COMUNHÃO – Suzana

E se ofuscasse até a noiva? E se a escolha do modelito fizesse a amiga se sentir magoada? Das outras madrinhas, já eram evidentes a animosidade e a exclusão por Suzana estar tão ousada, moderna e sexy num vestido bem decotado, com um rasgo intrigante nas pernas. As costas, de fora, esbanjavam um leve bronzeado. Elas receberiam uma echarpe durante a cerimônia. O cabelo estava ondulado num estilo clássico, combinando com brincos de diamantes emprestados de sua mãe. As outras mulheres se ressentiam e se enciumavam, porque Suzana conseguiu se diferenciar e chamar mais atenção, mesmo usando a cor padrão das madrinhas, azul turquesa.

Apesar da indiferença demonstrada, a garota só se preocupava com o padrinho que a acompanharia até o altar. As outras três madrinhas da noiva entrariam com os próprios maridos. Ela fora arranjada para um amigo do noivo, vindo do Sul. Aquela perspectiva tinha tudo para render uma ficada de acordo com ela.

Como já diziam, a facilidade só traz dificuldade. A junção arrumada renderia desgosto a Suzana. O cara, de nome Adão, era um tremendo chato. Na cerimônia de casamento, ficava o tempo todo a cantando da maneira mais inconveniente. Tinha um aspecto de sujo e um jeito de falar desconjuntado. Era um desastre de pessoa. Isso a favoreceu. Com um sujeito estranho e desengonçado, ela brilhou mais na entrada. As pessoas ficaram fascinadas com alguém tão imponente e segura de si. A própria Camila, anteriormente assustada com um modelo tão sugestivo para uma missa, sorria entendendo como a decisão por aquele vestido tinha sido certeira.

Olhando as outras madrinhas, ela se pegou pensando em Igor. E se ela fosse casada com ele? Estariam bem? Estariam tranquilos? Ou a rotinha iria transformá-los? Uma pontada de saudade reverberou dentro dela. Tinha dias que não o via. Relembrou a pele dele, o toque, a barba por fazer, os galanteios. Ele era um cavalheiro, um grande partido. O problema era ela. Não estava pronta a se entregar, a formar uma família, a tentar. Pelo menos, não se via envolta em questões domésticas, ou empregando a filosofia do ‘agora o que é meu passa a ser seu também, é tudo nosso’ confirmada com o sim no altar. Estremeceu. Solitária, se configurava. Solitária, se firmaria a continuar a ser.

Assim que chegaram à festa, Suzana decidiu que só ficaria perto de Adão enquanto tirassem as fotos. Afinal, ele só servia para destacar a sua beleza. Como isso funcionava! Mais as pessoas elogiavam, mais a endeusavam. Mais ele se convencia de que ela ficaria com ele. Mais Camila ficava emburrada e sozinha num canto:

– Prima, me perdoe. É tanta atenção, todo mundo querendo saber onde comprei o vestido, onde fiz meu cabelo. Ainda não comi nada. – afirmou após se sentar ao lado da prima. – Estou sendo uma péssima companhia.

– Eu já comi tanto, bebi tanto. Engordei uns 60 quilos. Foi para isso que eu vim, aproveitar. Eu não conheço ninguém. – apontou Camila.

– Não está perdendo nada. Eu nem convivo mais com essa gente. É muito luxo hipócrita.

– Suzana, não quero ofender você, mas sua roupa condiz exatamente com isso.

A prima tinha razão. Condenava a ostentação, o glamour, a mesquinhez e a ditadura do bem-vestir em contraponto ao caráter. Porém, agia da mesma forma. Suzana percebeu que no jogo do ter ao invés do ser, era uma veterana campeã, não propensa a parar:

– Vamos dançar, então! Quem sabe nos arranjamos?

As duas foram pra pista. Bastou pouco para que Suzana dominasse e chamasse mais atenção. Foi olhada, encostada, cantada e desejada. No entanto, naquele dia, ela não estava conseguindo curtir aquilo. Parecia não ser suficiente. Embora o próprio show não tenha terminado, Suzana saiu veloz da pista de dança.

Na porta de entrada da festa, ela respirou fundo. Por que cismava em pensar no Igor? Adoraria dar um trago, talvez relaxasse. A dupla de seguranças estava se revezando. Quando um voltou de uma folga, o outro se retirou. O recém-chegado portava um maço:

– Você me dá um? – ela perguntou.

Ele assentiu. Batendo no maço, um cigarro saltou. Suzana o pegou. Olhando-o, esperou que ele entendesse. Demorou um pouco até perceber que ela desejava acendê-lo. Por causa do vento, os dois se beiraram, encurvados. A proximidade gerou uma tensão enorme. Suzana estava estremecida por dentro:

– Você se importa? – ele perguntou bem sedutoramente.

Ao tirar o cigarro da boca de Suzana, a mão dele roçou em seus lábios. Ela ficou toda arrepiada. Recostando-se a uma parede, sozinho, conseguiu acender. No momento de devolver, ela se recusou:

– Só quero uma tragada. Me dá você.

Sem entender, olhando para os lados, ele passou a mão pela cabeça algumas vezes. Ela se aproximou, ficando cara a cara. Arqueando uma sobrancelha, desafiou-o. Tentado, ele tragou forte e fundo. Uma corrente de fumaça veio em cheio na boca de Suzana, sem que os lábios se encostassem. De olhos fechados, cintura levemente trêmula, ela estava em êxtase:

– Suzana, eles… Opa! – Camila ficou muito sem graça. – Eu… Chamando. Querem você lá… Pra mais fotos.

– Obrigada. – Suzana devolveu a fumaça na cara do rapaz. Antes de sair, piscou.

Ao lado da prima, não teve vontade de comentar a cena:

– Suzana, você conhece o Reginaldo? Ele está me dando mole.

– Ah, Camila, ele dá mole pra todas. – arrependeu-se, pois a prima poderia se divertir com um pegador.

– Você já ficou com ele?

– Não. Ele sabe que sou muita areia pra se caminhão.

– Convencida! – Camila ralhou. – Suzana, você está pensativa. Está tudo bem? – a pergunta de Camila nada mais era que um sinalizador para mudarem de assunto.

– Estou me sentindo estranha. Só isso. Sinto falta do Igor, eu acho. Não consigo processar… – confessou.

– É natural sentir saudades. Talvez você devesse ter convidado ele, ao invés de mim.

– Não! Você é uma ótima companhia, prima. Nem vem. São essas mulheres todas casadas. Isso é deprimente.

– Nem me fale!

O ruim da nova rodada de fotos foi encontrar seu par, Adão. Depois que acabaram os flashes, ela se dirigiu ao banheiro para se retocar. Foi a deixa para ele interceptá-la:

– Você está me surpreendendo. Não foi a imagem que pintaram de tão bela mulher. – era claro que Adão estava alterado pelas bebidas.

– Do que você está falando?

– Me disseram que você é fácil, fácil. Facinha, deixa qualquer um te comer. Então, estou anunciando que vamos embora juntos, porque um novo par vai se fazer essa noite, na minha cama de hotel. Vou te estraçalhar.

Mais despedaçada que internamente? Suzana ia testar essa teoria mais tarde. Quanto ao ultraje dele, ela já tinha escutado coisas piores, mas, naquela conjuntura, era afrontoso, um agravante. Ela pegou a bolsa de mão e lascou na cabeça dele:

– Você está louca, sua puta.

– Não. Virei louca. Possessa! Por sua causa!

Pegando um copo abandonado de cerveja, jogou o líquido na cara dele:

– Sua vagabunda. Eu comprei esse terno importado. Você vai pagar, galinha.

Sem pestanejar, Suzana quebrou o longo copo na parece. Com os cacos formando uma arma, apontou para ele:

– Eu até poderia dar para você no fim da noite por compaixão. Sim, eu gosto de sexo. Adoro sexo. Só não gosto de sexo com frouxos e ridículos. Você é um deles. Agora, some daqui! Me deixa em paz. Nunca olhe na minha cara de novo, seu animal!

Suzana ameaçou avançar. Adão deu um pulo e saiu. No banheiro, ela estava nervosa, mesmo não querendo admitir. Molhou a testa e a parte de trás da cabeça, com cuidado para não estragar o penteado. Pensou em Igor. Queria que ele a protegesse. Quando deixou o banheiro, sabia o que ia fazer.

Dançou mais, bebeu menos, circulou e comeu. Convenceu a prima a ser levada para casa com Reginaldo. Afinal, tinha planos de importunar certo homem mais tarde. Precisava dele, precisava confessar. Quase uma das últimas a sair, Suzana recostou-se atrás do segurança do cigarro:

– Estou no carro dourado, na parte reservada. Esperando impacientemente.

Para esquecer o sentimento real por Igor, ela se jogou com um desconhecido. Fez sexo da forma mais brutal, louca e intensa, quase agredindo o próprio corpo. Quem sabe, com a carne deflagrada, poderia evitar que a mente se elevasse, clamando por alguém em especial que a propiciasse um amor encaixado, entregue, equilibrado, casto e puro?

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