AFIRMAÇÃO – Bianca

Queria fazer cara de brava, quando Eulálio irrompesse na sua salinha. Sabia que isso não seria possível. Assim que ele se encostou no batente, ela abriu um sorriso tímido apenas rapidamente, pois Bianca ficou séria ao perceber o quanto ele estava abatido, tristonho e cansado, embora sorrisse naturalmente, sem esforço:

– Minha vontade é de te esganar.

– Nossa, que escuridão lá fora! Deve chover. – O primo desconversou.

– Ridículo! Como pode fazer isso comigo? – ela perguntou.

– Era o único jeito de fazê-la aceitar.

Enquanto o cumprimentava e Eulálio se sentava, Bianca se lembrou da armação do primo. Ele a convidara a almoçar num restaurante chique, há três dias. No entanto, era uma armadilha. Ela ia se encontrar com Armando Palhares, advogado principal da firma “Souza e Palhares Associados”. Depois do desastre da primeira tentativa de estágio armada por ele, Bianca certamente não iria ceder a um novo contato:

– Você praticamente me levou direto pra toca do leão. – ela confidenciou.

– Pelo que parece, deu certo. Eis você, ainda no estágio, e satisfeita com as atribuições.

– Não assinei o contrato ainda. Não me apresentaram e nem sei se quero. Não esperava que pudesse ser tão legal. O senhor Armando é muito simpático, dedicado e inteligente. Naquele almoço, rapidamente me enredou e propôs um período de teste, de experiência. Acabei aceitando. Já fiz tanta coisa. Participei de conciliações, fui a audiências. Estou terminando uma petição agora, sendo que a anterior foi elogiada.

– Só você não via esse potencial. – Eulálio comentou.

– É… Primo, de onde você conhecia tão bem o Armando? Do estágio? Ele se assustou quando soube que você se chamava Eulálio. Por que ele te chama de José?

– Você seguiu o que disse? Não revelou que somos primos? – Ele ficou nervoso em demasia.

– Claro que não. Não sou burra. Mas acho que você me deve explicações, várias explicações.

– Não agora, prima. Eu ando meio fora de órbita.

– Lio, você tem que se abrir. Nós estamos aqui, dispostas a te ajudar. Está estampado na sua cara que você precisa de ajuda, mas você só foge. Por que recusou os encontros comigo, Suzana e Camila?

-Não sei… Eu confio em vocês, mas… Não me critique por isso. É que vocês são mulheres, não vão me entender.

– O quê? – Ela ficou chocada. – Se é esse o motivo, por que então você está sempre com a Sheila? O que vocês têm afinal de contas?

– A Sheila é diferente. Ela é uma… parceira.

– Pode confessar. Vocês estão namorando.

– É, estamos. Ela é bem… boa comigo. Eu acho que talvez eu possa ter me precipitado em relação…

– Com licença. – O senhor Armando já estava dentro da sala, quando foi cordial. – Oh, desculpe-me. Ah, é o José, que se chama Eulálio. – O primo riu sem graça, incomodado com a gracinha, no momento em que se cumprimentavam. – Você me trouxe uma boa estagiária. Agradeço por sua amiga.

– Bianca é fenomenal. – Eulálio emendou.

– Sei disso. Já percebi que ela não veio ao mundo a passeio.

Bianca ficou sem graça. Nem percebeu que deveria ter agradecido aos elogios. Ela não estava acostumada a ser bem tratada. A receptividade dos outros ainda a deixava estremecida:

– Aqui está seu termo de aceite e o contrato para o estágio. É só assinar e ficar com uma cópia.

Armando soltou o documento em frente dela, que não sabia como proceder. Diante do silêncio e da paralisação de Bianca, ele questionou:

– Você quer continuar conosco, não quer?

Ela olhou para Eulálio, notando o quanto ele temia que ela recusasse e fugisse. No âmbito interno, Bianca não se via numa firma particular, não queria ficar num escritório. Lembrou-se de como explanam, no Direito tão corriqueiramente, sobre a zona de conforto. Sair dela é adentrar no desconhecido, romper com expectativas, deliciar-se como o novo. Estaria ela preparada para o impensável em seu futuro profissional?

– Sr. Armando, eu nem imaginava que isso fosse ser tão rápido. Me desculpe.

Com as pernas tremendo involuntariamente, ela abaixou os olhos e não viu quando ele pegou as duas cópias do documento de cima da mesa, retirando-se sem graça:

– É uma pena. Às vezes nos enganamos sem ver. – soltou ao sair.

Bianca queria que Eulálio não estivesse ali. Mentalizou um buraco que a sugasse até o quarto, no qual nada disso seria vivenciado e as escolhas não a perturbariam. Porém, recordou-se da solidão entre quatro paredes, da falta de propósito sempre pulsante, da dependência financeira, da exploração da mãe e dos irmãos nos afazeres domésticos. Um rompante inimaginável a fez pular da cadeira, derrubando o mobiliário. Eulálio desconhecia aquela mulher determinada, surgida perante ele.

Agarrando a primeira caneta da mesa, Bianca saiu atrás do chefe. Ele conversava com alguém no corredor. Ela não se importou em ser cortês. Interrompeu:

– Sim. Eu quero. Eu vou ficar nesse escritório. Me passe esse documento pra eu assinar agora.

Armando estava satisfeito com a decisão dela, mas ficou sério:

– Não. Não vou entregar a você.

Bianca não compreendeu a mudança. Teria perdido a chance por segundos? Não merecia isso. Já iniciava o recuo:

– Não vou passar o documento, porque você está segurando uma caneta vermelha.

Bianca ficou da cor do objeto. Porém, Armando e o homem junto dele riram da situação. Ela entrou no clima e riu também. Todos os demais advogados e estagiários foram conferir o que estava acontecendo. Num ambiente tão austero, uma explosão de risos era quase impossível e surreal. Talvez fosse a primeira vez que aquilo se sucedeu. O inusitado era que ninguém entendia o motivo de tamanho divertimento. Os três não conseguiam se controlar.

Bianca nunca se sentiu tão solta, tão contente consigo mesma, tão vaporosa. Sempre controladora, pragmática e receosa, ela compreendeu que uma mudança importante sempre chega quando menos se espera.

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