MEDIAÇÃO – Suzana

A única mulher, a primeira a ficar pronta. Os gêneros estão cada vez mais bagunçados. Apesar de ter um vestiário somente pra si, Suzana não se conformava em esperar tanto pelos garotos depois do futebol. Talvez eles se zoassem pelados. Ou fofocavam como as garotas. Por isso, atrasavam. Definitivamente as barreiras estão bem tênues:

– Você vai comigo, não é Suzana? – Edgar surgiu ao lado dela, sem camisa.

A garota não respondeu. Ele estava mais bronzeado e atlético, com mais pelos no peito. Há quanto tempo ficaram pela última vez?

– Ou arranjou outra carona? – ele perguntou, já que não percebeu, por causa dos óculos escuros dela, que Suzana o estava analisando. Dissecando-o.

– Não! Vou contigo mesmo.

– Só vou esperar o Victor. O que aconteceu com você hoje? Te achei distraída. Está tudo nos conformes?

– Ah, está. Por quê?

– Você perdeu dois gols bobos. E também quis jogar de lateral. Tinha tempos que você não corria atrás da bola.

– Senti vontade de suar mais. Estou precisando de algo que me distraia.

– Tipo o quê? Será que posso ajudar?

Edgar sorriu pra ela daquele jeito que não deixava dúvidas. Por já se conhecerem, por serem parceiros de futebol, por serem sacanas, ela foi límpida:

– O que você quer? Pode falar!

– Estarei sozinho em casa hoje à tarde. Depois do shopping, você poderia ir pra lá. Meus pais têm uma banheira nova no quarto deles. Imagina nós dois dentro.

– Você continua com a fantasia de transar na cama dos seus pais? – ela foi ríspida. – Eu não gosto disso.

– Não… Eu só quero que você conheça a banheira.

– Não sei… Ando meio estranha. Estou indisposta pra essas coisas. E tem festa de aniversário do meu tio hoje. Não quero chegar cansada.

– Você? – ele se assustou de maneira jocosa. – Recusando uma brincadeira? Está apaixonada?

Suzana transformou-se. Seus sentimentos tortos e inéditos por Igor não mereciam brincadeiras. A fim de não ser indelicada com Edgar, virou-se de frente, a observar um pequeno jardim próximo a eles:

– Desculpe-me se falei algo que não devia. Só achei que conhecesse você um pouco. Percebi que você está um pouco mudada. Está dispersa. Isso tem cara de homem novo, que deixou você caidinha.

– No fundo, você tem razão, Ed. – Sem ter ninguém para desabafar, Suzana aproveitou a oportunidade. – Tem um cara sim, mas não sei o que está realmente pegando entre nós.

– Suzana, você é muito decidida. Se quer ele, não sei o que impede?

Edgar tinha razão. Ele merecia um prêmio. Sorridente, Suzana se virou para dar um simpático beijo nele. Rapidamente, o garoto virou-se. Eles deram um estalinho. Contudo, ele a apertou contra si, tentando se aproveitar. Ela sentiu uma dose de excitação percorrer o sangue, ao se imaginar deitada com aquele bonito corpo. Porém, cortou o beijo como forma de punição pelo atrevimento dele:

– Vamos? – Victor apareceu, sem perceber o que tinha ocorrido.

No caminho, Edgar não parava de olhar pelo retrovisor para Suzana. Ela não queria ceder ao clima, afinal, precisava analisar a situação com Igor. Devia pensar sobre a não relação deles. Contudo, o parceiro de futebol estava complicando, envolvendo-a numa teia de desejo e excitação.

Dentro do shopping, no momento de despedirem, Edgar sussurrou pra ela:

– Se mudar de ideia, é só me ligar. Minha tarde será sua, de mais ninguém.

Ainda analisando como os homens podem ser tão diretos, Suzana entrou na livraria. Suas primas estavam em outro assunto. Ela não se importou:

– Por que homens têm de ser tão diretos? Tão explícitos? Que raiva!

– Olá, Suzana. – enfatizou Camila. – O que você quer dizer?

– Desculpe. Oi, primas. – Ela beijou as duas. – Eu não entendo como eles podem ser tão claros no que desejam. Se querem pegar você, transar contigo, eles explicitam isso de uma forma direta, sem rodeios. Eu me sinto um pedaço de carne apenas, com bundão e peitos gostosos.

Bianca ficou exasperada. Suzana disse aquilo bem alto. Muitas pessoas desviaram-se das prateleiras e das páginas para olhar as três.

– Você também poderia deixar de ser tão direta e clara? Todo mundo escutou. – Bianca ralhou.

– Claro. Sexo vende, sexo interessa, sexo é ótimo! – Suzana rebateu, mantendo a voz alta.

– Shiu! – Bianca tentou podá-la.

– Por que você está se importando com a constante atitude masculina? – Camila perguntou. – Eles não hesitam como nós, não fazem pesquisas. Quer analogia melhor que ir às compras? Eles não comparam, pegam o que quer. Nós somos as indecisas, as que entram em milhões de lojas. Que experimentam em demasia.

– Eu não sou assim. Quando quero dar, eu dou. – Suzana disse sem pensar.

– Então qual é o problema? Não compreendo. – Bianca tentou acompanhar a linha da discussão, embora detestasse atenção voltada para elas dentro da loja – Se você se sente, e é como eles, por que está irritada com a clareza dos homens?

– Boa pergunta! – Camila pontuou. – Logo você, Suz, que sempre está um passo a frente, ou ao lado dos homens… Essa é sua característica, ser ousada. Por que se sente enraivecida?

Suzana caíra na própria armadilha. Criticava um jeito que era dela. Por que não temos espelhos internos tão bons?

– Eu, particularmente, não concordo com essa agressividade sexual. Nós, mulheres, temos de nos preservar. – Bianca tomou a palavra. – Se não nos resguardarmos, quem vai fazer? É aquela máxima antiga: homens não prestam, mulheres não se dão o valor.

– Hoje em dia a dicotomia não está tão forte assim. – Camila divergiu. – Antigamente sim. Atualmente sei de muitas mulheres que não prestam e homens que não se valorizam.

– Eu! Eu não presto. – Suzana colocou-se como evidência.

Com a afirmação, ela se sentiu mal com a própria conduta. Ela sempre fora previsível, direta e clara quando se tratava de seus interesses sexuais. Não escondia, não floreava e não ocultava. Quando queria alguém, caía de cabeça, sem se preocupar com consequências, problemas ou entraves. Talvez por isso não tenha tido ninguém. Não havia segredo ou mistério para se alcançar e conquistar. Suzana era um livro exposto, ou uma página constantemente aberta, ou letras garrafais com mensagens curtas e certeiras. Constatou um possível motivo pelo afastamento de Igor:

– Deixa pra lá… – ela se afastou das primas. Ambas perceberam que tinham atingido um ponto interno de conflito.

– Suz, por acaso André estava no treino? – Camila entrou no assunto que a interessava. Precisava saber se o amado tinha voltado do congresso. Sentia saudades tremendas de seu professor.

– Estava. Acho que ele passa no shopping daqui a pouco.

Bianca observou como essa notícia fez a prima tornar-se radiante:

– Suzana Bersani. Enfim, eu a encontrei.

As três primas ficaram pasmas, olhando a felicidade e a intimidade do vendedor da livraria, de fronte a elas. Ele parecia tão animado:

– Ei. – Suzana estava sem graça. – Como está?

– Acho que você não se lembra de mim, mas eu procurei por você. Até entrei nas redes sociais. Fiquei com vergonha de adicionar, porque pertencemos a círculos diferentes. Foi o que constatei. Sou o Luca, nós nos conhecemos na corrida, nós… Você se lembra?

Suzana assentiu, enquanto se escandalizava pelo esquecimento:

– Ah… Você é o cara… Aquele que o Eulálio pegou fazendo… – Bianca gesticulou sem graça. Calou-se repentinamente.

– Exatamente. Sou eu. Queria conhecer você melhor. Que tal sairmos juntos?

– Para repetirmos nossa loucura? – Suzana mostrou-se falsamente alegre.

– Também. Com certeza, na verdade!

– Olha, Luca, eu aprecio muito sua honestidade. Só que hoje vou ignorar você, tentar esquecer sua proposta direta. Infelizmente você teve azar. Não estou para investidas.

– Como? – Camila ficou chocada. – Você está dando um toco nele? Parabéns, Luca. Você é um dos muitos que transou com Suzana. E um dos poucos a receber um não dela.

Suzana detestou a colocação da prima. Fechou o cara. Bianca estava olhando Luca, como ele ficou tristonho:

– Eu não mereço isso, não de vocês. – Suzana abriu a bolsa. Pegou 50 reais. – Toma! Eu vou pra minha casa. Comprem qualquer coisa, não me importo. Por que não a trilogia Cinqüenta Tons de Cinza? É a minha cara, não é? Putaria é a marca da Suzana.

– Prima, me desculpe. Eu estava brincando.

Uma correu atrás da outra. Luca e Bianca ficaram parados e tímidos entre si.

Correndo pelo shopping, querendo ficar sozinha, Suzana se escondeu numa loja de departamento. Despistou Camila rapidamente. Rodeada por estranhos, sentou-se num banco cumprido. Era possível fugir de sua essência?

– Já almoçou com as primas? Que rápida! – Edgar surgira na frente dela.

– Não sei se vou almoçar com elas. Só sei que vou transar contigo na banheira, fora dela, no chão, na cama de seus pais… Quando sair do shopping, me liga. Vou pra sua casa.

Suzana levantou-se, deixando-o boquiaberto. Ela requebrou mais que o habitual. Dane-se o tribunal da vida. Ela ia fazer o que estava com vontade. Embora pragmática, a garota continuaria a ser movida por emoções, como um paradoxo.

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