ESCURIDÃO – Suzana

Não tinha sentido nada com a transição. Parecia que nem tinha trocado de empresa. Suzana estava totalmente integrada. Teve um pequeno receio de iniciante, mas assim que pegou no batente, rapidamente se misturou, participou, conheceu pessoas, cativou. O que ela entendia por uma fluidez natural era, de fato, uma facilidade exponencial em se adaptar a qualquer ambiente.

Apenas para não definir como perfeito, o novo estágio teve um detalhe inconveniente: o afastamento de Igor. Eles não se encontravam, não conversavam, não trocavam olhares. Tudo era estritamente profissional. Suzana era pragmática em demasia. Adorava tudo certeiro, claro e limpo. Não ter um retorno de Igor, não saber o que ele estava achando do desempenho dela, nem descobrir a razão do afastamento amoroso eram um tormento. Ficar no vácuo tornara-se um tipo de pesadelo petrificante.

Se não tinha na vida real, buscou na ficção. Imaginação era algo que ela tinha de sobra. Diversas vezes, ela se imaginou fazendo sexo em cima da mesa dele, ou sendo atacada numa sala abandonada e escura. Suzana queria aventura, loucura e ousadia. Sonhava em ser apalpada por debaixo de uma mesa durante uma reunião, fazer um boquete em Igor no meio do expediente, poder…

– Suzana! Você está distraída hoje! Olhou as plantas? – seu superior, conhecido carinhosamente de Gui, bradou.

– Ainda não. Estava terminando de vistoriar aquele projeto. – ela mentiu.

– Anda. Preciso de ajuda. Quero fechar tudo hoje.

Enquanto voltava a se concentrar, percebeu que havia outros empecilhos com a mudança. O amoroso era o mais simples deles. Ela estava em volta mais na parte burocrática, trabalhando em cima de leis, licitações e propostas. Talvez devesse marcar umas lições particulares com Bianca.

Desanimada com a aula à noite, Suzana se decidiu por finalizar as tarefas acumuladas e não subir para faculdade. Ela ia se sentir melhor com o dever cumprido. Depois, poderia passar no shopping e se presentear com alguma coisinha merecida. O inusitado dos planos é poder quebrá-los:

– Vai dormir aqui hoje? – Gui a assaltou com a sua voz pela sexta vez naquele dia.

– Não. – ela riu. Quem sabe a simpatia e a sedução dela poderiam acalmar o estresse de seu chefe direto? – Só quero acabar com isso logo. Não gosto de enrolação.

– Não precisa mostrar muito trabalho de cara. Você pode criar um padrão alto e não corresponder. Vê se corre, porque você não tem chave. A moçada da limpeza dever vir, em no máximo… – Gui consultou o relógio de pulso. – …vinte minutos.

– Ok. Vejo você amanhã. – ela despediu simpaticamente.

Olhando-o sair, descobriu que ele era um tremendo espanta-foda, ou seja, um cara chato, enjoado, e reclamão. Não dava tesão nenhum para as pessoas ao seu redor. Mais tarde, ela descobria que, na verdade, ele era muita-foda em relação a Suzana.

Logo que retomou a concentração, perguntou-se o que estava fazendo. As palavras de Gui assentaram dentro dela. Deveria se doar tanto assim? Era um exagero fazer depois do expediente algo que nem era urgente. Ao se preparar para sair, não percebeu que alguém tinha chegado. Quando se levantou, deu de cara com Igor. Os dois se assustaram. Tremeram:

– Suzana!? O que você está fazendo sozinha?

– Já estava saindo.

Ambos estavam bem sem graça. Suzana rapidamente percebeu o quanto era irônica a situação. Enfim, estavam sozinhos, mas pairava um entrave. Ela percebia o desconforto dele em se encontrarem a sós. Mesmo constantemente perspicaz, ela não interpretou corretamente os motivos do receio:

– Por que você está aqui? – Igor se mostrou esquivo.

– Eu… fiz hora… É… Não queria chegar cedo na Universidade. Fiquei aqui. Agora acho que até me atrasei.

– Eu levo você.

Suzana parou, no meio do caminho, enquanto pegava a bolsa:

– Não precisa. Nem é seu trajeto. – ela respondeu.

– Não. Não tenha cerimônia comigo. Faço questão.

Antes houvesse tamanho embaraço. Os dois não sabiam o que dizer. Estavam duros, sentados e estáticos. Olhavam para frente, para a fluidez incomum do trânsito. Não conseguiam quebrar o obstáculo entre eles.

No estacionamento da Engenharia, quase na mesma posição onde os dois já tiveram fortes cenas de amor, Suzana riu de escárnio. Não acreditava naquela situação:

– O que foi? – ele perguntou, pela primeira vez olhando-a de verdade.

– Se esse lugar falasse de nós… Quem poderia imaginar, depois de tanta putaria, que estaríamos assim, tão deslocados e afastados?

– Não é por minha escolha. – Foram cinco palavras cortantes. Suzana arrepiou com a entonação. – Fui obrigado a me afastar de você. Não queria misturar minha vida pessoal com a sua vida profissional, que está começando. Achei melhor ficarmos um fora do radar do outro.

– Você está me evitando? Por quê? – Como qualquer pessoa, Suzana detestava a rejeição.

– Você é minha estagiária. Não quero prejudicar você, a mim, ou a empresa. Foi o preço que paguei ao aceitar e convidar você.

– Então eu saio. Nem volto amanhã.

– Nem se atreva. Não trabalho com você, mas só escuto elogios.

Suzana corou. Ele sorriu com aquela reação:

– Igor, eu estou incomodada por não estar perto de você. Na verdade, é mais complicado porque você está bem mais junto de mim que antes. Porém, fica inacessível. Me ignora, não me olha, não me procura. Parece que eu não existo.

– Se eu fitasse muito seu corpo, acabaria fazendo uma loucura. Eu ia querer voar em você.

De repente, o clima voltou à forma como ela conhecia, ou seja, eletrizante, apaixonante, aquecido:

– Jura? Eu continuo acendendo você? Ainda deixo você com tesão? – ela provocou intencionalmente. – Pensei que tinha perdido meu poder.

– Nunca. Eu é que sou um grande dominador.

Igor lascou um beijo nela de tirar o fôlego:

– Estou vendo… – ela balbuciou, ainda de lábios colados – Quanto domínio… você tem agora…

Desse jeito, Suzana podou os atos dele. Igor parou de beijar, afastando-se rapidamente. Ele havia recobrado a razão:

– Viu o que me faz? Perco o juízo. Isso não é bom. Você acabou de entrar na empresa. Vai pegar mal se nos pegarem.

Não ter algo era terrível. Sentir o gosto daquilo, para depois lhe ser tomado, era aterrorizador e frustrante. Suzana não gostava que decidissem por ela. Sempre ia querer tudo e do jeito dela. Sem dizer uma palavra saltou do carro, bateu a porta e entrou rebolante na faculdade.

A aula se estendeu mais que o costumeiro. Ainda bem, pois não queria retornar para casa. Depois, tratou de conversar o quanto pode. Arranjou uma carona com uma veterana conhecida. A caminho, com o estacionamento vazio, Suzana se assustou ao ver o carro de Igor no mesmo lugar. Dispensou a colega. Entrou calmamente, como se nada tivesse acontecido. Uma melodia triste e profunda tocava: “…that’s when you have to tell me, hey…this kind of trouble’s only just begun…”

– Que música é essa? – depois de um tempo, Suzana perguntou. – Eu não conheço.

– É Why da Annie Lennox.

– Mais uma letra sugestiva?

Os dois ficaram escutando, imersos e receosos: “…some things are better left unsaid, but they still turn me inside out…”

– Por que você ficou me esperando até agora? – ela não se aguentou.

– Eu quis retomar de onde paramos.

No banco de trás, alheios ao mundo, eles repetiram o que fizeram no estacionamento um tempo atrás. O sentimento proibido e avassalador reverberava no mesmo passo do fim da canção: “…’cause i don’t think you know how i feel…”

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