COMUNHÃO – Bianca

Adentrando velozmente numa pequena Igreja de Nossa Senhora Aparecida, Camila, de cara, percebeu que estava vestida inapropriadamente, com calça jeans e blusa de alcinha fina. Todos estavam bem arrumados demais para sete da noite. Ela estava (ou era)  simplista. Bianca transparecia um ar chique também. Usava um conjunto bem cortado de saia e blazer num azul marinho fechado:

– Desculpa não ter te encontrado antes. – disse Camila, beijando a prima. – Eu não consegui passar em casa. Vim direto pra cá.

Bianca permaneceu ereta, de olhos fechados, como se rezasse:

– Tudo bem. Agradeço ter aceitado o convite. Eu tinha de comparecer, mas não podia estar sozinha. Eu cheguei mais cedo. Pra rezar.

– Eulálio vem? Ele era chegado na Tânia.

– Lio era afim dela. Ele não vem. Nunca viria. A Tânia conheceu o marido na mesma noite em que deu um toco no Eulálio.

– Ui! Não sabia disso. Quem serão os padrinhos do pequeno? – inquiriu Camila, arrependendo-se em seguida.

– O irmão dela que vem de Manaus e a Lulu. – respondeu secamente.

Bianca não se conformava. Era ela quem deveria ser a madrinha do primogênito da grande amiga. Ou seria ex-amiga e não quisesse assumir isso? Prometeram, desde crianças, que seriam comadres assim que os rebentos nascessem. Porém, Tânia tinha chegado à maternidade rapidamente, claramente com sinais de esquecimento. Nem cogitou em chamar Bianca para madrinha de toalha. Preterida, a garota estava fingindo alegria por um momento especial e acabada por dentro pelo descaso.

Apesar de terem se afastado, Bianca nunca quis acreditar que fosse se tornar incompatível a Tânia. Elas eram tão íntimas. O noivado pôs fim à junção. Já no casamento, fora convidada apenas por mera formalidade. Não pertencia mais ao círculo íntimo da amiga:

– Olha a Suzana! Você a chamou? – Camila interrompeu os pensamentos da prima. No mesmo momento, acenou para a recém-chegada.

As duas sentadas não deixaram de notar, chocadas. Suzana estava deslumbrante num vestido de pêssego bem curto e marcado. Não era traje para uma missa, mas sim para uma festa:

– Que roupa é essa? Vai a uma formatura? – Camila teve de perguntar.

– Que nada! Eu estou tão normal. – Suzana respondeu. – Chega pra lá, Bianca! Tenho de ficar na ponta.

– Por que, Suz?

– Tudo bem, eu confesso. Tenho de aparecer nesse evento.

– Mais uma vez, por quê? – Bianca repetiu. – Você e Tânia não se dão pelo que eu saiba. Sempre tiveram uma animosidade.

– Deve ser por causa de homem. Não acredito que você pegou o marido dela?! – soltou Camila.

– Acho que sou muito previsível… Foi por homem sim. Só não foi aquele marido feioso e asqueroso dela que me cantava insistentemente. Foi o irmão. Ele me convidou pessoalmente por telefone semana passada para o batizado.

– Você pegou o Carlos? – Bianca ficara assustada. – Como eu nunca soube disso?

– A história é simples e rápida. Foi uma vez só, numa noite. Ele se apaixonou perdidamente. Ficou insistindo depois dessa transa única. Eu não sou de namorar. – ressaltou Suzana. – Aparentemente fiz ele sofrer demais.

– Shiu. Chega de conversa, já vai começar. – cortou Bianca.

– Até que enfim. Quero que isso acabe logo. Quem tem tempo de batizar em plena sexta-feira? Foi um custo pedir dispensa depois do almoço no estágio pra poder me produzir.

– Agora é fato. Estou um lixo! – concluiu Camila.

A cerimônia de batismo foi linda. No entanto, Bianca nem prestou tanta atenção. Só se imaginava na posição de madrinha, segurando o afilhado, rindo para fotos, abençoando-o. O tempo todo se fantasiava naquela posição. Por outro lado, Suzana passou a missa toda se insinuando a Carlos, que não desgrudava os olhos dela, para ódio de Tânia que não ia aceitar o irmão cair na teia de uma típica predadora de novo. Camila reparava nas pessoas, decidindo se vestir melhor dali em diante.

No final, elas foram cumprimentar as pessoas no altar. Naquele burburinho, fizeram uma descoberta interessante que chateou Bianca mais um pouco:

– Suzana! Você não se modifica, está igual! Nos vemos na recepção depois? – Carlos revelou, sem imaginar que as três primas não foram convidadas. – Temos tanto o que conversar.

– Recepção? – Bianca murmurou a si mesma, incrédula.

– Que anel é esse?

– Estou noivo em Manaus, Suzana.

– Ah… Parabéns, querido! Boa sorte! Vamos ver o novo cristão. – disse sem graça.

Ao se afastarem de Carlos, Bianca percebeu a cara de insatisfação da prima:

– Suzana, você não achou que ele ia se guardar para você, achou?

– Achei. Ele tinha cara de apaixonado.

– Cara de safado, isso sim. – comentou Camila. – Está noivo e desejando. Parabéns, você conseguiu o que queria. Ele está no papo, é só carregá-lo para o quarto e… O resto é contigo. Com a segurança de que ele voltará a Manaus, sem insistências.

– De jeito nenhum! Estou fora dele. Do jeito que ele é, se eu pegá-lo, ele termina o noivado por telefone por minha causa. Não quero essa confusão de novo.

Camila e Suzana cumprimentaram pais e padrinhos muito rapidamente. Já Bianca fez questão de papear e agarrar um pouco com as pessoas. Na vez de Tânia, brotou um silêncio constrangedor. Era claro que as duas se lembravam do pacto:

– Parabéns, Tânia. Você escolheu muito bem os padrinhos.

– Apenas segui meu coração. – ela disse sem graça.

Com a deixa sentimental, Bianca extravasou no que sentia.

– Eu sinto muito que estejamos afastadas. Era inimaginável essa distância. Queria tanto manter você perto de mim. É difícil aceitar que fizemos promessas falsas. Eu ainda te considero muito.

– Bianca, esse não é o momento. Podemos marcar um almoço, que tal? Eu te ligo – Tânia tentou contornar, meio sem graça.

– E a recepção mais tarde? Não seria um bom lugar para conversarmos?

– É só para família e amigos íntimos. – Tânia deixou escapar. Bianca estava indignada. – Você sabe como essas coisas são caras. Não dava pra fazer festa grande.

– Você mudou muito, não é a minha amiga que conheci.

– Eu não tenho culpa de ter amadurecido e ser uma mulher decidida. Não consigo ser contemplativa, ver as coisas e ficar quieta, esperando.

– Você está me julgando? Até você?

Percebendo que o embate já chamava atenção, as primas se colocaram ao lado de Bianca:

– Vamos, querida. Outras pessoas querem cumprimentar a mãe da criança. – disse Camila.

– Vamos, Bianca. Vamos ser contemplativas na noitada, vendo muito homem bonito e disposto a nos beijar, enquanto a Tânia contempla choro e cocô de neném. – remendou Suzana, para espanto dos que escutaram o comentário.

Na porta da Igreja, Bianca ameaçou chorar. Camila a abraçou:

– É tão injusto. Ela era minha amiga. Como foi capaz de me dispensar tão rápido?

– As pessoas são individualistas. Pensam só em si. – respondeu Suzana.

– Bibi, você está vendo isso errado. Quem saiu perdendo foi Tânia, não você.  – consolou Camila. – Esse tempo todo em que você se lamentou é prova da boa amiga que você sempre foi.

– Ao contrário dela que ia te deixar na mão eventualmente. – costurou Suzana.

– Foi melhor assim. Você sai ganhando ao se afastar dessa insolente.

Mais resignada, Bianca sorriu. As primas tinham sido esplêndidas:

– Vamos para casa? Está de carro, Suzana? – perguntou Camila

– Que nada! Eu não falei por falar. Nós vamos farrear, só as garotas. Com um telefonema, nossos nomes estarão na porta, sem problemas! Vamos celebrar nossa conversão à solteirice. – Suzana brincou.

– Isso está mais para crisma, não? Reafirmar nossa condição de desimpedidas? – sugeriu Bianca.

As três se abraçaram e riram. Apesar do incomodo, Bianca não se arrependeu de ter ido ao batizado. Ela percebeu que precisava ter visto o novo panorama para poder se libertar.

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