MEDIAÇÃO – Camila

Mesmo o shopping vazio, não a encontrava. Camila não queria se passar por insensível. Ela sabia que era boa, apoiadora e compreensível. Precisava se desculpar, acertar os ponteiros. Necessitava achar Suzana de qualquer jeito para pedir perdão e consertar as piadas malvadas que fez.

Rodou pelos corredores, entrou em lojas, averiguou o banheiro, correu, tentou o celular, se desesperou. A prima poderia ter ido embora, magoada e raivosa, pela forma como ela brincara com a duvidosa situação sexual. Infelizmente a intimidade fora a grande culpada. Sempre brincou com Suzana, porém entre elas. Não deveria ter externado na frente de estranhos.

Cansada, recostou-se num dos pilares brancos. Nunca poderia ser uma antropóloga. Se com a prima teve um juízo feroz e cortante, o que aconteceria quando analisasse o outro? O desconhecido certamente despertaria asco e repulsa. Sentia que sua alteridade estava comprometida. Era preconceituosa, moralista e autoritária. Não conseguiria ser alguém desprovida dos valores morais que funcionam como filtros de análise. Tinha de permanecer nas Ciências Políticas:

– Sabia que ia encontrar você aqui. Bem, eu sabia que sua prima ia encontrar com vocês depois do jogo. Quero conversar.

André a encontrara num pior momento. Estava abalada e desfocada. O que pensaria ao vê-la daquela forma?

– Olá. – Ambos trocaram dois beijos castos. – Tem um tempo que não te vejo. Parece que está fugindo. Não fiquei sabendo quando voltaria do congresso nacional de Ciências Sociais.

– Por causa de contatos, acabei esticando no local do evento. – Ele estava sem graça. – Foi bom para espairecer um pouco. Eu precisava.

Uma mulher loira cruzou a vista de Camila. Ela se lançou à frente, desprezando André. Ela estava prestes a gritar. Não era a prima:

– Você está bem? Parece aflita… Você está perdida? Cadê seus primos?

– Estou procurando a Suzana. Fiz besteira com ela. Eu a magoei. – confessou.

– Deixe um pouco de tempo passar. Pelo que conheço, se ela for no futebol como é na vida, um tempo diminuto basta para se reaproximar e esquecer tudo. Suzana é muito simplista.

No fundo, Camila sabia o quão certo ele estava. André era um ótimo reparador das pessoas. Suas palavras eram mais um ponto para ele no placar da paixão. Por que, mesmo numa situação triste, ele conseguia fazê-la mudar de perspectiva e ainda arrebatá-la mais? Que homem especial era esse?

– Seu semblante está mudando. Bom saber que eu alcanço seu íntimo facilmente.

Camila não respondeu. Tinha duplo sentido naquilo. Tal efeito subliminar a fez esquecer o entorno, no mesmo momento em que passou a ser observada. Suzana, de longe, decidiu não interromper a prima num momento tão abrasador. Era o que a linguagem corporal evidenciava. Eulálio, recém-chegado ao shopping, ficou curioso com a cena, escolheu por não cortá-la também. Queria saber do que Camila era capaz:

– Talvez eu seja muito evidente… – ela ficou acanhada.

– Depois do nosso último encontro, receio que devemos ser muito claros.

– Se você insiste…

Ela tentou enlaçá-lo. André se esquivou:

– Melhor não, ainda mais com a situação de agora. É um lugar muito comum e cheio. – Ele se desculpou.

– Não quer arriscar?

– Não. Não depois da advertência. – O professor disse baixo, como se conversasse consigo próprio.

– Que advertência? – Camila estava em alerta. Já imaginava o que poderia ser.

– O caso com a Vanessa rendou mais que fofocas. Tive uma pesada e preocupada reunião. Fui advertido. Pediram que eu me afastasse dela e fosse cauteloso com as outras. Não querem me perder por causa de um escândalo de assédio.

Suzana estava intrigada. O corpo dele era ambíguo, desejava-a, mas ao mesmo tempo se continha. Por outro lado, a prima tinha se fechado e recuado. Ela estava resistente. Talvez ele tenha soltado algo bombante. Eulálio curtia a situação. Camila tinha avançado, ele a repeliu. Ambos pareciam magoados e ressentidos:

– Pensei que estivéssemos mais próximos… Achei que… Poderia acontecer de ficarmos mais juntos. – Camila desabafou.

– Eu quero isso. Só não pode ser agora, por nosso bem.

– Não, André, é pelo seu bem apenas. – Camila o encarou. – Você é tão esperto e sagaz. Não imaginava descobrir um lado tão subserviente.

– O que você quer que eu faça? Esse é meu emprego. Lutei por ele. Eu quero você, Camila. No entanto, tenho de recuar.

– Eu não entendo. Minha situação é igual a da Vanessa? Minha condição de aluna é um argumento preciso e irrefutável? Por ser meu professor, estamos condenados?

André não respondeu. Não precisava. Camila deu as costas e se retirou.

– Espera, não é bem assim…

Caminhando decidida, embora de cabeça baixa, assustou-se com as mãos em sua cintura. Era Suzana. Ela recostou a cabeça nos ombros da prima:

– Vou mandar uma mensagem para Bianca nos encontrar na praça de alimentação. – Eulálio disse calmamente, colocando-se no outro lado da prima.

– Me desculpe por… – Camila transmitia pesar.

– Esquecemos aquilo, tudo bem? Eu estava estranha. – Suzana resumiu.

– É como me sinto agora. Eu não entendo o André. Como duas pessoas podem se encaixar tão bem e não conseguirem ficar juntos?

Enquanto ela questionava, Eulálio olhou para trás. André os seguia. O garoto fez cara séria e movimentou a cabeça em negativa. O professor parou, deixando-os partir:

– Camila, o entrave está na cabeça dele. Você não tem que se culpar. Por mim, você se afastaria e esperaria. Quem sabe ele sente falta e se toca? – sugeriu Suzana.

– Não sei… Isso é sério. Relação professor-aluna sempre é um problema. Será que você não o deseja só pela excitação do proibido? – Eulálio teve uma abordagem distinta. – Talvez seja melhor tirar o time de campo agora antes que seja tarde.

Camila não queria se afastar ou assumir a derrota. Podia constantemente transparecer fadado ao fracasso, contudo ela botava fé na relação deles:

– Quero um sorvete. Preciso de um. – ela disse, olhando uma sorveteria.

– Nós já vamos almoçar. – Eulálio censurou.

– Deixa ela! Vai fazê-la feliz. – Suzana discordou.

– Não é chocolate que faz vocês, mulheres, ficarem menos depressivas? – Eulálio estava realmente curioso.

As duas sorriram. Acariciaram, ao mesmo tempo, o rosto dele. Foi um singelo e rápido momento afetivo. Porém, alastrou uma força tremenda. Somente aquela conexão inesperada evitou que Camila se sentisse oca. Na vida, desapontamentos e fracassos podem ser um tratamento de choque. Nos fazem parar de cutucar o machucado, a fim de deixar a cicatriz se fechar, ao mesmo tempo em que nos ocupamos com novas promessas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: