ESCURIDÃO – Camila

Um calor danado em plena oito e meia da manhã, ônibus apertado, correndo contra o atraso, Camila estava indignada ao chegar à sala e a aula não ter começado. Recuperando o fôlego, custou a perceber os ânimos mais que exaltados das amigas. Elas gritavam, comentavam e riam da situação.

Suada, Camila não tinha percebido o assunto. Até que o nome dele sobressaltou-a. André era a razão daquele alvoroço:

– Eu não acredito! Simplesmente não acredito. – uma colega asquerosa falava, exalando despeito.

– Isso, pra mim, é tragédia anunciada. Não tardaria a ocorrer. – outra rebateu.

– Quem diria? Só sei que ela é uma safadinha.

O professor apareceu, colocando um fim ao assunto. Camila teve de se concentrar mais do que o normal, com intuito de não pensar em André. Afinal, o que aconteceu com ele? Remoía-se por dentro. Assim que o docente terminou, ela fez sinal a Marcela:

– Do que vocês estavam falando antes? Sobre o André?

– Você não está sabendo? – ela praticamente gritou para desespero de Camila. – É a fofoca do ano. Finalmente aconteceu. Ele pegou uma aluna. Está na boca do povo, todo mundo só comenta isso.

Camila ficou boquiaberta, lutando para não transparecer mais chocada do que estava. Uma onda de revolta brotou nela:

– Quem? – ela sussurrou.

– A orientanda dele, Vanessa. Dizem que viram eles juntos, no maior love. Estão super apaixonados.

Camila riu sem graça. Não aguentava escutar mais nada:

– O André merecia coisa melhor do que aquela oferecida. Pra mim, isso é queimação de filme. Pensando bem, aposto que a própria Vanessa deve ter armado isso. Quem não quer pegar aquele gostoso no último? Se fosse comigo, eu anunciaria: ‘Peguei o maravilhoso do André’.

– Eu não faria isso… – Camila comentou mais para si.

– Você é uma boba. Homem está difícil. Já percebi que vou escolher um orientador solteiro pra minha monografia. Estão dizendo que a paixão surgiu desse contato de professor-aluna por causa do trabalho de conclusão de curso.  Só sei que metade da faculdade deve estar morrendo de inveja da Vanessa.

Cada sentença apunhalava o amor, a certeza e a esperança de Camila. Arrependeu-se por ter questionado o assunto a Marcela. Embora quem pergunta quer saber, ela não estava preparada para tremendo golpe do destino.

No banheiro, sentada e quieta, ela lutava para não desabar. A vontade era fugir para casa, esquecer que ele existia. Porém, isso mostrava uma tremenda fraqueza. Não deveria mudar sua vida por causa de um flerte mal resolvido. Afinal, era mais que natural o fato de ele seguir em frente. André era muito lindo, não ficaria sozinho muito tempo.

Atrasada, sem se importar em perder a aula de Política Comparada, na qual sabia não ter qualquer concentração, quase perdeu as pernas ao vê-lo caminhar sozinho pelo corredor, ao encontro dela. Não conseguiria lidar com aquilo, com o sorriso tímido e caloroso dele, e com a receptividade por estarem num corredor sozinhos:

– Camila! Matando aula?

Ela não pode responder. Apenas tentou passar por ele, balançando a cabeça negativamente. André a bloqueou:

– O que foi? Que cara é essa?

– André, me deixa voltar pra sala. Estou atrasada.

– Você está branca. Me fala! Conversa comigo. Vamos tomar um café?

– Some de perto de mim! – Camila disse com ódio e entonação baixa.

Já que ele não ia deixá-la passar, deu meia volta e marchou de volta ao banheiro. Se esconderia. Não queria vê-lo nunca mais. Cancelaria sua matrícula da faculdade imediatamente. O amor realmente nos faz, pelo menos, pensar loucuras passageiras.

Camila tentou se trancar numa das divisórias, porém André fora tremendamente ousado. Ele entrou também e a puxou pra fora, antes de fechar o trinco:

– Você vai falar comigo! – ele estava mais sério do que ela se lembrava.

– Me larga! Me deixa!

– Por tudo que a gente vivenciou, conversa comigo. Vamos à minha sala.

Tremendo de nervoso, Camila o seguiu sem entender no que aquele dia estava se transformando. André fechou a porta imediatamente. Eles ficaram se encarando. Era um clima gélido, terrível e fechado:

– Você me enganou de fato, não é? – Camila proferiu.

– Do que você está falando?

– Eu não conheço você, André. Achei que tivéssemos uma conexão. Me enganei, errei. Você me deixou numa zona embaçada. Como fui tola!

Ele não quis responder. Apenas cruzou os braços:

– Deve ser porque ela é mais bonita, não é? Ela não deve ser gordinha como eu. Por que fui acreditar? Fui uma boba, uma cega, uma ridícula.

André voou em cima de Camila. Agarrou-a pelos braços e a imprensou na parede:

– Do que você está falando?

– Do assunto do ano! Você e Vanessa juntos, se pegando, se amando.

– O quê? – ele estava incrédulo. – De onde você tirou isso?

– Dessa faculdade. Todos estão se referindo ao novo e apaixonado casal: o professor e a orientanda. Que sucesso!

Camila espumava de ódio. André estava possesso. Ele deu um tabefe num porta-lápis que se espatifou na parede oposta. Ambos ficaram aterrorizados com a explosão:

– É mentira! Eu não tenho nada com ela. Nunca tive! Bem que ela sempre quis. Sabia que não deveria ter aceitado orientá-la.

– Eu não consigo acreditar em você. Não tem jeito.

– Camila, acredita em mim. Por favor, eu não tenho, nunca tive qualquer coisa com essa menina. É você. Apenas você que me deslumbra, que me deixa atordoado.

André falou isso bem perto dela. As palavras foram um rompante de sinceridade e verdade. Camila pegou o rosto dele nas mãos e deu um beijo casto:

– Não tem importância. Se cuida.

Ela tentou sair. Ele a imprensou de maneira mais ardente:

– Estou com muita raiva, a ponto de fazer uma besteira, de tirar a Vanessa de sala e brigar na frente de todo mundo… Fica comigo. – pediu.

Camila o abraçou. Ele estava nervoso. Foi uma fuga, ela sabia, mas não se importou quando André a beijou freneticamente, de maneira sôfrega e intensa. Ela também estava fugindo do sofrimento e da falta que sentia. Os dois só não fizeram sexo, porque estavam na sala dele, trancados. Precisavam evitar possíveis novos comentários.

Camila retornou radiante e esbaforida à sala, quase apenas para pegar o material antes do fim. Olhou as meninas fofoqueiras com superioridade. Teve uma vontade enorme de berrar que a única aluna a ficar com André era ela, e que naquela mesma manhã ele estava se desligando da orientação e da banca de Vanessa. Contudo, não alimentaria rumores. Já se bastava com os próprios ruídos internos de coração acelerado, de devaneio e de alegria por finalmente presenciar que a paixão era recíproca. De onde menos se podia esperar, foram necessárias uma mentira e uma crise acadêmica para mudar a perspectiva inteira dela.

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