COMPETIÇÃO – Eulálio

A pior noite de sua vida. Sem sono, decidira deitar para, na verdade, acabar rolando de um lado para o outro. Passara o sábado inteiro na fábrica dos Bersani’s, organizando os últimos preparativos. Se pudesse teria dormido lá. Forçado pelos companheiros a ir descansar, chegou em casa decepcionado. Relaxar era impossível. Tudo terminaria na manhã daquele domingo, dia de comemoração a São Sebastião.

Antes das cinco, Eulálio decidiu se levantar. Tomou um banho rápido. Deixou meia garrafa de café pronta, pois a outra parte foi consumida ao terminar de se arrumar. De moto, percorreu ruas desertas, escuras e não convidativas. Que refúgio tentador! Não comparecer era uma possibilidade irresistível. Se fosse capaz, não teria aceitado o convite-imposição de organizar a corrida rústica das empresas da família. Por causa dela, seria descoberto. No auge da glória, todos saberiam que o simples estagiário era um herdeiro, neto dos Bersani’s.

Enquanto estacionava, percebeu que daria tudo para voltar ao passado e manter o estágio. Ao fim da corrida, antes de a avó entregar os troféus aos cinco melhores, era feita uma foto oficial com o grupo de organizadores. Eulálio olhou o palco com o pódio. Naquele lugar, sua avó descobriria a farsa. A fúria seria implacável. Ele tinha ultrapassado enormes limites.

Em sua sala, relembrou como vinha se sentindo nesses dias. Era um misto de orgulho e determinação por ter conseguido resolver e decidir sozinho grande parte dos problemas, junto de desapontamento e lamúria por se despedir de um ambiente que o fez crescer tanto. As pessoas da organização iam chegando animadas com o eminente sucesso, com a iminente consagração. Estavam felizes. Eulálio fingia. Postergar era sua repetitiva palavra interna. Quem sabe este desejo não seria alcançado?

O local, aos poucos, foi se inundando de corredores em shorts e blusas de cor azul marinho com o grande símbolo dos Bersani’s. A empolgação era latente. O dia se apresentava lindo, radiante, com um calor agradável e ameno. Os brindes a serem sorteados brilhavam nos olhos dos corredores, 2500 no total. Muitos funcionários, que corriam ritualisticamente apenas naquela competição, acompanhados dos familiares se empolgavam em fazer parte de uma empresa com tamanha potência. Eulálio também compartilhava do orgulho. O objetivo tinha sido alcançado. Ele acabava de provar que fora capaz. Mas se despedia. Aquela chance fora perfeita e única:

– Você não vai correr? Que blusa é essa de organizador? – perguntou Bianca, beijando-lhe no rosto.

– Não vou. Você sabe que os únicos corredores oficiais da família são seus dois irmãos, Suzana e Sandro. Eu arranjei essa camisa pra poder fugir do percurso. – A resposta para despistar estava treinada há meses.

– Por que não posso ganhar uma e fugir da corrida? Me sinto uma pateta, não tenho coordenação. Não posso ser zoada, mais um ano, por fazer um tempo medíocre.

– Acabaram as camisas, eu acho. Tentarei descolar uma pra você.

Fugindo da prima, Eulálio foi até o refeitório checar as caixas, como estavam sendo arranjadas. Por ideia dele, a corrida dos Bersani’s passaria a ser a única da cidade a oferecer também um banquete com todos os tipos de frutas. Isso ia entrar para a história. Assim como a confusão que a avó Lina iria arrumar ao descobrir que fora enganada. Ele só desejava que ela não despedisse alguém. Ninguém poderia se prejudicar pela sua audácia.

Ao retornar ao pátio central, um formigueiro se abriu frente a ele. Daria tudo para tirar essa blusa e colocar a de corredor. Camuflado, poderia continuar a ser um desconhecido. Até que a avistou. Catarina estava com o cabelo preso, extremamente empolgada e se alongando num short vermelho e apertado. Ao fim de uma esticada, um homem a agarrara por trás. Ela se virou para beijá-lo. Nesse momento, ela viu Eulálio. Sem graça, escapuliu do beijo e abraçou o namorado. Os dois se encararam. Ele balançou a cabeça lentamente. Ela deu um meio sorriso:

– Que covarde! Não vai correr hoje. Não aguentou. – era o primo Nei, irmão mais novo de Bianca, e também o mais odiado por ele, Camila e Suzana. – Acho um absurdo você usar uma camisa da empresa sem fazer parte dela. Queria que vovó o visse. Com certeza, ela teria uma resposta certeira, bastardo.

Eulálio não expressou reação. Ficou quieto. Não valia a pena. Nei retratava a maior insignificância perante o fim da farsa:

– Eu nem sei a razão da sua presença. Você não é querido por ninguém, todos têm certa vergonha de você, verme. Eu e muita gente nunca consideramos você, muito menos parente. Ah, me esqueci. A corrida é o mais próximo que você vai chegar das empresas. Nunca trabalhará aqui, a não ser que nos sirva cafezinho como a vadia oferecida da sua mãe. Quando eu, Nando e Sandro assumirmos a…

Não o deixou contemplar. Eulálio extravasou todo o nervoso com um tremendo soco no primo que sem reação caiu duro no chão. Assustado, depois valente, Nei se postou em pé pra revidar. Eulálio não se mexeu, esperou. Outros corredores apartaram, inclusive Catarina.

Ela agarrou Eulálio, enquanto o namorado segurava um irado Nei:

– Você vai me pagar, escória… Não vou me esquecer, bastardo imundo…

Eulálio, nem Catarina, escutaram as ameaças, embora ele devesse. Os dois ficaram se sentindo, se respirando, deixando o desejo fluir naquele breve momento. Ela ameaçou falar algo, Eulálio apertou a cintura da garota para contê-la. Se pudesse, ele a agarraria e a levaria para sua sala. Assim, poderiam soltar todo o amor e toda a vontade.

Ao notar que o namorado de Catarina voltava, Eulálio virou as costas e se perdeu na confusão. Com tudo ruindo, foi para a largada. Queria que a avó o visse logo e pudesse sofrer mais. Precisava ser livre:

– José, onde você estava? Dizem que teve uma briga ali no canto. – disse outra estagiária da organização, chamando-o pelo segundo nome, um disfarce nas empresas.

– Eu sei. Já foi resolvido.

– Preparado pra foto?

– Agora? – ele se assustou. Olhou para os lados. Não viu a avó. – É sempre no final a foto, não é?

– Vai ser agora, com os corredores de fundo. Foi decisão da Dona Lina Bersani. É uma pena que ela não virá. Como eu queria essa foto com ela na minha casa.

– O quê? Ela não vem?

– Não. Ela passou mal ontem, crise urinária. Está internada. Vão ler umas palavras dela, desculpando-se pela ausência.

Atordoado, em choque, Eulálio ficou no meio dos organizadores, evidenciando como era reverenciado por todos. Afinal, eles sabiam que o estagiário José fora brilhante. Antes dos cliques, processando a informação de que não seria desmascarado, ele só teve uma reação. Riu, gargalhou, de tremer o corpo todo.

A foto, claro, foi parar na galeria histórica de Dona Lina, mas por causa das caretas provenientes do ataque de risos, nem ela, nem ninguém percebeu ou notou que era o neto Eulálio Bersani como um dos organizadores.

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