ESCURIDÃO – Eulálio

Enquanto a mãe preparava o jantar, Eulálio tentava tirar um cochilo no sofá. Era agradável escutá-la revirar utensílios, conversar sozinha, cantar de vez em quando. Dava uma sensação de segurança, como se ele não tivesse crescido. Quase ninguém admite, mas a ignorância tende a ser reconfortante. Quando não se sabe das coisas, você não se preocupa, não sofre, não se antecipa, não teme.

Na época de criança, Eulálio não percebia o quanto tornar-se um adulto tende a ser complicado. Brincava e sonhava, ao invés de lidar com o fardo de ser um filho ilegítimo. Não percebia os problemas que Teresa tinha na condição de mãe solteira. Estava à parte, era um acessório, ao contrário de ser sujeito ou verbo. Voltar ao tempo é impossível. Porém, por que continuamos a sonhar com isso?

A campainha tocou três vezes até despertá-lo. Num pulo, gritou para mãe que estava saindo. Nem deu tempo de ele escutar a resposta. Uma Sheila emburrada, de braços cruzados e cara enfezada surgiu na sua frente:

– O quê? Vamos?

Ele tentou passar por ela e fechar a porta. Ela não arredou. Meio Eulálio pra dentro, meio Eulálio pra fora:

– Sheila, nós temos horário. Anda!

– Eulálio, há quanto tempo estamos namorando? – ela aferiu de maneira cortante.

– Sei lá. Não sou bom de datas. Umas semanas, eu acho.

– Que tipo de programas fazemos? Sempre, constantemente, nós dois fazemos o quê sozinhos?

Eulálio não tinha percebido aonde aquela linha de pensamento ia chegar. Boa coisa não haveria de ser:

– A gente vai ao cinema, janta, dá umas voltas, fica na sua casa… Tem alguma coisa errada? – ele perguntou inocentemente.

– Tem. Só você não vê. Por que acha que eu quis pegar você hoje?

– É… Por quê?

Ela bufou, dando as costas para ele. Sheila agarrou a lateral dos cabelos. Puxou de leve. Com certeza, ela estava se contendo:

– Sheila, eu não sei do que você quer. Não faço ideia do que você está se queixando ou querendo.

Sheila aparentava estar numa batalha interna. Queria externar algo, mas tinha medo. Nos poucos segundos, Eulálio se sentiu igual. O namoro não era o que imaginava. De alguma forma, se sentia oprimido e preso. Era mais uma responsabilidade, depois de tantas. Não desejava voltar atrás, embora não soubesse como consertar a situação dúbia:

– Eu não entendo você. – Enfim, ela desaguou as palavras. – Não compreendo o que você quer, o que espera de mim. Você me esconde, Eulálio. Você não me inclui na sua vida. Não conheço sua família, seus amigos, sua vida pessoal, profissional ou estudantil. Não vamos às festas da sua sala, não sei quem é a sua companhia. Não sei nada. Decidi vir hoje aqui, na sua porta, para quem sabe conhecer sua mãe.

– Oh… – foi o que ele conseguiu materializar.

Não era nada disso. Sheila queria se afundar mais no oceano dele. Eulálio a deixou, inconscientemente, na superfície, sem demonstrar se queria ser explorado, conhecido e vislumbrado. Ele não sabia que ia ficar complicado segurar o desejo de terminar, na mesma medida em que Sheila se apaixonava cada vez mais. O amor tem uma grande tendência opositiva. Tanto tempo passaria, mais ela ia se entregar, menos ele ia se conectar:

– Não tem o que conhecer… Eu tenho uma vida reduzida. Não tenho colegas de estágio. Conheço muita gente na faculdade, porque sempre fiz matéria no Direito. Meu amigo é o Maurício, que é seu amigo também e se afastou depois que começamos a namorar. Tem as minhas primas que eu gosto, mas elas não são amigas. Nós nos gostamos apenas por sermos parentes.

– Me dá licença. – Sua mãe aportou-se ao lado, com as mãos no ombro do filho. – Eu sou Teresa, prazer em conhecê-la. Então, é você que está roubando ele de mim?

Sheila e Eulálio ficaram boquiabertos com aquela aparição. Eles não tiveram reação. Estavam envergonhados. Sheila se arrependera do papel que tinha decido assumir. Eulálio nunca imaginava Teresa como uma sogra:

– Mãe, essa é a Sheila. Minha namorada. – Ele sentiu um peso cair ao dizer em voz alta, pela primeira vez, o que realmente ela era.

– Que graça! Você aceitaria ficar para jantar? Espero que sim. Estava fazendo algo só pra mim. Posso aumentar sem problemas.

O sorriso convidativo de Teresa fez com que Sheila assentisse com a cabeça:

– Tudo bem. Só íamos no cinema. Acho que pela milésima vez.

Na sala, Sheila estava travada. Não esperava aquela reviravolta, estar num território desconhecido. Eulálio apenas pensava como gostaria que a chegada da namorada, em seu coração, acontecesse mais rápido. Queria esquecer Catarina. Ou nunca se permitiu que isso ocorresse?

Apesar da situação inesperada, o jantar correu muito bem. Teresa fora simpática. Contou histórias do filho. Por um bom tempo, Sheila ficaria satisfeita por tê-lo conhecido pelos olhos de outra pessoa.

Eulálio estava presente apenas de alma. Imaginava Catarina naquela posição, conhecendo sua mãe. Ficaria mais feliz? Onde será que o verdadeiro amor estaria? Então, percebeu que não deveria fazer Sheila infeliz por não conseguir enxergá-la, já que estava tomado pela visão, pela presença, pela esperança de Catarina.

Bem tarde, ele se propôs a acompanhar a namorada. Ela estava de carro e se recusou. Assim que eles se despediram, com a porta fechada, Teresa abraçou o filho, por trás, de uma forma carinhosa e satisfeita. Ele se retesou com o contato, mas deixou-se fundear. Ficaram colados, encaixados. Sentiu-se uma criança mais uma vez:

– Ganhei meu dia. – ela disse. – Achava que por minha causa, por não ter conseguido dar exemplo, você não conseguiria ter uma pessoa na sua vida.

– Como? – ele perguntou embargado.

– Eu não tive marido. Depois de seu pai, nem namorado. Não mostrei a você a necessidade de se construir uma família completa, com duas pessoas se amando e se ajudando. Acredito nisso. É preciso ter exemplo em casa. Filhos, na maioria das vezes, seguem os exemplos dos pais.

– Você foi um bom exemplo. A vida pode não ter ajudado, mas você certamente foi um ótimo exemplo.

Teresa chorou. Eulálio não percebeu. A distância com Sheila poderia continuar enorme. Com sua mãe, ela havia se estreitado um pouco:

– Filho, a Sheila é ótima. Ela faz bem a você. Simpatizei muito. Inclua ela ao seu redor. Você só tem a ganhar.

Ele respirou fundo. Naquele momento, decidiu iluminar mais sua vida com a presença dessas duas mulheres. Era a sua forma de dar mais uma chance a ligações que ele sempre acreditou estarem fadadas ao fracasso.

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