MEDIAÇÃO – Camila

Mesmo o shopping vazio, não a encontrava. Camila não queria se passar por insensível. Ela sabia que era boa, apoiadora e compreensível. Precisava se desculpar, acertar os ponteiros. Necessitava achar Suzana de qualquer jeito para pedir perdão e consertar as piadas malvadas que fez.

Rodou pelos corredores, entrou em lojas, averiguou o banheiro, correu, tentou o celular, se desesperou. A prima poderia ter ido embora, magoada e raivosa, pela forma como ela brincara com a duvidosa situação sexual. Infelizmente a intimidade fora a grande culpada. Sempre brincou com Suzana, porém entre elas. Não deveria ter externado na frente de estranhos.

Cansada, recostou-se num dos pilares brancos. Nunca poderia ser uma antropóloga. Se com a prima teve um juízo feroz e cortante, o que aconteceria quando analisasse o outro? O desconhecido certamente despertaria asco e repulsa. Sentia que sua alteridade estava comprometida. Era preconceituosa, moralista e autoritária. Não conseguiria ser alguém desprovida dos valores morais que funcionam como filtros de análise. Tinha de permanecer nas Ciências Políticas:

– Sabia que ia encontrar você aqui. Bem, eu sabia que sua prima ia encontrar com vocês depois do jogo. Quero conversar.

André a encontrara num pior momento. Estava abalada e desfocada. O que pensaria ao vê-la daquela forma?

– Olá. – Ambos trocaram dois beijos castos. – Tem um tempo que não te vejo. Parece que está fugindo. Não fiquei sabendo quando voltaria do congresso nacional de Ciências Sociais.

– Por causa de contatos, acabei esticando no local do evento. – Ele estava sem graça. – Foi bom para espairecer um pouco. Eu precisava.

Uma mulher loira cruzou a vista de Camila. Ela se lançou à frente, desprezando André. Ela estava prestes a gritar. Não era a prima:

– Você está bem? Parece aflita… Você está perdida? Cadê seus primos?

– Estou procurando a Suzana. Fiz besteira com ela. Eu a magoei. – confessou.

– Deixe um pouco de tempo passar. Pelo que conheço, se ela for no futebol como é na vida, um tempo diminuto basta para se reaproximar e esquecer tudo. Suzana é muito simplista.

No fundo, Camila sabia o quão certo ele estava. André era um ótimo reparador das pessoas. Suas palavras eram mais um ponto para ele no placar da paixão. Por que, mesmo numa situação triste, ele conseguia fazê-la mudar de perspectiva e ainda arrebatá-la mais? Que homem especial era esse?

– Seu semblante está mudando. Bom saber que eu alcanço seu íntimo facilmente.

Camila não respondeu. Tinha duplo sentido naquilo. Tal efeito subliminar a fez esquecer o entorno, no mesmo momento em que passou a ser observada. Suzana, de longe, decidiu não interromper a prima num momento tão abrasador. Era o que a linguagem corporal evidenciava. Eulálio, recém-chegado ao shopping, ficou curioso com a cena, escolheu por não cortá-la também. Queria saber do que Camila era capaz:

– Talvez eu seja muito evidente… – ela ficou acanhada.

– Depois do nosso último encontro, receio que devemos ser muito claros.

– Se você insiste…

Ela tentou enlaçá-lo. André se esquivou:

– Melhor não, ainda mais com a situação de agora. É um lugar muito comum e cheio. – Ele se desculpou.

– Não quer arriscar?

– Não. Não depois da advertência. – O professor disse baixo, como se conversasse consigo próprio.

– Que advertência? – Camila estava em alerta. Já imaginava o que poderia ser.

– O caso com a Vanessa rendou mais que fofocas. Tive uma pesada e preocupada reunião. Fui advertido. Pediram que eu me afastasse dela e fosse cauteloso com as outras. Não querem me perder por causa de um escândalo de assédio.

Suzana estava intrigada. O corpo dele era ambíguo, desejava-a, mas ao mesmo tempo se continha. Por outro lado, a prima tinha se fechado e recuado. Ela estava resistente. Talvez ele tenha soltado algo bombante. Eulálio curtia a situação. Camila tinha avançado, ele a repeliu. Ambos pareciam magoados e ressentidos:

– Pensei que estivéssemos mais próximos… Achei que… Poderia acontecer de ficarmos mais juntos. – Camila desabafou.

– Eu quero isso. Só não pode ser agora, por nosso bem.

– Não, André, é pelo seu bem apenas. – Camila o encarou. – Você é tão esperto e sagaz. Não imaginava descobrir um lado tão subserviente.

– O que você quer que eu faça? Esse é meu emprego. Lutei por ele. Eu quero você, Camila. No entanto, tenho de recuar.

– Eu não entendo. Minha situação é igual a da Vanessa? Minha condição de aluna é um argumento preciso e irrefutável? Por ser meu professor, estamos condenados?

André não respondeu. Não precisava. Camila deu as costas e se retirou.

– Espera, não é bem assim…

Caminhando decidida, embora de cabeça baixa, assustou-se com as mãos em sua cintura. Era Suzana. Ela recostou a cabeça nos ombros da prima:

– Vou mandar uma mensagem para Bianca nos encontrar na praça de alimentação. – Eulálio disse calmamente, colocando-se no outro lado da prima.

– Me desculpe por… – Camila transmitia pesar.

– Esquecemos aquilo, tudo bem? Eu estava estranha. – Suzana resumiu.

– É como me sinto agora. Eu não entendo o André. Como duas pessoas podem se encaixar tão bem e não conseguirem ficar juntos?

Enquanto ela questionava, Eulálio olhou para trás. André os seguia. O garoto fez cara séria e movimentou a cabeça em negativa. O professor parou, deixando-os partir:

– Camila, o entrave está na cabeça dele. Você não tem que se culpar. Por mim, você se afastaria e esperaria. Quem sabe ele sente falta e se toca? – sugeriu Suzana.

– Não sei… Isso é sério. Relação professor-aluna sempre é um problema. Será que você não o deseja só pela excitação do proibido? – Eulálio teve uma abordagem distinta. – Talvez seja melhor tirar o time de campo agora antes que seja tarde.

Camila não queria se afastar ou assumir a derrota. Podia constantemente transparecer fadado ao fracasso, contudo ela botava fé na relação deles:

– Quero um sorvete. Preciso de um. – ela disse, olhando uma sorveteria.

– Nós já vamos almoçar. – Eulálio censurou.

– Deixa ela! Vai fazê-la feliz. – Suzana discordou.

– Não é chocolate que faz vocês, mulheres, ficarem menos depressivas? – Eulálio estava realmente curioso.

As duas sorriram. Acariciaram, ao mesmo tempo, o rosto dele. Foi um singelo e rápido momento afetivo. Porém, alastrou uma força tremenda. Somente aquela conexão inesperada evitou que Camila se sentisse oca. Na vida, desapontamentos e fracassos podem ser um tratamento de choque. Nos fazem parar de cutucar o machucado, a fim de deixar a cicatriz se fechar, ao mesmo tempo em que nos ocupamos com novas promessas.

MEDIAÇÃO – Suzana

A única mulher, a primeira a ficar pronta. Os gêneros estão cada vez mais bagunçados. Apesar de ter um vestiário somente pra si, Suzana não se conformava em esperar tanto pelos garotos depois do futebol. Talvez eles se zoassem pelados. Ou fofocavam como as garotas. Por isso, atrasavam. Definitivamente as barreiras estão bem tênues:

– Você vai comigo, não é Suzana? – Edgar surgiu ao lado dela, sem camisa.

A garota não respondeu. Ele estava mais bronzeado e atlético, com mais pelos no peito. Há quanto tempo ficaram pela última vez?

– Ou arranjou outra carona? – ele perguntou, já que não percebeu, por causa dos óculos escuros dela, que Suzana o estava analisando. Dissecando-o.

– Não! Vou contigo mesmo.

– Só vou esperar o Victor. O que aconteceu com você hoje? Te achei distraída. Está tudo nos conformes?

– Ah, está. Por quê?

– Você perdeu dois gols bobos. E também quis jogar de lateral. Tinha tempos que você não corria atrás da bola.

– Senti vontade de suar mais. Estou precisando de algo que me distraia.

– Tipo o quê? Será que posso ajudar?

Edgar sorriu pra ela daquele jeito que não deixava dúvidas. Por já se conhecerem, por serem parceiros de futebol, por serem sacanas, ela foi límpida:

– O que você quer? Pode falar!

– Estarei sozinho em casa hoje à tarde. Depois do shopping, você poderia ir pra lá. Meus pais têm uma banheira nova no quarto deles. Imagina nós dois dentro.

– Você continua com a fantasia de transar na cama dos seus pais? – ela foi ríspida. – Eu não gosto disso.

– Não… Eu só quero que você conheça a banheira.

– Não sei… Ando meio estranha. Estou indisposta pra essas coisas. E tem festa de aniversário do meu tio hoje. Não quero chegar cansada.

– Você? – ele se assustou de maneira jocosa. – Recusando uma brincadeira? Está apaixonada?

Suzana transformou-se. Seus sentimentos tortos e inéditos por Igor não mereciam brincadeiras. A fim de não ser indelicada com Edgar, virou-se de frente, a observar um pequeno jardim próximo a eles:

– Desculpe-me se falei algo que não devia. Só achei que conhecesse você um pouco. Percebi que você está um pouco mudada. Está dispersa. Isso tem cara de homem novo, que deixou você caidinha.

– No fundo, você tem razão, Ed. – Sem ter ninguém para desabafar, Suzana aproveitou a oportunidade. – Tem um cara sim, mas não sei o que está realmente pegando entre nós.

– Suzana, você é muito decidida. Se quer ele, não sei o que impede?

Edgar tinha razão. Ele merecia um prêmio. Sorridente, Suzana se virou para dar um simpático beijo nele. Rapidamente, o garoto virou-se. Eles deram um estalinho. Contudo, ele a apertou contra si, tentando se aproveitar. Ela sentiu uma dose de excitação percorrer o sangue, ao se imaginar deitada com aquele bonito corpo. Porém, cortou o beijo como forma de punição pelo atrevimento dele:

– Vamos? – Victor apareceu, sem perceber o que tinha ocorrido.

No caminho, Edgar não parava de olhar pelo retrovisor para Suzana. Ela não queria ceder ao clima, afinal, precisava analisar a situação com Igor. Devia pensar sobre a não relação deles. Contudo, o parceiro de futebol estava complicando, envolvendo-a numa teia de desejo e excitação.

Dentro do shopping, no momento de despedirem, Edgar sussurrou pra ela:

– Se mudar de ideia, é só me ligar. Minha tarde será sua, de mais ninguém.

Ainda analisando como os homens podem ser tão diretos, Suzana entrou na livraria. Suas primas estavam em outro assunto. Ela não se importou:

– Por que homens têm de ser tão diretos? Tão explícitos? Que raiva!

– Olá, Suzana. – enfatizou Camila. – O que você quer dizer?

– Desculpe. Oi, primas. – Ela beijou as duas. – Eu não entendo como eles podem ser tão claros no que desejam. Se querem pegar você, transar contigo, eles explicitam isso de uma forma direta, sem rodeios. Eu me sinto um pedaço de carne apenas, com bundão e peitos gostosos.

Bianca ficou exasperada. Suzana disse aquilo bem alto. Muitas pessoas desviaram-se das prateleiras e das páginas para olhar as três.

– Você também poderia deixar de ser tão direta e clara? Todo mundo escutou. – Bianca ralhou.

– Claro. Sexo vende, sexo interessa, sexo é ótimo! – Suzana rebateu, mantendo a voz alta.

– Shiu! – Bianca tentou podá-la.

– Por que você está se importando com a constante atitude masculina? – Camila perguntou. – Eles não hesitam como nós, não fazem pesquisas. Quer analogia melhor que ir às compras? Eles não comparam, pegam o que quer. Nós somos as indecisas, as que entram em milhões de lojas. Que experimentam em demasia.

– Eu não sou assim. Quando quero dar, eu dou. – Suzana disse sem pensar.

– Então qual é o problema? Não compreendo. – Bianca tentou acompanhar a linha da discussão, embora detestasse atenção voltada para elas dentro da loja – Se você se sente, e é como eles, por que está irritada com a clareza dos homens?

– Boa pergunta! – Camila pontuou. – Logo você, Suz, que sempre está um passo a frente, ou ao lado dos homens… Essa é sua característica, ser ousada. Por que se sente enraivecida?

Suzana caíra na própria armadilha. Criticava um jeito que era dela. Por que não temos espelhos internos tão bons?

– Eu, particularmente, não concordo com essa agressividade sexual. Nós, mulheres, temos de nos preservar. – Bianca tomou a palavra. – Se não nos resguardarmos, quem vai fazer? É aquela máxima antiga: homens não prestam, mulheres não se dão o valor.

– Hoje em dia a dicotomia não está tão forte assim. – Camila divergiu. – Antigamente sim. Atualmente sei de muitas mulheres que não prestam e homens que não se valorizam.

– Eu! Eu não presto. – Suzana colocou-se como evidência.

Com a afirmação, ela se sentiu mal com a própria conduta. Ela sempre fora previsível, direta e clara quando se tratava de seus interesses sexuais. Não escondia, não floreava e não ocultava. Quando queria alguém, caía de cabeça, sem se preocupar com consequências, problemas ou entraves. Talvez por isso não tenha tido ninguém. Não havia segredo ou mistério para se alcançar e conquistar. Suzana era um livro exposto, ou uma página constantemente aberta, ou letras garrafais com mensagens curtas e certeiras. Constatou um possível motivo pelo afastamento de Igor:

– Deixa pra lá… – ela se afastou das primas. Ambas perceberam que tinham atingido um ponto interno de conflito.

– Suz, por acaso André estava no treino? – Camila entrou no assunto que a interessava. Precisava saber se o amado tinha voltado do congresso. Sentia saudades tremendas de seu professor.

– Estava. Acho que ele passa no shopping daqui a pouco.

Bianca observou como essa notícia fez a prima tornar-se radiante:

– Suzana Bersani. Enfim, eu a encontrei.

As três primas ficaram pasmas, olhando a felicidade e a intimidade do vendedor da livraria, de fronte a elas. Ele parecia tão animado:

– Ei. – Suzana estava sem graça. – Como está?

– Acho que você não se lembra de mim, mas eu procurei por você. Até entrei nas redes sociais. Fiquei com vergonha de adicionar, porque pertencemos a círculos diferentes. Foi o que constatei. Sou o Luca, nós nos conhecemos na corrida, nós… Você se lembra?

Suzana assentiu, enquanto se escandalizava pelo esquecimento:

– Ah… Você é o cara… Aquele que o Eulálio pegou fazendo… – Bianca gesticulou sem graça. Calou-se repentinamente.

– Exatamente. Sou eu. Queria conhecer você melhor. Que tal sairmos juntos?

– Para repetirmos nossa loucura? – Suzana mostrou-se falsamente alegre.

– Também. Com certeza, na verdade!

– Olha, Luca, eu aprecio muito sua honestidade. Só que hoje vou ignorar você, tentar esquecer sua proposta direta. Infelizmente você teve azar. Não estou para investidas.

– Como? – Camila ficou chocada. – Você está dando um toco nele? Parabéns, Luca. Você é um dos muitos que transou com Suzana. E um dos poucos a receber um não dela.

Suzana detestou a colocação da prima. Fechou o cara. Bianca estava olhando Luca, como ele ficou tristonho:

– Eu não mereço isso, não de vocês. – Suzana abriu a bolsa. Pegou 50 reais. – Toma! Eu vou pra minha casa. Comprem qualquer coisa, não me importo. Por que não a trilogia Cinqüenta Tons de Cinza? É a minha cara, não é? Putaria é a marca da Suzana.

– Prima, me desculpe. Eu estava brincando.

Uma correu atrás da outra. Luca e Bianca ficaram parados e tímidos entre si.

Correndo pelo shopping, querendo ficar sozinha, Suzana se escondeu numa loja de departamento. Despistou Camila rapidamente. Rodeada por estranhos, sentou-se num banco cumprido. Era possível fugir de sua essência?

– Já almoçou com as primas? Que rápida! – Edgar surgira na frente dela.

– Não sei se vou almoçar com elas. Só sei que vou transar contigo na banheira, fora dela, no chão, na cama de seus pais… Quando sair do shopping, me liga. Vou pra sua casa.

Suzana levantou-se, deixando-o boquiaberto. Ela requebrou mais que o habitual. Dane-se o tribunal da vida. Ela ia fazer o que estava com vontade. Embora pragmática, a garota continuaria a ser movida por emoções, como um paradoxo.

ESCURIDÃO – Bianca

Passava pelo caminho de pedras, quando escutou algo se espatifar na cozinha. Bianca ia entrar pela frente. Resolveu ir pelos fundos. Aquela cena era aterrorizante só pelos participantes. Dona Lina, sua avó, rodeada pelos dois irmãos, pendurava-se despojada em cima de uma das cadeiras da bancada da cozinha. Os três riam animados e despreocupados. Sua mãe estava de frente para a geladeira recolhendo cacos de vidro:

– Ai! – Patrícia exclamara com dor, de supetão.

Rapidamente Bianca se jogou no chão, amparando a mãe. O sangue já pingava:

– Mãe! Vamos cuidar disso, depois eu limpo.

Na torneira, Bianca ficou enfurecida. Nenhum dos três se importou com as duas. Elas pareciam invisíveis:

– Como você derrubou isso?

– Não fui eu. Foi o Nei. Ele disse que ia se sujar se limpasse. Sabe como é…

Bianca ferveu por dentro. Era inacreditável. Seus familiares eram ao menos humanos? Não parecia. Onde estava a dignidade da pessoa humana?

Por que Bianca se sentia tão jurídica? Ela percebeu como estava mais afiada e com o pensamento mais atrelado à lógica do Direito, depois que iniciou o estágio clandestinamente. Como de praxe, nenhum de seus familiares suspeitou ou se perguntou sobre a razão da ausência dela durante as tardes em casa.

Queria dar um grito, acusar, fazer uma petição e instaurar um julgamento, ao mesmo tempo em que não desejava retirar a pressão das mãos da mãe. O sangue demorou a estancar.

Enquanto isso, Bianca percebeu que a indiferença sempre havia sido uma forma eficaz de ataque. Menosprezando as duas, o poder era mantido. Ela, pela primeira vez, ansiou por um fim, pelo alcance do respeito. O problema era a avó. Achava estar pronta para enfrentar tal mulher fria e calculista? Mais cedo do que poderia supor, a matriarca dos Bersani’s seria atacada:

– Alguém poderia pegar o kit de primeiros socorros no banheiro? – Bianca tentou uma abordagem mais utilitária.

O trio as olhou por cinco segundos, como se ela falasse grego. Voltaram ao conluio animadamente:

– Deixa, Bianca, eu vou rapidamente sozinha e eu mesma passo algo. Você poderia ficar aqui e preparar uns sanduíches, já que a torta de frango está imprópria?

– Como?

Patrícia sorriu, beijou a filha e se retirou. Ninguém a notou. Bianca ficou de costas para as visitas. O ódio fluía da ponta da cabeça aos pés. O sangue da própria mãe no chão branco a fez perder o juízo. Naquele instante, esqueceu-se de modos, de medos e da mudez. O ineditismo da reação assustaria a todos:

– Vocês estão com fome? – ela perguntou.

– Claro. – respondeu Fernando.

– É pra isso que você serve. Pra nos servir. – Nei debochou.

Bianca pegou a pá e a vassoura que estavam próximas:

– Primeiro faz o lanche! Estamos com fome e a avó tem compromisso. – Nei ordenou.

– Já vai sair. – foi a resposta seca.

Bianca varreu os cacos, o frango e o molho pra dentro da pá. Virou o conteúdo na tampa do lixo. Segurando-a como uma bandeja parou em frente de Nei. Num gestou rápido despejou horizontalmente aquilo tudo em cima da bancada. Boa parte voou em cima dos três, sujando-os:

– Pronto! É isso o que tem pra comer. Se não quiserem, a geladeira, o fogão, os pratos e o resto estão logo ali.

Os irmãos xingaram raivosos. Dona Lina ficou mais ereta e calma, retirando a sujeira de seu conjunto impecável:

– Você tem noção do prejuízo que acaba de me dar? – a avó disse de maneira mais baixa e fria. – Eu não sabia que tinha uma neta instável e louca. Bom conhecer minha mais nova, a desajustada.

– Eu? Desajustada? Pelo menos, não sou insensível. – a garota rebateu.

– Pede desculpas, Bianca. – Fernando tentou apaziguar.

– Não peço! Acho um absurdo o que vi quando eu cheguei. O que vocês pensam que são? Reis? – bravejou.

– Quanta mudança… Desde quando você é tão insolente? – Lina perquiriu. – Enfim esse curso de Direito está atingindo-a. Está fazendo você ser mais arisca. Cuidado. O andamento da lei pode ser surpreendente, nunca se sabe que forças estão em jogo. O tombo tende a ser violentíssimo.

Com anos de prática, Lina rapidamente virou o jogo. Bianca voltou a ter medo. Os irmãos raivosos e seus palavrões canastrões não a aturdiram. Contudo, a determinação enervante, estática e fria das ameaças da avó rompeu o fio de coragem:

– Honestamente, eu gostaria de saber a causa dessa sua modificação. Estou bem intrigada. Com quem anda falando? Com quem convive? Que matérias está fazendo? Já está no estágio?

De repente, Bianca teve medo de perder o pouco que conquistara. Sua avó era influente. Ela poderia conhecer os sócios do estágio e os manipular para dispensá-la. Poderia pedir que algum professor a apertasse nas disciplinas. Afinal, do que essa mulher era capaz?

– Bianca está muito sumida desde alguns dias. Não tem ficado mais em casa à tarde. – Nei revelou.

– Onde, minha querida, você se encontra nas tardes? Fazendo o quê? Já que estamos tendo uma conversa tão íntima e agregadora, é um bom momento para a verdade.

Três pessoas consideradas malvadas e impiedosas encaravam-na, com desejo de destrinchá-la e depois subjugá-la. Aquilo era a face do terror, do sombrio e da falta de consideração. Bianca fez o mais fácil. Fugiu.

Ainda correndo rua abaixo, com o entorno passando rápido como um borrão escuro, ligou para Eulálio. Ele desligou as duas vezes, não quis ou não podia atendê-la. Tentou Camila. O celular estava fora de área ou desligado. Sem saída, contatou Suzana. Bem mais rápido que o imaginado, a prima parou o carro rente ao meio-fio, em frente de onde Bianca estava sentada, as lágrimas ainda no rosto, embora tenha se acalmado:

– Bibi, querida, o que foi? – Suzana agachou-se perante ela.

– Eu sou uma doida. Provoquei a fera. Fui irresponsável. Eles vão me caçar, me prejudicar… Vou perder meu estágio.

– Me conta o que foi. – A prima interpelou.

Bianca relatou tudo, desde os fatos aos sentimentos. Por mais que achasse, erroneamente, Suzana rasa e não propensa a entender as emoções, quis se abrir, rasgar o que a envolvia de forma temerária:

– Estou surpresa. Você é como eu.

– O quê? – Bianca se assustou. – Como assim?

– Você tem coragem. Não se conforma com esse… jogo doente e malvado de nossa família. Parabéns. Eles têm razão de ficarem assustados. Há uma nova Bianca em você.

O elogio despertou um sorriso tímido nas duas:

– Vem. Você fica comigo o final de semana inteiro, na minha casa. – Suzana convidou.

– Eu preciso de coisas.

– As minhas roupas mais curtas e apertadas devem servir. Vai ser bom ficar fora do radar.

– Mas eu tenho de…

Bianca ia apelar para o estudo, como sempre. Precisava repassar as questões de mediação. Contudo, percebeu que há anos se recusava a fazer coisas, a relaxar e a viver, por causa da faculdade. Não, daquela vez, ela ia se permitir ser mais solta e despreocupada. Era mais um primeiro passo mínimo e totalmente solidificador rumo a quem ela estava destinada a ser.

ESCURIDÃO – Suzana

Não tinha sentido nada com a transição. Parecia que nem tinha trocado de empresa. Suzana estava totalmente integrada. Teve um pequeno receio de iniciante, mas assim que pegou no batente, rapidamente se misturou, participou, conheceu pessoas, cativou. O que ela entendia por uma fluidez natural era, de fato, uma facilidade exponencial em se adaptar a qualquer ambiente.

Apenas para não definir como perfeito, o novo estágio teve um detalhe inconveniente: o afastamento de Igor. Eles não se encontravam, não conversavam, não trocavam olhares. Tudo era estritamente profissional. Suzana era pragmática em demasia. Adorava tudo certeiro, claro e limpo. Não ter um retorno de Igor, não saber o que ele estava achando do desempenho dela, nem descobrir a razão do afastamento amoroso eram um tormento. Ficar no vácuo tornara-se um tipo de pesadelo petrificante.

Se não tinha na vida real, buscou na ficção. Imaginação era algo que ela tinha de sobra. Diversas vezes, ela se imaginou fazendo sexo em cima da mesa dele, ou sendo atacada numa sala abandonada e escura. Suzana queria aventura, loucura e ousadia. Sonhava em ser apalpada por debaixo de uma mesa durante uma reunião, fazer um boquete em Igor no meio do expediente, poder…

– Suzana! Você está distraída hoje! Olhou as plantas? – seu superior, conhecido carinhosamente de Gui, bradou.

– Ainda não. Estava terminando de vistoriar aquele projeto. – ela mentiu.

– Anda. Preciso de ajuda. Quero fechar tudo hoje.

Enquanto voltava a se concentrar, percebeu que havia outros empecilhos com a mudança. O amoroso era o mais simples deles. Ela estava em volta mais na parte burocrática, trabalhando em cima de leis, licitações e propostas. Talvez devesse marcar umas lições particulares com Bianca.

Desanimada com a aula à noite, Suzana se decidiu por finalizar as tarefas acumuladas e não subir para faculdade. Ela ia se sentir melhor com o dever cumprido. Depois, poderia passar no shopping e se presentear com alguma coisinha merecida. O inusitado dos planos é poder quebrá-los:

– Vai dormir aqui hoje? – Gui a assaltou com a sua voz pela sexta vez naquele dia.

– Não. – ela riu. Quem sabe a simpatia e a sedução dela poderiam acalmar o estresse de seu chefe direto? – Só quero acabar com isso logo. Não gosto de enrolação.

– Não precisa mostrar muito trabalho de cara. Você pode criar um padrão alto e não corresponder. Vê se corre, porque você não tem chave. A moçada da limpeza dever vir, em no máximo… – Gui consultou o relógio de pulso. – …vinte minutos.

– Ok. Vejo você amanhã. – ela despediu simpaticamente.

Olhando-o sair, descobriu que ele era um tremendo espanta-foda, ou seja, um cara chato, enjoado, e reclamão. Não dava tesão nenhum para as pessoas ao seu redor. Mais tarde, ela descobria que, na verdade, ele era muita-foda em relação a Suzana.

Logo que retomou a concentração, perguntou-se o que estava fazendo. As palavras de Gui assentaram dentro dela. Deveria se doar tanto assim? Era um exagero fazer depois do expediente algo que nem era urgente. Ao se preparar para sair, não percebeu que alguém tinha chegado. Quando se levantou, deu de cara com Igor. Os dois se assustaram. Tremeram:

– Suzana!? O que você está fazendo sozinha?

– Já estava saindo.

Ambos estavam bem sem graça. Suzana rapidamente percebeu o quanto era irônica a situação. Enfim, estavam sozinhos, mas pairava um entrave. Ela percebia o desconforto dele em se encontrarem a sós. Mesmo constantemente perspicaz, ela não interpretou corretamente os motivos do receio:

– Por que você está aqui? – Igor se mostrou esquivo.

– Eu… fiz hora… É… Não queria chegar cedo na Universidade. Fiquei aqui. Agora acho que até me atrasei.

– Eu levo você.

Suzana parou, no meio do caminho, enquanto pegava a bolsa:

– Não precisa. Nem é seu trajeto. – ela respondeu.

– Não. Não tenha cerimônia comigo. Faço questão.

Antes houvesse tamanho embaraço. Os dois não sabiam o que dizer. Estavam duros, sentados e estáticos. Olhavam para frente, para a fluidez incomum do trânsito. Não conseguiam quebrar o obstáculo entre eles.

No estacionamento da Engenharia, quase na mesma posição onde os dois já tiveram fortes cenas de amor, Suzana riu de escárnio. Não acreditava naquela situação:

– O que foi? – ele perguntou, pela primeira vez olhando-a de verdade.

– Se esse lugar falasse de nós… Quem poderia imaginar, depois de tanta putaria, que estaríamos assim, tão deslocados e afastados?

– Não é por minha escolha. – Foram cinco palavras cortantes. Suzana arrepiou com a entonação. – Fui obrigado a me afastar de você. Não queria misturar minha vida pessoal com a sua vida profissional, que está começando. Achei melhor ficarmos um fora do radar do outro.

– Você está me evitando? Por quê? – Como qualquer pessoa, Suzana detestava a rejeição.

– Você é minha estagiária. Não quero prejudicar você, a mim, ou a empresa. Foi o preço que paguei ao aceitar e convidar você.

– Então eu saio. Nem volto amanhã.

– Nem se atreva. Não trabalho com você, mas só escuto elogios.

Suzana corou. Ele sorriu com aquela reação:

– Igor, eu estou incomodada por não estar perto de você. Na verdade, é mais complicado porque você está bem mais junto de mim que antes. Porém, fica inacessível. Me ignora, não me olha, não me procura. Parece que eu não existo.

– Se eu fitasse muito seu corpo, acabaria fazendo uma loucura. Eu ia querer voar em você.

De repente, o clima voltou à forma como ela conhecia, ou seja, eletrizante, apaixonante, aquecido:

– Jura? Eu continuo acendendo você? Ainda deixo você com tesão? – ela provocou intencionalmente. – Pensei que tinha perdido meu poder.

– Nunca. Eu é que sou um grande dominador.

Igor lascou um beijo nela de tirar o fôlego:

– Estou vendo… – ela balbuciou, ainda de lábios colados – Quanto domínio… você tem agora…

Desse jeito, Suzana podou os atos dele. Igor parou de beijar, afastando-se rapidamente. Ele havia recobrado a razão:

– Viu o que me faz? Perco o juízo. Isso não é bom. Você acabou de entrar na empresa. Vai pegar mal se nos pegarem.

Não ter algo era terrível. Sentir o gosto daquilo, para depois lhe ser tomado, era aterrorizador e frustrante. Suzana não gostava que decidissem por ela. Sempre ia querer tudo e do jeito dela. Sem dizer uma palavra saltou do carro, bateu a porta e entrou rebolante na faculdade.

A aula se estendeu mais que o costumeiro. Ainda bem, pois não queria retornar para casa. Depois, tratou de conversar o quanto pode. Arranjou uma carona com uma veterana conhecida. A caminho, com o estacionamento vazio, Suzana se assustou ao ver o carro de Igor no mesmo lugar. Dispensou a colega. Entrou calmamente, como se nada tivesse acontecido. Uma melodia triste e profunda tocava: “…that’s when you have to tell me, hey…this kind of trouble’s only just begun…”

– Que música é essa? – depois de um tempo, Suzana perguntou. – Eu não conheço.

– É Why da Annie Lennox.

– Mais uma letra sugestiva?

Os dois ficaram escutando, imersos e receosos: “…some things are better left unsaid, but they still turn me inside out…”

– Por que você ficou me esperando até agora? – ela não se aguentou.

– Eu quis retomar de onde paramos.

No banco de trás, alheios ao mundo, eles repetiram o que fizeram no estacionamento um tempo atrás. O sentimento proibido e avassalador reverberava no mesmo passo do fim da canção: “…’cause i don’t think you know how i feel…”

ESCURIDÃO – Camila

Um calor danado em plena oito e meia da manhã, ônibus apertado, correndo contra o atraso, Camila estava indignada ao chegar à sala e a aula não ter começado. Recuperando o fôlego, custou a perceber os ânimos mais que exaltados das amigas. Elas gritavam, comentavam e riam da situação.

Suada, Camila não tinha percebido o assunto. Até que o nome dele sobressaltou-a. André era a razão daquele alvoroço:

– Eu não acredito! Simplesmente não acredito. – uma colega asquerosa falava, exalando despeito.

– Isso, pra mim, é tragédia anunciada. Não tardaria a ocorrer. – outra rebateu.

– Quem diria? Só sei que ela é uma safadinha.

O professor apareceu, colocando um fim ao assunto. Camila teve de se concentrar mais do que o normal, com intuito de não pensar em André. Afinal, o que aconteceu com ele? Remoía-se por dentro. Assim que o docente terminou, ela fez sinal a Marcela:

– Do que vocês estavam falando antes? Sobre o André?

– Você não está sabendo? – ela praticamente gritou para desespero de Camila. – É a fofoca do ano. Finalmente aconteceu. Ele pegou uma aluna. Está na boca do povo, todo mundo só comenta isso.

Camila ficou boquiaberta, lutando para não transparecer mais chocada do que estava. Uma onda de revolta brotou nela:

– Quem? – ela sussurrou.

– A orientanda dele, Vanessa. Dizem que viram eles juntos, no maior love. Estão super apaixonados.

Camila riu sem graça. Não aguentava escutar mais nada:

– O André merecia coisa melhor do que aquela oferecida. Pra mim, isso é queimação de filme. Pensando bem, aposto que a própria Vanessa deve ter armado isso. Quem não quer pegar aquele gostoso no último? Se fosse comigo, eu anunciaria: ‘Peguei o maravilhoso do André’.

– Eu não faria isso… – Camila comentou mais para si.

– Você é uma boba. Homem está difícil. Já percebi que vou escolher um orientador solteiro pra minha monografia. Estão dizendo que a paixão surgiu desse contato de professor-aluna por causa do trabalho de conclusão de curso.  Só sei que metade da faculdade deve estar morrendo de inveja da Vanessa.

Cada sentença apunhalava o amor, a certeza e a esperança de Camila. Arrependeu-se por ter questionado o assunto a Marcela. Embora quem pergunta quer saber, ela não estava preparada para tremendo golpe do destino.

No banheiro, sentada e quieta, ela lutava para não desabar. A vontade era fugir para casa, esquecer que ele existia. Porém, isso mostrava uma tremenda fraqueza. Não deveria mudar sua vida por causa de um flerte mal resolvido. Afinal, era mais que natural o fato de ele seguir em frente. André era muito lindo, não ficaria sozinho muito tempo.

Atrasada, sem se importar em perder a aula de Política Comparada, na qual sabia não ter qualquer concentração, quase perdeu as pernas ao vê-lo caminhar sozinho pelo corredor, ao encontro dela. Não conseguiria lidar com aquilo, com o sorriso tímido e caloroso dele, e com a receptividade por estarem num corredor sozinhos:

– Camila! Matando aula?

Ela não pode responder. Apenas tentou passar por ele, balançando a cabeça negativamente. André a bloqueou:

– O que foi? Que cara é essa?

– André, me deixa voltar pra sala. Estou atrasada.

– Você está branca. Me fala! Conversa comigo. Vamos tomar um café?

– Some de perto de mim! – Camila disse com ódio e entonação baixa.

Já que ele não ia deixá-la passar, deu meia volta e marchou de volta ao banheiro. Se esconderia. Não queria vê-lo nunca mais. Cancelaria sua matrícula da faculdade imediatamente. O amor realmente nos faz, pelo menos, pensar loucuras passageiras.

Camila tentou se trancar numa das divisórias, porém André fora tremendamente ousado. Ele entrou também e a puxou pra fora, antes de fechar o trinco:

– Você vai falar comigo! – ele estava mais sério do que ela se lembrava.

– Me larga! Me deixa!

– Por tudo que a gente vivenciou, conversa comigo. Vamos à minha sala.

Tremendo de nervoso, Camila o seguiu sem entender no que aquele dia estava se transformando. André fechou a porta imediatamente. Eles ficaram se encarando. Era um clima gélido, terrível e fechado:

– Você me enganou de fato, não é? – Camila proferiu.

– Do que você está falando?

– Eu não conheço você, André. Achei que tivéssemos uma conexão. Me enganei, errei. Você me deixou numa zona embaçada. Como fui tola!

Ele não quis responder. Apenas cruzou os braços:

– Deve ser porque ela é mais bonita, não é? Ela não deve ser gordinha como eu. Por que fui acreditar? Fui uma boba, uma cega, uma ridícula.

André voou em cima de Camila. Agarrou-a pelos braços e a imprensou na parede:

– Do que você está falando?

– Do assunto do ano! Você e Vanessa juntos, se pegando, se amando.

– O quê? – ele estava incrédulo. – De onde você tirou isso?

– Dessa faculdade. Todos estão se referindo ao novo e apaixonado casal: o professor e a orientanda. Que sucesso!

Camila espumava de ódio. André estava possesso. Ele deu um tabefe num porta-lápis que se espatifou na parede oposta. Ambos ficaram aterrorizados com a explosão:

– É mentira! Eu não tenho nada com ela. Nunca tive! Bem que ela sempre quis. Sabia que não deveria ter aceitado orientá-la.

– Eu não consigo acreditar em você. Não tem jeito.

– Camila, acredita em mim. Por favor, eu não tenho, nunca tive qualquer coisa com essa menina. É você. Apenas você que me deslumbra, que me deixa atordoado.

André falou isso bem perto dela. As palavras foram um rompante de sinceridade e verdade. Camila pegou o rosto dele nas mãos e deu um beijo casto:

– Não tem importância. Se cuida.

Ela tentou sair. Ele a imprensou de maneira mais ardente:

– Estou com muita raiva, a ponto de fazer uma besteira, de tirar a Vanessa de sala e brigar na frente de todo mundo… Fica comigo. – pediu.

Camila o abraçou. Ele estava nervoso. Foi uma fuga, ela sabia, mas não se importou quando André a beijou freneticamente, de maneira sôfrega e intensa. Ela também estava fugindo do sofrimento e da falta que sentia. Os dois só não fizeram sexo, porque estavam na sala dele, trancados. Precisavam evitar possíveis novos comentários.

Camila retornou radiante e esbaforida à sala, quase apenas para pegar o material antes do fim. Olhou as meninas fofoqueiras com superioridade. Teve uma vontade enorme de berrar que a única aluna a ficar com André era ela, e que naquela mesma manhã ele estava se desligando da orientação e da banca de Vanessa. Contudo, não alimentaria rumores. Já se bastava com os próprios ruídos internos de coração acelerado, de devaneio e de alegria por finalmente presenciar que a paixão era recíproca. De onde menos se podia esperar, foram necessárias uma mentira e uma crise acadêmica para mudar a perspectiva inteira dela.

ESCURIDÃO – Eulálio

Enquanto a mãe preparava o jantar, Eulálio tentava tirar um cochilo no sofá. Era agradável escutá-la revirar utensílios, conversar sozinha, cantar de vez em quando. Dava uma sensação de segurança, como se ele não tivesse crescido. Quase ninguém admite, mas a ignorância tende a ser reconfortante. Quando não se sabe das coisas, você não se preocupa, não sofre, não se antecipa, não teme.

Na época de criança, Eulálio não percebia o quanto tornar-se um adulto tende a ser complicado. Brincava e sonhava, ao invés de lidar com o fardo de ser um filho ilegítimo. Não percebia os problemas que Teresa tinha na condição de mãe solteira. Estava à parte, era um acessório, ao contrário de ser sujeito ou verbo. Voltar ao tempo é impossível. Porém, por que continuamos a sonhar com isso?

A campainha tocou três vezes até despertá-lo. Num pulo, gritou para mãe que estava saindo. Nem deu tempo de ele escutar a resposta. Uma Sheila emburrada, de braços cruzados e cara enfezada surgiu na sua frente:

– O quê? Vamos?

Ele tentou passar por ela e fechar a porta. Ela não arredou. Meio Eulálio pra dentro, meio Eulálio pra fora:

– Sheila, nós temos horário. Anda!

– Eulálio, há quanto tempo estamos namorando? – ela aferiu de maneira cortante.

– Sei lá. Não sou bom de datas. Umas semanas, eu acho.

– Que tipo de programas fazemos? Sempre, constantemente, nós dois fazemos o quê sozinhos?

Eulálio não tinha percebido aonde aquela linha de pensamento ia chegar. Boa coisa não haveria de ser:

– A gente vai ao cinema, janta, dá umas voltas, fica na sua casa… Tem alguma coisa errada? – ele perguntou inocentemente.

– Tem. Só você não vê. Por que acha que eu quis pegar você hoje?

– É… Por quê?

Ela bufou, dando as costas para ele. Sheila agarrou a lateral dos cabelos. Puxou de leve. Com certeza, ela estava se contendo:

– Sheila, eu não sei do que você quer. Não faço ideia do que você está se queixando ou querendo.

Sheila aparentava estar numa batalha interna. Queria externar algo, mas tinha medo. Nos poucos segundos, Eulálio se sentiu igual. O namoro não era o que imaginava. De alguma forma, se sentia oprimido e preso. Era mais uma responsabilidade, depois de tantas. Não desejava voltar atrás, embora não soubesse como consertar a situação dúbia:

– Eu não entendo você. – Enfim, ela desaguou as palavras. – Não compreendo o que você quer, o que espera de mim. Você me esconde, Eulálio. Você não me inclui na sua vida. Não conheço sua família, seus amigos, sua vida pessoal, profissional ou estudantil. Não vamos às festas da sua sala, não sei quem é a sua companhia. Não sei nada. Decidi vir hoje aqui, na sua porta, para quem sabe conhecer sua mãe.

– Oh… – foi o que ele conseguiu materializar.

Não era nada disso. Sheila queria se afundar mais no oceano dele. Eulálio a deixou, inconscientemente, na superfície, sem demonstrar se queria ser explorado, conhecido e vislumbrado. Ele não sabia que ia ficar complicado segurar o desejo de terminar, na mesma medida em que Sheila se apaixonava cada vez mais. O amor tem uma grande tendência opositiva. Tanto tempo passaria, mais ela ia se entregar, menos ele ia se conectar:

– Não tem o que conhecer… Eu tenho uma vida reduzida. Não tenho colegas de estágio. Conheço muita gente na faculdade, porque sempre fiz matéria no Direito. Meu amigo é o Maurício, que é seu amigo também e se afastou depois que começamos a namorar. Tem as minhas primas que eu gosto, mas elas não são amigas. Nós nos gostamos apenas por sermos parentes.

– Me dá licença. – Sua mãe aportou-se ao lado, com as mãos no ombro do filho. – Eu sou Teresa, prazer em conhecê-la. Então, é você que está roubando ele de mim?

Sheila e Eulálio ficaram boquiabertos com aquela aparição. Eles não tiveram reação. Estavam envergonhados. Sheila se arrependera do papel que tinha decido assumir. Eulálio nunca imaginava Teresa como uma sogra:

– Mãe, essa é a Sheila. Minha namorada. – Ele sentiu um peso cair ao dizer em voz alta, pela primeira vez, o que realmente ela era.

– Que graça! Você aceitaria ficar para jantar? Espero que sim. Estava fazendo algo só pra mim. Posso aumentar sem problemas.

O sorriso convidativo de Teresa fez com que Sheila assentisse com a cabeça:

– Tudo bem. Só íamos no cinema. Acho que pela milésima vez.

Na sala, Sheila estava travada. Não esperava aquela reviravolta, estar num território desconhecido. Eulálio apenas pensava como gostaria que a chegada da namorada, em seu coração, acontecesse mais rápido. Queria esquecer Catarina. Ou nunca se permitiu que isso ocorresse?

Apesar da situação inesperada, o jantar correu muito bem. Teresa fora simpática. Contou histórias do filho. Por um bom tempo, Sheila ficaria satisfeita por tê-lo conhecido pelos olhos de outra pessoa.

Eulálio estava presente apenas de alma. Imaginava Catarina naquela posição, conhecendo sua mãe. Ficaria mais feliz? Onde será que o verdadeiro amor estaria? Então, percebeu que não deveria fazer Sheila infeliz por não conseguir enxergá-la, já que estava tomado pela visão, pela presença, pela esperança de Catarina.

Bem tarde, ele se propôs a acompanhar a namorada. Ela estava de carro e se recusou. Assim que eles se despediram, com a porta fechada, Teresa abraçou o filho, por trás, de uma forma carinhosa e satisfeita. Ele se retesou com o contato, mas deixou-se fundear. Ficaram colados, encaixados. Sentiu-se uma criança mais uma vez:

– Ganhei meu dia. – ela disse. – Achava que por minha causa, por não ter conseguido dar exemplo, você não conseguiria ter uma pessoa na sua vida.

– Como? – ele perguntou embargado.

– Eu não tive marido. Depois de seu pai, nem namorado. Não mostrei a você a necessidade de se construir uma família completa, com duas pessoas se amando e se ajudando. Acredito nisso. É preciso ter exemplo em casa. Filhos, na maioria das vezes, seguem os exemplos dos pais.

– Você foi um bom exemplo. A vida pode não ter ajudado, mas você certamente foi um ótimo exemplo.

Teresa chorou. Eulálio não percebeu. A distância com Sheila poderia continuar enorme. Com sua mãe, ela havia se estreitado um pouco:

– Filho, a Sheila é ótima. Ela faz bem a você. Simpatizei muito. Inclua ela ao seu redor. Você só tem a ganhar.

Ele respirou fundo. Naquele momento, decidiu iluminar mais sua vida com a presença dessas duas mulheres. Era a sua forma de dar mais uma chance a ligações que ele sempre acreditou estarem fadadas ao fracasso.

AFIRMAÇÃO – Suzana

Por dar carona a Camila, acabou se atrasando. Ainda esbaforida, um bilhete pairava em cima do computador no qual ela costumava se sentar. Era um recado seco. Assim que chegasse deveria se reportar a diretoria. Suzana nunca tinha recebido aquilo. Achou estranho. Ficou temerária de prontidão.

Na antessala, Marcus não dirigiu o olhar para ela. Mais estranha, a situação se configurava. Esboçou um cumprimento e um sorriso. O estagiário não respondeu. Era como se Suzana não existisse. Admirada, buscou em sua mente o que poderia estar acontecendo. Teria feito algo errado? Cometera algum deslize? Não chegou a nenhuma conclusão. Os dois foram chamados a entrar.

Sem rodeios, depois de cumprimentos polidos em demasia, o chefe esclareceu as dúvidas da garota:

– A situação é séria. Não me agrada ter que lidar com isso. É a primeira vez que me encontro em posição tão delicada, exposta pelo nosso estagiário Marcus e confirmada pelo motorista da casa, o César.

Suzana estava estática; o momento, suspenso. Engoliu em seco. Esperou a inevitável acusação do colega:

– Os dois afirmam que foram assediados por você inúmeras vezes.

– O quê? – ela se virou a Marcus. – Você está maluco! Eu nunca me aproximei de você. – rebateu trêmula e alterada.

– Calma. Estamos averiguando apenas. Queremos saber sua versão dos fatos. – o chefe tentou ser amável, embora o constrangimento fosse evidente.

– Que fatos, senhor!? Não teve nada. Nunca me aproximei desses dois. Isso é mentira, intriga! – Suzana lutou para não elevar mais o tom de voz. Queria gritar.

– Os dois alegam que várias vezes ficaram constrangidos com as inúmeras propostas dirigidas a eles como… – ele parou para olhar um documento. – … oferecer-se sexualmente em troca de carona, lançar olhar sedutores, levantar a saia quando se encontravam sozinhos, deixando transparecer desejo libidinoso, propor encontros fora do local de trabalho, aparecer…

– Chega! Isso é uma blasfêmia… Eu não fiz isso. Como você ousa? – Suzana se dirigiu a Marcus.

Os dois se olharam. Ele estava firme, fechado, compenetrado. Porém, num leve tremor nos lábios, ela percebeu o deleite dele, fruto de uma jogada armada. O que ele ia ganhar com isso?

– Senhor, eu não sei como rebater, como questionar. Eu só tenho a minha consciência. Eu quero poder…

– Suzana, deixe-me interrompê-la. Marcus, mesmo incomodado, propôs que evitássemos uma sindicância. Isso iria nos expor demais, todos sairiam perdendo. Até que provássemos o que realmente ocorreu, muitos desentendimentos e mal-entendidos aconteceriam. Não queremos nos arrastar com esse problema. Por isso, propomos que haja o seu desligamento da firma. Você seria dispensada apenas. Assim não ficaria no seu registro um processo disciplinar, digamos assim.

Suzana estava em choque. Incrédula, ela já tinha sido citada, julgada e sentenciada, sem poder imaginar que se encontrava nessa tamanha situação há dias:

– Por que eu? Por que eu tenho de sair? – ela disse com a voz baixa e fraca.

– Será muito mais difícil você provar que isso não ocorreu. Além do mais, é a palavra de um contra dois.

Suzana desviou o olhar. Ela mordeu os nós das mãos, tentando se controlar. Queria partir pra cima de Marcus, bater nele, gritar. Possuída, respirou várias vezes. Queria chorar:

– Se eu fosse homem, poderia te dar um soco. – ela comentou. – Tudo estaria resolvido. Sou o elo mais fraco dessa história. Não posso me rebaixar mais.

Levantando-se. Saiu cabisbaixa. Até que modificou o próprio prumo, antes de deixar a sala:

– Um dia, os dois vão provar quem está ou não com a razão. Independente disso, eu saio de cabeça levantada.

Deixou o prédio firme, imponente, de fachada segura. Durou dois quarteirões. Ela recostou-se numa parede pichada. Chorou indignada pela situação, inconformada por não ter lutado, triste pela irrealidade.

Avistou um hotel. Pensou em se registrar e ficar sumida por uns dias. No entanto, lembrou-se que estava sem condições para esse luxo. Afinal, acabara de perder sua fonte de renda.

Recostada numa mesa ao fundo, pediu o drinque mais forte. Pelo menos, esbanjaria no álcool. Na quarta dose, ficou em pé algumas vezes, serpenteando sozinha, girando ao som da música ambiente. Quase não tinha cliente no bar. Ninguém se importou em preocupar-se com ela. Era mais uma oportunista que deveria estar esbanjando o dinheiro de algum rico empresário.

Segurando o choro, no estágio da depressão e da angústia por causa da bebida, com a cabeça rodando, alguém sentou-se na mesa. Suzana demorou a focalizar o conhecido:

– Não acreditei que fosse você. Ainda mais bebendo em plena tarde. Nem preciso perguntar se está tudo bem. O que aconteceu?

Suzana ficou com muita vergonha de contar a Igor que havia sido acusada de assédio. Ela era uma predadora sexual, mas não tinha ultrapassado limites:

– Estou sem estágio. Me dispensaram. Estou me sentindo a pior pessoa, a mais inútil, a mais fraca. Não quero falar disso. – emburrou.

– Mas eu quero. Venha trabalhar na minha firma. Seja minha estagiária.

Suzana riu. Explodiu de rir. Nunca poderia aceitar. Sem cometer qualquer ato, fora taxada e julgada. Se trabalhasse com Igor, seria um fato confirmado de que usava sexo para conseguir favores laborais:

– Estou falando sério. Eu acho você competente e determinada. Reconheço sua paixão pelo que faz. Deixe eu empregar você… até encontrar outra coisa. – Ele estava extremamente carinhoso.

– Igor, eu transo com você. Muita gente sabe. Vão dizer que sou uma piranha interesseira, que…

– Achei que você não ligasse para os outros. Onde está sua determinação? Suzana, você tem a minha palavra que não misturarei trabalho e relacionamento. Eu sei separar isso. A partir de hoje, não teremos mais nada. Você será apenas minha estagiária. Aceita?

Estava bêbada, mas Suzana percebeu que, de alguma forma, aquelas palavras diziam outra coisa. Era a declaração do quanto ele queria o bem dela, do quanto ele se importava:

– Sim. Eu topo.

– Ótimo, boa menina. Agora deixe eu tirar você dessa sarjeta.

– Não, eu quero continuar…

– Calada. Você vai ver, sou um chefe camarada.

Quando se levantou, tudo escureceu. Suzana teve perda total dos sentidos. Acordou num quarto estranho. Assustou-se. Era uma e quarenta da madrugada.

Perto do abajur aceso, viu um bilhete de Igor que dizia ter achado melhor hospedá-la por uma noite no hotel. Ela poderia acordar e aproveitar um café revigorante na manhã seguinte. Uma jarra de água e dois comprimidos estavam pertos. Que atencioso ele tinha sido. Ela os tomou.

Antes de apagar novamente, pegou o bilhete e o abraçou. Sentiu-se mais perto dele. Sentia-se amparada.

AFIRMAÇÃO – Bianca

Queria fazer cara de brava, quando Eulálio irrompesse na sua salinha. Sabia que isso não seria possível. Assim que ele se encostou no batente, ela abriu um sorriso tímido apenas rapidamente, pois Bianca ficou séria ao perceber o quanto ele estava abatido, tristonho e cansado, embora sorrisse naturalmente, sem esforço:

– Minha vontade é de te esganar.

– Nossa, que escuridão lá fora! Deve chover. – O primo desconversou.

– Ridículo! Como pode fazer isso comigo? – ela perguntou.

– Era o único jeito de fazê-la aceitar.

Enquanto o cumprimentava e Eulálio se sentava, Bianca se lembrou da armação do primo. Ele a convidara a almoçar num restaurante chique, há três dias. No entanto, era uma armadilha. Ela ia se encontrar com Armando Palhares, advogado principal da firma “Souza e Palhares Associados”. Depois do desastre da primeira tentativa de estágio armada por ele, Bianca certamente não iria ceder a um novo contato:

– Você praticamente me levou direto pra toca do leão. – ela confidenciou.

– Pelo que parece, deu certo. Eis você, ainda no estágio, e satisfeita com as atribuições.

– Não assinei o contrato ainda. Não me apresentaram e nem sei se quero. Não esperava que pudesse ser tão legal. O senhor Armando é muito simpático, dedicado e inteligente. Naquele almoço, rapidamente me enredou e propôs um período de teste, de experiência. Acabei aceitando. Já fiz tanta coisa. Participei de conciliações, fui a audiências. Estou terminando uma petição agora, sendo que a anterior foi elogiada.

– Só você não via esse potencial. – Eulálio comentou.

– É… Primo, de onde você conhecia tão bem o Armando? Do estágio? Ele se assustou quando soube que você se chamava Eulálio. Por que ele te chama de José?

– Você seguiu o que disse? Não revelou que somos primos? – Ele ficou nervoso em demasia.

– Claro que não. Não sou burra. Mas acho que você me deve explicações, várias explicações.

– Não agora, prima. Eu ando meio fora de órbita.

– Lio, você tem que se abrir. Nós estamos aqui, dispostas a te ajudar. Está estampado na sua cara que você precisa de ajuda, mas você só foge. Por que recusou os encontros comigo, Suzana e Camila?

-Não sei… Eu confio em vocês, mas… Não me critique por isso. É que vocês são mulheres, não vão me entender.

– O quê? – Ela ficou chocada. – Se é esse o motivo, por que então você está sempre com a Sheila? O que vocês têm afinal de contas?

– A Sheila é diferente. Ela é uma… parceira.

– Pode confessar. Vocês estão namorando.

– É, estamos. Ela é bem… boa comigo. Eu acho que talvez eu possa ter me precipitado em relação…

– Com licença. – O senhor Armando já estava dentro da sala, quando foi cordial. – Oh, desculpe-me. Ah, é o José, que se chama Eulálio. – O primo riu sem graça, incomodado com a gracinha, no momento em que se cumprimentavam. – Você me trouxe uma boa estagiária. Agradeço por sua amiga.

– Bianca é fenomenal. – Eulálio emendou.

– Sei disso. Já percebi que ela não veio ao mundo a passeio.

Bianca ficou sem graça. Nem percebeu que deveria ter agradecido aos elogios. Ela não estava acostumada a ser bem tratada. A receptividade dos outros ainda a deixava estremecida:

– Aqui está seu termo de aceite e o contrato para o estágio. É só assinar e ficar com uma cópia.

Armando soltou o documento em frente dela, que não sabia como proceder. Diante do silêncio e da paralisação de Bianca, ele questionou:

– Você quer continuar conosco, não quer?

Ela olhou para Eulálio, notando o quanto ele temia que ela recusasse e fugisse. No âmbito interno, Bianca não se via numa firma particular, não queria ficar num escritório. Lembrou-se de como explanam, no Direito tão corriqueiramente, sobre a zona de conforto. Sair dela é adentrar no desconhecido, romper com expectativas, deliciar-se como o novo. Estaria ela preparada para o impensável em seu futuro profissional?

– Sr. Armando, eu nem imaginava que isso fosse ser tão rápido. Me desculpe.

Com as pernas tremendo involuntariamente, ela abaixou os olhos e não viu quando ele pegou as duas cópias do documento de cima da mesa, retirando-se sem graça:

– É uma pena. Às vezes nos enganamos sem ver. – soltou ao sair.

Bianca queria que Eulálio não estivesse ali. Mentalizou um buraco que a sugasse até o quarto, no qual nada disso seria vivenciado e as escolhas não a perturbariam. Porém, recordou-se da solidão entre quatro paredes, da falta de propósito sempre pulsante, da dependência financeira, da exploração da mãe e dos irmãos nos afazeres domésticos. Um rompante inimaginável a fez pular da cadeira, derrubando o mobiliário. Eulálio desconhecia aquela mulher determinada, surgida perante ele.

Agarrando a primeira caneta da mesa, Bianca saiu atrás do chefe. Ele conversava com alguém no corredor. Ela não se importou em ser cortês. Interrompeu:

– Sim. Eu quero. Eu vou ficar nesse escritório. Me passe esse documento pra eu assinar agora.

Armando estava satisfeito com a decisão dela, mas ficou sério:

– Não. Não vou entregar a você.

Bianca não compreendeu a mudança. Teria perdido a chance por segundos? Não merecia isso. Já iniciava o recuo:

– Não vou passar o documento, porque você está segurando uma caneta vermelha.

Bianca ficou da cor do objeto. Porém, Armando e o homem junto dele riram da situação. Ela entrou no clima e riu também. Todos os demais advogados e estagiários foram conferir o que estava acontecendo. Num ambiente tão austero, uma explosão de risos era quase impossível e surreal. Talvez fosse a primeira vez que aquilo se sucedeu. O inusitado era que ninguém entendia o motivo de tamanho divertimento. Os três não conseguiam se controlar.

Bianca nunca se sentiu tão solta, tão contente consigo mesma, tão vaporosa. Sempre controladora, pragmática e receosa, ela compreendeu que uma mudança importante sempre chega quando menos se espera.

AFIRMAÇÃO – Eulálio

O trabalho exalava um ar estranho, como se o ambiente fosse se modificar. Todos olhavam para ele constantemente. Vira e mexe, percebia alguém o encarando. A pessoa se encabulava e desviava, enquanto ele se irritava. Certamente uma má notícia deveria estar por vir. Eulálio só não sabia que era desse tipo sim, mas travestida de boas novas. Naquele dia, ele entenderia que a omissão às vezes tende a ser benéfica.

Tentou se concentrar nos afazeres, transparecendo estar relaxado. O efeito foi contrário. Não se concentrava, não conseguia finalizar as tarefas, queria ir embora. Pela primeira vez, desejou não ter vindo ao trabalho. Queria escapulir. Realmente era isso o que ele teria de ser obrigado a fazer, quando entendesse o motivo de tremenda conspiração e leve agitação no estágio.

O telefone, sempre tão negligenciado, vibrou. Era uma boa desculpa para se afastar do seu redor. Era Bianca:

– Pronto! – ele atendeu.

– Lio. Vai ter uma festinha na casa da Aninha, no sábado. Me pediram pra te avisar. Requisitam sua presença. Eu fui convidada mais porque sou sua prima. Você é bem mais pop que eu.

– Não sei se vou. Não vai ser bom. – ele foi evasivo.

– Como assim? Eu estava com vontade de ir. Não tenho nada, nem prova, nem trabalhos, na semana que vem. Pensei em começar a sair mais, a ser mais soltinha.

– Por que você não chama as primas? Suzana é sempre animada, Camila precisa se soltar também.

– Pensei nisso. Mas a festa é mais íntima do povo da sala, quase não vai ter ninguém de fora. Eu também quero estar mais contigo. Você parece estar fugindo de nós. – ela sentenciou.

– Não estou. Estou onde devo estar.

– Você está com alguém? – Bianca não conseguia ser sutil.

– Que pergunta é essa?

– Hum… Defensiva. Camila tem razão. Suzana viu você e uma moça num maior aconchego. Bem que Camila suspeitou de algo mais. Quem é? Conhecemos? É a Catarina?

– Não me fale dessa pessoa. É passado.

Um silêncio, por um tempo fora do comum, perdurou entre eles. Bianca conhecia o primo, mais do que os dois poderiam supor. Ela, assim como Eulálio, sentia e sabia que a cicatrização não tinha ocorrido ainda. Muito menos, poderia crer se ela um dia iria se fechar. O amor, mesmo sem ser entendido como tal, tende a ser cruel quando se enraíza contra a vontade, ocupando o espaço que deveria ser de outrem:

– Vocês não a conhecem. É uma amiga do Maurício. Chama Sheila. Estamos ficando mais juntos.

– Quando vamos conhecê-la? Sua namorada Sheila, que excitante! Vamos contar tudo a ela e a inundar de perguntas e de informações.

– Depois dessa, vou atrasar esse encontro ao máximo. – Eulálio disse mais a si mesmo.

– Que bobagem. Não somos tão terríveis assim. Leva a Sheilinha na festa. Estou doida para saber como ela é, para virarmos amigas.

– Que carência! – O primo percebeu o esgoelar de pesar dela. – Sheilinha?! Nem eu tenho essa intimidade com ela.

– Opa! Tem um número estranho me ligando. Depois conversamos. Beijo.

Eulálio não se despediu. Se estava junto de Sheila há um tempo considerável, por que não fez questão de apresentá-la às primas? Pelo que se lembrava, não se referiu a ela como sua namorada em momento algum, com ninguém. Na verdade, não teve vontade de se abrir com pessoa alguma. Achava que a relação dos dois era algo íntimo e reservado. Contudo, a menção de Catarina escureceu as certezas de que estava superado. Não pensava nela, é claro. No entanto, sabia que ela subsistia em seu íntimo.

Retornando ao cubículo, tinha um recado na sua mesa. Deveria ver o chefe. Sem paciência, foi à sala dele:

– José, como vai? Só agora pude te encontrar e revelar uma decisão que todos já sabem.

Eulálio ficou apreensivo. O que vinha nisso?

– Sei que falta um pouco para você formar, mas já queremos garanti-lo na empresa. A diretoria resolveu contratá-lo como funcionário. Terá todos os direitos e trabalhará apenas seis horas por dia por causa da faculdade. Acredito que nada mudará para você. Isso é só uma bonificação pelo trabalho bem empenhado que você tem feito.

Eulálio forçou um sorriso, embora seus olhos estivessem receosos e tristonhos. Ele era um herdeiro dos Bersani’s. Mesmo afastando o nome e o sobrenome do ambiente de estágio, isso pesou, como era de costume.

– Senhor, agradeço. É meu sonho continuar aqui. Quero realmente trabalhar com vocês.

– Nós sabemos disso. Você é essencial, por isso, queremos valorizá-lo. Bom saber que você nos aceita, José.

– Não, não é bem essa a minha resposta. Aceito sim os elogios, a confiança, a cordialidade… a oportunidade. Mas a minha resposta é não. Sou estudante ainda, quero ser condizente com isso.

– O quê? – o chefe ficara incrédulo.

– Sim, é isso mesmo. Eu não quero aceitar, não posso. Me deixe como estou. Prefiro me manter estagiário. Essa é minha escolha, peço que a aceitem.

Nesse momento, Eulálio soltou um sorriso luminoso que refletiu nos seus olhos, a ponto de afastar a tristeza dele em repudiar seu maior sonho: se consolidar nas empresas Bersani.

Os amigos de trabalho esperavam ansiosos e felizes. Estavam prontos a abraçá-lo e a parabenizá-lo. Eulálio, ou melhor, José desculpou-se, afirmando que não podia aceitar ainda. Culpou à família pela recusa. Tinha obrigações com ela que o impediam de se comprometer. Apesar de mentindo, o que ele disse tinha sido a pura verdade.

De moto, Eulálio percebeu como estava em contradição nas suas condutas. Dizia ‘sim’ a Sheila, sabendo que não era ela a pessoa que se encaixava ao seu ser. Acabou de dizer ‘não’ ao trabalho, quando deveria aceitar a valorização. Desde quando era preciso ser incongruente nas relações? Sobrevivência e fuga eram as respostas. Porém, nada fica tão camuflado por tanto tempo.

AFIRMAÇÃO – Camila

A cólica estava mais forte, mais persistente. Uma mistura de nervoso e raiva borbulhava dentro dela. Mais cedo, não conseguiu assistir a aula de André. Se olhasse para ele tão distante, tão centrado, tão professoral, iria desabar. Tudo ao seu redor não estava conforme desejava. Que desapontador!

No almoço, o prato principal era a excitação. O pai estava animado e empolgado com a chegada de uma nova e importada máquina. Sua mãe tinha um sorriso cravado e constante. Camila, até aquele momento, não entendia por quais motivos estava fazendo aquilo.

Imaginava que a tortura dos pais a respeito do futuro profissional só começava após a formatura. A falta de ocupação geraria as típicas perguntas: “formada e sem trabalho?”, “está trabalhando, querida?”, “não arrumou nada ainda?”, “você me envia seu currículo?”. Esse tipo de pressão deveria ser estressante, tão igual quanto o sofrimento por ter discutido, mais com a mãe Constância, a respeito do disparate em trabalhar enquanto estava na graduação.

A parte financeira era a única coisa boa. Quanto à responsabilidade, Camila não via problema, achava que daria conta. O ruim eram os estudos a serem comprometidos. E também o fato de ter sido obrigada a aceitar a oferta. Na verdade, nem ela sabia se tudo estava certo ou precisaria conquistar o cargo. Ela fez questão de demorar e atrasar esse primeiro encontro, desejando que a vaga fosse preenchida:

– Ai… Se eu pudesse, eu ia junto de você. Isso é tão maravilhoso. – Constância confidenciou.

Camila nem teve força para fazer uma careta. Ela parecia uma mercadoria, pronta para ser entregue a um novo dono. Se ela se casasse, estaria livre dos pais?

– Se Santo Antônio me ouvir, você e o doutor Léo hão de se gostar. E quem sabe vão ficar juntos.

Isso era um típico enredo de comédia norte-americana romântica. Será que Constância nunca percebeu que Camila, trancafiada consigo mesma, com os olhos vagos, já estava apaixonada?

– O importante é conhecer pessoas. Pode ser que o Léo já tenha sido fisgado. Ele é tão reservado. Quanto mais gente conhecer, mais são suas chances de se dar bem.

Enjoada, a dor latejando no ventre, Camila pediu licença. Não aguentava comer, nem ouvir mais a mãe. No quarto, confirmou com Suzana a carona por telefone. Cinco minutos antecipada, a prima já a esperava na portaria:

– Que chique! Você está um arraso, Camila. – Suzana notou assim que ela se sentou no carona.

– Minha mãe fez questão de comprar roupas pra mim. É como se eu já fosse empregada.

– Você realmente quer fazer isso? Trabalhar ao invés de estagiar?

– Que escolha eu tenho?

Elas se olharam solidariamente:

– Temos muitos momentos nos quais não se é capaz de fazer o que se quer, não? Será que isso muda? – Suzana filosofou.

Camila concordou resignada. A prima resolveu mudar o enredo da conversa:

– Conseguiu marcar com Eulálio e Bianca um cineminha?

– Bianca topa. Eulálio não quis. Ele está tão estranho.

– Tão afastado… Será que aconteceu algo? – Suzana se questionou.

Camila não soube responder. Não tinha ideia do que poderia ser:

– Como chama o dentista que vai te empregar, Camila?

– Leonardo Pellegrini. Por quê? Conhece? Já pegou?

– Deixa de ser boba. Eu não esqueço as pessoas que pego. É que esse nome é familiar, de algum lugar… O pai dele é dentista também, não é? – Camila confirmou com a cabeça. – Ah, esse não é o Leonardo, que é… – Suzana segurou a informação da qual suspeitava.

– Não é o quê? – Camila questionou.

– Nada. – Suzana refletiu que era melhor não colocar qualquer dúvida na cabeça da prima, mesmo sabendo quem era o futuro patrão. – Estou confundindo as pessoas. É muita gente que conheço.

De frente para o elevador, Camila se sentia em câmera lenta. Ansiava que algo a afastasse daquela iniciativa. Iria se arrepender tremendamente desse desejo persistente de fuga.

Como um fantoche, foi se conduzindo até o local. Tocou a campainha despretensiosamente. Um alegre, jovial e sorridente dentista, todo em branco naturalmente, surgiu na porta:

– Camila, certo? Finalmente você veio até mim.

Ele a abraçou como se fossem amigos. Camila não esperava tal receptividade:

– Estou terminando com um paciente. Fique a vontade. Tem internet nesse computador. Pode navegar, se quiser.

A garota não quis se sentar na cadeira que não pretendia ocupar. Quase 15 minutos depois, Leonardo acompanhou o paciente até a porta. Ele piscou para Camila, enquanto discutia sobre a importância da família para o alto-astral, para a própria segurança. Que irônico!

Assim que fechou a porta, Leonardo se jogou no sofá ao lado de Camila. Ele pôs se a admirá-la:

– Você é tão linda, tão segura, me parece. Oops! Me desculpe – Ele percebeu como a espontânea intimidade deixou-a incomodada. – Gostei de você, me simpatizei. Por isso, me coloco a falar sem parar. – ele riu de maneira angelical.

– Senhor Leonardo, eu preciso confessar uma coisa. – Antes que ficasse mais embaraçoso, Camila resolveu expor as verdades. – Eu não quero estar aqui. Não desejo trabalhar. Não preciso disso. Me perdoe por tomar seu tempo, mas fui obrigada…

– Shiuuu! – A forma de Léo cortá-la causou outro espanto na garota. – Poupe-me dessa ladainha, querida. Eu sei disso tudo. Só concordei em aceitá-la, porque acho que a proposta vem a ajudar. Eu não trabalho nem sexta, nem segunda por causa do mestrado, fico fora da cidade. Só trabalho nesse consultório de 14h até às 19h, de terça a quinta, porque na parte da manhã, fico com o pai, tentando cooptar os clientes dele pra mim. Então, você terá todas as garantias trabalhistas e um bom salário, trabalhando apenas três dias por semana. Só preciso que arrume minha agenda, busque coisas pra mim, resolva outras na rua, atenda os recados da secretária eletrônica, e seja feliz.

Camila estava surpresa, chegou a soltar um sorriso. Leonardo era alto-astral, determinado, gente boa. A proposta era tranquila, satisfatória e imperdível. Apesar de ter se decidido contrariamente desde sempre, Camila não hesitou em dizer:

– Sim. O emprego é meu.

– Uhuuuuuuuuuuuuu! Mandou bem! – ele gritou, abraçando-a de súbito.

Camila riu com a espontaneidade. Já gostava do patrão. Eles tinham uma sintonia natural. A mãe não tinha errado nas previsões. Somente a forma havia sido bem diferente.