TEMPORÃO – Camila

A produção tinha sido impecável, com unhas bem feitas e vibrantes, cabelo escovado e escorrido, uma calça jeans provocante, sandálias de salto alto, e blusa totalmente decotada. O visual era a ferramenta para que Camila pudesse aproveitar o aniversário do tio Cristóvão, com intuito de suplantar o professor André de sua mente. A arrumação funcionava como indumentária mágica, quase teatral, que a transformava em outra pessoa, mais agressiva, independente e certeira.

Tentando sair sem que fosse notada pelos pais que, certamente, estranhariam tamanha preparação, ela se assustou em dar de cara com a avó Lina na sala. De fato, a surpresa estampou-se perante as duas:

– Bem, muito bem! Quem poderia imaginar que você tivesse bom gosto? Se eu tivesse uma máquina fotográfica tiraria uma foto de recordação desse dia histórico! – a matriarca dos Bersani’s não perdia tempo.

– Pensei que estivesse em viagem. Não é o costume? Ausentar-se da família no aniversário do filho mais novo?

– Tenho de resolver assuntos pendentes com o seu pai. Vocês não sabem, mas deixei de ficar de fora ou longe, durante o aniversário do Cristóvão. Gosto de aparecer nos sítio no dia seguinte para averiguar os estragos. Faço questão que meu filho pague tudo depois.

– É esse o seu presente de aniversário para ele? – Camila atacou.

– Não, isso são ônus, por eu dar a ele a liberdade de usufruir de minha propriedade sem a minha vigilância. Digamos que é a minha caridade ou bondade anual. – ela debochou.

Camila riu de incredulidade. Queria fugir da avó o quanto antes, porém suspeitou que ela poderia estar mais disponível a se abrir por causa da data. Ou ela seria tão insensível assim?

– Eu me pergunto se você sente alguma coisa por alguém. Você consegue se ligar a um outro ser humano? Cristóvão é seu mais novo, deveria ser o mais paparicado, ao invés de ser o mais negligenciado. Eu sou uma das suas netas, constantemente atacada por você. Qual é o ganho pelo afastamento de todos nós?

– Um dia vocês todos vão entender… – Lina fora evasiva. Camila manteve o interesse. – Acredito que aquilo que não mata fortalece. Faço um bem a todos, cobrando, brigando, impulsionando a serem melhores.

– Isso é meio chavão. Em troca de raiva e ódio? – a neta acrescentou.

– Meu método é duro, quase militar. Tomei muitas surras de meus pais. Aprendi com o castigo e a dor. Interprete minhas palavras como uma forma de chicote propulsor.

– Você acredita nisso? É tão surreal… É, não deveria ser espantoso pra mim.

– Por quê?

– Eu não conheço você, nós não sabemos quem você é. Apenas entendemos do que você é capaz. Estamos adultos, o tempo passou, e a senhora permanece uma incógnita.

– Não seja…

– Filha, a Suzana… – Pedro irrompeu na sala, sem perceber a íntima conversa entre as duas. – Me desculpe. Olá, mãe. Não sabia que a senhora estava aqui. Constância não me chamou. Camila, Suzana está lá embaixo, esperando por você. Uau! Como você está linda!

– Só poderia emagrecer um pouco. – Lina não perdeu a oportunidade.

– Mande outro abraço para o Cristóvão. – Pedro passou por cima do comentário de sua mãe.

Camila beijou e abraçou o pai calorosamente. Antes de sair, encarou a avó e meneou a cabeça. Dona Lina repetiu o gesto.

No carro, Suzana reclamou da demora da prima:

– Estava tendo uma conversa familiar com a nossa querida avó. Será que algum sentimento tenro e amável já brotou dentro dela? – Camila questionou, antes de reportar a conversa.

Assim que chegaram ao sítio, as duas ficaram surpresas com a arrumação do local. Estava tudo impecável, com a decoração puxando para o informal, num clima de welcome to the jangle. Tochas foram espalhadas pelas árvores, as luzes deixavam o local sombrio, cheio de promessas. Uma pista de dança maravilhosa fora colocada ao lado da piscina. Poucas mesas estavam dispersas, a ideia era fazer todo mundo circular e dançar. Cristóvão deve ter gastado uma alta quantia:

– Não sei se meu traje se adéqua a isso. – Camila comentou. – Você está linda de vestido púrpura. Que coque diferente, Suzana.

– Eu transei a tarde inteira e perdi meu horário de salão. Tive de improvisar.

Camila estava deslumbrada. Ela se perguntou se um dia conseguiria alcançar tamanha opulência. A jovialidade de Cristóvão contrastava com o universo endinheirado no qual ele estava imerso. Não seria cedo demais para ter tanta fortuna e esbanjar? Por outro lado, ela se perguntou o que ganhava numa vida regrada a economia e gastos controlados. Isso não a deixava mais livre, nem menos preocupada. Pelo contrário, Camila sentia-se oprimida por estar tão distante da estabilidade financeira e do sucesso:

– Sobrinhas, que bom que vocês chegaram! Até que enfim. Cadê o resto de vocês?

– Parabéns, desejo muita saúde e felicidades. Seu presente está com a Bianca. – Camila comentou, enquanto se beijavam. – Tio, tem tanto tempo que não nos vemos?

– É, são muitas viagens. Às vezes, eu acho que foi um fardo grande capitanear as empresas Bersani no campo internacional. É muita pressão e responsabilidade.

– Mas tem seus benefícios. Aparentemente você tem tido êxito – Suzana elogiou, gesticulando para o entorno.

Camila achou a fala da prima bem dúbia. Parecia que ela flertava com o aniversariante.

– Não posso reclamar! Como vocês duas estão? E os estudos?

– Doida pra formar. Quero trabalhar como você e ser bem sucedida. – Suzana resumiu.

– Eu ando desgostosa com o curso. Talvez eu troque ou mude de habilitação. – Camila revelou. – Eu não sei se me encaixo nas Ciências Políticas.

– Como vocês não têm ideia do quanto a faculdade é a melhor época da vida. E olha que eu nem fiz. Já formei no ensino médio e caí na empresa. Se eu pudesse, teria adiado minha entrada no mundo adulto. Aproveitem esse período. Nele, vocês têm uma rede de proteção, ainda podem errar.

– Eu sou muito ansiosa quanto ao mercado de trabalho. Sou doida para ser independente, fazer meu nome, ter status. – Suzana comentou.

– Você é um caso a parte, sobrinha. – Os dois se olharam por um período demorado – É muito veloz e determinada. Outros precisam de um tempo maior para se descobrir, para se encontrarem. Só depois, alcançam a firmeza e a prosperidade. – Cristóvão estava dizendo diretamente a Camila.

Era uma mensagem nítida e verdadeira. Qual é o motivo da pressa? Por que o tempo não pode ser diferente para cada um? Haveria problema se escolhesse um caminho mais devagar? De onde surge a cobrança: dela mesma ou do redor?

Suzana viu um conhecido e retirou-se do grupo. Tio e sobrinha puderam ter mais um momento íntimo:

– Camila, eu queria poder ajudá-la como não me ajudaram. Soube que você está conciliando faculdade e trabalho. De quanto você precisa para se manter?

Ela não sabia explicar o quanto estava satisfeita com o emprego, por não atrapalhar os estudos. Conseguia se divertir com o Léo. Sentia-se prestativa dessa forma:

– Tio Cris, eu agradeço. De verdade, fico feliz por você querer me ajudar, mas está tudo bem. Não me sinto pressionada a me manter no consultório.

– Só tem uma coisa. Você não deveria trabalhar em algo mais próximo do seu curso de Política, não é? Você não está gostando mais?

– Eu não me vejo em outra campo sem ser o da Ciências Sociais. Não sei bem, mas tenho vontade de trocar de curso, talvez optar pela Antropologia.

– Nada na área da saúde? Você daria uma ótima médica.

– Cruzes! De jeito nenhum. – Os dois riram de maneira cúmplice.

– Bom, eu preciso circular. Não se esqueça de mim. Vamos tirar muitas fotos! Se precisar de qualquer coisa, serei o seu apaziguador e tranquilizador nesse mundo cada vez mais rápido.

Por um momento sozinha, Camila pensou na passagem do tempo. Cada vez mais, as correntes, os estilos literários, as modas, os costumes têm se modificado velozmente. Nada perdura com tamanha facilidade. Atualmente pairava uma obrigação por ser feliz, bem-sucedido e independente. Alguém é capaz de se manter assim sempre?

Muito se comenta entre a relação do ser e do ter. É preferível construir a essência interior do indivíduo, ao invés de buscar a constante posse das coisas. Camila percebeu que outra conexão possuía tamanha importância: o ser com o estar. Ela não era plenamente feliz, muito menos decidida e completa. No entanto, se a vida representa o ‘estar acontecendo’, ela passaria a se preocupar com o modo como tudo está ocorrendo no presente. Isso engloba o desapego ao passado e o esquecimento do futuro. Mais uma vez, Camila perceberia que qualquer tarefa é sempre mais fácil na teoria.

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