COMPETIÇÃO – Bianca

– Acorda, babona, chegamos. – assustou-a Nei, dando petelecos na sua cabeça.

Apesar da truculência, Bianca estava feliz por ter chegado à corrida das empresas Bersani’s. O dia prometia ser esplêndido, com muita agitação, união e descontração. Não suspeitava que seria tudo ao contrário:

– Eu não sei por que você não ficou em casa. Está morta de cansada! Vai ser a última. Que vergonha! – disse rindo, o irmão mais novo, de maneira quase profética. Fernando, o mais velho, também achou graça.

Assim como os pais, Bianca fingiu não se importar. Depois que estacionaram, ela resolveu se afastar rapidamente da família. Ao olhar duas mulheres conversando como duas matracas, recordou-se de Tânia, sua melhor amiga do colegial. A lembrança mais antiga das corridas envolvia o afeto das duas que sempre arranjavam um jeito de aproveitar aquele dia ao máximo. Desde que a companheira se casou, essa era a quarta vez em que Bianca estava sozinha.

Quando avistou Eulálio, pensou estar salva. No entanto, ele deu um jeito de despistá-la. Enquanto vagava, encontrou Camila. A prima tinha sido tão ríspida e egoísta. Como as pessoas podem ser tão idiotas, além de depreciadoras sem custo algum!

– Olha, Nei! É a Bianca. Já desistiu! – apontou Fernando.

Ela estava sentada na calçada, ao lado do espaço de guarda-volumes, tentando ficar esquecida e isolada:

– Ela está no lugar que merece. Na sarjeta!

Os dois explodiram de tanto rir. Bianca quase chorou, até que reparou na cara de Nei:

– O que foi com seu rosto? Parece que você tomou um… soco.

Sem graça, Nei bufou nervoso. Fernando olhou o irmão com mais afinco e concordou com a cabeça, dizendo:

– Parece mesmo… É um soco! Como assim?

– Claro que não! – gritou. – Onde já se viu? Eu? Levar um soco? Eu bato! Isso foi um tombo no pátio. Não vi alguém deitado.

– E não colocou as mãos para amparar a queda? Você foi de cara no chão? Você teria um reflexo! – comentou Bianca.

– Cala a boca! Você não é perita. Forma primeiro, futura advogada de cadeia. Quem é você pra saber das coisas? Por isso, ninguém gosta de você. – atacou Nei.

– Acho que você está descontando em mim. – articulou a garota, levantando-se.

Nei partiu pra cima dela. Agarrou-a e a espremeu na parede da tenda. Fernando não fez nada, só ficou sério:

– Você pensa que me conhece? Ninguém me conhece. Ainda terei tanto poder e os farei arrastar aos meus pés, implorarem por minhas migalhas.

– Você está me machucando… Me sufocando… – tentou escapulir.

– Vou te contar uma coisa, Bianca. Você não vale nada. Merecíamos um prêmio por te aturar. Sempre com essa cara dócil, o ar de estudiosa. Que tédio. Minha vontade era te encher de tapas ou te fazer sofrer, imprestável.

– Eu não tenho culpa pela sua frustração, idiota.

– Cala a boca! Um dia, você vai cair na minha mão. Vai ver o que é bom.

Aquelas palavras eram para Eulálio. Todavia, Nei dirigiu a alguém que dominava e atormentava desde que se entendia por gente. Bianca teve medo. Pela primeira vez, deparou-se com um lado psicótico do irmão. Até Fernando ficou ressabiado.

Com aquele ato, a garota reconfirmou que não tinha nenhum amparo familiar, não possuía qualquer comunhão com os Bersani’s. O jogo estava perdido, sem esperança. Ninguém estava interessado em conhecê-la, só queriam se impor.

Lembrou-se de como era obrigada a ter serviços de casa, a arrumar armários e estantes, enquanto os irmãos brincavam. Ela tinha de recolher as roupas deles diariamente. Por imposição da mãe, aprendeu a cozinhar, embora não tenha feito questão de se aprimorar. Engoliu em seco e com raiva, ao recordar o forte desejo dos pais de despachá-la para um marido, longe de todos.

Depois da opressão fraternal, Bianca não sabia o que fazer. Queria um porto seguro, alguém apenas para lhe dizer que tudo ficaria bem. Teria sido tão libertador se ela tivesse encontrado com Suzana. Como a corrida estava prestes a começar, ela decidiu procurar pela prima no local de largada. Olhando, esbarrando, confundindo, não teve sucesso. De repente, um apito disparou. Bianca foi levada pela massa a correr. Não desejava participar daquilo, nunca mais. No entanto, seguiu o fluxo.

Forçando mais do que devia a fim de provar a si mesmo que era capaz, ela foi ficando cada vez mais sem fôlego. Começou a perder a sensibilidade das pernas, depois das coxas, braços… De súbito, tudo ficou vermelho. Ela só conseguiu se levar para o canto e desmaiou na grama do passeio.

Assustada, estava num ambiente branco, numa tenda. À sua frente, estavam Eulálio e Camila:

– O que aconteceu comigo?

– Você apagou. Veio de ambulância – respondeu Camila. – Eu estava correndo atrás. Parei quando te reconheci. Tinha muita gente em volta.

– Quero sair daqui!

– É melhor descansar, prima. – disse Eulálio, obrigando-a a se deitar.

– Eles querem saber se você comeu, se tem algum problema médico. Dissemos não saber para primeira pergunta, e não para a segunda. O que aconteceu contigo?

Antes que ela respondesse, Suzana rompeu pela tenda:

– Camila! O que você está fazendo aqui? Bombei na corrida! Fiz quase 14 km/hora, nunca… Bianca? Você está tão pálida! O que foi?

– Acho que isso não vai te interessar, Suzana. Afinal, você já deve ter arranjado um carinha para a segunda rodada de sexo devasso. – alfinetou Eulálio.

– Qual é o seu problema? Deve ser inveja por não conseguir aproveitar como eu. Que recalcado!

– Prefiro ser recalcado e prudente a ser indecente.

– Eu não estou entendendo. – intrometeu Camila.

– Peguei Suzana fazendo sexo na sala do pai dela. – Camila e Bianca se assustaram com a revelação de Eulálio. – Isso é um desrespeito. Sem falar no Igor.

– O que tem o Igor? Ele não é meu namorado.

– Não é o que parece do jeito como vocês circulam por aí.

– Você é ridículo, Eulálio!

Antes que os dois se agredissem na tenda de enfermagem, Bianca gritou:

– Para! Chega! Eu não aguento mais isso. Só brigas, discussões, falta de apoio. Estou cansada de ser massacrada pelos outros, de não ter ajuda e um ombro. Passo por tantos problemas e não consigo contar com ninguém. Acho que passei mal por isso. Estou cansada, desamparada, deslocada…

Bianca soluçou, antes de chorar. Camila logo teve lágrimas nos olhos. Eulálio ficou embargado. Suzana estava descrente:

– Vejam nós quatro. Nós brincamos juntos, crescemos juntos. – Bianca repercutiu. – Mesmo assim, não nos importamos uns com os outros. Sofremos dentro da nossa família, por pessoas que nos atacam, mas não nos ajudamos. Nunca nos oferecemos para nos proteger. Somos muito egoístas e egocêntricos. Não quero mais. Prefiro morrer então.

Aquilo foi um marco. Ou talvez fora o primeiro chacoalhar. Ninguém pôde comentar algo. Eulálio, contrariado, beijou a prima na testa, disse que tinha um afazer na corrida e mais tarde ligava:

– Vai ser a primeira vez que não vou voltar com medalha. – ironizou Bianca, com Camila, ao seu lado, reprimindo um riso.

– Você quer a minha? – ofereceu Suzana, aproximando-se.

– Não. Eu arranjo medalhas para vocês duas. – prometeu o primo.

– Merecemos. Certamente somos campeões. – concluiu Camila. Ao ver a desilusão no rosto de Bianca, emendou. – Um dia, seremos.

Os quatro sorriram solidariamente. Depois de Bianca se recompor, Suzana pagou um táxi até a casa de cada uma. Não conversaram nada. Só refletiram. O percurso a ser cumprido prometia ser bem complicado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: