PEGAÇÃO – Camila

Tinha perdido a noção do tempo. Como era agradável estar num espaço diferente, rodeada por pessoas desconhecidas, e conversar sobre qualquer assunto, percebendo como era desejada. Maurício estava totalmente afim de Camila. Mais nítido, impossível. Durante aqueles momentos, ela percebeu que ele ria em demasia, elogiava na medida certa as falas, a roupa, o sorriso e o cabelo dela. Roçava de leve no corpo da garota, encarava-a de maneira avassaladora. Mesmo pensando em outro, que se encontrava na festa, ela queria dar uns beijos no recém-conhecido. Só iria curtir mais a fase do flerte. Deixaria propagar, mais um pouco, a sensação do indeterminado, do quase possível.

Se Camila não tivesse demorado tanto, os braços, o corpo, a cama de Maurício teriam sido seu destino. Uma briga feia, estourada no centro da festa, encerrou essa possibilidade. Com o susto, Maurício a protegeu, ficando à frente da indefesa princesa. Tocando nas costas dele, Camila estava nas nuvens, se achando a garota mais valorizada. A situação ficou estranha e incômoda quando ele se virou sério, e ela sorria bobamente:

– São meus amigos. Devem estar brigando por causa da competição. Vou ajudá-los. Não saia daqui, por favor.

Antes que ela pudesse protestar, ele tinha ido. Camila voltou, drasticamente, de maneira exponencial, à solidão. Apesar dos acréscimos masculinos ao epicentro da confusão, desejosos de apartar a briga como Maurício, a situação só piorou com mais socos, chutes, sangue e algumas cadeiras voando. A banda parou de tocar, seguranças foram chamados, e Camila sentiu-se desprotegida. As pessoas correram. Ela seguiu o fluxo. Sem saber o que fazer, torcia para encontrar um dos primos.

Perdida, sem achar um jeito de ir embora, em plena madrugada, ela se sentiu aliviada ao escutar seu nome. Porém, ficou perplexa ao perceber quem era:

– Estou de carro. Desce comigo. Isso aqui não vai prestar.

André fez sinal para que ela o seguisse. Camila ficou parada. Ao notar que não era seguido, ele se virou. Ambos se olharam. O silêncio dizia tudo, mesmo que ao redor os gritos e a exasperação fossem intensos. Camila virou as costas e tentou voltar ao centro da festa. Ele correu até ela, parando em sua frente:

– Não tenho te visto mais na faculdade. Tem faltado, além de chegar depois que a aula começa. E sai mais cedo, antes do fim. Não tem participado como antes. Está tudo bem?

Camila estava atordoada. Assim como aquela festa estava caótica e confusa, internamente a garota vivenciava um turbilhão emocional. Sabia que não podia, que não devia nutrir qualquer sentimento por André. Só que ela fervilhava pensando nele, em como seria maravilhoso ficarem juntos. Não conseguia se concentrar se ficassem perto. Sofria. Por isso, passara a evitar qualquer contato, qualquer aproximação:

– Não é nada. É só uma fase. Eu vou procurar meus primos.

– Não. – Ele se pôs cara a cara com ela – Fale pra mim. Eu desejo saber. Eu preciso saber.

Por alguns instantes, Camila achou que o sentimento pudesse ser recíproco. Abstraindo a confusão ao redor, ela decidiu soltar as comportas, de uma vez, de supetão:

– Eu quero você, André. Sonho em te beijar. Das profundezas do meu interior, passei a nutrir uma paixão louca por ti. Mas não posso, não podemos. Você é meu professor. Não posso confundir isso. Mas fico imaginando diversos cenários… Como eu queria ser uma aluna da enfermagem, enquanto você poderia ser mais novo, também um estudante, de engenharia, sei lá. Assim, ficaríamos juntos. Me desculpe por te colocar nessa situação horrível. Eu queria poder trancar as suas disciplinas. Se ainda tivesse prazo, eu cancelaria as matérias que você me dá aula.

Assustado, André ficou boquiaberto. Camila, diante daquela imagem, tremia e se segurava para não chorar:

– Não… Não se desculpe. Eu também gostaria de evitar o que sinto por você. – soltou ele.

André colocou a testa contra a testa dela e aspirou, penosamente:

– Seria um erro ficarmos juntos pela situação toda. – ele disse – Mas seria um erro que eu adoraria cometer. Te acho linda, Camila. Penso em você constantemente, eu também te quero. Muito.

Os dois se abraçaram da maneira mais forte, tentando se fundir ou se encaixar. Era para ser uma despedida, mas o sentimento só se intensificou. Incomodada e excitada, Camila se desvencilhou. Deu um beijo no rosto dele e se virou. Ficou assustada ao notar que as pessoas da festa tinham sumido e se debandado, estava tudo mais vazio.

Se afastando, ela ousou olhar para trás. Foi um baque encontrar a feição dolorosa de André, mirando-a, enquanto ela se ia. Deixando todos os medos e pudores, ela voltou. Os dois ficaram cara a cara de novo:

– Por essa noite, podemos ser aqueles personagens? – ele perguntou, ela assentiu. – Prazer! Sou Anderson. Estudo engenharia mecânica. E você? Acho que já te vi de branco. Você faz enfermagem?

– Faço. Sou… Carolina. Tremendamente encantada por…

E eles se colidiram. Se agarraram impetuosamente. As mãos percorrendo cada pedaço do corpo alheio. As línguas rapidamente se postaram em sintonia, as respirações tornaram-se fortes e entrecortadas. Não conseguiam parar, se desgrudar.

Não teve sexo. Não era suficiente para exprimir toda ardência daquele amor. Encostados numa parede da faculdade, Camila e André se beijaram, se curtiram, se entenderam. Eram dois conhecidos fingindo serem estranhos. Podiam negar e evitar, mas estavam todos os dois entregues à paixão.

Nenhum deles dormiu ao chegar em casa. Se tivessem optado por trocar telefone, teriam mandado mensagem a todo o momento. Por causa desse entrave, ambos ficaram o final de semana dormindo acordados, repassando a primeira ficada de dois personagens fictícios no nome, e reais na intensidade e verdade.

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