AFIRMAÇÃO – Eulálio

O trabalho exalava um ar estranho, como se o ambiente fosse se modificar. Todos olhavam para ele constantemente. Vira e mexe, percebia alguém o encarando. A pessoa se encabulava e desviava, enquanto ele se irritava. Certamente uma má notícia deveria estar por vir. Eulálio só não sabia que era desse tipo sim, mas travestida de boas novas. Naquele dia, ele entenderia que a omissão às vezes tende a ser benéfica.

Tentou se concentrar nos afazeres, transparecendo estar relaxado. O efeito foi contrário. Não se concentrava, não conseguia finalizar as tarefas, queria ir embora. Pela primeira vez, desejou não ter vindo ao trabalho. Queria escapulir. Realmente era isso o que ele teria de ser obrigado a fazer, quando entendesse o motivo de tremenda conspiração e leve agitação no estágio.

O telefone, sempre tão negligenciado, vibrou. Era uma boa desculpa para se afastar do seu redor. Era Bianca:

– Pronto! – ele atendeu.

– Lio. Vai ter uma festinha na casa da Aninha, no sábado. Me pediram pra te avisar. Requisitam sua presença. Eu fui convidada mais porque sou sua prima. Você é bem mais pop que eu.

– Não sei se vou. Não vai ser bom. – ele foi evasivo.

– Como assim? Eu estava com vontade de ir. Não tenho nada, nem prova, nem trabalhos, na semana que vem. Pensei em começar a sair mais, a ser mais soltinha.

– Por que você não chama as primas? Suzana é sempre animada, Camila precisa se soltar também.

– Pensei nisso. Mas a festa é mais íntima do povo da sala, quase não vai ter ninguém de fora. Eu também quero estar mais contigo. Você parece estar fugindo de nós. – ela sentenciou.

– Não estou. Estou onde devo estar.

– Você está com alguém? – Bianca não conseguia ser sutil.

– Que pergunta é essa?

– Hum… Defensiva. Camila tem razão. Suzana viu você e uma moça num maior aconchego. Bem que Camila suspeitou de algo mais. Quem é? Conhecemos? É a Catarina?

– Não me fale dessa pessoa. É passado.

Um silêncio, por um tempo fora do comum, perdurou entre eles. Bianca conhecia o primo, mais do que os dois poderiam supor. Ela, assim como Eulálio, sentia e sabia que a cicatrização não tinha ocorrido ainda. Muito menos, poderia crer se ela um dia iria se fechar. O amor, mesmo sem ser entendido como tal, tende a ser cruel quando se enraíza contra a vontade, ocupando o espaço que deveria ser de outrem:

– Vocês não a conhecem. É uma amiga do Maurício. Chama Sheila. Estamos ficando mais juntos.

– Quando vamos conhecê-la? Sua namorada Sheila, que excitante! Vamos contar tudo a ela e a inundar de perguntas e de informações.

– Depois dessa, vou atrasar esse encontro ao máximo. – Eulálio disse mais a si mesmo.

– Que bobagem. Não somos tão terríveis assim. Leva a Sheilinha na festa. Estou doida para saber como ela é, para virarmos amigas.

– Que carência! – O primo percebeu o esgoelar de pesar dela. – Sheilinha?! Nem eu tenho essa intimidade com ela.

– Opa! Tem um número estranho me ligando. Depois conversamos. Beijo.

Eulálio não se despediu. Se estava junto de Sheila há um tempo considerável, por que não fez questão de apresentá-la às primas? Pelo que se lembrava, não se referiu a ela como sua namorada em momento algum, com ninguém. Na verdade, não teve vontade de se abrir com pessoa alguma. Achava que a relação dos dois era algo íntimo e reservado. Contudo, a menção de Catarina escureceu as certezas de que estava superado. Não pensava nela, é claro. No entanto, sabia que ela subsistia em seu íntimo.

Retornando ao cubículo, tinha um recado na sua mesa. Deveria ver o chefe. Sem paciência, foi à sala dele:

– José, como vai? Só agora pude te encontrar e revelar uma decisão que todos já sabem.

Eulálio ficou apreensivo. O que vinha nisso?

– Sei que falta um pouco para você formar, mas já queremos garanti-lo na empresa. A diretoria resolveu contratá-lo como funcionário. Terá todos os direitos e trabalhará apenas seis horas por dia por causa da faculdade. Acredito que nada mudará para você. Isso é só uma bonificação pelo trabalho bem empenhado que você tem feito.

Eulálio forçou um sorriso, embora seus olhos estivessem receosos e tristonhos. Ele era um herdeiro dos Bersani’s. Mesmo afastando o nome e o sobrenome do ambiente de estágio, isso pesou, como era de costume.

– Senhor, agradeço. É meu sonho continuar aqui. Quero realmente trabalhar com vocês.

– Nós sabemos disso. Você é essencial, por isso, queremos valorizá-lo. Bom saber que você nos aceita, José.

– Não, não é bem essa a minha resposta. Aceito sim os elogios, a confiança, a cordialidade… a oportunidade. Mas a minha resposta é não. Sou estudante ainda, quero ser condizente com isso.

– O quê? – o chefe ficara incrédulo.

– Sim, é isso mesmo. Eu não quero aceitar, não posso. Me deixe como estou. Prefiro me manter estagiário. Essa é minha escolha, peço que a aceitem.

Nesse momento, Eulálio soltou um sorriso luminoso que refletiu nos seus olhos, a ponto de afastar a tristeza dele em repudiar seu maior sonho: se consolidar nas empresas Bersani.

Os amigos de trabalho esperavam ansiosos e felizes. Estavam prontos a abraçá-lo e a parabenizá-lo. Eulálio, ou melhor, José desculpou-se, afirmando que não podia aceitar ainda. Culpou à família pela recusa. Tinha obrigações com ela que o impediam de se comprometer. Apesar de mentindo, o que ele disse tinha sido a pura verdade.

De moto, Eulálio percebeu como estava em contradição nas suas condutas. Dizia ‘sim’ a Sheila, sabendo que não era ela a pessoa que se encaixava ao seu ser. Acabou de dizer ‘não’ ao trabalho, quando deveria aceitar a valorização. Desde quando era preciso ser incongruente nas relações? Sobrevivência e fuga eram as respostas. Porém, nada fica tão camuflado por tanto tempo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: