MEDIAÇÃO – Bianca

Decidiu não se envolver. Suzana magoada rompeu para fora da livraria, com Camila ao seu enlace. Foi tudo por causa de um comentário infeliz. Poderia ir atrás, ajudar na conciliação e tentar que ambas fossem sensatas e espairecessem. No entanto, Bianca fez a opção de ficar na plateia. Elas deveriam resolver sozinhas. Não gostaria de ser árbitro, muito menos defensora de uma das partes. Uma pontada de remorso brotou, mas ela lembrou-se das confusões de família, apreciadas no estágio. Dessa vez, ela poderia se negar a atuar.

De repente, Bianca se deu conta de que Luca permanecia no mesmo local, encarando-a. Ele provavelmente deve ter ficado sem graça:

– Desculpa. Isso foi desnecessário. – ela soltou.

Luca sorriu torto. Bianca ficou fascinada por alguns minutos. Sem graça, pensou na primeira coisa que surgiu em sua mente:

– Já tem o livro do filme ‘O Lado Bom da Vida’? Eu amei essa história.

– Chegou sim. Eu pego pra você.

Bianca ficou observando-o caminhar. Era um pouco mais alto que ela, um porte amplo sem ser de atleta ou de frequentador de academia. Transparecia ser do tipo nerd, característica bem admirada pela garota:

– Está num preço bom. – Enquanto repassava o objeto, os dedos dele roçaram nas mãos dela. Bianca deu um ligeiro salto de surpresa, Luca não notou.

– Obrigada. Vou folheá-lo.

Bianca curtiu o que estava lendo, despojada numa poltrona, embora se sentisse um pouco culpada. Deveria averiguar os lançamentos do Direito, talvez até comprar algum título da área de família.

Teria ficado tranquila durante a leitura, se não houvesse a inesperada troca de olhares. Por alguns momentos, Luca a pegava olhando-o; em outras, ela se assustava com ele a observando. A fim de cortar o contato visual, decidiu por passear pelas estantes. Ela já ia comprar o livro que folheava, junto com o presente de aniversário do tio.

A caminho da parte jurídica, pensou estar diante de uma miragem. Recostada numa estante, Tânia abraçava livros infantis e respirava nervosamente:

– Tânia? O que está acontecendo? Você está bem?

Inesperadamente, a ex-amiga voou no pescoço de Bianca. Chorando, revelou o caso:

– Eu não aguento. É muito pra mim. Foi Deus que trouxe você a mim nesse momento assustador. Quero desistir, amiga, quero fugir. Não sei se dou conta.

Bianca não sabia como proceder. Do que ela estava se referindo?

– Fugi de meu filho. Aproveitei um deslize de minha mãe e escapuli. Entrei no último lugar onde ela me procuraria. Já estou aqui há uns dez minutos. Peguei esses livros como desculpa. Não suporto mais essa vida de casada, de mãe, de responsável, de cuidadora. Quero um tempo só pra mim!

Era clichê, no entanto foi a única explicação na mente de Bianca. Tânia teve de perder para valorizar. Da maneira mais dolorosa, aprendeu a transitoriedade e a certeza de nossas decisões:

– Calma. Vamos tomar um café? Respirar um pouco.

– Não posso! Por causa do bebê, estou proibida. – Tânia gritou. – Nem a um café, tenho direito.

Assustada com mais um momento de destaque na livraria, Bianca decidiu que evitaria aquele espaço por uns meses. As pessoas estavam encarando-as de novo. Ali não era lugar de terapia. Luca era um dos que acompanhava o novo drama:

– Amiga, eu sinto sua falta. Éramos felizes e não sabíamos. Se eu pudesse voltaria ao tempo.

As palavras de Tânia tiveram um efeito brilhante. Enfim, sentia-se valorizada. Qual é o motivo que nos faz só acreditar em algo e, principalmente, em nós mesmos, se um terceiro atestar, dando um aval?

– Não te falei, dona Graciema! Olha ela ali.

As duas se sobressaltaram. Velozmente, surgiram na frente delas a mãe de Tânia, segurando o bebê, acompanhada de uma recente amiga de Tânia, chamada Antônia:

– Bianca, quanto tempo! – Mesmo possessas, houve tempo de beijos fingidos entre as quatro. Um pequeno silêncio se instalou:

– Passeando? Como está esse gostoso? – Bianca cortou o gelo do momento, pegando o garoto no colo.

– Enorme. Está crescendo muito. – Graciema tentou ser simpática. – Tânia, onde você estava? Por que fugiu? O que está fazendo?

– Eu passei e vi Bianca aqui dentro. A senhora se lembra de como ela é uma leitora feroz? Eu entrei, nos cumprimentamos rápido e quando voltei para ver se vocês me esperaram, não tinha ninguém. Foi a Bianca que me fez ficar aqui. Ela disse que se eu ficasse num lugar só seria mais fácil de nos reencontrarmos, não foi?

Sem mais brincar com o bebê, Bianca fitou a amiga, ou ex-amiga, ou falsa-amiga. Não sabia. De repente, ela fora acusada de ser a culpada pela escapada de Tânia. Ela queria exercer seu direito ao contraditório e à ampla defesa:

– Bem, eu…

– Se era para esperar num lugar, deveria ser na porta! – acusou Graciema. – No fundo da loja, eu não iria encontrar ninguém. Pra mim, vocês estavam se escondendo. Que criancice!

– Mãe, a Bianca estava cansada. Ela pediu que nós nos sentássemos um pouco e colocássemos a conversa em dia. Temos tanta saudade.

– Da Bianca? Desde quando você tem saudades da Bianca? – Num inocente rompante de verdade, Antônia perguntou de maneira debochada. Tânia a fuzilou com o olhar. – Ah, é verdade! Você tem dito o quanto se distanciou dela pra mim!

– Isso está muito mal contado. Vocês não têm mais contato e de repente desejam passar horas conversando numa livraria? – Graciema não era otária, conhecia a filha que tinha.

– Eu achava que não tinha mais laços com Bianca. É só vê-la para perceber o quanto nos gostamos. Você se recorda que ela foi no batizado, não é? – Tânia fortaleceu a tese.

Durante aquele debate, Bianca não deu uma palavra. Era apenas uma figurante, no meio de uma disputa sem sentido. Era tudo uma falta de honestidade concreta. Ninguém queria assumir o quanto estava desgostosa com a situação. Mãe e filha esperavam um futuro brilhante. No entanto, estavam presas cuidando de um rebento. Graciema e Tânia nunca assumiriam os problemas. Sempre disfarçariam.

Naquele momento, Bianca percebeu que a oralidade não ia adiantar de nada. Não queria mais estar perto daquela gente. Repassou o bebê para Antônia:

– Eu… tenho um compromisso. Me desculpem. Nós nos vemos depois.

– Então, vamos aproveitar o nosso passeio? – Antônia comentou.

Contudo, havia mais uma alegação a ser jogada em Bianca:

– Você contou a novidade para sua querida amiga de infância? – Graciema tinha transmitido uma carga maligna na voz.

– Ah, ainda não, né? Está muito cedo.

– Ela não é uma estranha. Ela te conhece. – Antônia, volúvel e volátil como sempre, colocou-se agora a favor de Graciema.  – Essa novidade tem de ser espalhada e celebrada.

– Eu acho que me esqueço que é uma dádiva, mas eu estou assustada. – Tânia riu forçadamente. – Bianca, eu estou grávida.

– Já? – Todas ficaram perplexas com a honestidade de Bianca. – Me desculpe. Não imaginava que você estava tentando de novo.

Por alguns segundos, as duas se olharam. Tudo estava claro para elas. Tânia estava se afundando cada vez mais numa vida que não se apresentava satisfatória como ela imaginava. No fundo, invejava a liberdade de Bianca, isto é, as potencialidades a serem descobertas. Por isso, descartou a antiga amizade. Ter Bianca perto era doloroso:

– Parabéns!

Elas se abraçaram. Foi breve e significativo. Bianca poderia ter transmitido uma força. Poderia acalmá-la e reconfortá-la. Não o fez. Não tinha mais competência como mediadora ou conciliadora na vida de Tânia. E não fora por sua opção.

Vendo o grupo se retirar, Bianca olhou os livros em sua mão. Todos os dois terminavam suas histórias de maneira feliz. Porém, poderia sempre optar por um caminho mais tranquilo. Se a vida é uma escolha, ela faria de tudo para adentrar no lado bom, ao invés de se perder no cinza e no obscuro. Realmente a vida é uma eterna reconstrução e reafirmação.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: