COMUNHÃO – Camila

Invejou a serenidade de sua mãe, Constância. Isso era uma primeira vez para Camila. Sempre se via tão diferente da progenitora, tão afastadas. Não desejava ter qualquer laço ou vínculo com ela, muito menos, qualquer semelhança. Contudo, ao vê-la tão tranquila e perseverante, rezando na Igreja de Santo Antônio, teve vontade de absorver como as pessoas conseguem ter fé.

Católica por formação, Camila sempre considerou a religião como obrigação. Tem que ir a missa todos os dias, tem que confessar uma vez por ano. Seguindo o caminho natural, teve de fazer primeira comunhão, passar pela perseverança e cair na crisma. Em todos esses momentos, nunca se sentia tão próxima de Deus. Achava que era mais mulher de ciência do que de fé. Custava a acreditar no poder do divino, do sagrado.

Apesar de ser tão prática, Constância demonstrava uma proximidade grande e certeira com o Todo-poderoso. Anualmente, ela arrastava a filha à igreja para poderem agradecer uma cura milagrosa  Aos quatro para cinco anos, Camila teve nefrite. Foi assolador, embora a garota não se lembre de nada. Ela se deitou tranquilamente e, no dia seguinte, estava inchada, monstruosa, defeituosa. Passou uma temporada longa internada, sempre insistindo para que saísse de lá. Talvez nunca tenha cogitado cair numa área de saúde pelos traumas.

Por ter se recuperado sem qualquer sequela, Constância prometeu, em todo ano aniversário daquele incidente, doar cestas básicas a alguma instituição de caridade, além de rezar uma missa ao Santo que deu nome ao seu pai, o avô de Camila. Na época, o senhor Antônio quase se compadeceu pela neta. Não saiu do hospital, chegou a pernoitar em hotéis perto do local. Tão diferente de Lina e do resto dos Bersani’s…

Então, naquela quarta-feira, Camila teve de se juntar à mãe, obrigada, mais uma vez, a pagar sua conta perante o Senhor. Sabia que era um desrespeito pensar dessa forma. Só que não fora ela que adquiriu a dívida. Por que tinha de arcar com uma promessa feita por sua mãe, sem ser consultada na época? Parecia injusto e também enfadonho. Tinha de chegar mais cedo e rezar um rosário. Como tinha sido rápido, a mãe meditava, enquanto ela rememorava os fatos da sua doença:

– Fiz outra promessa para você. Acho que fui atendida. – Constância falou da maneira mais suave e delicada.

Camila ficou ressaltada, de sobreaviso. Desde quando estava precisando de algo em sua vida? Outra promessa como aquela seria um disparate:

– Esse ano será o início do seu sucesso, da sua ascensão. Eu vou ajudá-la. Vou colocá-la num prumo profissional.

Constância deixou de ajoelhar, sentou-se no banco e sorriu de soslaio para a filha. Esmola demais, o santo certamente desconfia. Camila podia não ser pura e casta como os mártires católicos, mas compreendia que a atenção e o cuidado da mãe vinham com algum preço, um sacrifício:

– Todos os seus primos fizeram ou fazem estágio. Você, quase no meio da faculdade, não arranjou nada.

Camila fez cara de contestação, Constância a silenciou com o olhar e dois tapinhas no braço da filha:

– Eu não estou brigando, estou pontuando o que vejo. Me preocupo contigo. Sua avó Lina já deixou escapulir várias vezes o quanto acha que suas escolhas são errôneas. O que você vai fazer formada em Ciências Políticas?

Camila estremeceu. Quase compartilhou, no trajeto para a igreja, o que andava pensando: trocar de curso. Ainda bem que se conteve. Era ilusão achar que tinha alguma conexão pura com Constância:

– Eu sabia que tinha a vovó nesse meio… – comentou mais para si mesma.

– Eu acho que a Lina está certa no que diz. Não quero que você troque de curso, faça o que quer. Porém, eu e seu papai concordamos que você deve ter uma outra ocupação. Decidimos que você deve ter um emprego, nem que seja de meio expediente.

– Você e meu pai decidiram? Como assim? – exasperou-se.

– A situação não pode ficar desse jeito. Todos estão conquistando, ganhando independência. Até a Bianca passou a procurar um estágio. Faz prova para defensoria ou promotoria, não sei. Soube que ela ficou uma semana num escritório.

– Mãe, ela detestou. Deu errado. Colocaram ela numa área que ela considera terrível, tributário.

– Mesmo assim, ela tentou. Até ela que só estuda e lê decidiu que é hora de progredir, fazer contatos. Você está parada, filha.

– Isso não deveria ser escolha minha? O futuro é meu!

– Você tem razão, mas como vive debaixo do nosso teto, vai ter que arcar com nossas imposições. Tudo isso é para o seu bem. – Constância transmitiu temor.

– Um argumento de autoridade? Como competir com ele?

– Não é autoridade, é preocupação de mãe. Quero seu melhor, por isso, estou informando a você que na segunda seguinte você tem uma entrevista de emprego. Isso é tão excitante.

– Eu tenho o quê?

A música começou a tocar para a chegada do celebrante. Uma leitora se pôs a pronunciar a mensagem de entrada, em seguida, pontuou as intenções. Constância estava de pé, enquanto Camila permanecia sentada, derrubada, incompreensível e incompreendida.

A mãe cantava a música de entrada, no momento em que ela não se conteve. Levantou-se e sussurrou no ouvido dela:

– Que história é essa de emprego, mãe?

– Explico melhor depois. – e continuou a cantar.

– Pois fique sabendo, desde já, que não vou.

– Vai sim! Não vai fazer uma desfeita com meu amigo de longa data, o doutor Jairo.

– Ah, entendi. Vou ser como a senhora, antes de casar. Serei secretária do doutor Jairo. Inacreditável!

– Tão esperta, você! Mas errou por um detalhe. Você vai trabalhar para o filho dele, que também fez odontologia, o Leonardo. Quem sabe vocês dois…

Ela deixou no ar a sugestão. No entanto, era Camila que estava suspensa, sentindo-se apunhalada pelo pai, por ele não ter comentado nada a respeito dessas conversas conspiratórias. Pecado era, ainda mais na casa de Deus, mas odiou a mãe por obrigá-la a ser, a agir e a se parecer como ela. Não queria ser igual à Constância. De jeito nenhum, isso era um pesadelo.

A missa voou. Camila ficou no automático. Não absorveu nada do que foi dito. Ao fim, depois da bênção, levantou-se e saiu sem olhar a mãe:

– Camila! Vamos falar com o padre.

– Não, mãe. Vou seguir meu rumo. Nos vemos depois.

Saindo da igreja, enfim sem os olhos maternos, recostou-se na parede. Que cobrança difícil! Que novidade tenebrosa! Por que estavam lhe impondo mais isso? Por que não podia ter ou fazer o que queria?

– Camila! Não sabia que você vinha nessa igreja. – era Bianca. – Veio assistir a missa carismática das oito e meia? É ótima. Sempre que posso, quando não tenho tanta coisa, venho aqui.

As duas se abraçaram. Camila permaneceu encostada:

– Não. Chega de missa. Nada tem jeito mesmo.

– Não fale assim. O que foi?

– Imposições. Não aguento mais ser impelida a fazer o que não quero. Se pudesse, eu sumia.

Bianca pegou a mão da prima. Compartilhava desse sentimento. Porém, não sabia se teria forças para consolar quando ela mesma também se encontrava retraída, menosprezada e impossibilitada.

Na verdade, naquela noite, Bianca não teve de fazer nada. Só escutou, sendo solícita. Elas caminharam juntas até chegarem em casa. Juntas, em comum, ambas precisavam apenas reforçar a ideia de que nem tudo estava comprometido e decidido.

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