AFIRMAÇÃO – Suzana

Por dar carona a Camila, acabou se atrasando. Ainda esbaforida, um bilhete pairava em cima do computador no qual ela costumava se sentar. Era um recado seco. Assim que chegasse deveria se reportar a diretoria. Suzana nunca tinha recebido aquilo. Achou estranho. Ficou temerária de prontidão.

Na antessala, Marcus não dirigiu o olhar para ela. Mais estranha, a situação se configurava. Esboçou um cumprimento e um sorriso. O estagiário não respondeu. Era como se Suzana não existisse. Admirada, buscou em sua mente o que poderia estar acontecendo. Teria feito algo errado? Cometera algum deslize? Não chegou a nenhuma conclusão. Os dois foram chamados a entrar.

Sem rodeios, depois de cumprimentos polidos em demasia, o chefe esclareceu as dúvidas da garota:

– A situação é séria. Não me agrada ter que lidar com isso. É a primeira vez que me encontro em posição tão delicada, exposta pelo nosso estagiário Marcus e confirmada pelo motorista da casa, o César.

Suzana estava estática; o momento, suspenso. Engoliu em seco. Esperou a inevitável acusação do colega:

– Os dois afirmam que foram assediados por você inúmeras vezes.

– O quê? – ela se virou a Marcus. – Você está maluco! Eu nunca me aproximei de você. – rebateu trêmula e alterada.

– Calma. Estamos averiguando apenas. Queremos saber sua versão dos fatos. – o chefe tentou ser amável, embora o constrangimento fosse evidente.

– Que fatos, senhor!? Não teve nada. Nunca me aproximei desses dois. Isso é mentira, intriga! – Suzana lutou para não elevar mais o tom de voz. Queria gritar.

– Os dois alegam que várias vezes ficaram constrangidos com as inúmeras propostas dirigidas a eles como… – ele parou para olhar um documento. – … oferecer-se sexualmente em troca de carona, lançar olhar sedutores, levantar a saia quando se encontravam sozinhos, deixando transparecer desejo libidinoso, propor encontros fora do local de trabalho, aparecer…

– Chega! Isso é uma blasfêmia… Eu não fiz isso. Como você ousa? – Suzana se dirigiu a Marcus.

Os dois se olharam. Ele estava firme, fechado, compenetrado. Porém, num leve tremor nos lábios, ela percebeu o deleite dele, fruto de uma jogada armada. O que ele ia ganhar com isso?

– Senhor, eu não sei como rebater, como questionar. Eu só tenho a minha consciência. Eu quero poder…

– Suzana, deixe-me interrompê-la. Marcus, mesmo incomodado, propôs que evitássemos uma sindicância. Isso iria nos expor demais, todos sairiam perdendo. Até que provássemos o que realmente ocorreu, muitos desentendimentos e mal-entendidos aconteceriam. Não queremos nos arrastar com esse problema. Por isso, propomos que haja o seu desligamento da firma. Você seria dispensada apenas. Assim não ficaria no seu registro um processo disciplinar, digamos assim.

Suzana estava em choque. Incrédula, ela já tinha sido citada, julgada e sentenciada, sem poder imaginar que se encontrava nessa tamanha situação há dias:

– Por que eu? Por que eu tenho de sair? – ela disse com a voz baixa e fraca.

– Será muito mais difícil você provar que isso não ocorreu. Além do mais, é a palavra de um contra dois.

Suzana desviou o olhar. Ela mordeu os nós das mãos, tentando se controlar. Queria partir pra cima de Marcus, bater nele, gritar. Possuída, respirou várias vezes. Queria chorar:

– Se eu fosse homem, poderia te dar um soco. – ela comentou. – Tudo estaria resolvido. Sou o elo mais fraco dessa história. Não posso me rebaixar mais.

Levantando-se. Saiu cabisbaixa. Até que modificou o próprio prumo, antes de deixar a sala:

– Um dia, os dois vão provar quem está ou não com a razão. Independente disso, eu saio de cabeça levantada.

Deixou o prédio firme, imponente, de fachada segura. Durou dois quarteirões. Ela recostou-se numa parede pichada. Chorou indignada pela situação, inconformada por não ter lutado, triste pela irrealidade.

Avistou um hotel. Pensou em se registrar e ficar sumida por uns dias. No entanto, lembrou-se que estava sem condições para esse luxo. Afinal, acabara de perder sua fonte de renda.

Recostada numa mesa ao fundo, pediu o drinque mais forte. Pelo menos, esbanjaria no álcool. Na quarta dose, ficou em pé algumas vezes, serpenteando sozinha, girando ao som da música ambiente. Quase não tinha cliente no bar. Ninguém se importou em preocupar-se com ela. Era mais uma oportunista que deveria estar esbanjando o dinheiro de algum rico empresário.

Segurando o choro, no estágio da depressão e da angústia por causa da bebida, com a cabeça rodando, alguém sentou-se na mesa. Suzana demorou a focalizar o conhecido:

– Não acreditei que fosse você. Ainda mais bebendo em plena tarde. Nem preciso perguntar se está tudo bem. O que aconteceu?

Suzana ficou com muita vergonha de contar a Igor que havia sido acusada de assédio. Ela era uma predadora sexual, mas não tinha ultrapassado limites:

– Estou sem estágio. Me dispensaram. Estou me sentindo a pior pessoa, a mais inútil, a mais fraca. Não quero falar disso. – emburrou.

– Mas eu quero. Venha trabalhar na minha firma. Seja minha estagiária.

Suzana riu. Explodiu de rir. Nunca poderia aceitar. Sem cometer qualquer ato, fora taxada e julgada. Se trabalhasse com Igor, seria um fato confirmado de que usava sexo para conseguir favores laborais:

– Estou falando sério. Eu acho você competente e determinada. Reconheço sua paixão pelo que faz. Deixe eu empregar você… até encontrar outra coisa. – Ele estava extremamente carinhoso.

– Igor, eu transo com você. Muita gente sabe. Vão dizer que sou uma piranha interesseira, que…

– Achei que você não ligasse para os outros. Onde está sua determinação? Suzana, você tem a minha palavra que não misturarei trabalho e relacionamento. Eu sei separar isso. A partir de hoje, não teremos mais nada. Você será apenas minha estagiária. Aceita?

Estava bêbada, mas Suzana percebeu que, de alguma forma, aquelas palavras diziam outra coisa. Era a declaração do quanto ele queria o bem dela, do quanto ele se importava:

– Sim. Eu topo.

– Ótimo, boa menina. Agora deixe eu tirar você dessa sarjeta.

– Não, eu quero continuar…

– Calada. Você vai ver, sou um chefe camarada.

Quando se levantou, tudo escureceu. Suzana teve perda total dos sentidos. Acordou num quarto estranho. Assustou-se. Era uma e quarenta da madrugada.

Perto do abajur aceso, viu um bilhete de Igor que dizia ter achado melhor hospedá-la por uma noite no hotel. Ela poderia acordar e aproveitar um café revigorante na manhã seguinte. Uma jarra de água e dois comprimidos estavam pertos. Que atencioso ele tinha sido. Ela os tomou.

Antes de apagar novamente, pegou o bilhete e o abraçou. Sentiu-se mais perto dele. Sentia-se amparada.

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