TEMPORÃO – Eulálio

– Pensando, como sempre? – Eulálio tocou o ombro de Camila com a mão livre. A outra estava presa na cintura de Sheila. – Assim, vai virar uma pensadora?

– Eu já sou uma. – Camila respondeu, sorrindo.

Todos eles se cumprimentaram. Junto do casal, estava Maurício, amigo de Eulálio. Ele ficou radiante por rever Camila:

– Eu não sabia que a festa era temática. – Sheila disse com uma pitada de vergonha.

Eulálio reparou na namorada e na prima. Claramente as duas estavam desapropriadas pelo evento, usando calça jeans e blusa. Estavam bonitas e despojadas, ao contrário do restante das mulheres, trajadas em vestidos variados:

– Confesso que não sabia. – Eulálio pôs a se defender. Como a relação com Sheila estava estremecida, resolveu garantir que ela não brigasse com ele.

– Vocês estão lindas. – Maurício comentou, embora tenha ficado explícito que o comentário era dirigido a Camila.

Deixando os dois conversando, ele circulou com Sheila pela festa. Parou com alguns, conversou um pouco e a apresentou. Apesar de não estar vestida adequadamente, a namorada estava feliz em fazer parte da vida dele.

Quando foi buscar bebidas, Eulálio percebeu o quanto a festa estava selecionada. A maioria dos presentes eram pessoas abastadas, com condições financeiras ótimas. Tinha muita mulher bonita e solteira, um prato cheio para o próprio deleite. Por que não resolvera vir sozinho? Teria se fartado perante tanta beldade.

Com isso, ele questionou a sua solteirice. Ter uma companhia valia a pena em contrapartida com as potenciais diversões de uma vida livre e desregrada? Os benefícios de estar com Sheila começavam a não ser suficientes por causa da cobrança dela, do real desapego dele, e da vontade de se envolver com mais pessoas:

– Grande Lio! – Cristóvão agarrou o sobrinho por trás, jogando-o para o alto. – Meu sobrinho favorito.

Eulálio adorava o tio que não parecia tio por causa da idade. Enquanto parabenizava-o, ele constatou, mais uma vez, como gostaria de terem idades pareadas para serem amigos e parceiros:

– Caramba! Pensei tanto em você na última viagem que fiz à Finlândia. Conheci um modelo de administração muito inovador. – Cristóvão estava mesmo empolgado – Fiquei de queixo-caído com a forma de gerir o pessoal. É primoroso. Queria que você conferisse. Trouxe uns materiais em inglês pra você ver.

– E as finlandesas? São bonitas? – Eulálio adorava as histórias de curtição do tio. Ele sabia se divertir como ninguém.

– Pra quem gosta daquele padrão loiro, é um prato cheio. Eu acho elas bonitas, mas fica tudo banal.

– É, meu desejo pela Finlândia aumentou por mais um motivo. – Os dois riram de maneira cúmplice.

– Lio, como você pode pensar em bagunça, estando namorando? Cadê sua garota? Enfim, tenho de saber se você tem bom gosto.

– Tio, por favor, não a deixe constrangida.

– Uma brincadeirinha não faz mal a ninguém.

– Os Bersani’s sabem ser perigosos. – Eulálio soltou sem querer, de maneira jocosa. Cristóvão ficou observando-o

– Pelos seus comentários, não creio que você esteja animado com o namoro… Está tudo transcorrendo bem? Você gosta realmente dela?

De repente o ambiente deixou de ser brincalhão. Eulálio não queria discutir os questionamentos a respeito do seu relacionamento. Por uma noite, gostaria de esquecer as dúvidas sobre a maturidade e a disposição. Crescia nele a sensação de que ainda era novo para estar num namoro sério. Ele era livre, adorava conhecer pessoas novas e não dar satisfações. Sheila era maravilhosa, porém o privava da sensação de segurança consigo próprio. Contudo, o pior desse panorama era a constatação de que se Catarina fosse sua namorada, ele estaria de cabeça, corpo e alma para ela:

– Ando confuso, tio. Sheila veio num momento bom. Eu precisava dela, gosto da sua companhia. Só que me questiono se estou preparado para sustentar um namoro. Me sinto despreparado e precipitado.

– As determinações convencionadas de idade são péssimas. Não tem fórmula. Um número não indica nada. Se eu pensasse que não estava preparado para trabalhar pela empresa, não teria me aventurado com 19 anos. Vale o que você é, e sente. Entende?

Eulálio concordou. Eles se abraçaram mais uma vez. Nenhum deles tinha ideia de onde surgiu tamanha afinidade. Só sabiam que era antiga e verdadeira. Mais tarde, construiriam uma tese. Porém, por agora, só perceberam que era uma pena não estarem mais próximos:

– Sinto que você vai fazer história na nossa empresa. – Futuramente as palavras de Cristóvão se tornariam verdade, não da maneira prevista. – Você tem que formar e entrar lá. Não deixe os babacas dos seus primos excluírem você.

Eulálio sempre quis revelar a artimanha ao tio. Por diversas vezes, quase contou que era estagiário clandestino nas empresas Bersani. No entanto, ele sempre concluía ser cedo para a grande revelação. Realmente, a descoberta tinha tardado, embora estivesse mais próxima de ocorrer:

– Lio. Você sumiu! – Sheila apareceu.

– Foi culpa minha. Prendi ele aqui. – Cristóvão evitou mais uma crise. – É você quem fisgou meu sobrinho? Preciso fazer um questionário para aprová-la, que inclui descobrir seus movimentos de dança.

Eulálio riu, enquanto o tio arrastava sua namorada para a pista. Ainda introspectivo, resolveu não acompanhá-los:

– Parabéns, você merece um prêmio! – Suzana não permitiu que ele curtisse a própria companhia.

– Por quê?

– Você trouxe o Maurício para a Camila. Por que não trouxe um homem pra mim também? Ah, quer saber, pode deixar que eu me arranjo.

– Do que você está falando?

– Da Camila e do Maurício. Eles estão dançando tão sensualmente. Olha lá no canto, perto do som. – Ela apontou. – Estão se esfregando tão intensamente… Que inveja! Isso vai render.

– Suzana, acalme-se. Parece que você vai ter um orgasmo aqui.

– É, vou até parar de olhar. – ela deu de costas para o grupo dançante.

– Na verdade, eu trouxe o Maurício para a Sheila. Fiquei com medo que ela não entrosasse. E também pra me deixar circular.

– Você sempre foi social. Está no seu sangue.

Eulálio pensou no elogio da prima. Ele tinha tantas características que pensava terem sido apagadas, mas percebeu que certas marcas não saem facilmente. Elas nos compõem, estão arraigadas e vão nos acompanhar para sempre. Temporariamente, poderiam minguar ou desaparecer, todavia sempre voltavam, e com uma força total.

Ficou claro que não conseguiria se conter. Chegaria o momento em que desapontaria Sheila por não conseguir ser o que ela queria ou esperava. A necessidade de ser fiel a si mesmo iria se fortalecer e irromper novamente. Não hesitaria em se aproximar de Catarina, se soubesse ter chance.

Antes do tempo apropriado, ele teria de abandonar a gaiola. Ou deixaria de ser ele para se tornar uma farsa. Esse tipo característico, ele sabia, não constituía uma parte dele.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: