AFIRMAÇÃO – Camila

A cólica estava mais forte, mais persistente. Uma mistura de nervoso e raiva borbulhava dentro dela. Mais cedo, não conseguiu assistir a aula de André. Se olhasse para ele tão distante, tão centrado, tão professoral, iria desabar. Tudo ao seu redor não estava conforme desejava. Que desapontador!

No almoço, o prato principal era a excitação. O pai estava animado e empolgado com a chegada de uma nova e importada máquina. Sua mãe tinha um sorriso cravado e constante. Camila, até aquele momento, não entendia por quais motivos estava fazendo aquilo.

Imaginava que a tortura dos pais a respeito do futuro profissional só começava após a formatura. A falta de ocupação geraria as típicas perguntas: “formada e sem trabalho?”, “está trabalhando, querida?”, “não arrumou nada ainda?”, “você me envia seu currículo?”. Esse tipo de pressão deveria ser estressante, tão igual quanto o sofrimento por ter discutido, mais com a mãe Constância, a respeito do disparate em trabalhar enquanto estava na graduação.

A parte financeira era a única coisa boa. Quanto à responsabilidade, Camila não via problema, achava que daria conta. O ruim eram os estudos a serem comprometidos. E também o fato de ter sido obrigada a aceitar a oferta. Na verdade, nem ela sabia se tudo estava certo ou precisaria conquistar o cargo. Ela fez questão de demorar e atrasar esse primeiro encontro, desejando que a vaga fosse preenchida:

– Ai… Se eu pudesse, eu ia junto de você. Isso é tão maravilhoso. – Constância confidenciou.

Camila nem teve força para fazer uma careta. Ela parecia uma mercadoria, pronta para ser entregue a um novo dono. Se ela se casasse, estaria livre dos pais?

– Se Santo Antônio me ouvir, você e o doutor Léo hão de se gostar. E quem sabe vão ficar juntos.

Isso era um típico enredo de comédia norte-americana romântica. Será que Constância nunca percebeu que Camila, trancafiada consigo mesma, com os olhos vagos, já estava apaixonada?

– O importante é conhecer pessoas. Pode ser que o Léo já tenha sido fisgado. Ele é tão reservado. Quanto mais gente conhecer, mais são suas chances de se dar bem.

Enjoada, a dor latejando no ventre, Camila pediu licença. Não aguentava comer, nem ouvir mais a mãe. No quarto, confirmou com Suzana a carona por telefone. Cinco minutos antecipada, a prima já a esperava na portaria:

– Que chique! Você está um arraso, Camila. – Suzana notou assim que ela se sentou no carona.

– Minha mãe fez questão de comprar roupas pra mim. É como se eu já fosse empregada.

– Você realmente quer fazer isso? Trabalhar ao invés de estagiar?

– Que escolha eu tenho?

Elas se olharam solidariamente:

– Temos muitos momentos nos quais não se é capaz de fazer o que se quer, não? Será que isso muda? – Suzana filosofou.

Camila concordou resignada. A prima resolveu mudar o enredo da conversa:

– Conseguiu marcar com Eulálio e Bianca um cineminha?

– Bianca topa. Eulálio não quis. Ele está tão estranho.

– Tão afastado… Será que aconteceu algo? – Suzana se questionou.

Camila não soube responder. Não tinha ideia do que poderia ser:

– Como chama o dentista que vai te empregar, Camila?

– Leonardo Pellegrini. Por quê? Conhece? Já pegou?

– Deixa de ser boba. Eu não esqueço as pessoas que pego. É que esse nome é familiar, de algum lugar… O pai dele é dentista também, não é? – Camila confirmou com a cabeça. – Ah, esse não é o Leonardo, que é… – Suzana segurou a informação da qual suspeitava.

– Não é o quê? – Camila questionou.

– Nada. – Suzana refletiu que era melhor não colocar qualquer dúvida na cabeça da prima, mesmo sabendo quem era o futuro patrão. – Estou confundindo as pessoas. É muita gente que conheço.

De frente para o elevador, Camila se sentia em câmera lenta. Ansiava que algo a afastasse daquela iniciativa. Iria se arrepender tremendamente desse desejo persistente de fuga.

Como um fantoche, foi se conduzindo até o local. Tocou a campainha despretensiosamente. Um alegre, jovial e sorridente dentista, todo em branco naturalmente, surgiu na porta:

– Camila, certo? Finalmente você veio até mim.

Ele a abraçou como se fossem amigos. Camila não esperava tal receptividade:

– Estou terminando com um paciente. Fique a vontade. Tem internet nesse computador. Pode navegar, se quiser.

A garota não quis se sentar na cadeira que não pretendia ocupar. Quase 15 minutos depois, Leonardo acompanhou o paciente até a porta. Ele piscou para Camila, enquanto discutia sobre a importância da família para o alto-astral, para a própria segurança. Que irônico!

Assim que fechou a porta, Leonardo se jogou no sofá ao lado de Camila. Ele pôs se a admirá-la:

– Você é tão linda, tão segura, me parece. Oops! Me desculpe – Ele percebeu como a espontânea intimidade deixou-a incomodada. – Gostei de você, me simpatizei. Por isso, me coloco a falar sem parar. – ele riu de maneira angelical.

– Senhor Leonardo, eu preciso confessar uma coisa. – Antes que ficasse mais embaraçoso, Camila resolveu expor as verdades. – Eu não quero estar aqui. Não desejo trabalhar. Não preciso disso. Me perdoe por tomar seu tempo, mas fui obrigada…

– Shiuuu! – A forma de Léo cortá-la causou outro espanto na garota. – Poupe-me dessa ladainha, querida. Eu sei disso tudo. Só concordei em aceitá-la, porque acho que a proposta vem a ajudar. Eu não trabalho nem sexta, nem segunda por causa do mestrado, fico fora da cidade. Só trabalho nesse consultório de 14h até às 19h, de terça a quinta, porque na parte da manhã, fico com o pai, tentando cooptar os clientes dele pra mim. Então, você terá todas as garantias trabalhistas e um bom salário, trabalhando apenas três dias por semana. Só preciso que arrume minha agenda, busque coisas pra mim, resolva outras na rua, atenda os recados da secretária eletrônica, e seja feliz.

Camila estava surpresa, chegou a soltar um sorriso. Leonardo era alto-astral, determinado, gente boa. A proposta era tranquila, satisfatória e imperdível. Apesar de ter se decidido contrariamente desde sempre, Camila não hesitou em dizer:

– Sim. O emprego é meu.

– Uhuuuuuuuuuuuuu! Mandou bem! – ele gritou, abraçando-a de súbito.

Camila riu com a espontaneidade. Já gostava do patrão. Eles tinham uma sintonia natural. A mãe não tinha errado nas previsões. Somente a forma havia sido bem diferente.

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