REVELAÇÃO – Eulálio

Eulálio estava enjoado, sentia-se com náuseas. Respirava forte, tentando não focar em nada. Era em vão. A casa estava lotada, cheia de pessoas. Ele ia notando os bajuladores, os mesquinhos, os interesseiros, os esnobes. Anos de convívio tornavam-no um experiente avaliador de caráter.

De repente, bateu nele um cansaço e um desânimo. Por muito tempo, sempre orbitou por essas pessoas. Não queria mais. Teve medo de se tornar um deles, de não ser verdadeiro e completo. Não podia ser torpe e vil.

Eulálio resolveu procurar por sua mãe. Pretendia ir embora da maneira que fosse, já que não estava de moto. Ao olhar os pais de Suzana e Bianca conversando, não se sentia mais parte da família. Deixou fluir o ódio pelos Bersani’s, além da mágoa e do arrependimento por ser um deles. Definitivamente era o momento de tomar vergonha na cara e se afastar. Não adiantava ficar preso a familiares que não gostavam dele, que nem o consideravam alguém de respeito:

– Eulálio! – Bianca pegou no ombro dele. – Você pode…?

– Nada do que você possa falar vai me fazer ceder. Eu estou com muita raiva de todo mundo, até de você.

– Eu não fiz nada! Só não quero que você fique se remoendo e sozinho. Essa história da Suzana é algo que…

– Isso é o de menos. É só um pedaço do descaso que toda a família Bersani tem por mim! – ele estava falando alto.

– Primo, você está chamando atenção dos outros. Fala baixo!

– Foi você quem fez escândalo ao empurrar seus irmãos na piscina. Só quero achar minha mãe e ir embora. Pra mim, deu, cansei. Vou largar meu estágio na segunda-feira.

– O quê? Não compreendo. Onde que o estágio se encaixa na sua decepção?

– Não vou ficar mais trabalhando para as empresas Bersani sem qualquer respeito. Não vou mais rastejar. Cansei. Foda-se! Que as fábricas explodam!

Percebendo que tinha plateia, ele parou de falar. Por outro lado, claramente, Bianca juntava as peças do mistério. Ela estava entendendo tudo:

– Eulálio, você quer dizer que trabalha nas empresas Bersani? Você acaba de soltar que é estagiário lá? Meu Deus…

Bianca estava horrorizada com a notícia. Ele podia desmentir, dizer que ela tinha compreendido errado. No entanto, desistiu. Não queria mais fugir, nem ficar na escuridão:

– Sou, há mais de dois anos. Ninguém sabe disso.

– Por quê? Como ninguém descobriu?

– É um conchavo, só a diretora do RH sabe quem eu sou. Todos me conhecem como José.

– Por isso, você tinha a camisa de organizador da corrida…

– Exatamente!

– Você nunca cruzou com meu pai, meu irmão ou a vovó?

– Dei sorte. – ele sorriu, enquanto refletia sobre a farsa.

– Você não foi à festa de aniversário da empresa no ano passado. Você vai esse ano? – Bianca estava preocupada.

– Vou. Que se dane! Que descubram.

Ele deu as costas à prima e voltou a procurar pela mãe. Contudo, Bianca precisava digerir a incrível história. Era surreal demais:

– Você é muito corajoso. Está na toca dos leões.

– Só faço o meu trabalho bem feito. – ele foi simplório.

– Eu não aguentaria de nervoso. Ficaria tensa o tempo todo, sem foco.

Eulálio parou repentinamente. Bianca quase bateu nele. Ainda de costas, comentou:

– Eu fico apreensivo, mas é excitante. Eu torço para que alguém descubra logo. Eu fiz um bom trabalho, sou respeitado no meu setor. Sabia que eles queriam me contratar antes de formado? Tive de recusar.

Ela ficava mais e mais chocada:

– Você é meu exemplo, meu herói! – a prima enlaçou-o por trás. Aquilo tranquilizou Eulálio por segundos.

– Eu quero ir embora. Quero achar mamãe.

– Eu ajudo a procurar.

Os dois fizeram uma vistoria pelo local. Não adiantava perguntar, porque Dona Teresa não era conhecida. Misteriosamente, ela não se encontrava em parte alguma:

– Você percebeu uma coisa? – Bianca, quando queria, sabia ser muito perspicaz. – Não vi a vovó em nossa busca.

Sem responder, Eulálio subiu as escadas sorrateiramente. Devagar, foram caminhando. Um dos quartos estava com a porta quase fechada, uma fresta de luz rasgava o carpete do corredor. Os dois se aproximaram. Quando constataram que Teresa estava de costas, ele fez o sinal de silêncio a Bianca:

– Não é do seu feitio, Teresa, se prostrar a isso. Me chantagear? Logo agora, nessa altura do campeonato? É inconcebível! – Lina zombava

– Estou só apelando. Pra eu conseguir esse dinheiro que é meu por direito, tenho de chantagear. Quero que você me dê a ajuda financeira que se recusou por esses anos todos.

– Esse dinheiro, se existisse, é do Eulálio.

– Você vai ter que me dar! – Teresa foi ríspida.

– Prova que ele existiu! Prova que o banana do meu filho deixou as economias dele para o filho. Isso é rumor. Eu não vou te dar nada, porque eu não te perdoo. Gabriel morreu brigado comigo e com mágoa, por sua causa.

– Você fez a cabeça dele contra mim! – Teresa cuspiu. – Você o fez acreditar que Eulálio não era filho dele, que eu era uma piranha. Na verdade, qualquer mulher que não seja você, não presta, não vale nada.

– E o que você fez, Teresa? Esqueceu? Você deu o golpe do baú!

– Não foi assim! Você sabe que estávamos apaixonados, nós íamos nos casar. Você o afastou de mim. Eu guardo aquela carta falsa até hoje. Como foi capaz de tamanha desumanidade?

– Eu teria feito um bem a todos nós. – Lina riu. – Eu não teria que lidar com uma sujeira dentro de minha família, você teria arranjado outro homem ao invés de se segurar na lembrança de um fantasma.

– E o Eulálio não teria nascido! – Teresa disse com pesar. – Sabe por que desconfiei? Gabriel nunca iria me propor um aborto.

– Você não conhecia meu filho. Ele era centrado. Tudo de ruim que aconteceu a ele foi culpa sua. Você o corrompeu. Você destruiu Gabriel quando ele viu você com uma criança nos braços. Eu não a perdoarei…

Eulálio deixou escapar um alto soluço de choro. Bianca se assustou com as lágrimas escorrendo na face dele, e paralisou. Com o silêncio dentro do quarto, eles compreenderam que a conversa tinha sido interrompida.

O garoto abriu o quarto ao lado e se jogou para dentro. Bianca ficou branca como uma cera ao dar de cara com as duas senhoras, encarando-a:

– Uma neta intrometida! E depois dizem que jornalistas são fofoqueiros. Advogados são uma raça pior. – Lina atacou.

Bianca engoliu fundo:

– Dona Teresa, Eulálio procura a senhora para vocês irem embora. – assim que disse, ela se virou e se trancou no banheiro.

Eulálio deitou na cama e mordeu o edredom de raiva. Chacoalhava. Tinha muita coisa que desconhecia sobre sua vida. Antes de decidir que rumo tomar, buscaria todas as respostas. A verdade viria à tona, custe o que custasse. Traçaria todo o perfil da sua trajetória.

REVELAÇÃO – Suzana

Duas buzinadas e Eulálio veio correndo. Ele estava de terno, totalmente impecável:

– Muito obrigado por vir nos pegar. – Ele deu dois beijinhos em Suzana. – De moto, minha mãe não iria. Ela já está vindo.

– Eu que agradeço. Não queria chegar sozinha nessa festa.

– Não sei o que deu na minha mãe. Ela não gosta de se misturar com os Bersani’s. De repente, fica toda animada com a comemoração íntima de aniversário da empresa. Eu nem queria ir.

– Todo mundo está tão envolvido com coisas sentimentais. – Ela pontuou, sem se incluir. – Nem Bianca ou Camila estavam animadas a ir. Elas vão empurradas. Falando nisso, como está a vida de solteiro?

O primo refletiu um pouco. Ele não tinha intenção de conversar:

– Lio, você tem que parar com isso. Você é tão fechado. Por algum motivo bobo, você nos deixa de fora. Queremos te ajudar, dar um apoio. O que motivou o término repentino?

– Eu vi Catarina. Aquilo me abalou muito. Só que ela está totalmente inacessível. E eu gostava da companhia da Sheila. Eu só perco as estribeiras quando penso ou vejo a Catarina.

– Suzana! Você é um anjo.

– Você está bonitona, Dona Teresa. – Suzana se virou no banco para beijar a mãe de Eulálio, assim que ela se sentou no banco de trás.

No caminho, os três conversaram trivialidades:

– A última vez que compareci ao jantar de família pelo aniversário das empresas dos Bersani’s, Eulálio deveria ter uns cinco anos. Foi horrível. Todos me viam como uma intrusa. Bem, ainda vão me olhar assim, sempre.

Suzana expiou pelo retrovisor. Sempre tem um preço a ser pago quando não condizemos com as expectativas alheias? Ela ia descobrir mais tarde que as pessoas querem determinar os outros, baseando-se no exterior. Com isso, todos se decepcionam, se machucam e não se entendem. Se fossem mais honestos, caridosos e receptivos, a harmonia poderia ser mais recorrente. Cada um quer moldar seus parceiros, sem se importar que eles sempre têm automotivações.

Pelo nome, o jantar íntimo deveria ter número reduzido de pessoas. A princípio, apenas os parentes poderiam comparecer. No entanto, o evento alcançou tanto status e se tornou mais um jogo de poder. Passou a ser impossível barrar a elite da cidade, os amigos e os fornecedores. O festejo sempre acontecia uma semana antes da principal solenidade comemorativa da empresa, na casa de Dona Lina:

– Cumprimentaram a nossa amada anfitriã? – Suzana encontrou as primas num canto afastada da varanda.

– Minha mãe me obrigou. – Camila respondeu.

– Eu estava com meus irmãos. Segui o fluxo. – Bianca disse sem ânimo.

As duas de preto contrastavam com o amarelo ovo do vestido de Suzana. Eulálio apareceu logo em seguida com um garçom a tiracolo:

– Vamos beber, primas! É a forma de desafogar.

– Falou a minha língua. – Suzana bateu palmas.

Camila relatou o ocorrido com André, como se sentia mal pela descoberta na faculdade do rolo entre eles. Ela não estava preparada para um fim tão inusitado:

– Você foi muito corajosa. A forma como você conduziu… – Bianca expressou o sentimento coletivo.

Eulálio contou o encontro com Catarina. Tentou explicar os sentimentos conflitantes que sentia por ela e pela ex. Disse que precisava ficar sozinho, mas estava tão confuso:

– Eu escutei uma coisa. – Bianca estava falante demais. – Nei e Fernando chamaram ela e o namorado. Mas Catarina alegou que não podia vir por causa de estudos. Será que ela está te evitando?

O primo ficou triste e alegre ao mesmo tempo. Ele recebeu um abraço coletivo. Naquele momento, eles apenas sorriram. Era boa e verdadeira a ligação entre eles:

– Eu estou cansada de ficar em pé. Podemos sentar num banquinho perto da piscina? – Camila propôs.

A caminho, Suzana se recordou de algo que a incomodava:

– Tio Cristóvão está na festa?

– Não. – Eulálio respondeu. – Ele só vem semana que vem. Está preso em viagem.

– Que loucura foi aquele aniversário dele. – Bianca comentou.

– Sem comentários, por favor. – Camila disse repentinamente. – Escutou Suzana? – A prima não segurou o riso.

– Camila, você sabe que o Maurício não para de me perguntar por você. Por que não investe?

– Não consigo ser como você. – ela disse, sentando-se. – Não estou condenando, mas não vou me aproximar do Maurício para esquecer o André.

– Por que estamos sempre fugindo? – Suzana perguntou.

Ninguém respondeu. Eles ficaram olhando a festa, os convidados, o clima de polidez e ostentação ao redor:

– O pior é fugir de si mesma. – Bianca disse timidamente. Os três suspiraram.

– Que encontro! Chamem o fotógrafo. – Nei apareceu junto de Sandro e Fernando.

– Os sete primos juntos é algo raro. Vamos chamar a vovó para essa foto histórica! – Sandro debochou.

– Não sabia que você era bem-vindo, Eulálio? – Nei atiçou. Bianca segurou o braço de Lio de uma maneira imperceptível.

– O que vocês querem? – Suzana tomou a dianteira. – É uma foto? A gente faz no meu celular agora. Assim, podemos curtir esse evento livres uns dos outros.

– Ah, esqueci que você tem uma meta a bater, não é prima? Pra quantos homens você vai dar hoje? – Nei alfinetou. – Eu me esqueço do seu ideal de vida.

– Você morre de inveja, não é, Nei? Mesmo sendo mulher, eu sou muito mais pegadora que você. Que coisa, não? Perdeu pra mim.

Os três tinham ido provocar Eulálio. Nei teve um descontrole repentino. Suzana o fez desviar o foco para ela. No entanto, ele ia conseguir atiçar também o primo bastardo:

– Eu alio quantidade e qualidade. Você está a fim apenas de números e, por isso, se rebaixa. Sabe a verdade? Eu tenho nojo de ter ficado com você, de ter ido para cama contigo! – Nei esbravejou.

– Eu é que devia ficar envergonhada. Você é péssimo, um animal bruto.

Aquela revelação foi chocante para Eulálio, Camila e Bianca. Tinha mais:

– Você está tão acostumada que nem aprecia o que é bom. – vangloriou-se, de braços abertos. – Fico pensando qual é a nota que você deu ao babaca do bastardo.

– Eu nunca fiquei com Eulálio! – Suzana defendeu-se.

– Nunca? Ah, por ele ser gay! Está explicado. Sempre achei que ele fosse um viadinho. – Bianca apertou mais forte o braço do primo. – Esse é o único motivo, pois você me pegou e pegou o Nando. Você gosta de pessoas da família, estou sacando agora. Aposto que você pegou o tio Cristóvão também. – Suzana ficou nervosa. – Só não pegou nossos pais por serem mais velhos, certo? Ah, e não pegou o Sandro só porque ele é seu irmão.

Bianca não se controlou. Deu um salto e se colocou cara a cara com o irmão:

– Nei! Cala a boca! Você é um escroto. Que indelicadeza, seu ridículo. Sai daqui.

Sem ter medido a força, Bianca deu um empurrão em Nei, que inesperadamente perdeu o equilíbrio. Ele tentou se segurar no irmão, mas ambos foram parar dentro d’água. Enfurecidos, xingavam a irmã. Assustada, ela saiu correndo para dentro da festa. Nesse ínterim, Camila e Sandro riam, enquanto Eulálio encarava Suzana:

– Você nunca… me quis? Eu nunca fiz seu estilo… Por quê? O que tenho eu de errado?

– Eulálio, eu não sei explicar isso.

Insatisfeito, ele também se refugiou na festa. Os irmãos molhados pediram que Sandro fosse dar um jeito, que ele buscasse uma toalha:

– Por eles, você faz tudo, dá tudo. – Suzana disse, fazendo-o parar. – Eu sou sua irmã e nunca percebi qualquer carinho ou ajuda sua. Nessa confusão toda, o que me entristece é que você não me defendeu. Você aceitou o julgamento deles. Você concordou. Logo, você, que é meu irmão. Não esperava… Nós somos dois estranhos, Sandro.

Ela se levantou e tomou o caminho do estacionamento. Camila a acompanhou:

– Eu vou embora. – Suzana anunciou.

– Eu nunca quis vir pra cá. Quero ir embora também dessa festa chata. Não estou a fim de comemorar nada.

Dirigindo velozmente, Suzana não queria comentar nada:

– Eu não tenho irmão. Não sei como você se sente. Mas… Você pode compensar. Comigo, com o Lio, com a Bianca. Nós podemos ser seus irmãos.

Suzana olhou a prima. Os quatro primos conseguiriam firmar laços fraternais entre si?

REVELAÇÃO – Camila

– Professor, dá licença? A aluna Camila Bersani pode me acompanhar até a coordenação?

Ela olhou para o material, para o quadro e para o professor, antes de focar a funcionária. Todas as atenções se viraram sobre ela. Arriada, deu um salto na cadeira e se dispôs a caminhar junto da mensageira.

Passando pelos corredores, Camila não compreendia aquele pedido da coordenação. Não tinha qualquer pendência, nem tinha se submetido a algum problema. Ou teria? Esquematizou uma pergunta de sondagem, mas rapidamente chegaram à pequena sala de destino.

Assim que a porta foi batida, ela se espantou. Além do coordenador, dois professores, um homem e uma mulher, de períodos avançados estavam presentes. Todos se cumprimentaram, só depois ela se sentou:

– Camila, é um assunto delicado. Porém, não podemos evitá-lo. Você conhece o professor André?

Ela ficou arrepiada. Temeu com a dúvida se eles perceberam ou não sua reação. A mão da direita, da razão, agarrou a da esquerda, da emoção. Camila mordeu os lábios. Apenas balançou a cabeça, assentindo. Não olhou para os outros dois professores, apesar de sentir a vibração gélida deles:

– Não sei se você soube, mas há algum tempo, houve suspeitas de que ele teve um envolvimento com uma aluna. Ela era orientanda dele. Ao que parece, foi um mal entendido. Eles se afastaram e nada além se sucedeu.

O coordenador fez uma pausa. Recostou-se na cadeira, mas mantendo as mãos apoiadas na mesa. Claramente, Camila se sentia numa emboscada, arrastada contra uma quina, sem poder sair. Resolveu que falaria o mínimo possível. Tudo poderia ser usado contra ela, ou melhor, contra André:

– Isso é sério, muito sério. Não toleramos envolvimentos inapropriados entre alunos e professores, sejam eles de qualquer tipo. O caso fica mais complicado por que o professor André ainda é novo na casa, está em estágio probatório.

Camila queria fingir um desmaio. Ou torceu para que André rompesse na sala e pusesse fim àquele tribunal, como se realizasse um resgate. Embora tenha brincado com o fogo, ela não estava preparada para as consequências:

– Chegou ao nosso conhecimento algo em relação a você. Nós a chamamos aqui a título de verificação apenas. Não queremos prejudicá-la, só ouvi-la. Quanto antes resolvermos isso, melhor.

Com uma coragem nascida do pavor, ela encarou um professor de cada vez:

– Os senhores poderiam ser mais diretos? O que estão buscando?

Um silêncio se instalou entre todos por um período:

– Você teve um caso afetivo com o professor André? – a professora tomou a dianteira.

Camila respirou fundo. Cruzou os braços no peito.  Tinha de ser sincera:

– Não. Não tive um caso amoroso com ele. – Não era uma mentira. Foram alguns momentos casuais.

– O professor André deu em cima de você? – o coordenador tomou as rédeas novamente.

– Não. – Rapidamente, com prazer, ela se recordou da primeira vez que ficaram. Ele não era André, ela não era Camila. Tornaram-se Anderson e Carol, totalmente diferentes e à parte da realidade:

– Vocês tiveram qualquer aproximação sexual ou intencional?

– Sim, tivemos.

O trio ficou assustado novamente. As duas respostas anteriores acalmaram. Contudo, houve um desvio significativo de volta à seriedade:

– Como foi isso? – a professora disse de maneira delicada.

– Eu preciso comentar algo tão pessoal? – Camila teve medo.

– É necessário! – o outro docente disse suas primeiras palavras.

– Algumas vezes, eu permiti um contato. Eu deixei entender que gostaria de ter algo a mais com ele.

– Você? Foi você quem tentou ter um caso com o André? – a professora queria elucidação.

– Foi. Digo por mim, pelo que senti e pelo que fiz. Eu demonstrei ter uma atração por ele. – Aquilo era outra verdade. Do tipo parcial, digamos assim.

– Por quê? Ou melhor, o que motivou você a isso?

Camila percebeu que não conseguiria ser tão efêmera e rasa na totalidade. Se as perguntas se prolongassem, teria de mentir ou seria obrigada a contar toda a verdade. Ela olhou para os próprios pés. Respirou fundo. Daria um último golpe. Pela primeira vez, entendia o significado de sacrifício: pelo bem do outro, aceitava um prejuízo a si mesma. Esse ônus valia por poupar alguém que merecia:

– Eu amo o professor André. Há muito tempo, amo ele. É errado e proibido, mas não resisti. Eu quero ele, desejo-o. Mas não podemos ficar juntos. Sei disso, sempre soube. Só não consegui evitar. Por isso, como não foi possível estarmos juntos, decidi, pelo meu próprio bem, mudar de curso. Semestre que vem, passo para a Antropologia. Já estou com os pedidos de requisição. Peguei na secretaria. Vou me sentir melhor afastada dele que ainda me faz amá-lo com muita intensidade.

Como um zumbi, Camila deixou a coordenação. Caminhou devagar até a sala de aula, entrou, juntou os materiais e saiu do prédio das Ciências Sociais. Afastada, ligou para Eulálio. Pediu que a encontrasse:

– Camila, que cara é essa? – ele a abraçou, ela não respondeu ao contato.

– Eu explico depois. Você me faz um favor? Agora? Se eu for à secretaria e pedir os papéis de mudança de curso, pode ficar muito suspeito. Tem que transparecer que eu já estava intencionada. – ela disse mais para si própria.

– Você pode me explicar o que aconteceu?

– Não agora! Depois! Vá na secretaria e peça os formulários de requisição para mudança de curso. Rápido!

Minutos longos se consumiram até que o primo tivesse voltado:

– Eles tiveram de fazer cópias. – Camila segurou os papéis entregues por Eulálio, como se estivesse em transe. – Você está mudando de curso por causa do André? Você está se prejudicando por causa dele?

Ela permaneceu em silêncio:

– Que raiva! – o primo explodiu. – Tenho um teste agora. Vou chamar Bianca.

Camila só pensava em ir para casa. Foi caminhado lentamente pelos corredores, em direção ao ponto de ônibus. Antes, quando quis André perto, ele não apareceu. Agora, com tudo encerrado, ele surgiu de frente a ela. Estava bem bravo:

– O que você fez?

– Para o seu bem, é melhor não ser visto perto de mim. – Ela tentou se desvencilhar, ele se manteve, bloqueando-a.

– O que você falou?

– A verdade!

– Como? – ele se espantou, alterando o tom de voz. – Eles me inocentaram, sei lá. Terminaram a sindicância sobre meu segundo caso de assédio!

– Eu apenas expus o que aconteceu na minha percepção. – Cada palavra proferida machucava mais a garota.

– Eu preciso saber o que eles perguntaram, o que você respondeu, se…

Camila precisava encerrar o envolvimento. Saiu em disparada, correndo pelos longos corredores. Ele se pôs atrás. Ambos voavam velozmente, desviando-se. Sem rumo, Camila subiu uma escada, caindo num segundo andar. Ficou encurralada num canto escuro. Ela arfava, de medo e paixão, com a aproximação de André. Não queria ser questionada. Doía:

– Por que você fez isso? Por que me inocentou? – eles ficaram cara a cara.

– Não é óbvio?

– Você não precisava. – André estava enfurecido.

– Eu tinha de te proteger! Não podia deixar que te prejudicassem.

– Você não devia! Por que você mentiu?

– Eu disse a verdade! – Ela gritou. Aquela constatação foi o pior choque. – Você não entendeu ainda? – Camila segurou o choro. – Eu não menti em momento algum. Só disse a verdade. Sim, eu desejo você. Sim, eu me aproximei de você diversas vezes. Sim, eu quero trocar de curso. Sim, eu amo você.

André avançou mais. Camila recuou e virou o rosto. Assim que ele esticou o braço para tocá-la, ela o empurrou:

– Acabou, André. É o nosso fim. Me deixa!

Ela andou mais rápido a princípio, depois correu. Escondeu-se no ponto, desejando por um ônibus. Também ansiava para que André não aparecesse:

– Camila? Onde você estava? – Bianca sentou-se ao seu lado.

– Me leva para casa? Eu só quero meu quarto. – pediu.

As primas se abraçaram. Durante o trajeto todo, ficaram juntas. Camila estava entorpecida, enquanto Bianca se segurava para não afobá-la com perguntas. Quando chegaram em casa, Camila soltou o choro, amparada pela prima. Nas histórias, não se comentava a dor interna daqueles que se sacrificavam. Sobressaiam os atos. Os sentimentos pesados e pesarosos eram omitidos. Talvez por serem demasiadamente sufocantes.

REVELAÇÃO – Bianca

Num domingo produtivo, deitada na cama, com os pés para o alto na cabeceira, Bianca começava a ler ‘Orgulho e Preconceito’. Experimentava uma felicidade tranquila, embora tudo estivesse prestes a ruir. Na parte da manhã, tinha terminado ‘As Vantagens de Ser Invisível’; à tarde, estudou Direito Civil e agora se permitia ter outro momento literário.

Sem perceber, seu irmão Nei abriu a porta e ficou recostado no batente por alguns instantes. Assim que notou a presença, Bianca deu um salto, colocando-se sentada, na cama. Ele sempre colocava medo. Com os braços cruzados e o olhar frio, só piorava a percepção:

– Vida boa. – ele comentou.

– Quer alguma coisa? – Bianca pensou em expulsá-lo, mas se o agredisse, poderia ser bem pior.

– Só estou reparando em você. Como você mudou.

Incomodada, a garota recuou um pouco, com as mãos atrás:

– Tem tempo que não nos encontramos… – ele deixou no ar.

– É. – Bianca já sofria por dentro.

– Você não faz ideia, não é? – ele riu rapidamente, na certa debochando. – Descobri. Sei do seu segredo.

Bianca arregalou os olhos. Ficou petrificada. Júnior deveria ter contado ao irmão sobre a intimidade dela. Era uma tragédia anunciada, apesar do anseio fervoroso para que fosse evitado de algum jeito:

– Não tenho nada a esconder. – ela tentou ser indiferente.

– Não?! Eu teria de vergonha de ser como você é tão estranha, tão complicada.

– Bianca, o pai está querendo falar com você. – Nando apareceu ao lado do irmão. – Ele espera que todos nós fossemos para a sala.

Bianca esperou um pouco, para se recompor. Nei era muito pérfido. Ele aproveitaria o pior momento para puni-la. Se pudesse, fugiria pela janela. Era infantilidade, mas o medo revela qualquer tipo de saída.

Ao encontrar os familiares reunidos, ela se assustou com a presença da avó. Lina estava no meio dos dois irmãos, abraçando-os como se fossem pintinhos debaixo de asas. Seus pais, Israel e Patrícia, conversavam num volume mais baixo. Embora estivesse na própria casa, sentia-se uma intrusa, não sabia onde se sentar:

– Você não vai crescer mais. – Nei soltou.

– Na cadeira, filha. – Israel apontou para o móvel solitário, que a deixava como se fosse a cabeça do encontro, já que os pais estavam de frente para a avó e os irmãos.

O silêncio era reinante. Bianca avaliou cada um dos presentes. Nei estava excitado; Nando, impassível; Lina, vibrante; Israel, contrariado; Patrícia, encurralada. Vontades conflitantes cruzaram a mente dela. Queria perguntar, ao mesmo tempo em que só ansiava por ficar calada:

– Como… – O pai pigarreou. – Como estão os estudos? Bem?

Bianca balançou a cabeça afirmativamente. Aonde eles queriam chegar? Mais uma vez, ela desejou pedir que adiantassem o assunto, na mesma intensidade em que gostaria que algo surpreendente ocorresse e dispersasse o grupo:

– Está se preparando? Estudando para concursos como sempre? – Israel se manteve no mesmo tema.

– Claro. Não paro de pensar no futuro.

– Isso está muito claro! – Nei debochou.

– Eu falo! – O pai foi rígido. – Você tem ficado à tarde fazendo o quê?

Mesmo somente com perguntas sobre o futuro acadêmico, Bianca, em momento algum, suspeitou sobre o motivo daquela reunião. Ela estava com Junior na cabeça, impedida de conjeturar a verdadeira descoberta:

– Estudando. – ela respondeu bem baixo.

– O quê? – o pai perquiriu.

– Israel, por favor, seja mais direto. Isso está muito… – Lina buscava uma palavra.

– Chato? Enrolado? – Nei ajudou.

– Você vai ter coragem ou não? – a matriarca indagou seriamente.

Os três netos se assustaram com a ameaça, com o ar inquisitório emanado de maneira direta e explícita. Israel não se moveu. Lina se levantou. Abriu a bolsa e tirou um maço de notas. Foi até Bianca. Jogou o dinheiro em cima dela. A garota segurou-se firme nos braços da cadeira. Não compreendia:

– Você fez por dinheiro? Seu afronte à nossa empresa foi por causa de grana? Aqui está! Ou está faltando algo? – A avó não gritava, mas falava bem forte.

– Eu não compreendo. – Bianca praticamente se desculpava.

Patrícia deu um cutucão no marido. Ele estava tão chocado como qualquer um:

– Onde você estava com a cabeça, Bianca? – Israel se levantou, mas ficou atrás da mãe. – A firma onde você faz estágio já moveu vários processos contra os Bersani’s.

– Pensou que nunca iríamos descobrir? – Nando perguntou, apontando para si e para o irmão comparsa.

Mais uma pancada no íntimo da garota. Ela, então, havia sido ingênua? Sua contratação pelo doutor Armando teria sido intencional? A falta de experiência indicava isso:

– Eles nunca falaram nada, nunca comentaram. – Disse mais a si mesma, sem encarar os familiares.

– Pelo amor de Deus! Eles vão te usar. O seu estágio é uma peça de ataque a nós. Você se deixou seduzir como uma…

– Boba? Otária? Idiota? – Nei completou, com prazer, a avó.

Todos os olhares se voltaram para ele. Enquanto isso, Bianca se levantou e foi para trás da cadeira. Ela se posicionou de costas para todos. Sentia-se encurralada, desvalorizada, desacreditada:

– Você sabe o que vai ter que fazer. – Lina afirmou. Bianca gelou ao sentir o sopro de palavras em sua nuca. – Nunca mais voltar lá, acabar com esse estágio. Aceitar a viagem de seus pais como desculpa.

– Nunca! – Bianca se virou rápido e enfrentou todos. – De jeito nenhum! – Ela estava tomada por uma força descontrolada.

– O quê? Você está afirmando que não vai sair? Que vai ficar como está? Minha vontade é de te dar um tapa para te acordar.

– Dá, então! – ela enfrentou. – Mas eu não deixo o meu estágio. Estou no Direito de Família. As ações contra vocês devem ser empresariais. Não vou me meter nesse assunto. Dá para separar totalmente.

– Só se for em seu mundo de sonhos. – Nei interpôs.

Bianca resolver sair em retirada. Se ninguém ia defendê-la, preferia ficar sozinha. Lina agarrou-a pelo braço e a sacudiu. Todos se retesaram. Ninguém se mexeu:

– Resolveu ser criança de novo? Fazer birra? Você vai ter que honrar nossa família, me respeitar. – A matriarca dizia e aumentava a intensidade como apertava o braço da neta, que não sentia nada.

– Eu devo ter respeito? Baseado em quê? Você nunca me respeitou. Você sempre me odiou. Acho ótimo estar num lugar onde você não submete seu poder. – Bianca processou todos os argumentos. – Me arrependo de não ter feito isso antes. Fiquei perto demais de vocês e me intoxiquei. Não quero precisar daquilo que vocês querem me obrigar. Vou chegar aonde bem quiser, do meu jeito, sem qualquer interferência.

– Você não me conhece. Eu vou fazer você sair de lá. – A avó soava certeira.

– Vou esperar. Trabalhando. Aprendendo. Ganhando meu próprio dinheiro.

As duas se encararam. Se enfrentaram. Se odiaram. Lina soltou-a:

– Eu vou com vocês na viagem de férias. Vamos nos divertir muito, meus netos. Tomarei o lugar dessa desalmada. Nós não vamos para o Chile. Iremos à América do Norte. Acho o Canadá lindo. Eu vou providenciar…

Bianca abstraiu às palavras de despeito de sua avó, já que seu maior sonho era ir aos Estados Unidos.

A descoberta de seu estágio secreto fora bem pior do que imaginava. Antes de fechar a porta do quarto, o pai apareceu em frente a ela:

– Por mim. Por mim, eu peço. Deixe esse escritório.

– Em troca de quê? O que eu vou fazer? Por incrível que pareça, eu despertei, me encontrei. Eu me fiz ser reconhecida, vista, notada. Se vocês tivessem me enxergado e me levado em consideração, talvez eu estivesse em outro caminho. Só o que querem é me arranjar um casamento. Agora que comecei a ser independente, não quero mais parar. Passei a amar o campo de família.

– Direito de Família? Pensava que você sonhava em ser juíza. Não quer ser funcionária pública?

– Mudei. Olha que inusitado! Talvez eu possa fazer mudanças nas famílias dos outros, porque não posso fazer na minha.

Israel não podia rebater. Ninguém obteve sucesso tentando controlar os Bersani’s. No entanto, ele viu uma fagulha dentro da filha. Seria um pecado apagá-la, apesar de os dois saberem que as próprias situações atávicas se mantinham firmes e persistentes.

De repente, Bianca começou a chorar naturalmente:

– Por que as coisas têm que ser assim?

Israel abraçou a filha e beijou o topo de sua cabeça:

– Você, como futura advogada, sabe melhor que eu. Tem que se seguir as formas e os jeitos de se proceder. Uma vez ou outra, conseguimos ludibriar o caminho que foi traçado sem termos ciência dele.

Israel também chorou, porém em silêncio, pois queria confortar a filha. Não precisaram dizer mais nada.

VALORIZAÇÃO – Camila

Ele tinha percebido que ela estava de más intenções. A roupa estava mais vistosa, bem provocante. A blusa era mais decotada, de várias cores, puxando para o vermelho. Camila tinha escovado o cabelo, exagerado no perfume e se valido da calça mais apertada, a fim de arrebitar a bunda. De qualquer jeito, iria seduzi-lo. Trazê-lo definitivamente para seus braços era a meta.

Enquanto organizava a agenda da semana que vem, ela se questionou se havia exagerado, tanto no visual, quanto na postura. Não era seu feitio se jogar em cima de alguém. Pensou em Suzana. A prima tinha conseguido influenciá-la? Não tinha esse costume ousado. Contudo, desde o fiasco com André, a busca por alguém a ocupar-lhe o coração tinha se tornado desesperadora.

Alguém consegue tomar o lugar cujo dono ainda se mantém presente? Como alcançar e usufruir a posse, se o titular continuava estabelecido? Camila tinha uma meta: achar alguém que tirasse, à força, seu desejo pelo professor. Servia qualquer indivíduo, menos mulheres. Ela gostava pra caramba de homens.

Ao escutar a campainha, demorou a acreditar no que via. Suzana estava do outro lado do vidro, acenando:

– O que você está fazendo aqui, mulher? – Camila questionou a prima. – Eu estava pensando em você.

– Por quê?

– Eu estava… querendo saber… – Camila se embolou pela vergonha. – Uma ajuda, você poderia me… me dar uma mão, quer dizer, um conselho. Mas e você? Está perdida?

– Vim pegar um projeto e passei para te ver. Rola um lanche? Aqui embaixo? Posso te ajudar.

– Bem rapidinho? – Camila determinou.

Assim que avisou Leo e fechou a porta, Suzana parou a prima e a olhou de cima a baixo:

– Você vai aonde com esse visual?

– Eu estou programada para aprontar hoje. – Camila anunciou, adentrando no elevador.

– Que delícia! Posso ir junto?

– Claro que não! Eu vou laçar uma pessoa.

– Menina, o que deu em você? Está totalmente se jogando. Adorei. Posso saber de quem estamos falando?

– Do meu chefe, o Leo!

– Exatamente o que você vai fazer com ele? – Suzana fez uma cara de espanto e de negação.

– Vou jogar um charme antes de irmos embora. Tenho certeza de que vou ficar com ele naquele consultório, hoje à noite.

– Camila, não faça isso. Eu te peço.

– Por ele ser meu chefe? Olha quem fala! Não é você que é doida para dar para o Igor dentro de uma sala de trabalho?

Suzana ficou desarmada. Camila sentiu-se superior. Era muita hipocrisia:

– Eu só falo pelo seu bem. Eu sei dessas coisas. Nada de interessante vai vir, ainda mais com o Leo.

– Você não conhece ele! Meu chefe é ótimo. – Camila saiu do elevador batendo os pés com força.

Até chegarem à lanchonete e fazerem seus pedidos, permaneceram em silêncio. Sozinhas, um pouco depois, Suzana retomou o raciocínio:

– Sei que você não quer que eu me intrometa. Sei também que eu deveria ser a última pessoa a lhe dizer isso por tudo o que fiz. Mas eu te peço. Não avance nele. Nada vai acontecer e você vai ser arrepender.

– Por acaso, você já ficou com ele para saber? Como você pode dizer isso se não sabe quem ele é?

– A irresponsabilidade custa caro. Quando envolve sexo, pior fica.

– Suzana, o fato de você ter se envolvido com tantos homens não a faz uma grande entendedora.

– Então, está bem. Só me conte depois!

O resto do lanche entre elas foi frio e superficial. Não estavam com vontade de fofocar, nem contar qualquer novidade.

O passar do dia foi deixando Camila mais agitada. Não sabia se conseguiria ser capaz. Com a mão segurando o queixo, pensando como agarraria Leonardo, percebeu metade de seu reflexo na tela do computador. Não se reconhecia de verdade. Ajeitou a sobrancelha, fisgou o próprio olhar.

Refletiu sobre os rumos da vida. Mudamos muito rápido. Deixamos de desejar, desejamos o impensável. Podíamos ser mais estáticos e determinados. Não somos parecidos com os insetos, mas constantemente mudamos nossa carapaça. A diferença é que nosso processo ocorria internamente:

– Nem creio que o dia acabou! – Leo surgiu na sala, jogando-se no sofá e esticando as pernas. Camila tomou um susto. – Minha última paciente acabou de me ligar no celular para desmarcar.

Ele deu um sorrisinho. Camila respondeu da mesma maneira. Ela não teria coragem de agarrá-lo no ambiente de trabalho. Definitivamente precisaria de um drinque antes:

– Leo, eu estou meio livre agora. Quer tomar algo?

– Ótima ideia! – ele se levantou num pulo e deixou a sala de espera. Ela achou que ele fosse buscar as suas coisas. Começou a fechar os programas do computador.

Sem entender, Camila se surpreendeu mais uma vez com o chefe parado na soleira segurando uma garrafa de vinho tinto:

– Você se importa de tomar em copos?

– Nem um pouco. – ela respondeu desacreditada.

Os dois ficaram no sofá, bebendo e debatendo trivialidades. Ele contou passagens da faculdade, Camila revelou suas dúvidas. Cada vez mais se aproximavam, porém, como ela descobriria minutos depois, por motivos diferentes. A garota achava que Leo estava caído por ela, que o tinha conquistado.

Durante uma risada dele, ela se inclinou, apoiando a mão direita no ombro dele. Com a outra, puxou a cabeça do dentista e tentou beijá-lo. Os lábios se recostaram:

– O que você está fazendo? – Leonardo gritou, em pé. Transparecia estar enfurecido.

– Eu… achei que a gente… podia se aproveitar, ou melhor, aproveitar mais.

– Por que, Camila? Mesmo sendo seu chefe, nunca lhe dei liberdade para tanto.

– E agora? Toda essa conversa mole? O vinho? A aproximação? Medo de assédio sexual? – Camila queria diminuir a própria culpa.

– Você entendeu errado. Somos amigos.

– Entendi. Você é igual todo mundo, é uma outra versão do André! – Ela estava alterada. Deixou a emoção fluir. – Só muda a profissão. Os dois têm medo das pessoas, não é? Do que as pessoas vão dizer, quando souberem que um namora uma aluna, enquanto o outro fica com a secretária! Vocês são receosos com a reputação, não é esse o motivo?

– Claro que não! – Leonardo olhava para ela estupefato.

– Então é por minha causa, pelo meu corpo feio e grande? Vocês sabem que sou bonita, só não sigo um padrão de beleza magro! Por isso, me renegam.

Leonardo continuava pasmado. Ele voltou a se sentar. Antes que Camila caísse no choro, pegou o rosto dela e disse:

– Não é por isso. Eu sou gay.

Automaticamente, Camila colocou as mãos na boca de susto:

– Me desculpe. – disse ainda com os lábios tapados.

– Eu deveria ter falado antes. Eu até que queria, mas a gente não estava tão próximo assim. Como as coisas se misturaram agora, tive de revelar.

– Ai, me desculpa. – Camila estava morta de vergonha. Ela abraçou as coxas, enterrando a cabeça nas pernas:

– Deixa disso, não se martirize!

– Eu sou uma besta. Nunca poderia imaginar que você fosse gay. Cheguei até a me arrumar especialmente para te seduzir.

Eles se olharam por dois segundos e explodiram de rir. Riram muito. Se abraçaram para selar aquela amizade já concebida:

– Deixa eu te falar uma coisa. – Leo soou o mais honesto. – Ainda não sei o que aconteceu com esse André, mas nenhum homem pode ditar quem você é, o que deseja, o que sonha. Qualquer relacionamento tem de ser… complementador, não norteador. Não quero que você se duvide, ou se desacredite por causa de um cara. Eles não merecem tanto holofote. – ele brincou.

– Posso? – Camila fez biquinho.

– Esse beijo pode!

Camila deu um estalo no rosto dele:

– E vamos continuar a beber em outro bar! – Leo convidou. – Quero saber desse André, vou te contar minha recente separação dramática. Só tem uma coisa: é um bar aonde só vão gays, então, estou pensando só em mim.

– Quem disse que não posso recuperar um homossexual? – ela brincou.

– Convencida! Quem dera pudéssemos mudar as pessoas… Mas boa sorte! Pelo preconceito da minha família, eu seria o primeiro a mudar de time com sua fórmula.

Rindo juntos, fecharam o consultório e foram se descobrir. Apesar de cedo para uma constatação e estar um pouco alterada, Camila percebeu que tinha perdido um potencial namorado, contudo, havia ganhado um amigo mais que especial.

VALORIZAÇÃO – Suzana

Depois de umas dez ligações não atendidas, Suzana foi vencida pelo cansaço:

– Ei.

– Ah, até que enfim. – Igor soava mais preocupado do que bravo. – Pensei que você tinha sumido, desaparecido, se mudado.

– É o fim do período, está bem corrido.

– Imagino… Você vai ficar ausente também amanhã e depois?

– Sim, pedi dispensa no resto da semana por causa das provas. Eu me distraí, não estudei como devia.

– Cada vez mais acho que eu posso ter sido causador dos seus problemas. Desculpa.

Suzana não respondeu. Igor permaneceu em silêncio. Ela chegou a olhar o visor do telefone para saber se a ligação não tinha caído:

– Eu quero te ver. Precisamos conversar. – ele pediu.

– Estou muito ocupada, não consigo pensar em mais nada.

– Quando você voltar na semana que vem, estarei em viagem. Podemos nos ver nesse final de semana?

– Não! – Suzana não queria qualquer explicação.

Mais um momento em que permaneceram calados:

– Você está sabendo, não está? – ele estava aflito. Suzana não conseguiu responder. – Virei o assunto da empresa. Só que é tudo mentira. Não estou namorando a alemã. Nós só estamos mais próximos por causa de negócios.

Cortava Suzana escutar os comentários a respeito da aproximação com a empresária da Alemanha, interessada em realizar negócios com a firma. Assim que chegou ao estágio, no início da semana, foi informada da possível atração deles, do flerte e de um desejo praticamente incontrolável. As más línguas diziam que eles saíam todas as noites em encontros românticos. Muitas vezes, afirmava que eles dividiam o mesmo quarto do hotel.

Não tinha nenhum acordo com Igor, no entanto, Suzana se ressentia por não conseguirem lidar com a situação. Ele estava com outra, ela o tinha traído. Agiam de uma forma não condizente com as emoções:

– Ela está totalmente afim de mim, mas eu não tenho vontade de… – Suzana manteve-se quieta. Se tivesse falado algo, teria evitado o fato de maior impacto, que ninguém sabia. – Nós ficamos juntos uma noite só. Eu estava alto por causa da bebida. Mas não foi bom, eu só pensava em você, no seu corpo…

– Igor, não! – Suzana suplicou. – Por favor, não. Não vamos fazer isso. Não vamos nos machucar por causa de nossas vidas particulares. Eu também tenho saído, conhecido outros caras. Eu não pensei em você, não penso em você.

Ela se arrependeu de ter dito aquilo. Era uma mentira deslavada. No entanto, era mais uma evidência do quanto Suzana estava desorientada por dentro, ou seja, suas palavras e ações não condiziam com a revolução em seu íntimo.

Mais uma vez, ela confirmou o visor do telefone. Era a vez de Igor não conseguir dizer nada:

– Tenho uma revisão importante agora. Nós nos falamos depois. Boa viagem.

Sem esperar pelo cumprimento, desligou e adentrou na sala. Para não sofrer na divagação, concentrou-se na lista de quase 50 exercícios. Conversava pouco com os colegas ao lado, pois precisava inundar a mente com cálculos e equações com o objetivo de esquecer os esquemas e teoremas sentimentais:

– Turma, surgiu um problema no departamento. Vou demorar. Vocês vão se ajudando, enquanto não retorno. – o professor anunciou, antes de sair.

Alguns minutos depois, um estudante da frente perguntou, com voz alta, se ela tinha resolvido as questões de número 13, 29 e 37. Ela assentiu, enquanto o resto da sala se espantava:

– Por quê? – ela não entendeu.

– São as mais difíceis. Nem os nerds da turma chegaram a um resultado. – o garoto disse.

– Se quiser, eu te mostro.

– Não. Vá lá na frente e mostre a todos. Salve a turma de mais um pau na Engenharia.

Percebendo os olhares de súplica, Suzana levantou-se e vestiu a carapuça de professora. Aliás, nem foi tão difícil, fluiu para ela a posição de mestre. Não só fez os três mais difíceis, como resolveu outros que apareceram.

Ninguém notou, no entanto, quando o professor tinha retornado e permanecido no fundo da sala, observando. Suzana ficou ruborizada ao perceber a presença do mestre:

– Professor, eu… empolguei. – ela falou.

– Se eu soubesse que estava bem substituído, não teria corrido. – Suzana riu de soslaio com o elogio e retornou ao próprio lugar.

Mesmo não sendo chamado, o docente, momentos depois, sentou-se ao lado dela:

– Nunca poderia imaginar como você explica bem, de maneira calma e precisa.

A princípio, Suzana pensou que ele estava flertando com ela:

– Já pensou em ser monitora? Você tem um tremendo potencial.

– Não! Eu gosto de prática, de fazer. Não me vejo dando aulas. – essa era uma resposta antiga.

– Você deveria pensar nisso. Seria muito bom ter você como minha monitora no próximo semestre. Faça a seleção. Pelo que vi, você vai se sair muito bem.

– Tenho de focar no que quero. A área acadêmica não me atrai.

– Não desperdice um talento. Pense, durante as férias, em diversificar enquanto pode. Se você conseguir conciliar a teoria e a prática, será uma profissional exemplar.

– Nunca pensei em me manter na Universidade.  Fico doida pra sair logo daqui. – Suzana se abriu com ele.

– Se você não se acomodar em nenhum dos dois, tem tudo para atingir a notoriedade. É um aumento no status ser uma professora e engenheira renomada. Na monitoria, você também vai se envolver em pesquisa. Seu currículo vai ganhar peso.

A caminho de casa, Suzana pensou em como se sairia na função de monitora. Que inusitado! A ideia não a deixava transtornada, era até plausível. Ela não poderia prever que talvez um estágio de docência fosse a única saída viável para a futura falta de perspectiva. Sem se controlar, imaginou-se como companheira de Igor. Mudaria a forma de ser vista na firma? E sua família, de que maneira reagiria?

Afastou os questionamentos, uma vez que só importava a própria opinião. A valorização e a convalidação devem ser internas, partir de dentro de si, propensas a manter a pacificação interior. O aval das outras pessoas é somente um plus, apesar de, nem sempre, ser possível se portar desse jeito.

VALORIZAÇÃO – Bianca

Três palavras, por incrível que pareça, proferidas sem maldade por Nei, tiveram um impacto fulminante na cabeça de Bianca:

– Júnior vai voltar. – o irmão anunciara, enquanto chegavam em casa para o almoço.

Já era um dia totalmente atípico. Para começar, tinha tido outra briga com o pai, no café da manhã, por causa da viagem. Ele queria entender a recusa dela, enquanto a filha se esquivava. Depois, na faculdade, descobriu ter tirado uma nota boa na prova de Processo, apesar de não ter estudado nada. Parecia que sua mente tinha vida própria. Realmente sua cabeça iria se mostrar extremamente fervilhante e sem controle, ao trazer a tona os piores momentos da vida da garota.

Para fechar, assim que chegara ao estágio, recebera um convite. Aceitara no supetão, pois já estava desequilibrada emocionalmente. No decorrer da tarde, ao notar as possíveis intenções da chamada, antes que enlouquecesse, decidiu que se havia alguém imparcial pra uma opinião num momento de tremenda dúvida, Camila era a escolha mais acertada:

– Prima, é Bianca!

– Por que você está sussurrando?

– Porque estou tensa, mais do que o normal. Não sei o que fazer. Meu chefe acaba de me convidar para um happy hour. Achei que era um encontro geral com todos, mas acabei de descobrir que é exclusivo. Só seremos nós dois. E tem outro detalhe: ele não costuma chamar estagiários para beber.

– Qual é o seu medo? Você acha que ele pode assediar? – Camila estava intrigada.

– Não sei. Não consigo imaginar se ele seria capaz de um golpe baixo. Eu gosto do senhor Armando, porque ele me trata bem, confia no que faço. Só que ele é casado. Mas eu não quero ser indelicada, desistindo do contato dele. Eu aprendo bastante o vendo em prática. Por favor, me diga o que fazer.

– Realmente o painel é complicado. Eu não faço ideia.

– Me ajude, Camila. Não liguei para o Lio, porque ele ia dizer que é assédio e que eu deveria sair fora. Não liguei para Suzana, porque ela ia achar o máximo e mandar eu ir cair nos braços do meu chefe. Só você pode me salvar.

– Bianca, a questão é que você não sabe de nada ainda. Só vai saber se entrar em campo e sondar o que está pegando. Então, saia com o chefe e veja as intenções dele. Quanto mais cedo fizer isso, melhor. Antes tarde do que quando as coisas estiverem com mais envolvimento. Me entende?

Horas mais tarde, Bianca esperava no saguão pela chegada do chefe. Tremia de nervoso. Era uma situação inesperada. Desde Júnior, não se via mais como uma mulher desejada. Acreditava não ter qualquer sex appeal. Ou será que ela o cativara com a personalidade? Isso poderia ser bom, pois beleza, de fato, era algo passageiro.

Ao se sentar no sofá, ela se sentia envergonhada pela situação. Poderia virar fofoca entre os advogados. Seria um tremendo escândalo. Arrepiou friamente por se lembrar da crise evitada há quase dois anos. Por sorte, Júnior nunca revelou a verdade sobre ela. Cansada de tanto sentir medo e terror, não acreditou ao descobrir que ele resolvera morar no exterior. Desde então, o segredo estava guardado e selado, até a notícia de Nei abalar as estruturas internas da irmã.

Afinal, por que fora tão afoita com o Júnior? Ele fora o primeiro homem que desejou, o segundo a levá-la para a cama. Por sua culpa, deixou-o desgostoso e criou para si um estigma terrível.

Era ela realmente responsável? Era um problema interno, por isso, deveria ter sido testada. No entanto, não quis descobrir ser era físico ou psicológico. No início, à noite, antes de dormir, se questionava sobre a razão daquele entrave. Nunca teve coragem de contar a ninguém. Chorou, imensas vezes, sozinha, até que abstraiu, já que não parecia ter solução. Mesmo com tanta variedade e oportunidades ao redor, ela optara por se fechar. Alguns problemas travados tendem a ficar sem solução. Em relação à sua vida amorosa, Bianca nunca conseguiu mudar essa percepção:

– Que cara aflita! Algum problema? – Armando aparecera em frente a ela.

– Nada não. – respondeu no susto.

Dentro do elevador, ambos estavam sem graças com a proximidade e a falta de assunto. E se Armando a agarrasse naquele espaço fechado? Começou a apertar a mão de tanto nervoso. No estacionamento, houve outro indício: ele foi um cavalheiro, abrindo a porta para ela. Bianca tinha um defeito. Ela se iludia muito com o exterior.

No bar, só piorou. Eles se sentaram na mesa mais afastada, num canto escuro e reservado. Era tarde demais. Como dar a Armando uma desculpa para fugir desse típico encontro de amor?

– Você está quieta e apreensiva. Está nervosa? – por cima da mesa, ele segurou a mão dela. – Eu só quero me aproximar mais de você.

Bianca queria gritar. É lógico que sonhara em encontrar um homem especial que a valorizasse e a respeitasse. Contudo, o envolvimento com Júnior havia sido um desastre. Ele foi um dos motivos para a garota ter se afundado nos estudos, deixando a azaração de lado. Pela forma como sofreu, passara a ter um receio paralisador. Estava fechada no quesito amor por causa de seu defeito:

– Por quê? – ela teve de sondar.

– Eu gosto de você.

Bianca soltou um suspiro assustado. Não podia ser real, não devia ter acontecido, não conseguiria mais olhar para ele:

– Não desse jeito, Bianca. Eu sou casado, muito bem casado e feliz. Desculpe se atormentei você com essa suspeita. Nada disso! Bem, se eu fosse solteiro e da sua idade, com certeza, investiria em você.

Ela não acreditava no que ouvira. Piscou várias vezes. Ele não a queria, mas a estava cantando? Estava satisfeito no casamento, mas revelara o quanto a admirava e a desejava? Não teve como evitar uma memória antiga de Júnior, esquecida há muito: “Eu tenho vergonha de ter me relacionado contigo. Tentei diversas vezes, mas me desculpe por mentir e te iludir. Não consigo, de jeito nenhum. Bem, se eu não tivesse tido outras mulheres, quem sabe, poderia aceitar sua falha. Por que você não procura ajuda, você é com certeza uma mulher…”

– Bianca! Bianca! – Armando a trouxe de volta à realidade. – Você está totalmente dispersa.

– Realmente. Você me dá um momento? Vou ao toalete passar uma água no rosto.

Recostada na pia, ela estremecia num ritmo acelerado. Por que estava se lembrando daquilo? Precisava superar, embora nunca tenha tentado. Desde que Júnior fora embora, não tinha ido para cama com ninguém mais. Teria tido a sorte de o problema ter desaparecido por conta própria?

Olhando-se no espelho, sentiu vergonha. Ninguém sabia, porque não conseguiria aceitar o julgamento dos outros. Fechou os olhos e relembrou mais uma passagem do ex-ficante, dentro do banheiro da casa da avó: “Você está bêbada e tentando me seduzir. Para! Eu não quero. De jeito nenhum, vou fazer sexo com você de novo. Me recuso! Você é muito ruim de cama, nas vezes que fizemos, foi tudo terrível. Na minha opinião, você é frígida! Isso sim!”

Jogando mais água no rosto, respirou fundo para esquecer aquilo. Estava enlouquecendo. Tinha de ir para casa imediatamente.

Chegando à mesa, não compreendeu o que via. No lugar do chefe, estava um jovem sentado. Assim que ela se aproximou, ele se levantou sorridente e a cumprimentou com um aperto de mão:

– Você é a famosa Bianca? Sou o Carlos Armando, filho do seu chefe. Meu pai fala demais de você. Ele a admira tanto. Às vezes, mamãe chega a ter ciúmes.

– E onde ele está?

– Ah, não vou mentir. Isso tudo foi uma armação. Ele está dando um jeito de eu me aproximar de você. Quer que nos conhecemos. Ele torce para que você se torne a nora dele.

Era o dia mais estranho da vida dela. Tudo estava descontrolado e fora de órbita:

– Você quer pedir algo para comer?

Ele estava sendo muito simpático e solícito. E se ele passasse a gostar dela? E quisesse ir para cama? Não queria que mais uma pessoa soubesse da sua condição, da sua trava. Preferia ficar sozinha. O maior medo era que Júnior revelasse a alguém e, principalmente a seus irmãos, que ela era uma mulher broxa, entre quatro paredes. Afinal, uma mulher também pode broxar? Existiria essa denominação feminina?

– Carlos, eu esqueci meu… batom no banheiro. Eu vou buscar.

Ela refez o caminho, mas se desviou no momento em que não estava mais à vista. Ela saiu em disparada do local. Era indelicado, mas não conseguia sustentar aquela situação. Qualquer elogio, qualquer estima mostrados pelos homens não conseguiriam derrubar a ótica que ela tem carregado desde o fiasco com Júnior.

Às vezes, há um lado positivo em se ocultar nossos medos e problemas. Bianca não estava preparada para enfrentá-los. Isso era claro. A garota tinha acabado de afundar numa grande tristeza depressiva, com a palavra frígida pulsando em sua mente. Pegou o primeiro ônibus que viu, foi para os fundos e chorou. Sem noção do tempo, deu várias voltas, completando o mesmo itinerário inúmeras vezes.

Ela não tinha noção do quão devastador havia sido permanecer estática e fria no patamar da solidão. Não percebia que dependia dela superar, pois só enxergava a saída por meio da validação positiva de alguém. Ela era mais uma vítima do mundo pós-moderno: não importa a maneira como você se entende, só o coletivo pode gerar valor, quando um grande número de pessoas convalida quem você é.

VALORIZAÇÃO – Eulálio

Passou pela tenda de saúde por algumas vezes. Não teve nenhuma atenção despertada. Ainda não se preocupava com questões de glicose, pressão, exercícios físicos e postura. O corpo novo, sem sinais de problemas, deixava Eulálio focar em outras questões, mais especificamente na trajetória profissional e na vida amorosa. Se fosse outra médica a abordá-lo no passeio, o encontro teria sido antecipado. De qualquer forma, tem muitos fatos que devem acontecer, não importa a força dos subterfúgios.

Por causa da ausência de um professor, teve as duas ultimas aulas canceladas. Ao invés de estudar para os exames finais, ele se permitiu passear pelo comércio central da cidade. Precisava cotar preços de terno. Provavelmente era o traje a ser usado na festa de comemoração ao aniversário das empresas Bersani, evento já em vias de planejamento. No ano anterior, pôde faltar, não tinha tanto tempo de casa. Agora, o painel era diferente. Sobre a farsa no estágio, ele ainda estava tranquilo, pois não poderia prever mudanças na organização que poderiam por tudo a ruir. Mais aflições eram previstas para Eulálio. Uma delas se iniciaria naquela simples manhã de ócio, graças a um impulso incontrolável.

Gostaria que Sheila estivesse com ele na aprovação da cor e do formato da indumentária, considerada típica de sucesso. Como imaginava manter o mesmo corpo e antevia ser alguém notório, optara em pagar um pouco mais por um terno de qualidade. Era um gasto com ares de otimismo.

Depois de duas visitas a estabelecimentos e quatro provas, notou que a namorada só o encontraria uma hora mais tarde, em frente a uma agência de viagens. Ficara impaciente com a espera. Por que Sheila conseguia envolvê-lo e dominá-lo tão facilmente? Afinal, podendo tirar quinze dias de descanso, viajar acompanhado a algum local turístico parecia fadado ao descontentamento. Nas futuras folgas, ansiava pela simplicidade. Fugir do cotidiano era o que ele mais queria. Afastar-se da normalidade por um tempo era um deleite requisitado.

Já que a vida tende a ser antagônica em nossos desejos, uma aproximação mais que esperada fez-se presente, ao passar mais uma vez pela tenda de saúde armada na praça. Sua visão periférica percebeu aquela virada de cabelo. Ele estancou no meio do passeio, girou automaticamente o tronco e procurou por ela. Devagar, foi adentrando para confirmar a certeza: Catarina era uma das alunas que estavam promovendo uma ação social.

Sem graça, deu as costas e pôs se a ler uns banners sobre o funcionamento dos rins. O sentimento era inexplicável. Na verdade, era Catarina quem o domava, que o fazia perder o prumo, que o deixava repensando tudo. Amaldiçoou o momento em que trocaram os primeiros olhares, a força transmitida, a cumplicidade alcançada. Estaria bem mais livre sem ela para assombrá-lo.

Eulálio sabia que deveria fugir daquela tenda, dar as costas para a presença de Catarina. Não ia render nada entre eles, porque não estavam dispostos. Porém, o comando dela tinha forças tremendas. Qualquer migalha que ela oferecesse, ele pegaria com prazer e contentamento:

– Eulálio! Que bom encontrar alguém mais jovem aqui.

Catarina sorria. Eulálio, por alguns segundos de deslumbramento, esqueceu-se de reagir. Ao deixá-la incomodada, partiu para um abraço. O constrangimento só crescia:

– Me desculpe. Tem tanto tempo que não te vejo. – Ele comentou.

– É verdade. Às vezes, eu me pegava imaginando por onde você estava.

Catarina se portava de maneira honesta? Ele deveria ficar contente por permear os pensamentos da amada? Decidiu consentir:

– Também gostaria de descobrir o que você anda fazendo. É uma pena estarmos separados.

Catarina deu um leve arrepio. Eulálio percebeu. Tinha ido longe demais:

– Fiquei reclusa por muito tempo, totalmente desmotivada com a vida. A faculdade apertou, e… Nada emocionante aconteceu. A vida está muito parada.

Ele se sentia da mesma maneira. Apesar de ter uma faculdade, um estágio e uma namorada, vivenciava a sensação de estar incompleto:

– É geral. O mundo está muito corrido, egocêntrico, estranho. Ninguém é mais honesto com os outros.

– Não pensei em ter uma conversa tão existencial logo contigo. – ele rebateu.

De maneira clara, ela ficou contrariada com aquelas palavras. Não gostou. Estava tudo dando errado. Depois daquele encontro, Eulálio percebeu que deveria abandonar Catarina. No entanto, aquele dia era destinado a contrariedades. Mais disposto a ela, o garoto se configuraria:

– Eu vou embora, não quero atrapalhar seu trabalho.

Ele começou a se afastar. Ela pegou-o pelo braço:

– A gente precisa conversar um dia.

As pernas de Eulálio tremiam de leve. Não era do jeito esperado, mas eram as palavras que tanto ambicionou:

– Por quê?

– Meu namoro… não está bem. Fico pensando… Fico criando situações com você em minha cabeça.

Tão próximos, foi incontrolável. Ele, mais uma vez, partiu para beijá-la, sem se importar onde estavam, rodeados por tantas pessoas. Decidida, Catarina largou o braço de Eulálio e se afastou:

– Você só foge! – ele afirmou. – É algum tipo de tática? É sua forma de me possuir? – A garota olhava ao redor, preocupada com algum vexame.

– Eu não terminei meu namoro. Ainda tenho alguém.

– Então, não me diga bobagens.

– Eulálio…

Ele estava enfurecido. Perdeu o controle, se sentia menosprezado. Catarina não tinha direito de brincar com as emoções dele. Marchando para bem longe, a reação foi ao contrário. Mais desejava voltar e fazer uma loucura. Sem saber como proceder, sentou-se numa lanchonete. Pediu um suco que não intentava tomar.

A imprecisão imperou em seus pensamentos. Como proceder? Desejar uma mulher, estando com outra, conduzia a uma carga enorme de descontentamento. A vida nunca é como imaginamos, mas o panorama sentimental dele estava totalmente enviesado. De alguma maneira, necessitava de mais rigor e determinação. Tinha de começar a se tornar um administrador melhor da própria vida. Para isso, precisava ser um líder e ter empreendedorismo, mesmo que isso causasse efeitos colaterais desagradáveis.

Sheila veio pulando na direção dele, no local marcado de encontro. Passou os braços pelo pescoço de Eulálio. Deu-lhe um beijo:

– Estou muita empolgada com nossa primeira viagem. Meu amigo disse que vai nos fazer um preço camarada.

– Sheila, isso não é uma boa ideia.

– Gastar dinheiro a passeio? – Ela não tinha percebido nada.

– Não. Nós dois! Nosso namoro precisa de tempo, de afastamento.

– De jeito nenhum. O que está acontecendo? O que foi? Podemos consertar.

– Não, não posso continuar. Eu não amo você. Nunca amei.

Teve de apelar, teve de jogar duro. Foi uma medida drástica, a fim de recuperar o controle de si mesmo, mas inteiramente necessária. É fazer o errado, esperando que no fim dê certo.

TEMPORÃO – Suzana

Sem noção de nada, transloucada, entregue em outras dimensões, Suzana estava fora de si. Tinha bebido tanto, dançado freneticamente e rodado a cabeça várias vezes que estava quase entrando em colapso. As pessoas até se afastavam dela, com medo de algum golpe de dança e por vergonha também. Ela não percebeu e nem se importaria, pois se sentia solta. O aniversário do tio Cristóvão estava ótimo, Camila estava pegando Maurício, Eulálio tinha sumido com Sheila, e Bianca se divertia na pista, não tão bêbada quanto ela. Para fechar, o aniversariante deixou que ela dormisse no sítio, ao invés de retornar após o término. Assim, Suzana iria aproveitar tudo.

No entanto, ela estava ficando incomodada. O tecladista, o mais bonito da banda, não cedia ao seu charme e sedução. Embora tenha feito sexo a tarde toda com Edgar, ela precisava fechar aquela noite com um cara em seus braços. Sabia que não deveria condicionar sua felicidade ao sucesso com o sexo oposto, mas era incontrolável. A festa só seria um arraso, se tivesse um homem esfregando nela. Suzana ia se arrepender no dia seguinte por ter exaltado e requisitado o sexo, pois ela protagonizaria cenas inapagáveis.

Como uma mente bêbada tende a ficar descontrolada, ela nem notou, quando se pôs a pensar em Igor. Ele poderia surgir na festa naquele momento e a tomar pelos braços. Acabou experimentando uma carência profunda. Isolada, rumou para dentro da casa. Precisava beber uma água e respirar, senão acabaria vomitando em cima de alguém.

Com a cabeça latejando, sentou-se num sofá e repensou sobre seu jeito carnal. Estaria ele fora de controle? Suzana era uma ninfomaníaca sem cura? Realmente o álcool é imprevisível, já que fez a garota questionar sua conduta tão decidida. Ela sempre colocou o prazer em pé de igualdade a outras necessidades, em algumas situações até em superioridade. Não seria a hora de começar a reconfigurar os objetivos e a intensidade de sua vida sexual? Suzana, como qualquer um, tinha medo do preço a ser pago pelos próprios atos:

– Suzana! Me ajuda! – Camila se jogou no sofá, ao lado dela.

– Eu acho que não tenho condição de fazer nada… Me deixa quieta!

– Só você pode me salvar! O Mauricio quer transar comigo e eu…

– Você está a fim de dar? Ótimo! Ainda não enxerguei o entrave. Ixi, falei bonito agora. Não devo estar tão mamada na cachaça assim. – Suzana estava em outro mundo.

– Droga! É melhor eu fugir! Vai ser uma vergonha!

– Prima, é sexo! Não tem nada de difícil ou complicado. Se joga, vai ser feliz. Eu queria ter um homem, qualquer um, me querendo agora.

– Eu também desejo ele, mas tem tanto tempo que não faço sexo. Não me preparei. Estou toda cabeluda, uma floresta enorme. – Camila revelou a questão.

– Ah, começo a entender o drama. Você quer se depilar?

– Com quem vou conseguir uma gilete?

Suzana levantou-se num pulo. Ela até poderia não ter sexo, mas se outro indivíduo fizesse, iria se sentir parte da transa. Essa seria sua missão da noite.

Acompanhando a prima, Camila parou no quarto do tio Cristóvão. Suzana começou a vasculhar as malas e os armários:

– Anda! Vai procurar no banheiro! – ordenou. Segundos depois, desabou desanimada na cama. – Pode parar! Ele usa barbeador elétrico.

– Tem uns dois velhos aqui. Não tenho coragem de passar na minha… Você sabe, é uma área tão sensível!

– De acordo.

De repente, Suzana teve uma revelação. Lembrou-se de algo que ouvira. Pediu para a prima esperar por ela e saiu em disparada para os fundos, onde sabia que os integrantes da banda tinham se arrumado antes do show. Ela escutara que eles se prepararam no sítio, antes de subirem ao palco. Tomaram banho e arrumaram o visual. Assim que dois copeiros se afastaram, ela entrou no local proibido e alheio. Apesar de bêbada, a adrenalina a despertou por um momento. Estava determinada a achar a gilete. Mais rápido do que imaginava, logrou sucesso.

No quarto, Suzana chegou gritando e exultante:

– Eu sou foda! Consegui! Anda logo, porque você o deixou esperando demais. Nada de fazer desenho, triângulos, nem nada. – ela instruiu.

– Eu estou muito ruim pra usar uma gilete. É até um perigo.

– Então, tira tudo e rápido! – Suzana apontou a solução mais lógica.

– Eu nunca fiquei sem nada.

– Hum, então você vai amar o contato dele sem ter pelos. Vai delirar com a sensação!

Satisfeita consigo própria, Suzana começou a se retirar do quarto. Camila foi mais rápida e a bloqueou:

– O que foi? Me deixa passar!

– Se eu parar para pensar no que estou fazendo, se eu entrar nesse banheiro e abaixar minha cabeça… Eu não vou conseguir, Suzana. Eu vou vomitar, cair de cara no chão, e… vou pensar no André.

Suzana notou que a prima estava prestes a chorar. Ela reverteu a posição de supremacia. Pegou os braços de Camila e, rodando-a, empurrou a garota pra dentro do banheiro:

– Deixa que eu faço. Eu vou raspar você. – Suzana bateu a porta assim que fez o pronunciamento para dar mais impacto.

Alguns minutos mais tarde, ela retornou a festa para procurar Maurício. Com medo de que Camila desistisse, ela se comprometeu a chamar o garoto. Mais que isso, Suzana o encaminhou até o quarto de Cristóvão. Ele tinha uma cara de muito chateado por ter perdido a pretendente de vista.

Depois que o jogou para dentro do cômodo, Suzana carregou o sentimento de satisfação estampado no rosto. Decidiu não aprontar mais naquele dia. Iria procurar um quarto para apagar e esquecer a vida. No entanto, a sua ideia de que Camila tinha ficado no quarto do tio, por causa da cama maravilhosa, seria a causadora de uma reviravolta inesperada, se isso não for um pleonasmo.

A primeira porta aberta fez Suzana soltar um gemido de susto. Ao acender a luz, pegou Eulálio e Sheila no flagra. A empolgação devia ter sido imensa, pois os dois não passaram o trinco. O espanto envolveu a posição do casal: ela estava de pernas abertas e erguidas em ‘V’, enquanto Eulálio estava ajoelhado de cara no ponto de interseção dos dois traços formadores da letra em questão. Era uma revanche, pois o primo já tinha pegado-a no flagra antes. Ela o faria lembrar o quão inusitada era a vida.

Fingindo estar estonteada, pediu desculpas. Naquele momento, ela desejou, ansiou, suplicou para que um homem surgisse em seus braços. Contudo, o estado dela não permitia que caçasse algum. Rapidamente adentrou no quarto da frente.  Esse estava vazio. Tirou o vestido, ficando apenas de calcinha e sutiã. Durante um momento indefinido, sem poder conceituar se dormia ou estava em coma alcoólico, alguém entrou e se jogou de costas na cama. Pelo jeito e pelo respirar, ela sabia que era um cara.

Automaticamente, acariciou-o e se esfregou nele. A reação foi automática e explosiva. Eles se beijaram, se agarraram e fizeram um sexo bem diferencial por causa da excitação etílica.

De manhã, Suzana estava destruída. Queria vomitar e comer ao mesmo tempo. Sentou-se na cama. A mão do parceiro roçou nas costas dela. Entendendo que teria uma rodada matinal de sexo, virou-se. O susto a fez gritar e a se colocar de pé. Petrificado e pasmado, Cristóvão também não sabia o que dizer.

Sobrinha e tio se encararam incrédulos. Ela pegou seus pertences e voou para fora do quarto. Até chegar em casa, tentou, em vão, esvaziar a mente pelo deslize que cometera. Antes do tempo, ela teria que enfrentar as consequências de ter sido imprudente. Afinal, sexo não era tão libertário e necessário quanto havia pregado a noite toda por atos e pensamentos.

TEMPORÃO – Bianca

Com o antigo vestido branco, usado em sua missa de debutante, Bianca surgiu na sala, onde seus pais jogavam tranca. Ela ficou com medo de algum julgamento pela antiguidade do traje, mas eles olharam rapidamente para a filha, sorriram e voltaram à concentração:

– Onde estão os meninos? Eles não vão à festa do tio Cristóvão?

– Acredito que a resposta de Nei tenha sido ‘de jeito nenhum’. – Israel respondeu sem desviar-se do jogo.

– E agora? Todo mundo já foi. Vou gastar uma fortuna de táxi até o sítio.

– Assim que acabarmos essa mão, seu pai te leva. – Patrícia tomou a decisão.

No início, a espera estava tranquila, depois Bianca ficou entediada. Não se segurando de excitação e de vontade de se jogar na festa, resolveu conversar com os pais. Quem sabe distraía um deles e a partida terminava rápido:

– Por que a vovó teve o Cristóvão tão tarde? A diferença entre vocês é enorme.

O silêncio se manteve. Ela pensou que era por causa do jogo. Mais tarde, descobriria que aquilo era um assunto delicado, necessariamente relegado ao desprezo.

– Bati. Vamos logo! – De supetão, Israel se levantou. – Eu ainda não parabenizei meu irmão. É bom que podemos nos falar.

No carro, Bianca não queria pensar em nada, apenas chegar, dançar, beber e se divertir. Ela teria de fazer um esforço tremendo para não levar as dúvidas para a festa do tio:

– Bianca, eu e sua mãe tomamos uma decisão. Por um milagre, seus irmãos toparam. Sei que não será problema para você. Se lembra como nos divertíamos nas nossas viagens coletivas? Me recordo que você tinha uns 10 anos na última vez que saímos todos juntos. Para reativarmos nossa tradição, estamos esquematizando férias familiares, depois das comemorações do aniversário das empresas Bersani.

– Quê? – Bianca se espantou.

– Já decidimos o local: vamos todos para o Chile. Passaremos duas semanas passeando. Pelo que vi, vai bater com suas férias de faculdade.

Bianca estava em choque. Rapidamente se lembrou do contrato de estágio. Não poderia se ausentar do escritório durante o período inicial. Era uma das cláusulas. Contudo, ela sabia, no fundo, que o impedimento era outro. Ela estava amando o aprendizado, não queria se afastar ou deixar os casos em andamento. Tensa por antecipação, ela engoliu em seco. Como negar o convite sem revelar o real motivo, o estágio?

– Pai, eu não sei se eu quero ir… Estou com uns projetos de férias.

– Filha! Pelo amor de Deus! Você não faz nada. Você só estuda. Seus irmãos trabalham e não se opuseram. Por que você não quer?

– Não sei. Eu estava com ideia de fazer um curso. Tenho de ver detalhes.

– Você tem que estudar menos, isso sim! Você se dedica demais. Não aceito uma negativa sua. – O pai estava determinado. Ele ficara furioso.

Desanimada, Bianca pisou na festa sem tanta animação. Cristóvão percebeu o baixo astral da sobrinha, ao receber o presente dos quatro sobrinhos. Porém, o papo com o irmão impediu-o de tocar no assunto. O estágio era dela, um segredo seu. Representava uma conquista própria. Em hipótese alguma, tinha intenção de que sua família descobrisse por enquanto. Que outra desculpa daria ao pai?

Precisava conversar com alguém, mas todos estavam ocupados, divertindo-se. Suzana estava louca na pista, dançando sem pudores. Ela estava nitidamente insinuando para um dos músicos. Camila estava travada de beijo na boca, enquanto tentava se mexer ao som da musica. Eulálio conversava intimamente com Sheila.

Circulou pelo espaço, comeu e nem animou a beber. Por que mesmo sem saberem da vida dela, seus familiares continuavam a se meter? Por muito tempo, ela deixou que eles tomassem conta, decidissem e interferissem. Começara a sentir o gosto da liberdade e da independência, embora tardiamente, e não pretendia permitir outras interferências. Como odiou estar numa família de manipuladores e autoritários:

– Você não está se divertindo o bastante! Pegue uma bebida e vamos dançar. – Cristóvão tentou forçá-la a se mexer.

– Tio, onde você estava? – Suzana apareceu, agarrando o aniversariante. – Está tudo ótimo! Ei, Bianca, você vem também. – A prima estava bem tonta.

– Vão vocês. Eu quero ficar um pouco de fora, sem suar.

– Deixa de ser complexada! Qual é o problema da vez? – Suzana perguntou.

– Nossa família! – Bianca não se privou.

– Acho que a resposta ideal… – Camila surgiu abraçada por trás pelo Maurício, que tentava desconcentrá-la, fungando no cangote dela. – Para! Espera… A meu ver, a nossa maior tragédia chama-se Paulina Bersani.

Eles ficaram pensativos, rememorando, cada um, o que já tinham passado nas mãos da matriarca. Nem o pior porre poderia fazê-los esquecer a pior humilhação:

– Por que ela nos odeia? – Camila disse aleatoriamente.

– E por que ela só gosta do Nando, do Nei e do Sandro? – Suzana fez um acréscimo.

– Isso é óbvio! – Cristóvão respondeu.

– Por quê? – Bianca externou em nome das primas.

– Eles são homens. É muito simples. Minha mãe só respeita e valoriza os descendentes homens. Dizem que ela… – O tio parou no meio da frase, mas conteve-se. Ficou claro que ele ia revelar algo. – Ela deu sorte de ter cinco homens e preza isso com força. Ela odeia vocês três por serem meninas.

– Mas e o Eulálio? – Bianca refutou.

– Ele é bastardo. Essa marca é insuperável.

– E você? Por que ela odeia você? – Camila não se conteve. – Qual é a sua marca?

Cristóvão ficou pensativo. Bianca olhou para a prima que fez a pergunta. Ela teria sido ousada? Contudo, era uma pergunta que todos ansiavam pela resposta há muito tempo. Ela estava farta de preterições.

Alguns assuntos não eram discutidos, nem comentados. Ficavam paralisados e ignorados. Para Bianca, era sinal de fraqueza. A família revelava-se extremamente rasa e mesquinha por não enfrentar alguns dos problemas. Todos eram contidos demais principalmente em relação a fraquezas. Quase ninguém enfrentava nada. Tais pensamentos eram a semente da força que ela teria para contestar as amarras e as retaliações futuras:

– Ela me odeia porque sou a marca da falha dela. Eu sou a prova do erro que ela cometeu. – Ele disse da maneira mais insensata e insensível, nenhuma das sobrinhas entendeu. As três estavam com a respiração em suspenso. – Ah, dane-se, é sobre mim, então vou contar. Ela traiu o pai com um cara que ela tinha amado na adolescência. Acabou engravidando durante o caso. Como sempre, a poderosa Lina quis reverter o jogo, de maneira a atacar e ferir o avô de vocês. Eu seria seu trunfo, uma forma de sempre menosprezá-lo e zombar do coitado, pois ele criaria um filho de outro cara. Quis o destino o contrário. Por tipo sanguíneo, eu sou realmente um Bersani. Ela vai me detestar para sempre pelo fato de não ter servido a seus propósitos.

Aquilo era bizarro demais. As três não iriam esquecer aquela história:

– É verdade? Que coisa mais enrolada. – Bianca comentou.

– Quer dizer que a avó sabe ser uma safada? – Suzana explodiu de rir. – Então, eu tenho a quem puxar. – E voltou à pista bem mais animada.

– Isso é muito raso, eu acho. Tem mais motivos que desconhecemos para tanto ódio. – Camila pensava.

– Eu acho minha mãe tão maluca e desgovernada. Pra mim, essas razões bastam. – Cristóvão arrebatou, retirando-se.

Camila voltou a beijar Maurício, enquanto Bianca refletia sobre o íntimo das pessoas. Ninguém tinha acesso, não se podia saber os reais medos, desejos e impulsos. É tudo tão preservado. Mesmo assim, queremos analisar e atestar como são os sujeitos por dentro. Até no Direito Penal, o dolo, que é a vontade consciente e interna, consegue ser provada pelo externo e pelos atos. No entanto, a ligação entre íntimo e exterior pode ser tão clara?

Bianca temia ser uma pessoa tão alva, quanto seu vestido. Sua bondade ainda iria ser um entrave, deixando-a vulnerável. Teria que se endurecer? Até quando sem perder a honestidade consigo própria e os outros? Não queria ser uma boba para sempre. Por isso, sedimentou o que iria fazer em relação à proposta de viagem em família. Sem mais respostas urgentes, marchou para a pista de dança. Não se pode teimar e forçar, cada ato tem seu desenrolar próprio. Não dá para colher frutos sem estarem maduros.