou chorar. Camila a abraçou:

– É tão injusto. Ela era minha amiga. Como foi capaz de me dispensar tão rápido?

– As pessoas são individualistas. Pensam só em si. – respondeu Suzana.

– Bibi, você está vendo isso errado. Quem saiu perdendo foi Tânia, não você.  – consolou Camila. – Esse tempo todo em que você se lamentou é prova da boa amiga que você sempre foi.

– Ao contrário dela que ia te deixar na mão eventualmente. – costurou Suzana.

– Foi melhor assim. Você sai ganhando ao se afastar dessa insolente.

Mais resignada, Bianca sorriu. As primas tinham sido esplêndidas:

– Vamos para casa? Está de carro, Suzana? – perguntou Camila

– Que nada! Eu não falei por falar. Nós vamos farrear, só as garotas. Com um telefonema, nossos nomes estarão na porta, sem problemas! Vamos celebrar nossa conversão à solteirice. – Suzana brincou.

– Isso está mais para crisma, não? Reafirmar nossa condição de desimpedidas? – sugeriu Bianca.

As três se abraçaram e riram. Apesar do incomodo, Bianca não se arrependeu de ter ido ao batizado. Ela percebeu que precisava ter visto o novo panorama para poder se libertar.

COMPETIÇÃO – Bianca

– Acorda, babona, chegamos. – assustou-a Nei, dando petelecos na sua cabeça.

Apesar da truculência, Bianca estava feliz por ter chegado à corrida das empresas Bersani’s. O dia prometia ser esplêndido, com muita agitação, união e descontração. Não suspeitava que seria tudo ao contrário:

– Eu não sei por que você não ficou em casa. Está morta de cansada! Vai ser a última. Que vergonha! – disse rindo, o irmão mais novo, de maneira quase profética. Fernando, o mais velho, também achou graça.

Assim como os pais, Bianca fingiu não se importar. Depois que estacionaram, ela resolveu se afastar rapidamente da família. Ao olhar duas mulheres conversando como duas matracas, recordou-se de Tânia, sua melhor amiga do colegial. A lembrança mais antiga das corridas envolvia o afeto das duas que sempre arranjavam um jeito de aproveitar aquele dia ao máximo. Desde que a companheira se casou, essa era a quarta vez em que Bianca estava sozinha.

Quando avistou Eulálio, pensou estar salva. No entanto, ele deu um jeito de despistá-la. Enquanto vagava, encontrou Camila. A prima tinha sido tão ríspida e egoísta. Como as pessoas podem ser tão idiotas, além de depreciadoras sem custo algum!

– Olha, Nei! É a Bianca. Já desistiu! – apontou Fernando.

Ela estava sentada na calçada, ao lado do espaço de guarda-volumes, tentando ficar esquecida e isolada:

– Ela está no lugar que merece. Na sarjeta!

Os dois explodiram de tanto rir. Bianca quase chorou, até que reparou na cara de Nei:

– O que foi com seu rosto? Parece que você tomou um… soco.

Sem graça, Nei bufou nervoso. Fernando olhou o irmão com mais afinco e concordou com a cabeça, dizendo:

– Parece mesmo… É um soco! Como assim?

– Claro que não! – gritou. – Onde já se viu? Eu? Levar um soco? Eu bato! Isso foi um tombo no pátio. Não vi alguém deitado.

– E não colocou as mãos para amparar a queda? Você foi de cara no chão? Você teria um reflexo! – comentou Bianca.

– Cala a boca! Você não é perita. Forma primeiro, futura advogada de cadeia. Quem é você pra saber das coisas? Por isso, ninguém gosta de você. – atacou Nei.

– Acho que você está descontando em mim. – articulou a garota, levantando-se.

Nei partiu pra cima dela. Agarrou-a e a espremeu na parede da tenda. Fernando não fez nada, só ficou sério:

– Você pensa que me conhece? Ninguém me conhece. Ainda terei tanto poder e os farei arrastar aos meus pés, implorarem por minhas migalhas.

– Você está me machucando… Me sufocando… – tentou escapulir.

– Vou te contar uma coisa, Bianca. Você não vale nada. Merecíamos um prêmio por te aturar. Sempre com essa cara dócil, o ar de estudiosa. Que tédio. Minha vontade era te encher de tapas ou te fazer sofrer, imprestável.

– Eu não tenho culpa pela sua frustração, idiota.

– Cala a boca! Um dia, você vai cair na minha mão. Vai ver o que é bom.

Aquelas palavras eram para Eulálio. Todavia, Nei dirigiu a alguém que dominava e atormentava desde que se entendia por gente. Bianca teve medo. Pela primeira vez, deparou-se com um lado psicótico do irmão. Até Fernando ficou ressabiado.

Com aquele ato, a garota reconfirmou que não tinha nenhum amparo familiar, não possuía qualquer comunhão com os Bersani’s. O jogo estava perdido, sem esperança. Ninguém estava interessado em conhecê-la, só queriam se impor.

Lembrou-se de como era obrigada a ter serviços de casa, a arrumar armários e estantes, enquanto os irmãos brincavam. Ela tinha de recolher as roupas deles diariamente. Por imposição da mãe, aprendeu a cozinhar, embora não tenha feito questão de se aprimorar. Engoliu em seco e com raiva, ao recordar o forte desejo dos pais de despachá-la para um marido, longe de todos.

Depois da opressão fraternal, Bianca não sabia o que fazer. Queria um porto seguro, alguém apenas para lhe dizer que tudo ficaria bem. Teria sido tão libertador se ela tivesse encontrado com Suzana. Como a corrida estava prestes a começar, ela decidiu procurar pela prima no local de largada. Olhando, esbarrando, confundindo, não teve sucesso. De repente, um apito disparou. Bianca foi levada pela massa a correr. Não desejava participar daquilo, nunca mais. No entanto, seguiu o fluxo.

Forçando mais do que devia a fim de provar a si mesmo que era capaz, ela foi ficando cada vez mais sem fôlego. Começou a perder a sensibilidade das pernas, depois das coxas, braços… De súbito, tudo ficou vermelho. Ela só conseguiu se levar para o canto e desmaiou na grama do passeio.

Assustada, estava num ambiente branco, numa tenda. À sua frente, estavam Eulálio e Camila:

– O que aconteceu comigo?

– Você apagou. Veio de ambulância – respondeu Camila. – Eu estava correndo atrás. Parei quando te reconheci. Tinha muita gente em volta.

– Quero sair daqui!

– É melhor descansar, prima. – disse Eulálio, obrigando-a a se deitar.

– Eles querem saber se você comeu, se tem algum problema médico. Dissemos não saber para primeira pergunta, e não para a segunda. O que aconteceu contigo?

Antes que ela respondesse, Suzana rompeu pela tenda:

– Camila! O que você está fazendo aqui? Bombei na corrida! Fiz quase 14 km/hora, nunca… Bianca? Você está tão pálida! O que foi?

– Acho que isso não vai te interessar, Suzana. Afinal, você já deve ter arranjado um carinha para a segunda rodada de sexo devasso. – alfinetou Eulálio.

– Qual é o seu problema? Deve ser inveja por não conseguir aproveitar como eu. Que recalcado!

– Prefiro ser recalcado e prudente a ser indecente.

– Eu não estou entendendo. – intrometeu Camila.

– Peguei Suzana fazendo sexo na sala do pai dela. – Camila e Bianca se assustaram com a revelação de Eulálio. – Isso é um desrespeito. Sem falar no Igor.

– O que tem o Igor? Ele não é meu namorado.

– Não é o que parece do jeito como vocês circulam por aí.

– Você é ridículo, Eulálio!

Antes que os dois se agredissem na tenda de enfermagem, Bianca gritou:

– Para! Chega! Eu não aguento mais isso. Só brigas, discussões, falta de apoio. Estou cansada de ser massacrada pelos outros, de não ter ajuda e um ombro. Passo por tantos problemas e não consigo contar com ninguém. Acho que passei mal por isso. Estou cansada, desamparada, deslocada…

Bianca soluçou, antes de chorar. Camila logo teve lágrimas nos olhos. Eulálio ficou embargado. Suzana estava descrente:

– Vejam nós quatro. Nós brincamos juntos, crescemos juntos. – Bianca repercutiu. – Mesmo assim, não nos importamos uns com os outros. Sofremos dentro da nossa família, por pessoas que nos atacam, mas não nos ajudamos. Nunca nos oferecemos para nos proteger. Somos muito egoístas e egocêntricos. Não quero mais. Prefiro morrer então.

Aquilo foi um marco. Ou talvez fora o primeiro chacoalhar. Ninguém pôde comentar algo. Eulálio, contrariado, beijou a prima na testa, disse que tinha um afazer na corrida e mais tarde ligava:

– Vai ser a primeira vez que não vou voltar com medalha. – ironizou Bianca, com Camila, ao seu lado, reprimindo um riso.

– Você quer a minha? – ofereceu Suzana, aproximando-se.

– Não. Eu arranjo medalhas para vocês duas. – prometeu o primo.

– Merecemos. Certamente somos campeões. – concluiu Camila. Ao ver a desilusão no rosto de Bianca, emendou. – Um dia, seremos.

Os quatro sorriram solidariamente. Depois de Bianca se recompor, Suzana pagou um táxi até a casa de cada uma. Não conversaram nada. Só refletiram. O percurso a ser cumprido prometia ser bem complicado.

COMPETIÇÃO – Camila

Mesmo não correndo, preocupada com os estudos, desanimada por acordar cedo, Camila curtia muito fazer parte da corrida anual da família. Participar com afinco não era uma tipificação precisa. Sobre sua presença, a garota só completava a prova por pura formalidade, uma das últimas. Gostava mesmo do convívio. Apenas circular, conversar e interagir com qualquer pessoa já era um tremendo ganho. Em todas as edições, ela sempre experimentava um sentimento de pertencimento e de encaixe, além de uma maior proximidade familiar, embora ainda não tivesse encontrado ou experimentado os benefícios em ser uma Bersani.

Dentro do carro, o pai, Pedro, em silêncio, a olhava pelo retrovisor. Os dois sorriam entre si, enquanto a mãe, Constância, discursava sobre a preocupação que ela sentia por Dona Lina, hospitalizada desde a noite anterior. Pura falsidade! Elas não se gostavam, mas a nora fazia de tudo para ser aceita e agradar a sogra-general. Na verdade, só os três netos mais velhos – Fernando, Sandro e Nei – e o filho primogênito – Mateus, o pai de Suzana – conseguiram ter acesso aos exclusivos carinho, respeito e reciprocidade da matriarca.

O resto da família garantia amargura, raiva, ódio e medo daquela figura. Pedro e Camila nunca conversaram sobre isso. Eles se entendiam sem palavras sendo proferidas. O pai sempre teve a técnica de se afastar da progenitora. Envolto nas questões técnicas de produção nas fábricas, evitava interagir com a mãe. Vinha dando certo. Por isso, Camila sabia o quanto o pai estava satisfeito pela ausência de Lina na corrida. Ao invés de posar no evento, ele poderia se enfurnar em algum canto e resolver problemas pendentes. Não era viciado em trabalho, tinha prazer. Como ela queria ser como ele!

Assim que Pedro escapuliu, dando um beijo carinhoso apenas em Camila, mãe e filha não souberam como se comportar. De fato, estavam prestes a declarar guerra uma contra a outra pelo futuro profissional da garota. Sozinhas, eram palpáveis a tensão e o incômodo de um embate a vias de estourar. Por sorte, as parceiras de caminhada de Constância chamaram-na para aquecerem. E fofocarem.

Circulando pelas pessoas, refletiu, mais uma vez, a respeito das rédeas da própria vida. Em sua percepção, não achava que alguém dominava ou decidia por ela. Só constatava que ainda não tivera a oportunidade de se guiar. Não havia encontrado a forma de se governar, ou melhor, não conseguiu definir suas prioridades e necessidades. Achava que estava parada, sendo retida como os corredores na largada. O futuro de Camila era como a pista vazia, lisa e limpa a ponto de ser tomada em instantes. Ela só se ressentia de o tempo estar correndo, e de o estouro do início não ressoar nunca:

– Prima, me dá essa camisa. – gritou Bianca, ao mesmo tempo em que puxava uma blusa e consequentemente a bolsa a tiracolo da prima.

De súbito, Camila foi mais forte, impedindo que a outra obtivesse êxito:

– Você está doida, Bianca? – disse, retirando a camisa de seu pai e a estendendo-a. – Por que você quer isso? Eu saí com ela do carro e o pai esqueceu de pegar comigo.

– Presta atenção! É uma camisa de organizador, vale ouro. Eulálio conseguiu uma e não vai correr. Não posso participar também. Quero poder pular a corrida.

– Sinto muito. Ela é minha. Quem não vai correr sou eu.

Camila vestiu a peça por cima da que estava. A decepção brotou clara no semblante da prima:

– O que foi? Você está bem?

Bianca ameaçou falar, baixou a cabeça e se retirou. Pelos breves segundos, Camila conclui que algo perturbava a prima. O olhar triste e sombrio, a expressão de resignação e tristeza e o corpo encurvado e decepcionado entregaram um perfil melancólico e atormentado.

Infelizmente a falta de exercícios impediu que ela alcançasse Bianca. Esta foi mais rápida ao escapulir. Rodando em volta das pessoas, assustou-se quando uma prancheta apareceu em cima dos seus peitos:

– Você poderia participar de uma pesquisa? – um André sorridente e casual aparatou na frente dela.

– O quê? Como assim? – foi o que ela conseguiu pronunciar.

– Estou ajudando um amigo na definição do perfil dos corredores. Quem são, o que fazem, por que motivo participam de corridas… Você me daria a honra de conhecê-la melhor?

– Não! – respondeu incrédula, dando meia volta.

André se prostrou em frente dela:

– Desculpe-me, nem cumprimentei. Como está, Camila?

– Em que sentido? Tenho tantas respostas pra isso.

– Na vida, oras? – disse ele rindo. Ao que parecia, ele estava à vontade com o primeiro encontro fora da faculdade, após a ficada.

– Vou bem mal. Estou com notas vermelhas. Preciso recuperar. Não consigo me concentrar, acho tudo um desperdício. Estou sem noção do que fazer, me sentindo inútil, irritada e desafortunada. E você, vai bem?

André ficara estático com aquelas palavras. Ele não esperava que ela estivesse tão conturbada:

– Por acaso, eu tenho algo a ver com isso tudo? – soltou de maneira séria e cortante.

Mentir ou dizer a verdade? Queria confessar, mas se sentiria ridícula. Queria mentir, mas passaria a ser uma falsa, uma farsa. Arrependera-se, pela primeira vez, por ter ficado com seu professor. Nunca conseguiria ser honesta e verdadeira:

– É tudo tão complicado… É melhor deixar pra lá. Foi bom rever você, André. Não responderei ao questionário. Como vê na minha camisa, sou organizadora.

Deu um meio-sorriso e virou. André a pegou pelo braço, virando-a:

– Você quer ser a Carolina mais uma vez? – sussurrou com os olhos ardentes e prometedores – Eu quero ser Anderson de novo. Podemos sair daqui e ficarmos. Acho um pecado resistirmos…

Tremenda proposta. Camila tremeu. Que tentação! Que sonho se tornando realidade! Ter André em seus braços era o que ela precisava. Sabia que ia ser bom, sabia que lhe acalmaria, que a faria ficar mais que feliz. No entanto, seria supérfluo, transitório, irreal, sofredor:

– Não. – ecoou sincera por fora, devastada por dentro. – Eu prefiro correr.

Tirando a camisa de organizador, Camila dobrou-a, colocou-a na bolsa e deixou tudo no guarda-volumes. No meio dos corredores, eles pulavam em excitação, conversavam e riam. Ela estava apática, abandonada, mas certa de que correr de André era o certo a fazer. Não percebeu que, às vezes como quase sempre na vida, as corridas tendem a terminar no lugar onde começam.

COMPETIÇÃO – Suzana

– Você está mordendo os lábios? Pra que tanto mau humor? – Sandro debochou.

Suzana virou o rosto para o vidro e fechou os olhos. ‘Abstraia’, sussurrou a si mesma:

– Quem disse que você precisa correr mais uma vez? Eu descolo uma medalha pra você, se isso é tão importante. – continuou o irmão. – Você queria dirigir e ficou me apressando, nem pude ter minha foda matinal. Acho que você tem que se colocar no seu lugar de mulher e irmã mais nova.

Aquilo bastou:

– E você deveria ser mais respeitoso, que tal? Ou é muito pra sua pouca capacidade? Eu quis vir dirigindo porque você deve estar cansado, pois ficou fodendo a noite toda. Apressei porque combinamos de ir juntos, já que meu carro está no conserto. Estou arrependida por querer ser ecológica e economizar. Deveria ter vindo de taxi. Assim, antes de você chegar à corrida, poderia dar a foda matinal na porta da casa dela. Que lugar deplorável ela mora. Depois quer que eu não comente.

– Do jeito que te conheço, isso é abstinência. Você não pode ser homem, você não pode ser pegador como nós. Por isso, para seu bem, falo para se colocar no seu lugar de mulher, de submissa.

Suzana virou e o olhou da maneira mais arrepiante e enervante possível. Sandro desviou por estar dirigindo. Caso contrário, não aguentaria meio segundo e ficaria arrependido.

Ao chegarem, Suzana bateu a porta do carro e dispensou o irmão. Disse a ele que voltasse sozinho, ela se arranjaria. Com raiva, nervosa e sem concentração, Suzana pôs-se a alongar rapidamente. Queria comer uma barra de cereal e ir ao banheiro antes de se posicionar.

Enquanto se esticava, notou que um homem a olhava. Sem paciência para o sexo masculino, disparou:

– Isso é assédio. Eu vou chamar a segurança.

– Posso alegar que fui provocado! – ele rebateu com inocência, enquanto Suzana fazia uma cara de incrédula. – Sua calcinha vermelha está aparecendo. Me desculpe, é uma peça muito sexy, de renda. Com a luz do dia, dá pra ver todos os contornos.

Suzana se reparou e constatou que ele estava certo. Toda a sensualidade transparecia nela:

– Você pode ser a miss competidora ousada da Corrida das Empresas Bersani. – ele debochou.

Em outra situação, Suzana ficaria lisonjeada e flertaria com ele. Foi a vergonha que irrompeu nela, fazendo-a sair em disparada. O garoto correu atrás, receoso de que ela o fosse acusar a alguma autoridade.

Suzana só queria tirar aquela calcinha. Correu para o interior da fábrica, encontrou com uma das faxineiras, conhecida dela:

– Lúcia, preciso de ajuda. Por acaso no seu armário, você não tem uma calcinha extra? Preciso trocar a minha.

– Claro. Vou pegar pra você já. A sala do seu pai está aberta. Vá pra lá, eu levo.

Nesse momento, o garoto a encontrou sozinha num dos corredores:

– Eu quero me desculpar. Não quis ofender. Eu e minha boca, por que tive de ser tão linguarudo?

Suzana queria brigar com ele, mas notou haver sinceridade, além de uma beleza inocente e pura. Ela ia testá-lo:

– Como se chama?

– Luca.

– Você faz o quê?

– Sou vendedor. Trabalho numa livraria.

– Vem comigo. É a sua forma de pagar pelos comentários contra mim.

Suzana abriu a porta da sala de seu pai, deixou-o entrar e pediu que aguardasse. Ela esperou por Lúcia no corredor. Assim que a conhecida entregou uma calcinha simples e bege, ela entrou e não trancou a porta.

De frente para Luca, ela tirou os tênis, as meias e desenrolou o shortinho. Lentamente, acompanhando toda a excitação e espanto dele, ela despiu-se da peça íntima. Caminhando de maneira sedutora e paciente, ela foi até Luca, que naquele momento parecia não respirar:

– Toma. Quero que você fique com minha calcinha. Guarde-a como lembrança.

Suzana deixou a calcinha cair no rosto do rapaz. A peça escorregou e parou no colo dele. Ela percebeu a excitação pulsante na fina bermuda:

– Como faz… se eu quiser… talvez… – balbuciou Luca. – Se eu desejar ter outra lembrança sua?

Antes que Suzana respondesse, ele se levantou e partiu pra cima dela. Só deu tempo de caírem em cima do tapete central do escritório. Por acreditar que o espaço estivesse vazio, com todos ocupados na corrida, os dois não pouparam nos gritos e nos sussurros. Por isso, rapidamente atingiram o orgasmo, não percebendo que a porta se abrira.

– Que sacanagem é essa? – Suzana, ainda de olhos fechados pelo prazer jubiloso, manteve-os assim. – Suzana Bersani, você ultrapassou todos os limites!

– Puta que pariu! Bersani? Desculpe o palavrão, foi um rompante. Você é a dona dessa corrida? – perguntou Luca, num sobressalto, vestindo-se desesperadamente.

– Cara, antes que dê problema, saia daqui. A corrida está prestes a começar. Vá se exercitar mais, se ainda se sentir capaz. – disse com deboche.

Suzana permaneceu deitada, séria, de pernas abertas, como se estivesse se recompondo:

– Que vergonha! Na sala de seu próprio pai, com um estranho, enquanto toda a família está espalhada por aqui? E se a poderosa Lina te pega?

– Ela não vem hoje. E não me importo com as opiniões alheias. Eles iam falar o que falam há anos. Que sou uma vagabunda inútil.

Após a resposta, Suzana se levantou e naturalmente circulou pela sala, recolhendo as peças de roupas e se vestindo:

– Não tem vergonha de mim? De seu primo?

– Não, Lio, nunca tive qualquer vergonha de ti, nem de mim. Embora pareça que você, logo você, que também sofre com um desprezo e um ódio de nossos familiares, esteja me julgando como nossos algozes.

– É diferente. Isso aqui é uma pouca vergonha.

– A pouca vergonha que fiz agora, foi igual a que meu tio, seu pai, fez com a sua mãe. Você é fruto de algo assim, às escondidas, dentro do império Bersani. Mas hipocritamente condena. Meu caro, é preciso rever seus conceitos. – disse Suzana, já vestida, dando dois tapas de leve no rosto do primo.

– Por que todo mundo deu para citar minha mãe hoje?– questionou Eulálio.

Sem respondê-lo, ela se dirigiu ao pátio. Sentia-se leve, apesar do pequeno embate com o primo. O que deu nos homens hoje? Todos estavam contra ela?

Ao notar que a corrida tinha começado há menos de dez minutos, ela reaqueceu rapidamente, prendeu o cabelo e partiu. Nunca ela correu tão solta e disposta. A meta era ultrapassar a maior quantidade de pessoas, principalmente os homens. Poderiam deixá-la em desvantagem. No entanto, Suzana acreditava que bastava agir para alcançar qualquer sucesso desejado.

COMPETIÇÃO – Eulálio

A pior noite de sua vida. Sem sono, decidira deitar para, na verdade, acabar rolando de um lado para o outro. Passara o sábado inteiro na fábrica dos Bersani’s, organizando os últimos preparativos. Se pudesse teria dormido lá. Forçado pelos companheiros a ir descansar, chegou em casa decepcionado. Relaxar era impossível. Tudo terminaria na manhã daquele domingo, dia de comemoração a São Sebastião.

Antes das cinco, Eulálio decidiu se levantar. Tomou um banho rápido. Deixou meia garrafa de café pronta, pois a outra parte foi consumida ao terminar de se arrumar. De moto, percorreu ruas desertas, escuras e não convidativas. Que refúgio tentador! Não comparecer era uma possibilidade irresistível. Se fosse capaz, não teria aceitado o convite-imposição de organizar a corrida rústica das empresas da família. Por causa dela, seria descoberto. No auge da glória, todos saberiam que o simples estagiário era um herdeiro, neto dos Bersani’s.

Enquanto estacionava, percebeu que daria tudo para voltar ao passado e manter o estágio. Ao fim da corrida, antes de a avó entregar os troféus aos cinco melhores, era feita uma foto oficial com o grupo de organizadores. Eulálio olhou o palco com o pódio. Naquele lugar, sua avó descobriria a farsa. A fúria seria implacável. Ele tinha ultrapassado enormes limites.

Em sua sala, relembrou como vinha se sentindo nesses dias. Era um misto de orgulho e determinação por ter conseguido resolver e decidir sozinho grande parte dos problemas, junto de desapontamento e lamúria por se despedir de um ambiente que o fez crescer tanto. As pessoas da organização iam chegando animadas com o eminente sucesso, com a iminente consagração. Estavam felizes. Eulálio fingia. Postergar era sua repetitiva palavra interna. Quem sabe este desejo não seria alcançado?

O local, aos poucos, foi se inundando de corredores em shorts e blusas de cor azul marinho com o grande símbolo dos Bersani’s. A empolgação era latente. O dia se apresentava lindo, radiante, com um calor agradável e ameno. Os brindes a serem sorteados brilhavam nos olhos dos corredores, 2500 no total. Muitos funcionários, que corriam ritualisticamente apenas naquela competição, acompanhados dos familiares se empolgavam em fazer parte de uma empresa com tamanha potência. Eulálio também compartilhava do orgulho. O objetivo tinha sido alcançado. Ele acabava de provar que fora capaz. Mas se despedia. Aquela chance fora perfeita e única:

– Você não vai correr? Que blusa é essa de organizador? – perguntou Bianca, beijando-lhe no rosto.

– Não vou. Você sabe que os únicos corredores oficiais da família são seus dois irmãos, Suzana e Sandro. Eu arranjei essa camisa pra poder fugir do percurso. – A resposta para despistar estava treinada há meses.

– Por que não posso ganhar uma e fugir da corrida? Me sinto uma pateta, não tenho coordenação. Não posso ser zoada, mais um ano, por fazer um tempo medíocre.

– Acabaram as camisas, eu acho. Tentarei descolar uma pra você.

Fugindo da prima, Eulálio foi até o refeitório checar as caixas, como estavam sendo arranjadas. Por ideia dele, a corrida dos Bersani’s passaria a ser a única da cidade a oferecer também um banquete com todos os tipos de frutas. Isso ia entrar para a história. Assim como a confusão que a avó Lina iria arrumar ao descobrir que fora enganada. Ele só desejava que ela não despedisse alguém. Ninguém poderia se prejudicar pela sua audácia.

Ao retornar ao pátio central, um formigueiro se abriu frente a ele. Daria tudo para tirar essa blusa e colocar a de corredor. Camuflado, poderia continuar a ser um desconhecido. Até que a avistou. Catarina estava com o cabelo preso, extremamente empolgada e se alongando num short vermelho e apertado. Ao fim de uma esticada, um homem a agarrara por trás. Ela se virou para beijá-lo. Nesse momento, ela viu Eulálio. Sem graça, escapuliu do beijo e abraçou o namorado. Os dois se encararam. Ele balançou a cabeça lentamente. Ela deu um meio sorriso:

– Que covarde! Não vai correr hoje. Não aguentou. – era o primo Nei, irmão mais novo de Bianca, e também o mais odiado por ele, Camila e Suzana. – Acho um absurdo você usar uma camisa da empresa sem fazer parte dela. Queria que vovó o visse. Com certeza, ela teria uma resposta certeira, bastardo.

Eulálio não expressou reação. Ficou quieto. Não valia a pena. Nei retratava a maior insignificância perante o fim da farsa:

– Eu nem sei a razão da sua presença. Você não é querido por ninguém, todos têm certa vergonha de você, verme. Eu e muita gente nunca consideramos você, muito menos parente. Ah, me esqueci. A corrida é o mais próximo que você vai chegar das empresas. Nunca trabalhará aqui, a não ser que nos sirva cafezinho como a vadia oferecida da sua mãe. Quando eu, Nando e Sandro assumirmos a…

Não o deixou contemplar. Eulálio extravasou todo o nervoso com um tremendo soco no primo que sem reação caiu duro no chão. Assustado, depois valente, Nei se postou em pé pra revidar. Eulálio não se mexeu, esperou. Outros corredores apartaram, inclusive Catarina.

Ela agarrou Eulálio, enquanto o namorado segurava um irado Nei:

– Você vai me pagar, escória… Não vou me esquecer, bastardo imundo…

Eulálio, nem Catarina, escutaram as ameaças, embora ele devesse. Os dois ficaram se sentindo, se respirando, deixando o desejo fluir naquele breve momento. Ela ameaçou falar algo, Eulálio apertou a cintura da garota para contê-la. Se pudesse, ele a agarraria e a levaria para sua sala. Assim, poderiam soltar todo o amor e toda a vontade.

Ao notar que o namorado de Catarina voltava, Eulálio virou as costas e se perdeu na confusão. Com tudo ruindo, foi para a largada. Queria que a avó o visse logo e pudesse sofrer mais. Precisava ser livre:

– José, onde você estava? Dizem que teve uma briga ali no canto. – disse outra estagiária da organização, chamando-o pelo segundo nome, um disfarce nas empresas.

– Eu sei. Já foi resolvido.

– Preparado pra foto?

– Agora? – ele se assustou. Olhou para os lados. Não viu a avó. – É sempre no final a foto, não é?

– Vai ser agora, com os corredores de fundo. Foi decisão da Dona Lina Bersani. É uma pena que ela não virá. Como eu queria essa foto com ela na minha casa.

– O quê? Ela não vem?

– Não. Ela passou mal ontem, crise urinária. Está internada. Vão ler umas palavras dela, desculpando-se pela ausência.

Atordoado, em choque, Eulálio ficou no meio dos organizadores, evidenciando como era reverenciado por todos. Afinal, eles sabiam que o estagiário José fora brilhante. Antes dos cliques, processando a informação de que não seria desmascarado, ele só teve uma reação. Riu, gargalhou, de tremer o corpo todo.

A foto, claro, foi parar na galeria histórica de Dona Lina, mas por causa das caretas provenientes do ataque de risos, nem ela, nem ninguém percebeu ou notou que era o neto Eulálio Bersani como um dos organizadores.

PEGAÇÃO – Camila

Tinha perdido a noção do tempo. Como era agradável estar num espaço diferente, rodeada por pessoas desconhecidas, e conversar sobre qualquer assunto, percebendo como era desejada. Maurício estava totalmente afim de Camila. Mais nítido, impossível. Durante aqueles momentos, ela percebeu que ele ria em demasia, elogiava na medida certa as falas, a roupa, o sorriso e o cabelo dela. Roçava de leve no corpo da garota, encarava-a de maneira avassaladora. Mesmo pensando em outro, que se encontrava na festa, ela queria dar uns beijos no recém-conhecido. Só iria curtir mais a fase do flerte. Deixaria propagar, mais um pouco, a sensação do indeterminado, do quase possível.

Se Camila não tivesse demorado tanto, os braços, o corpo, a cama de Maurício teriam sido seu destino. Uma briga feia, estourada no centro da festa, encerrou essa possibilidade. Com o susto, Maurício a protegeu, ficando à frente da indefesa princesa. Tocando nas costas dele, Camila estava nas nuvens, se achando a garota mais valorizada. A situação ficou estranha e incômoda quando ele se virou sério, e ela sorria bobamente:

– São meus amigos. Devem estar brigando por causa da competição. Vou ajudá-los. Não saia daqui, por favor.

Antes que ela pudesse protestar, ele tinha ido. Camila voltou, drasticamente, de maneira exponencial, à solidão. Apesar dos acréscimos masculinos ao epicentro da confusão, desejosos de apartar a briga como Maurício, a situação só piorou com mais socos, chutes, sangue e algumas cadeiras voando. A banda parou de tocar, seguranças foram chamados, e Camila sentiu-se desprotegida. As pessoas correram. Ela seguiu o fluxo. Sem saber o que fazer, torcia para encontrar um dos primos.

Perdida, sem achar um jeito de ir embora, em plena madrugada, ela se sentiu aliviada ao escutar seu nome. Porém, ficou perplexa ao perceber quem era:

– Estou de carro. Desce comigo. Isso aqui não vai prestar.

André fez sinal para que ela o seguisse. Camila ficou parada. Ao notar que não era seguido, ele se virou. Ambos se olharam. O silêncio dizia tudo, mesmo que ao redor os gritos e a exasperação fossem intensos. Camila virou as costas e tentou voltar ao centro da festa. Ele correu até ela, parando em sua frente:

– Não tenho te visto mais na faculdade. Tem faltado, além de chegar depois que a aula começa. E sai mais cedo, antes do fim. Não tem participado como antes. Está tudo bem?

Camila estava atordoada. Assim como aquela festa estava caótica e confusa, internamente a garota vivenciava um turbilhão emocional. Sabia que não podia, que não devia nutrir qualquer sentimento por André. Só que ela fervilhava pensando nele, em como seria maravilhoso ficarem juntos. Não conseguia se concentrar se ficassem perto. Sofria. Por isso, passara a evitar qualquer contato, qualquer aproximação:

– Não é nada. É só uma fase. Eu vou procurar meus primos.

– Não. – Ele se pôs cara a cara com ela – Fale pra mim. Eu desejo saber. Eu preciso saber.

Por alguns instantes, Camila achou que o sentimento pudesse ser recíproco. Abstraindo a confusão ao redor, ela decidiu soltar as comportas, de uma vez, de supetão:

– Eu quero você, André. Sonho em te beijar. Das profundezas do meu interior, passei a nutrir uma paixão louca por ti. Mas não posso, não podemos. Você é meu professor. Não posso confundir isso. Mas fico imaginando diversos cenários… Como eu queria ser uma aluna da enfermagem, enquanto você poderia ser mais novo, também um estudante, de engenharia, sei lá. Assim, ficaríamos juntos. Me desculpe por te colocar nessa situação horrível. Eu queria poder trancar as suas disciplinas. Se ainda tivesse prazo, eu cancelaria as matérias que você me dá aula.

Assustado, André ficou boquiaberto. Camila, diante daquela imagem, tremia e se segurava para não chorar:

– Não… Não se desculpe. Eu também gostaria de evitar o que sinto por você. – soltou ele.

André colocou a testa contra a testa dela e aspirou, penosamente:

– Seria um erro ficarmos juntos pela situação toda. – ele disse – Mas seria um erro que eu adoraria cometer. Te acho linda, Camila. Penso em você constantemente, eu também te quero. Muito.

Os dois se abraçaram da maneira mais forte, tentando se fundir ou se encaixar. Era para ser uma despedida, mas o sentimento só se intensificou. Incomodada e excitada, Camila se desvencilhou. Deu um beijo no rosto dele e se virou. Ficou assustada ao notar que as pessoas da festa tinham sumido e se debandado, estava tudo mais vazio.

Se afastando, ela ousou olhar para trás. Foi um baque encontrar a feição dolorosa de André, mirando-a, enquanto ela se ia. Deixando todos os medos e pudores, ela voltou. Os dois ficaram cara a cara de novo:

– Por essa noite, podemos ser aqueles personagens? – ele perguntou, ela assentiu. – Prazer! Sou Anderson. Estudo engenharia mecânica. E você? Acho que já te vi de branco. Você faz enfermagem?

– Faço. Sou… Carolina. Tremendamente encantada por…

E eles se colidiram. Se agarraram impetuosamente. As mãos percorrendo cada pedaço do corpo alheio. As línguas rapidamente se postaram em sintonia, as respirações tornaram-se fortes e entrecortadas. Não conseguiam parar, se desgrudar.

Não teve sexo. Não era suficiente para exprimir toda ardência daquele amor. Encostados numa parede da faculdade, Camila e André se beijaram, se curtiram, se entenderam. Eram dois conhecidos fingindo serem estranhos. Podiam negar e evitar, mas estavam todos os dois entregues à paixão.

Nenhum deles dormiu ao chegar em casa. Se tivessem optado por trocar telefone, teriam mandado mensagem a todo o momento. Por causa desse entrave, ambos ficaram o final de semana dormindo acordados, repassando a primeira ficada de dois personagens fictícios no nome, e reais na intensidade e verdade.

PEGAÇÃO – Bianca

Passou um olhar pela festa. Tanta gente animada, bebendo e dançando, curtindo e se esquecendo da vida. Menos ela. Bianca se sentia invisível. Ninguém parecia perceber que ela estava presente, doida para beijar alguém. Quando foi a ultima vez que um cara a desejara?

Ela pensou na semana que passou, nos textos que tinha de ler. Fez uma checagem nas unhas e nas pontas duplas do cabelo. Mesmo fazendo questão de ressaltar o quanto estava entediada, Camila e Maurício não tentaram incluí-la nos assuntos. Eles não pararam de conversar em nenhum momento. Bianca se sentia a sobra.

De repente, viu Eulálio cruzando o salão. Ao se virar para Camila e dizer que ia conversar com ele, perdeu-o de vista. Aborrecida, resolveu vagar a ermo pelo espaço.

Já tinha se sentido daquela forma. Na verdade, era uma constante atual no cotidiano de Bianca. Em qualquer espaço, parecia que não pertencia a ele. Não conseguia se conectar com as pessoas. Sempre se considerara uma boa ouvinte, atenciosa, prestativa e prática. Realmente, ela englobava essa lista. Porém, parecia ser uma via de mão única. Ela entendia os outros, mas eles não a compreendiam.

Resolveu beber. Era uma saída fácil, a qual estava acostumada. A imagem do pai dela, desde sempre, envolvia um copo de bebida pra esquecer problemas, relaxar e escapar da realidade. Escolheu uma cerveja, arrependendo-se por não ter pegado algo mais forte. O fim da noite mostraria como não seria preciso se preocupar em abastecer.

Ao terminar a bebida, a agitação tinha subido rapidamente, já que Bianca não tinha o costume de beber. Ao olhar pra um dos balcões, nos quais muitos se debruçavam, viu um copo de plástico, com um líquido transparente e resquícios de gelo. Simbolicamente, como não conseguia tomar pra si, na vida, o que queria; naquela festa, Bianca decidiu romper paradigmas: ia roubar o drinque de alguém, possuir algo alheio.

Foi uma situação boba. Se alguém questionasse a posse, ela poderia pedir desculpas, dizer que havia se confundido. No entanto, ela sentiu um prazer enorme com aquele furto. Há muito tempo, não tinha uma descarga tão intensa de adrenalina.

A vodca no corpo sanguíneo deu continuidade ao estado de excitação. Não ligando pra mais nada, Bianca foi para o meio da pista de dança e requebrou. E mexeu. E esbarrou nas pessoas. E jogou o cabelo de um lado para o outro. A princípio, contida, com o tempo cada vez mais, exalava excesso. Mas ela não ligava, nem percebia.

Enquanto se remexia, Bianca reconheceu o quanto vivia uma situação dúbia. Estava bem arrumada, era bonita, transmitia uma felicidade e tranquilidade. Contudo, por dentro sofria de solidão, de falta de referência. Seus dois irmãos eram parceiros entre si, não ligavam pra ela. O pai estava sempre afundado no trabalho e na vida social. A mãe era submissa. Só teve uma amiga íntima na escola que agora estava casada, com filhos e distante. Na faculdade de Direito, sentia que a turma era um bando de competidores. Gostava dos primos, mas nunca foram próximos e sinceros uns com os outros.

Seria tão mais simples e sadia a noite dela, se não tivessem oferecido bebida. A carência de Bianca deixou a prudência comprometida. Ela continuou a dançar freneticamente e a ingerir qualquer coisa que lhe oferecessem. O mundo já é corrompido, com o rebaixamento moral por causa da bebedeira, a situação pra ela acabou se complicando.

Numa de suas rodadas no balanço da música, Bianca sentiu que ia passar mal. Em disparada, procurou um banheiro. No entanto, o estado etílico e o nervoso deixaram-na desconcertada, sem rumo. Sem segurar mais, ela parou no estacionamento, onde vomitou mais do que imaginava. Uma mão correu para ampará-la, segurando a testa, recuando os cabelos da sua face:

– Bota pra fora, prima. Limpa isso tudo!

A voz de Suzana foi um corte ao ego de Bianca. Desejava que fosse um estranho a lhe ajudar. A vergonha tomou conta. Não queria que soubessem desse descontrole. Não queria se lembrar de nada. Pelo contrário, aquela festa certamente ia marcá-la.

Assim que se recompôs, Bianca enfrentou a prima nos olhos. Pelo menos, tentou. Sentiu-se menosprezada, fraca, boba e incapaz. Só não aferiu que Suzana nunca iria julgá-la. Na verdade, ela própria era o seu próprio juiz:

– Bianca, recuperou? Nós te deixamos em casa. Eu peço ao Igor pra te levar agora. Ou você pode ficar comigo, dormir na minha cama.

Sem conseguir se resignar com a ajuda, Bianca saiu correndo. Não queria, não merecia.

Voltou à festa totalmente desnorteada. Um dos garotos que ofereceu bebidas a ela anteriormente voltou a estender-lhe um copo. Antes de aceitar, ela o abraçou para que Suzana não pudesse vê-la. Queria ficar sozinha. Desaparecer.

Assim que terminou, o garoto, espertamente, se ofereceu a pegar mais. Bianca decidiu ir ao banheiro. Na saída, encontrou o menino com duas cervejas. Querendo por um fim à noite, mas com medo de voltar ao refúgio do quarto e ter que refletir sobre tudo, Bianca se deixou ser guiada até uma parte escura daquele patamar da faculdade. O vento gelado fazia bem ao corpo castigado. Como gostaria que ele lhe atravessasse a pele e cuidasse de sua alma.

Enquanto refletia, não percebeu que estava numa enrascada. Numa parte mais escura, dois outros garotos se aproximaram e a rodearam. Ela estava no meio, cercada. Eles avançaram. De início, ela não percebeu que estava sendo atacada. Os homens esfregavam nela, beijavam-lhe a nuca, seguravam seus braços, passavam as mãos em suas partes íntimas. Bianca nem reagiu. Sabia que era vítima de um crime. Sabia que tinha de gritar. Mais uma vez, como uma analogia de sua vida, não queria lutar. Poderiam fazer o que quisessem, não ia ligar. Afinal, não desejava que a desejassem? Que a buscassem como mulher? Então, por que se sentir incomodada com esse estupro? Diminuída, achava que merecia qualquer migalha e ofensa do destino.

Chorando silenciosamente, fechou os olhos e apagou. Acordou com o raiar do dia, estirada no pé da árvore. De início, atordoada, depois assustada, Bianca levantou-se num pulo e sentiu muita dor nas pernas e na bunda. Olhou a calça e a blusa. Estavam no lugar, apenas imundas. Tinha se mijado. Uma das sandálias pendia fora do pé, um pouco longe dela. Mexeu nos bolsos. Os documentos ficaram, o dinheiro, perdido. Passou a mão no próprio corpo, mas sabia. Do fundo do seu íntimo, sabia.

Eles não a estupraram, não abusaram dela. Nunca saberia a razão da desistência. No caminho pra casa, somente agradeceu a Deus pelo alerta de que estava descontrolada.

PEGAÇÃO – Eulálio

Eulálio estava conversando com o amigo Maurício, quando as primas se juntaram a ele:

– Lio, você não viu a gente ainda? – disse Bianca de supetão.

– O quê? – assustou o garoto.

Ele beijou as primas, exasperado. Não sabia que elas viriam. Apenas achou que encontraria Suzana. Ao pensar na outra prima, notou que ela estava discutindo a relação com um cara numa outra ponta da festa:

– O que está acontecendo com Suzana? Ele está segurando ela firme. – perguntou ele.

– Ela deve ter aprontado como sempre. Suzana é muito arisca. – completou Camila.

– Eu acho que lembro dele do penúltimo jantar da vovó. – falou Bianca.

– Realmente. Bem que ele me parece familiar. Acho que ele é engenheiro também. – acrescentou Eulálio.

– Nem me lembre desses jantares. Nem apareci no último evento de Dona Lina. – dispersou Camila.

Quando o silêncio se instalou, Eulálio se recordou que não apresentou as primas ao amigo. Eles se entrosaram rapidamente. Porém, ele queria que Maurício chegasse em Bianca. Faria um bem pra ela dar uns amassos. Só que o colega estava mais propenso a ficar com Camila. A fim de realizar o que queria, chamou Mila pra pegar umas bebidas para o grupo.

Enquanto enfrentavam a fila, Eulálio teve uma grande surpresa. Catarina estava na festa, acompanhada das amigas. Rapidamente ele se encheu de esperanças. Era uma oportunidade perfeita para, enfim, poder ficar com ela:

– Camila, você pode levar as bebidas pra eles? Tenho de ir a um lugar. Agora.

Antes que ela dissesse algo, ele já tinha saído. Como não tinha tempo a perder, foi diretamente ao grupo. Se apresentou beijando todas as garotas, deixando Catarina por ultimo. Ela ficou assustada e sem graça. Na hora, ele pensou que fosse timidez. Depois iria entender do que se tratava.

Meio sem jeito, ela pediu licença às amigas e se retirou com Eulálio. Eles foram até uma área mais afastada, perto de umas árvores que, em dias de aula, serviam como sombrinhas para os que liam ou conversavam na Engenharia:

– O que foi isso? – disse Catarina, olhando para os lados. – Eu não sabia que você estaria aqui. Muito menos que pudesse ser tão… ousado!

– Acho que nem eu sabia disso. Eu só queria não perder mais tempo. – Eulálio falou, chegando mais perto dela, segurando em sua cintura. – Esse jogo de olhares, de suposições… Já me cansei.

Suspirando alto, ela se afastou. Deu as costas a ele:

– E as conversas? Eu não sei nada de você, a não ser que é um Bersani.

– Isso não basta?

– Claro que não! – ela disse ríspida. – Não vou me envolver sem saber quem você é? Quem você pensa que sou?

– Desculpa. Fiquei empolgado. Vou deixar você com suas amigas. Serei mais cauteloso da próxima vez.

Ele virou as costas, se retirando. Ela, em dúvida, correu até ele. Pegando pelos braços, fez com que parasse e olhasse pra ela:

– Fiquei surpresa com seu gesto. Não se vá. Vamos conversar em outro lugar.

Eulálio e Catarina foram para uma área oposta ao estacionamento. Passaram pelo meio da festa e pegaram bebidas. Eles se sentaram numa escadaria que dá para um patamar mais abaixo, do Instituto de Ciências Exatas. Estava mais escuro e mais frio. Ela se sentou bem perto dele, com pernas e braços se encontrando.

Eles conversaram sobre estudos e futuro. Catarina fazia medicina numa faculdade particular. Era a queridinha por ser a caçula e a futura única médica da família. Eulálio contou da Administração, mas não revelou que era estagiário na empresa dos Bersani’s. Ela relatou as inúmeras viagens ao exterior, discutiram filmes. Em vários momentos um clima cresceu entre os dois, mas Catarina se esvaia:

– Estou ficando com sono. Podemos voltar à festa? – ela propôs.

Assim que se levantaram, Eulálio decidiu que marcaria ainda mais aquele topo de escada. Agarrou-a num ato rápido e buscou os lábios dela. De súbito, ela se retraiu e abaixou a cabeça. Assustado, ele a largou:

– Não faça isso! Eu tenho namorado.

– Como? Você… namora? – ele perguntou incrédulo.

– Eu não tenho coragem de traí-lo.

– Você não quer magoá-lo, mas vale a pena brincar comigo? Me usar pra se sentir bem? Me esquece, Catarina.

Eulálio saiu como uma bala. Ela tentou segurá-lo de novo, mas foi em vão. Ao retornar à festa, ele procurou e avistou uma garota de nome Sheila, amiga de Maurício, que tinha uma queda por ele. Sem perder tempo, ele se aproximou, trocaram meias palavras, ficaram sozinhos e a pegação rolou. Ele fez questão de mostrar a uma assustada Catarina o quanto poderia ser esnobe como ela tinha sido na mente dele. Dava beijos de olhos abertos, focando-a.

Buscando apenas um meio de usar e se vingar, Eulálio acabou despertando mais desejo em Catarina. Tudo saiu com efeito contrário. Como uma bola de neve, o sentimento de ambos só iria se intensificar. O problema seriam as outras pessoas a serem envolvidas. Um relacionamento a dois já é difícil, com outros integrantes tornar-se-ia imprevisível.

PEGAÇÃO – Suzana

Não olhou em retrovisor, nem na imagem refletida no vidro. Suzana sabia que estava deslumbrante. A constatação veio mais cedo do que imaginava. Dois caras, que bebiam e usavam drogas no estacionamento da Engenharia, elogiaram e chamaram a atenção dela. Como queria aproveitar, foi até eles antes de ir para a festa organizada pela turma dela de Faculdade.

Os dois garotos ofereceram tudo a Suzana. Ela aceitou um gole de vodca, enquanto eles a posicionavam no meio. Excitados, os dois esfregavam nela e falavam besteiras. Não eram bonitinhos, mas davam para o gasto. Queriam uma suruba, ela achou muito cedo, por isso, inovou:

– Faço o que vocês quiserem, se vocês dois derem um beijão de língua. – ela propôs.

Os dois se olharam, analisando a situação. Certamente, em muitas bebedeiras, já deviam ter se aproveitado mutuamente. Eles estavam quase se beijando, com Suzana entre eles, de camarote:

– Prima!? O que você está fazendo? Onde é a festa?

Com contragosto, ela se desenroscou dos meninos e foi se encontrar com Bianca:

– Suz, você está linda! O que eles estavam aprontando?

– Melhor deixar quieto.

Antes de se dirigir pra festa, Suzana mandou dois beijos para os garotos. Quem sabe mais tarde?

– Onde está seu irmão? – perguntou Bianca.

– Sandro é igual aos seus dois irmãos. Não frequenta mais festas de estudantes. Só a elite importa. Se eu contasse o que eu vi eles fazendo antigamente…

– Prima, será que essa festa vai ficar boa?

– Hum… A pequena Bianca quer se divertir? Veja com seus próprios olhos.

Realmente era um deleite. Muita gente jovem e animada pairava, se divertindo. O ar estava impregnado pela descontração e promessas. Para satisfazer à prima, Suzana, que queria cumprimentar todos os conhecidos, foi para a turma do futebol. Aos olhos de Bianca, que ficou claramente assustada, ela parecia outra pessoa, discutindo lances passados, prometendo arrasar nas defesas da próxima pelada:

– Você realmente joga bola com esses caras?

– Claro! Não tem mulher na Engenharia. Eu saio com os homens. Vamos a bar e boates. Eu sou goleira, de vez em quando, da turma, assistimos esportes na TV. É a forma de me relacionar, fazer contatos e me divertir.

Enquanto Bianca se assustava mais, Suzana ria. Nesse momento, a outra prima se juntava à trupe:

– Camila! Você veio também. Que privilégio! – disse Suzana, abraçando-a.

– Ainda bem que você está aqui. Estou com medo da Suzana me deixar sozinha e ir atrás da galera dela.

– Dos homens, você quer dizer, Bianca? – questionou Camila. – Falando nisso, de onde você conhece o André?

– André Silveira? O professor? Ah, ele dá aula pra você? – Suzana percebeu que Camila ficou um pouco sem jeito com a constatação. Ela conhecia bem a natureza humana, sabia que alguma coisa estava rolando entre os dois. – Eu o conheço do futebol. Ele é muito amigo dos meninos da Engenharia. Ele joga muito bem. Você tem que ver ele de cueca! É uma graça! Mas fica tranquila, ele nunca me quis. Nunca vi ele dar mole pra ninguém. Será que você é o tipo dele?

Pronto! Era fato! Camila estava apaixonada pelo André. Por dois segundos, ela transpareceu. Antes que pudesse brincar mais com a prima, foi surpreendida:

– Suzana. Não imaginava que você estaria aqui.

Um Igor diferente prostrou-se diante dela. Vestido mais casual e despojado, nem parecia um engenheiro formado. Poderia ser mais um estudante aproveitando uma típica sexta-feira de agito na Universidade:

– Eu estudo aqui. E você? O que está fazendo? – ela respondeu rispidamente.

– Eu estudei aqui. Ainda tenho vínculos com a Engenharia. – disse Igor de supetão.

– Claro! Cadê sua turma?

Por claramente estar sozinho, ele ficou sem graça. As primas também:

– Suzana, o Lio está naquela ponta. – apontou Bianca.

– Nós vamos falar com ele. – completou Camila, que saiu também em retirada, deixando os dois a sós.

– Me desculpa. – ele disse calmamente, de maneira honesta.

Aquilo derrubou Suzana. Ela queria que ele brigasse, fizesse uma cena, jogasse verdades na cara dela. Tudo menos aquilo:

– Pelo quê? Do que eu tenho que te desculpar, Igor? Nós não temos nada, eu não devo nada a você. Foi um lance de uma noite só.

Ele se aproximou, segurou os dois pulsos dela, fez com que Suzana olhasse pra ele:

– Eu te conheci, achei que pudesse ser algo casual, mas não consegui te tirar da minha mente. Você me inundou, tomou conta da minha cabeça, do meu cotidiano. Por isso, te liguei, te procurei, mas você não me respondeu. Suzana, você é diferente de todas que conheci. Quando vi você saindo acompanhada daquele vestiário, fui tomado por decepção e ciúme, só de pensar que talvez você pudesse ter outra pessoa. Eu quero você só pra mim.

Suzana ficou assustada. Era muito e exagerado, além de inédito. Ninguém havia se declarado com tamanha intensidade e honestidade para ela, que era vista apenas como uma linda mulher, interessada apenas em dinheiro, sexo e poder. Ela se largou dele, balançou a cabeça negativamente:

– Eu quero você da forma que for… Aposto que você quer aproveitar essa festa. Tudo bem, eu me seguro. Vou ficar no estacionamento, esperando, apenas pra te levar em casa, te acompanhar. – Igor disse isso na medida em que se afastava.

Ao vê-lo saindo, Suzana ficou aliviada. Voltou sua atenção pra festa, circulou. Porém, não tirava da cabeça o fato de um homem estar esperando por ela. E era um homem interessante, bonito, bem apessoado. Não tardou e foi até o estacionamento. Apenas um carro estava com a cabine mais clara por causa do aparelho de som. Ela abriu a porta. ‘Torn’ de Natalie Imbruglia fez com que ela gemesse. Sentiu-se no início da adolescência:

Ilusion never changed into something real? – Suzana meio que cantarolou para ele.

Ela entrou no carro, sentando no colo dele, com as pernas dobradas e as costas no volante:

– A minha ilusão acaba de se tornar realidade. Mais uma vez. – arrematou Igor, abraçando-a e beijando-a no pescoço.

Suzana estava se sentindo completa, pela primeira vez. Conseguiu unir o físico e o emocional. Sentia um tesão enorme e um sentimento de paixão por ele. Contudo, havia dentro de si uma pitada de desconfiança. Era o medo de ter seu destino modificado por esse homem. Tal sentimento a acompanharia sempre como um presságio mais que certeiro.