PEGAÇÃO – Suzana

Não olhou em retrovisor, nem na imagem refletida no vidro. Suzana sabia que estava deslumbrante. A constatação veio mais cedo do que imaginava. Dois caras, que bebiam e usavam drogas no estacionamento da Engenharia, elogiaram e chamaram a atenção dela. Como queria aproveitar, foi até eles antes de ir para a festa organizada pela turma dela de Faculdade.

Os dois garotos ofereceram tudo a Suzana. Ela aceitou um gole de vodca, enquanto eles a posicionavam no meio. Excitados, os dois esfregavam nela e falavam besteiras. Não eram bonitinhos, mas davam para o gasto. Queriam uma suruba, ela achou muito cedo, por isso, inovou:

– Faço o que vocês quiserem, se vocês dois derem um beijão de língua. – ela propôs.

Os dois se olharam, analisando a situação. Certamente, em muitas bebedeiras, já deviam ter se aproveitado mutuamente. Eles estavam quase se beijando, com Suzana entre eles, de camarote:

– Prima!? O que você está fazendo? Onde é a festa?

Com contragosto, ela se desenroscou dos meninos e foi se encontrar com Bianca:

– Suz, você está linda! O que eles estavam aprontando?

– Melhor deixar quieto.

Antes de se dirigir pra festa, Suzana mandou dois beijos para os garotos. Quem sabe mais tarde?

– Onde está seu irmão? – perguntou Bianca.

– Sandro é igual aos seus dois irmãos. Não frequenta mais festas de estudantes. Só a elite importa. Se eu contasse o que eu vi eles fazendo antigamente…

– Prima, será que essa festa vai ficar boa?

– Hum… A pequena Bianca quer se divertir? Veja com seus próprios olhos.

Realmente era um deleite. Muita gente jovem e animada pairava, se divertindo. O ar estava impregnado pela descontração e promessas. Para satisfazer à prima, Suzana, que queria cumprimentar todos os conhecidos, foi para a turma do futebol. Aos olhos de Bianca, que ficou claramente assustada, ela parecia outra pessoa, discutindo lances passados, prometendo arrasar nas defesas da próxima pelada:

– Você realmente joga bola com esses caras?

– Claro! Não tem mulher na Engenharia. Eu saio com os homens. Vamos a bar e boates. Eu sou goleira, de vez em quando, da turma, assistimos esportes na TV. É a forma de me relacionar, fazer contatos e me divertir.

Enquanto Bianca se assustava mais, Suzana ria. Nesse momento, a outra prima se juntava à trupe:

– Camila! Você veio também. Que privilégio! – disse Suzana, abraçando-a.

– Ainda bem que você está aqui. Estou com medo da Suzana me deixar sozinha e ir atrás da galera dela.

– Dos homens, você quer dizer, Bianca? – questionou Camila. – Falando nisso, de onde você conhece o André?

– André Silveira? O professor? Ah, ele dá aula pra você? – Suzana percebeu que Camila ficou um pouco sem jeito com a constatação. Ela conhecia bem a natureza humana, sabia que alguma coisa estava rolando entre os dois. – Eu o conheço do futebol. Ele é muito amigo dos meninos da Engenharia. Ele joga muito bem. Você tem que ver ele de cueca! É uma graça! Mas fica tranquila, ele nunca me quis. Nunca vi ele dar mole pra ninguém. Será que você é o tipo dele?

Pronto! Era fato! Camila estava apaixonada pelo André. Por dois segundos, ela transpareceu. Antes que pudesse brincar mais com a prima, foi surpreendida:

– Suzana. Não imaginava que você estaria aqui.

Um Igor diferente prostrou-se diante dela. Vestido mais casual e despojado, nem parecia um engenheiro formado. Poderia ser mais um estudante aproveitando uma típica sexta-feira de agito na Universidade:

– Eu estudo aqui. E você? O que está fazendo? – ela respondeu rispidamente.

– Eu estudei aqui. Ainda tenho vínculos com a Engenharia. – disse Igor de supetão.

– Claro! Cadê sua turma?

Por claramente estar sozinho, ele ficou sem graça. As primas também:

– Suzana, o Lio está naquela ponta. – apontou Bianca.

– Nós vamos falar com ele. – completou Camila, que saiu também em retirada, deixando os dois a sós.

– Me desculpa. – ele disse calmamente, de maneira honesta.

Aquilo derrubou Suzana. Ela queria que ele brigasse, fizesse uma cena, jogasse verdades na cara dela. Tudo menos aquilo:

– Pelo quê? Do que eu tenho que te desculpar, Igor? Nós não temos nada, eu não devo nada a você. Foi um lance de uma noite só.

Ele se aproximou, segurou os dois pulsos dela, fez com que Suzana olhasse pra ele:

– Eu te conheci, achei que pudesse ser algo casual, mas não consegui te tirar da minha mente. Você me inundou, tomou conta da minha cabeça, do meu cotidiano. Por isso, te liguei, te procurei, mas você não me respondeu. Suzana, você é diferente de todas que conheci. Quando vi você saindo acompanhada daquele vestiário, fui tomado por decepção e ciúme, só de pensar que talvez você pudesse ter outra pessoa. Eu quero você só pra mim.

Suzana ficou assustada. Era muito e exagerado, além de inédito. Ninguém havia se declarado com tamanha intensidade e honestidade para ela, que era vista apenas como uma linda mulher, interessada apenas em dinheiro, sexo e poder. Ela se largou dele, balançou a cabeça negativamente:

– Eu quero você da forma que for… Aposto que você quer aproveitar essa festa. Tudo bem, eu me seguro. Vou ficar no estacionamento, esperando, apenas pra te levar em casa, te acompanhar. – Igor disse isso na medida em que se afastava.

Ao vê-lo saindo, Suzana ficou aliviada. Voltou sua atenção pra festa, circulou. Porém, não tirava da cabeça o fato de um homem estar esperando por ela. E era um homem interessante, bonito, bem apessoado. Não tardou e foi até o estacionamento. Apenas um carro estava com a cabine mais clara por causa do aparelho de som. Ela abriu a porta. ‘Torn’ de Natalie Imbruglia fez com que ela gemesse. Sentiu-se no início da adolescência:

Ilusion never changed into something real? – Suzana meio que cantarolou para ele.

Ela entrou no carro, sentando no colo dele, com as pernas dobradas e as costas no volante:

– A minha ilusão acaba de se tornar realidade. Mais uma vez. – arrematou Igor, abraçando-a e beijando-a no pescoço.

Suzana estava se sentindo completa, pela primeira vez. Conseguiu unir o físico e o emocional. Sentia um tesão enorme e um sentimento de paixão por ele. Contudo, havia dentro de si uma pitada de desconfiança. Era o medo de ter seu destino modificado por esse homem. Tal sentimento a acompanharia sempre como um presságio mais que certeiro.

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