COMPETIÇÃO – Camila

Mesmo não correndo, preocupada com os estudos, desanimada por acordar cedo, Camila curtia muito fazer parte da corrida anual da família. Participar com afinco não era uma tipificação precisa. Sobre sua presença, a garota só completava a prova por pura formalidade, uma das últimas. Gostava mesmo do convívio. Apenas circular, conversar e interagir com qualquer pessoa já era um tremendo ganho. Em todas as edições, ela sempre experimentava um sentimento de pertencimento e de encaixe, além de uma maior proximidade familiar, embora ainda não tivesse encontrado ou experimentado os benefícios em ser uma Bersani.

Dentro do carro, o pai, Pedro, em silêncio, a olhava pelo retrovisor. Os dois sorriam entre si, enquanto a mãe, Constância, discursava sobre a preocupação que ela sentia por Dona Lina, hospitalizada desde a noite anterior. Pura falsidade! Elas não se gostavam, mas a nora fazia de tudo para ser aceita e agradar a sogra-general. Na verdade, só os três netos mais velhos – Fernando, Sandro e Nei – e o filho primogênito – Mateus, o pai de Suzana – conseguiram ter acesso aos exclusivos carinho, respeito e reciprocidade da matriarca.

O resto da família garantia amargura, raiva, ódio e medo daquela figura. Pedro e Camila nunca conversaram sobre isso. Eles se entendiam sem palavras sendo proferidas. O pai sempre teve a técnica de se afastar da progenitora. Envolto nas questões técnicas de produção nas fábricas, evitava interagir com a mãe. Vinha dando certo. Por isso, Camila sabia o quanto o pai estava satisfeito pela ausência de Lina na corrida. Ao invés de posar no evento, ele poderia se enfurnar em algum canto e resolver problemas pendentes. Não era viciado em trabalho, tinha prazer. Como ela queria ser como ele!

Assim que Pedro escapuliu, dando um beijo carinhoso apenas em Camila, mãe e filha não souberam como se comportar. De fato, estavam prestes a declarar guerra uma contra a outra pelo futuro profissional da garota. Sozinhas, eram palpáveis a tensão e o incômodo de um embate a vias de estourar. Por sorte, as parceiras de caminhada de Constância chamaram-na para aquecerem. E fofocarem.

Circulando pelas pessoas, refletiu, mais uma vez, a respeito das rédeas da própria vida. Em sua percepção, não achava que alguém dominava ou decidia por ela. Só constatava que ainda não tivera a oportunidade de se guiar. Não havia encontrado a forma de se governar, ou melhor, não conseguiu definir suas prioridades e necessidades. Achava que estava parada, sendo retida como os corredores na largada. O futuro de Camila era como a pista vazia, lisa e limpa a ponto de ser tomada em instantes. Ela só se ressentia de o tempo estar correndo, e de o estouro do início não ressoar nunca:

– Prima, me dá essa camisa. – gritou Bianca, ao mesmo tempo em que puxava uma blusa e consequentemente a bolsa a tiracolo da prima.

De súbito, Camila foi mais forte, impedindo que a outra obtivesse êxito:

– Você está doida, Bianca? – disse, retirando a camisa de seu pai e a estendendo-a. – Por que você quer isso? Eu saí com ela do carro e o pai esqueceu de pegar comigo.

– Presta atenção! É uma camisa de organizador, vale ouro. Eulálio conseguiu uma e não vai correr. Não posso participar também. Quero poder pular a corrida.

– Sinto muito. Ela é minha. Quem não vai correr sou eu.

Camila vestiu a peça por cima da que estava. A decepção brotou clara no semblante da prima:

– O que foi? Você está bem?

Bianca ameaçou falar, baixou a cabeça e se retirou. Pelos breves segundos, Camila conclui que algo perturbava a prima. O olhar triste e sombrio, a expressão de resignação e tristeza e o corpo encurvado e decepcionado entregaram um perfil melancólico e atormentado.

Infelizmente a falta de exercícios impediu que ela alcançasse Bianca. Esta foi mais rápida ao escapulir. Rodando em volta das pessoas, assustou-se quando uma prancheta apareceu em cima dos seus peitos:

– Você poderia participar de uma pesquisa? – um André sorridente e casual aparatou na frente dela.

– O quê? Como assim? – foi o que ela conseguiu pronunciar.

– Estou ajudando um amigo na definição do perfil dos corredores. Quem são, o que fazem, por que motivo participam de corridas… Você me daria a honra de conhecê-la melhor?

– Não! – respondeu incrédula, dando meia volta.

André se prostrou em frente dela:

– Desculpe-me, nem cumprimentei. Como está, Camila?

– Em que sentido? Tenho tantas respostas pra isso.

– Na vida, oras? – disse ele rindo. Ao que parecia, ele estava à vontade com o primeiro encontro fora da faculdade, após a ficada.

– Vou bem mal. Estou com notas vermelhas. Preciso recuperar. Não consigo me concentrar, acho tudo um desperdício. Estou sem noção do que fazer, me sentindo inútil, irritada e desafortunada. E você, vai bem?

André ficara estático com aquelas palavras. Ele não esperava que ela estivesse tão conturbada:

– Por acaso, eu tenho algo a ver com isso tudo? – soltou de maneira séria e cortante.

Mentir ou dizer a verdade? Queria confessar, mas se sentiria ridícula. Queria mentir, mas passaria a ser uma falsa, uma farsa. Arrependera-se, pela primeira vez, por ter ficado com seu professor. Nunca conseguiria ser honesta e verdadeira:

– É tudo tão complicado… É melhor deixar pra lá. Foi bom rever você, André. Não responderei ao questionário. Como vê na minha camisa, sou organizadora.

Deu um meio-sorriso e virou. André a pegou pelo braço, virando-a:

– Você quer ser a Carolina mais uma vez? – sussurrou com os olhos ardentes e prometedores – Eu quero ser Anderson de novo. Podemos sair daqui e ficarmos. Acho um pecado resistirmos…

Tremenda proposta. Camila tremeu. Que tentação! Que sonho se tornando realidade! Ter André em seus braços era o que ela precisava. Sabia que ia ser bom, sabia que lhe acalmaria, que a faria ficar mais que feliz. No entanto, seria supérfluo, transitório, irreal, sofredor:

– Não. – ecoou sincera por fora, devastada por dentro. – Eu prefiro correr.

Tirando a camisa de organizador, Camila dobrou-a, colocou-a na bolsa e deixou tudo no guarda-volumes. No meio dos corredores, eles pulavam em excitação, conversavam e riam. Ela estava apática, abandonada, mas certa de que correr de André era o certo a fazer. Não percebeu que, às vezes como quase sempre na vida, as corridas tendem a terminar no lugar onde começam.

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