COMUNHÃO – Eulálio

– Você tem visita. – disse sua mãe, transbordando impaciência.

Acabaram de ter mais uma briga. Há uma semana, Teresa estava agitada, incomodada, briguenta. Por qualquer coisa, ela e Eulálio discutiam, se alfinetavam, se agrediam. Ele pensara seriamente em se mudar, se tivesse uma condição financeira melhor:

– Quem é?

– Suas primas! – ela gritou do corredor.

Descabelado, Eulálio encontrou as três garotas bem arrumadas:

– Viemos te pegar. – disse Bianca.

– Pra onde? – ele perguntou, enquanto beijava as três.

– Vamos sentar num bar e beber. – explicou Camila.

– Temos tanto o que conversar e debater. Camila está prestes a começar a trabalhar, eu estou com problemas sentimentais, acredita? Bianca sempre precisa de apoio, você sabe, né? – Suzana brincou.

– Mentira! Dessa vez, não vou expor nada. – Bianca teve de explanar.

– Agora? Eu não posso. Tenho compromisso.

– Eulálio, é domingo à tarde. Ninguém faz nada. – Camila comentou.

– Você vai perder a oportunidade da nossa companhia, numa esquina de bar lotada, cheia de gente bonita? Você deve estar doente. – Suzana concluiu.

– Lio, vamos conosco. Tem tempos que não nos vemos. Eu estou com saudade. – Bianca apelou para seu lado meigo. – Por que você não quer ir?

– Eu vou com a Sheila à missa.

– Essa afirmação é uma desculpa! De novo? Não foi semana passada a missa de sétimo-dia do pai dela? – Bianca suspeitou.

– Foi. Só que ela ainda está abalada. Não consegue superar. Eu vou junto.

– Vocês estão namorando? – Suzana perguntou. – Isso é coisa de namorado.

– Não. Só estamos juntos por alguns dias, mais frequentemente. Não sei o que a gente tem. – ele esclareceu.

– Liga, então, caso mude de ideia ou queria dar uma passada depois. – pediu Camila.

Depois que elas saíram, Eulálio resolveu se arrumar com calma. Queria sair de casa mais cedo. A mãe estava insuportável. Poderia ficar mais tempo com Sheila. Quão agradável era compartilhar momentos com ela, ir assistir aos filmes mais estranhos e inimagináveis, conversar longas horas, estar próximo de alguém. Afinal, não se lembrava dos motivos que o fizeram ser tão reservado. O convívio importava:

– Mãe, vou a missa. Quer ir também?

A mãe estava despachada no sofá, divagando, enquanto assistia a TV. Ela tomou um susto. Olhou espantada, quase emocionada:

– Você… lembrou. – ela disse, meio sorridente, meio melancólica.

– Lembrei de quê? – ele perguntou sem perceber a nuance dela, procurando as chaves da moto.

– Claro que não vou! – Teresa foi ríspida. Eulálio travou duro, sem entender aquela reação. – De moto? Com essa idade, vou andar de moto contigo? Você deve estar louco!

Ele respirou fundo. Poderiam ir de taxi, caso ela aceitasse. Para não discutir, Eulálio pediu a benção e saiu. Seria melhor não ter a companhia da mãe.

Sheila ainda estava abatida com a morte do pai. Porém, ele percebia o quanto ela se alegrava por ter Eulálio perto, dando um apoio pequeno e reforçado. Ele não estava tão empolgado por assistir uma missa. Na verdade, prestava atenção nela, nas suas reações, no ardor da falta pela ausência recente:

– Eulálio. – ela chamou, despertando-o. – Aquela ali não é sua avó? Lina?

Ele se assustou com o comentário. Ficou mais chocado ao constatar que era ela sim, toda de preto, encurvada. Parecia estar de luto. Formava uma imagem contrastante: Dona Lina, diminuída, vestida de uma forma medíocre, com um lindo, belo e luxuoso altar dedicado a um santo, de fundo. De repente, numa fração de segundos, Eulálio entendeu. Gelou por dentro. Suspirou, levando a mão rapidamente à boca:

– Sheila, quem é o santo dessa igreja?

– São José.

Então, era ali. Deveria ser. Nunca se submeteu a procurar a homenagem da avó. Quis confirmar:

– Me desculpe. – ele se virou para uma senhora que estava próxima. – Quem é aquele santo daquele altar?

– É o anjo Gabriel!

Eulálio ficou em choque. Tentou balbuciar algo. Respirou fundo. Agora entendia a razão de sua mãe estar tão diferente durante esse tempo:

– Sheila… Hoje… Que dia exatamente… é hoje?

– Dia 28. Por quê?

– Hoje é aniversário de morte… do meu pai. Dois anos após seu falecimento, minha avó construiu um altar em homenagem ao Anjo Gabriel. Eu nunca soube onde era exatamente.

Conturbado, Eulálio se levantou. Vagamente, como se flutuasse, foi até a avó. Ela se espantou por encontrá-lo ali. Sem pensar, ele sentou-se ao lado dela. Passaram o restante da missa juntos, com os corpos colados e rígidos, amparando-se apesar do pouco contato. Eulálio, o tempo todo, debatia-se a respeito de abraçar ou não a avó. Teve medo da reação dela.

Com o fim da missa, os dois se levantaram. Eulálio deixou que ela saísse primeiro do banco. Quando ele iniciou seus passos atrás da avó, Lina parou-se e virou:

– Não.

E ela deu dois tapinhas no antebraço do neto. Mesmo transparecendo um bloqueio, Eulálio sabia que tinham sido carinhosos.

Embargado, ele se joelhou perante o altar do Anjo Gabriel. E chorou copiosamente, de soluçar. Sentiu-se assustado, solitário, precipitado. Sheila o abraçou pelas costas, tentando acalmar as crises de soluço. Como a vida poderia ser engraçada e inusitada. Ela, que perdeu o pai há 15 dias, amparava agora Eulálio, que nunca soube o que era ter um pai.

Perante o altar em homenagem a ele, percebeu que não queria seguir os passos paternos. Queria se comprometer, se ligar. Não se tornaria alguém que fugia, abandonaria ou se esconderia:

– Sheila… Quer namorar comigo?

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