ESCURIDÃO – Bianca

Passava pelo caminho de pedras, quando escutou algo se espatifar na cozinha. Bianca ia entrar pela frente. Resolveu ir pelos fundos. Aquela cena era aterrorizante só pelos participantes. Dona Lina, sua avó, rodeada pelos dois irmãos, pendurava-se despojada em cima de uma das cadeiras da bancada da cozinha. Os três riam animados e despreocupados. Sua mãe estava de frente para a geladeira recolhendo cacos de vidro:

– Ai! – Patrícia exclamara com dor, de supetão.

Rapidamente Bianca se jogou no chão, amparando a mãe. O sangue já pingava:

– Mãe! Vamos cuidar disso, depois eu limpo.

Na torneira, Bianca ficou enfurecida. Nenhum dos três se importou com as duas. Elas pareciam invisíveis:

– Como você derrubou isso?

– Não fui eu. Foi o Nei. Ele disse que ia se sujar se limpasse. Sabe como é…

Bianca ferveu por dentro. Era inacreditável. Seus familiares eram ao menos humanos? Não parecia. Onde estava a dignidade da pessoa humana?

Por que Bianca se sentia tão jurídica? Ela percebeu como estava mais afiada e com o pensamento mais atrelado à lógica do Direito, depois que iniciou o estágio clandestinamente. Como de praxe, nenhum de seus familiares suspeitou ou se perguntou sobre a razão da ausência dela durante as tardes em casa.

Queria dar um grito, acusar, fazer uma petição e instaurar um julgamento, ao mesmo tempo em que não desejava retirar a pressão das mãos da mãe. O sangue demorou a estancar.

Enquanto isso, Bianca percebeu que a indiferença sempre havia sido uma forma eficaz de ataque. Menosprezando as duas, o poder era mantido. Ela, pela primeira vez, ansiou por um fim, pelo alcance do respeito. O problema era a avó. Achava estar pronta para enfrentar tal mulher fria e calculista? Mais cedo do que poderia supor, a matriarca dos Bersani’s seria atacada:

– Alguém poderia pegar o kit de primeiros socorros no banheiro? – Bianca tentou uma abordagem mais utilitária.

O trio as olhou por cinco segundos, como se ela falasse grego. Voltaram ao conluio animadamente:

– Deixa, Bianca, eu vou rapidamente sozinha e eu mesma passo algo. Você poderia ficar aqui e preparar uns sanduíches, já que a torta de frango está imprópria?

– Como?

Patrícia sorriu, beijou a filha e se retirou. Ninguém a notou. Bianca ficou de costas para as visitas. O ódio fluía da ponta da cabeça aos pés. O sangue da própria mãe no chão branco a fez perder o juízo. Naquele instante, esqueceu-se de modos, de medos e da mudez. O ineditismo da reação assustaria a todos:

– Vocês estão com fome? – ela perguntou.

– Claro. – respondeu Fernando.

– É pra isso que você serve. Pra nos servir. – Nei debochou.

Bianca pegou a pá e a vassoura que estavam próximas:

– Primeiro faz o lanche! Estamos com fome e a avó tem compromisso. – Nei ordenou.

– Já vai sair. – foi a resposta seca.

Bianca varreu os cacos, o frango e o molho pra dentro da pá. Virou o conteúdo na tampa do lixo. Segurando-a como uma bandeja parou em frente de Nei. Num gestou rápido despejou horizontalmente aquilo tudo em cima da bancada. Boa parte voou em cima dos três, sujando-os:

– Pronto! É isso o que tem pra comer. Se não quiserem, a geladeira, o fogão, os pratos e o resto estão logo ali.

Os irmãos xingaram raivosos. Dona Lina ficou mais ereta e calma, retirando a sujeira de seu conjunto impecável:

– Você tem noção do prejuízo que acaba de me dar? – a avó disse de maneira mais baixa e fria. – Eu não sabia que tinha uma neta instável e louca. Bom conhecer minha mais nova, a desajustada.

– Eu? Desajustada? Pelo menos, não sou insensível. – a garota rebateu.

– Pede desculpas, Bianca. – Fernando tentou apaziguar.

– Não peço! Acho um absurdo o que vi quando eu cheguei. O que vocês pensam que são? Reis? – bravejou.

– Quanta mudança… Desde quando você é tão insolente? – Lina perquiriu. – Enfim esse curso de Direito está atingindo-a. Está fazendo você ser mais arisca. Cuidado. O andamento da lei pode ser surpreendente, nunca se sabe que forças estão em jogo. O tombo tende a ser violentíssimo.

Com anos de prática, Lina rapidamente virou o jogo. Bianca voltou a ter medo. Os irmãos raivosos e seus palavrões canastrões não a aturdiram. Contudo, a determinação enervante, estática e fria das ameaças da avó rompeu o fio de coragem:

– Honestamente, eu gostaria de saber a causa dessa sua modificação. Estou bem intrigada. Com quem anda falando? Com quem convive? Que matérias está fazendo? Já está no estágio?

De repente, Bianca teve medo de perder o pouco que conquistara. Sua avó era influente. Ela poderia conhecer os sócios do estágio e os manipular para dispensá-la. Poderia pedir que algum professor a apertasse nas disciplinas. Afinal, do que essa mulher era capaz?

– Bianca está muito sumida desde alguns dias. Não tem ficado mais em casa à tarde. – Nei revelou.

– Onde, minha querida, você se encontra nas tardes? Fazendo o quê? Já que estamos tendo uma conversa tão íntima e agregadora, é um bom momento para a verdade.

Três pessoas consideradas malvadas e impiedosas encaravam-na, com desejo de destrinchá-la e depois subjugá-la. Aquilo era a face do terror, do sombrio e da falta de consideração. Bianca fez o mais fácil. Fugiu.

Ainda correndo rua abaixo, com o entorno passando rápido como um borrão escuro, ligou para Eulálio. Ele desligou as duas vezes, não quis ou não podia atendê-la. Tentou Camila. O celular estava fora de área ou desligado. Sem saída, contatou Suzana. Bem mais rápido que o imaginado, a prima parou o carro rente ao meio-fio, em frente de onde Bianca estava sentada, as lágrimas ainda no rosto, embora tenha se acalmado:

– Bibi, querida, o que foi? – Suzana agachou-se perante ela.

– Eu sou uma doida. Provoquei a fera. Fui irresponsável. Eles vão me caçar, me prejudicar… Vou perder meu estágio.

– Me conta o que foi. – A prima interpelou.

Bianca relatou tudo, desde os fatos aos sentimentos. Por mais que achasse, erroneamente, Suzana rasa e não propensa a entender as emoções, quis se abrir, rasgar o que a envolvia de forma temerária:

– Estou surpresa. Você é como eu.

– O quê? – Bianca se assustou. – Como assim?

– Você tem coragem. Não se conforma com esse… jogo doente e malvado de nossa família. Parabéns. Eles têm razão de ficarem assustados. Há uma nova Bianca em você.

O elogio despertou um sorriso tímido nas duas:

– Vem. Você fica comigo o final de semana inteiro, na minha casa. – Suzana convidou.

– Eu preciso de coisas.

– As minhas roupas mais curtas e apertadas devem servir. Vai ser bom ficar fora do radar.

– Mas eu tenho de…

Bianca ia apelar para o estudo, como sempre. Precisava repassar as questões de mediação. Contudo, percebeu que há anos se recusava a fazer coisas, a relaxar e a viver, por causa da faculdade. Não, daquela vez, ela ia se permitir ser mais solta e despreocupada. Era mais um primeiro passo mínimo e totalmente solidificador rumo a quem ela estava destinada a ser.

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