MEDIAÇÃO – Eulálio

-Que caras são essas? Qual é o problema? – Bianca destoava dos ânimos dos primos, ao se sentar na praça de alimentação do shopping.

Camila tinha o olhar perdido, Eulálio teclava tenso no telefone, Suzana consultava com desagrado o cardápio:

– Homens. – Camila respondeu.

– Ei! – Eulálio se ofendeu. – Amor é o nosso problema.

– Nem pensar! – Foi a vez de Suzana ficar desgostosa. – Relacionamentos é a causa de nossa insatisfação.

Bianca ficou sentida com as palavras dos primos, por não vivenciar qualquer tipo de relação. Contudo, eles não perceberam. Estavam todos imersos na própria decepção:

– A Sheila não pode vir? – Ela quis saber.

– Eu simplesmente não a entendo. Primeiro reclama da minha ausência. Parece que não sou suficiente. Quando começo a ceder, a abrir espaço, ela foge. Convidei para me acompanhar agora, aí ela diz que não queria atrapalhar nosso encontro, e que precisava arrumar algumas coisas para a festa. Eu fico perdido. O que ela quer?

– Insegurança. – Suzana respondeu. – Por mais que ela brigue por participação, no fundo, ela tem medo de perder o pouco que tem.

– Não é isso. Ela ainda não confia em você. – Camila opinou. – Ela não se movimentou, porque não acredita que você está disposto a ser fiel para ela.

– Cruzes! Vocês são muito dramáticas. Nem sempre tudo tem algo de errado. – Bianca protestou. – Sheila pode simplesmente ter que se arrumar, já que é o primeiro evento oficial dela perante a família. Também acho que ela pode ser muita atenciosa, deixando o Lio estar conosco.

– Em que reino da fantasia você vive? – Camila foi ríspida. – O mundo é feito de intenções. Sempre tem algo por trás. As atitudes da namorada do Eulálio são pautadas por algum tipo de sentimento. Elas não são simples ou desmotivadas. Tudo tem uma razão de ser. As pessoas só são falsas demais. Escondem sempre o jogo.

Aquilo calou todos. Foi como uma epifania. Por que, ao estarmos tristes, conseguimos refletir tão bem? A tristeza carrega certa carga positiva por propiciar uma mudança de perspectiva:

– Eu só queria que ele tivesse sido honesto. Nunca passei de um desafio, de um passatempo. Não fui levada a sério pelo André. – Camila desviou o foco para si. – O pior é que no fundo, pra mim, não foi culpa da faculdade. Ele não me quis pelo que sou, por ser gordinha e tão ordinária.

– Ah, para! – Suzana refutou. – O que você ganha em se desprezar para justificar o descaso do André? Se valoriza, Camila. Eu sei que vocês se gostam, mas vai perder a diversão da vida por causa de uma desilusão?

– Ela gosta dele, Suz. – Bianca não conseguiu se conter. – Não vai apagar as coisas de uma hora para outra. Precisa de… luto.

– Pelo amor de Deus! Que exagero! Ninguém morreu, para que usar esse termo? – Elas sabiam que Eulálio tinha pavor do fim da vida.

– Quer saber? Eu vou me acabar na festa do tio Cristóvão. Vou ser igual a Suzana. Passarei o rodo! – Até a prima, a modelo de comparação, se espantou com o novo posicionamento. – Vou ser do primeiro que me der mole! Não, serei de todos os que me quiserem. Vou até ligar para o Léo. Quem sabe realizo o sonho de minha mãe? Ele é uma graça.

– Tem sonhos que não podem se realizar… – Suzana disse baixinho, como se soubesse de algo.

– Falando no tio, compraram o presente? – Eulálio perguntou.

– Livros. – Bianca respondeu sorrindo.

– Só isso? – Eulálio estava descontente. – Não podíamos ser mais criativos? Por que não um jogo de malas? O cara viaja pra caramba.

– Exatamente por isso. – Bianca defendeu. – Eu não conheço bem o tio Cristóvão. Ele está sempre rodando o mundo em nome das empresas Bersani. Assim, o livro é um presente neutro.

– Eu constantemente me esqueço que tenho um tio que é só cinco anos mais velho que eu. – Suzana comentou, sem nunca imaginar o quanto iria conhecer Cristóvão depois do aniversário dele.

– Queria saber por que não o chamam de temporão-indesejado, ou outro termo pejorativo? Eu tenho de ser o bastardo para sempre. – Eulálio desabafou.

– Às vezes tem algo a mais na história da concepção tardia da vovó que não sabemos… – Camila descobriria, mais tarde, que aquilo havia sido uma premonição.

– Droga! Sheila acaba de brigar comigo por mensagem. Por que namoro tem de ser difícil?

– Qual é o motivo agora? – Bianca tomou a frente no questionamento.

– Mensagens que ela viu na internet da Bruna, da sua sala do Direito. Ela vê coisa que não existe.

– Ou é você que não quer enxergar? – Bianca foi certeira. – Sempre achei que a Bruna fosse louca por você.

– Homens não são sutis como nós. – Camila versou.

– O explícito passa despercebido para eles em diversas vezes. – Suzana pontuou.

– Três contra um? – Eulálio brincou. – Estou numa situação inferior. Quero pedir… como se fala? Um recurso! Vou pedir um!

Todos riram:

– É sério. Eu gosto de estar com a Sheila. – Eulálio refletiu. – Ela foi um presente, mas em alguns momentos me sinto torto, totalmente se ajustando ao que ela deseja, sem se importar com o que eu quero. O Eulálio como namorado não corresponde a quem eu sou.

Nenhuma das três quis falar. Porém, a carinha de cachorro abandonado fez Camila se pronunciar:

– Ninguém toma um coração ocupado.

– Que fantasma! Eulálio já superou a Catarina. – Bianca brigou. – Ele partiu para outra com a Sheila.

– Partiu mesmo? – Suzana apertou.

Eulálio não podia responder. Não queria fornecer qualquer prova contra si:

– Pra mim, manter um namoro tem sido muito trabalhoso. E não falem que eu disse isso. Negarei até a morte.

– Você acaba de validar minha escolha por ignorar o Igor. A partir de agora, não ficarei mais ligada na dele. – Suzana corroborou pra si mesma.

– Arrasou! Eu também fechei a história do André. – Camila buscava refúgio na saída mais fácil.

– Eu vou abrir o jogo com a Sheila. Não dá para insistir em algo que não faz bem.  – Eulálio decidiu-se.

Os três estavam satisfeitos com as escolhas. No entanto, Bianca estava pensativa:

– O que se passa nessa cabecinha? – Camila perguntou.

– Vocês todos têm histórias, estão envolvidos com uma pessoa. Eu estou sozinha, sem ninguém em vista há muito tempo. Vocês estão reclamando de barriga cheia. Quem dera se eu tivesse alguém para me atormentar, para ficar perto de mim, ou para me provocar.

Os quatro se olharam. A riqueza de um é a pobreza do outro. A abundância desvalorizada de alguns se transforma em preciosidade para outra parte. A vida sabia não ser justa. Antes que ficassem depressivos, Camila varreu a depressão da mesa deles:

– O que vamos pedir? Estou tremendamente faminta!

Na verdade, todos eles estavam famintos. Eram ávidos pela vida.

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