PEGAÇÃO – Bianca

Passou um olhar pela festa. Tanta gente animada, bebendo e dançando, curtindo e se esquecendo da vida. Menos ela. Bianca se sentia invisível. Ninguém parecia perceber que ela estava presente, doida para beijar alguém. Quando foi a ultima vez que um cara a desejara?

Ela pensou na semana que passou, nos textos que tinha de ler. Fez uma checagem nas unhas e nas pontas duplas do cabelo. Mesmo fazendo questão de ressaltar o quanto estava entediada, Camila e Maurício não tentaram incluí-la nos assuntos. Eles não pararam de conversar em nenhum momento. Bianca se sentia a sobra.

De repente, viu Eulálio cruzando o salão. Ao se virar para Camila e dizer que ia conversar com ele, perdeu-o de vista. Aborrecida, resolveu vagar a ermo pelo espaço.

Já tinha se sentido daquela forma. Na verdade, era uma constante atual no cotidiano de Bianca. Em qualquer espaço, parecia que não pertencia a ele. Não conseguia se conectar com as pessoas. Sempre se considerara uma boa ouvinte, atenciosa, prestativa e prática. Realmente, ela englobava essa lista. Porém, parecia ser uma via de mão única. Ela entendia os outros, mas eles não a compreendiam.

Resolveu beber. Era uma saída fácil, a qual estava acostumada. A imagem do pai dela, desde sempre, envolvia um copo de bebida pra esquecer problemas, relaxar e escapar da realidade. Escolheu uma cerveja, arrependendo-se por não ter pegado algo mais forte. O fim da noite mostraria como não seria preciso se preocupar em abastecer.

Ao terminar a bebida, a agitação tinha subido rapidamente, já que Bianca não tinha o costume de beber. Ao olhar pra um dos balcões, nos quais muitos se debruçavam, viu um copo de plástico, com um líquido transparente e resquícios de gelo. Simbolicamente, como não conseguia tomar pra si, na vida, o que queria; naquela festa, Bianca decidiu romper paradigmas: ia roubar o drinque de alguém, possuir algo alheio.

Foi uma situação boba. Se alguém questionasse a posse, ela poderia pedir desculpas, dizer que havia se confundido. No entanto, ela sentiu um prazer enorme com aquele furto. Há muito tempo, não tinha uma descarga tão intensa de adrenalina.

A vodca no corpo sanguíneo deu continuidade ao estado de excitação. Não ligando pra mais nada, Bianca foi para o meio da pista de dança e requebrou. E mexeu. E esbarrou nas pessoas. E jogou o cabelo de um lado para o outro. A princípio, contida, com o tempo cada vez mais, exalava excesso. Mas ela não ligava, nem percebia.

Enquanto se remexia, Bianca reconheceu o quanto vivia uma situação dúbia. Estava bem arrumada, era bonita, transmitia uma felicidade e tranquilidade. Contudo, por dentro sofria de solidão, de falta de referência. Seus dois irmãos eram parceiros entre si, não ligavam pra ela. O pai estava sempre afundado no trabalho e na vida social. A mãe era submissa. Só teve uma amiga íntima na escola que agora estava casada, com filhos e distante. Na faculdade de Direito, sentia que a turma era um bando de competidores. Gostava dos primos, mas nunca foram próximos e sinceros uns com os outros.

Seria tão mais simples e sadia a noite dela, se não tivessem oferecido bebida. A carência de Bianca deixou a prudência comprometida. Ela continuou a dançar freneticamente e a ingerir qualquer coisa que lhe oferecessem. O mundo já é corrompido, com o rebaixamento moral por causa da bebedeira, a situação pra ela acabou se complicando.

Numa de suas rodadas no balanço da música, Bianca sentiu que ia passar mal. Em disparada, procurou um banheiro. No entanto, o estado etílico e o nervoso deixaram-na desconcertada, sem rumo. Sem segurar mais, ela parou no estacionamento, onde vomitou mais do que imaginava. Uma mão correu para ampará-la, segurando a testa, recuando os cabelos da sua face:

– Bota pra fora, prima. Limpa isso tudo!

A voz de Suzana foi um corte ao ego de Bianca. Desejava que fosse um estranho a lhe ajudar. A vergonha tomou conta. Não queria que soubessem desse descontrole. Não queria se lembrar de nada. Pelo contrário, aquela festa certamente ia marcá-la.

Assim que se recompôs, Bianca enfrentou a prima nos olhos. Pelo menos, tentou. Sentiu-se menosprezada, fraca, boba e incapaz. Só não aferiu que Suzana nunca iria julgá-la. Na verdade, ela própria era o seu próprio juiz:

– Bianca, recuperou? Nós te deixamos em casa. Eu peço ao Igor pra te levar agora. Ou você pode ficar comigo, dormir na minha cama.

Sem conseguir se resignar com a ajuda, Bianca saiu correndo. Não queria, não merecia.

Voltou à festa totalmente desnorteada. Um dos garotos que ofereceu bebidas a ela anteriormente voltou a estender-lhe um copo. Antes de aceitar, ela o abraçou para que Suzana não pudesse vê-la. Queria ficar sozinha. Desaparecer.

Assim que terminou, o garoto, espertamente, se ofereceu a pegar mais. Bianca decidiu ir ao banheiro. Na saída, encontrou o menino com duas cervejas. Querendo por um fim à noite, mas com medo de voltar ao refúgio do quarto e ter que refletir sobre tudo, Bianca se deixou ser guiada até uma parte escura daquele patamar da faculdade. O vento gelado fazia bem ao corpo castigado. Como gostaria que ele lhe atravessasse a pele e cuidasse de sua alma.

Enquanto refletia, não percebeu que estava numa enrascada. Numa parte mais escura, dois outros garotos se aproximaram e a rodearam. Ela estava no meio, cercada. Eles avançaram. De início, ela não percebeu que estava sendo atacada. Os homens esfregavam nela, beijavam-lhe a nuca, seguravam seus braços, passavam as mãos em suas partes íntimas. Bianca nem reagiu. Sabia que era vítima de um crime. Sabia que tinha de gritar. Mais uma vez, como uma analogia de sua vida, não queria lutar. Poderiam fazer o que quisessem, não ia ligar. Afinal, não desejava que a desejassem? Que a buscassem como mulher? Então, por que se sentir incomodada com esse estupro? Diminuída, achava que merecia qualquer migalha e ofensa do destino.

Chorando silenciosamente, fechou os olhos e apagou. Acordou com o raiar do dia, estirada no pé da árvore. De início, atordoada, depois assustada, Bianca levantou-se num pulo e sentiu muita dor nas pernas e na bunda. Olhou a calça e a blusa. Estavam no lugar, apenas imundas. Tinha se mijado. Uma das sandálias pendia fora do pé, um pouco longe dela. Mexeu nos bolsos. Os documentos ficaram, o dinheiro, perdido. Passou a mão no próprio corpo, mas sabia. Do fundo do seu íntimo, sabia.

Eles não a estupraram, não abusaram dela. Nunca saberia a razão da desistência. No caminho pra casa, somente agradeceu a Deus pelo alerta de que estava descontrolada.

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