TEMPORÃO – Bianca

Com o antigo vestido branco, usado em sua missa de debutante, Bianca surgiu na sala, onde seus pais jogavam tranca. Ela ficou com medo de algum julgamento pela antiguidade do traje, mas eles olharam rapidamente para a filha, sorriram e voltaram à concentração:

– Onde estão os meninos? Eles não vão à festa do tio Cristóvão?

– Acredito que a resposta de Nei tenha sido ‘de jeito nenhum’. – Israel respondeu sem desviar-se do jogo.

– E agora? Todo mundo já foi. Vou gastar uma fortuna de táxi até o sítio.

– Assim que acabarmos essa mão, seu pai te leva. – Patrícia tomou a decisão.

No início, a espera estava tranquila, depois Bianca ficou entediada. Não se segurando de excitação e de vontade de se jogar na festa, resolveu conversar com os pais. Quem sabe distraía um deles e a partida terminava rápido:

– Por que a vovó teve o Cristóvão tão tarde? A diferença entre vocês é enorme.

O silêncio se manteve. Ela pensou que era por causa do jogo. Mais tarde, descobriria que aquilo era um assunto delicado, necessariamente relegado ao desprezo.

– Bati. Vamos logo! – De supetão, Israel se levantou. – Eu ainda não parabenizei meu irmão. É bom que podemos nos falar.

No carro, Bianca não queria pensar em nada, apenas chegar, dançar, beber e se divertir. Ela teria de fazer um esforço tremendo para não levar as dúvidas para a festa do tio:

– Bianca, eu e sua mãe tomamos uma decisão. Por um milagre, seus irmãos toparam. Sei que não será problema para você. Se lembra como nos divertíamos nas nossas viagens coletivas? Me recordo que você tinha uns 10 anos na última vez que saímos todos juntos. Para reativarmos nossa tradição, estamos esquematizando férias familiares, depois das comemorações do aniversário das empresas Bersani.

– Quê? – Bianca se espantou.

– Já decidimos o local: vamos todos para o Chile. Passaremos duas semanas passeando. Pelo que vi, vai bater com suas férias de faculdade.

Bianca estava em choque. Rapidamente se lembrou do contrato de estágio. Não poderia se ausentar do escritório durante o período inicial. Era uma das cláusulas. Contudo, ela sabia, no fundo, que o impedimento era outro. Ela estava amando o aprendizado, não queria se afastar ou deixar os casos em andamento. Tensa por antecipação, ela engoliu em seco. Como negar o convite sem revelar o real motivo, o estágio?

– Pai, eu não sei se eu quero ir… Estou com uns projetos de férias.

– Filha! Pelo amor de Deus! Você não faz nada. Você só estuda. Seus irmãos trabalham e não se opuseram. Por que você não quer?

– Não sei. Eu estava com ideia de fazer um curso. Tenho de ver detalhes.

– Você tem que estudar menos, isso sim! Você se dedica demais. Não aceito uma negativa sua. – O pai estava determinado. Ele ficara furioso.

Desanimada, Bianca pisou na festa sem tanta animação. Cristóvão percebeu o baixo astral da sobrinha, ao receber o presente dos quatro sobrinhos. Porém, o papo com o irmão impediu-o de tocar no assunto. O estágio era dela, um segredo seu. Representava uma conquista própria. Em hipótese alguma, tinha intenção de que sua família descobrisse por enquanto. Que outra desculpa daria ao pai?

Precisava conversar com alguém, mas todos estavam ocupados, divertindo-se. Suzana estava louca na pista, dançando sem pudores. Ela estava nitidamente insinuando para um dos músicos. Camila estava travada de beijo na boca, enquanto tentava se mexer ao som da musica. Eulálio conversava intimamente com Sheila.

Circulou pelo espaço, comeu e nem animou a beber. Por que mesmo sem saberem da vida dela, seus familiares continuavam a se meter? Por muito tempo, ela deixou que eles tomassem conta, decidissem e interferissem. Começara a sentir o gosto da liberdade e da independência, embora tardiamente, e não pretendia permitir outras interferências. Como odiou estar numa família de manipuladores e autoritários:

– Você não está se divertindo o bastante! Pegue uma bebida e vamos dançar. – Cristóvão tentou forçá-la a se mexer.

– Tio, onde você estava? – Suzana apareceu, agarrando o aniversariante. – Está tudo ótimo! Ei, Bianca, você vem também. – A prima estava bem tonta.

– Vão vocês. Eu quero ficar um pouco de fora, sem suar.

– Deixa de ser complexada! Qual é o problema da vez? – Suzana perguntou.

– Nossa família! – Bianca não se privou.

– Acho que a resposta ideal… – Camila surgiu abraçada por trás pelo Maurício, que tentava desconcentrá-la, fungando no cangote dela. – Para! Espera… A meu ver, a nossa maior tragédia chama-se Paulina Bersani.

Eles ficaram pensativos, rememorando, cada um, o que já tinham passado nas mãos da matriarca. Nem o pior porre poderia fazê-los esquecer a pior humilhação:

– Por que ela nos odeia? – Camila disse aleatoriamente.

– E por que ela só gosta do Nando, do Nei e do Sandro? – Suzana fez um acréscimo.

– Isso é óbvio! – Cristóvão respondeu.

– Por quê? – Bianca externou em nome das primas.

– Eles são homens. É muito simples. Minha mãe só respeita e valoriza os descendentes homens. Dizem que ela… – O tio parou no meio da frase, mas conteve-se. Ficou claro que ele ia revelar algo. – Ela deu sorte de ter cinco homens e preza isso com força. Ela odeia vocês três por serem meninas.

– Mas e o Eulálio? – Bianca refutou.

– Ele é bastardo. Essa marca é insuperável.

– E você? Por que ela odeia você? – Camila não se conteve. – Qual é a sua marca?

Cristóvão ficou pensativo. Bianca olhou para a prima que fez a pergunta. Ela teria sido ousada? Contudo, era uma pergunta que todos ansiavam pela resposta há muito tempo. Ela estava farta de preterições.

Alguns assuntos não eram discutidos, nem comentados. Ficavam paralisados e ignorados. Para Bianca, era sinal de fraqueza. A família revelava-se extremamente rasa e mesquinha por não enfrentar alguns dos problemas. Todos eram contidos demais principalmente em relação a fraquezas. Quase ninguém enfrentava nada. Tais pensamentos eram a semente da força que ela teria para contestar as amarras e as retaliações futuras:

– Ela me odeia porque sou a marca da falha dela. Eu sou a prova do erro que ela cometeu. – Ele disse da maneira mais insensata e insensível, nenhuma das sobrinhas entendeu. As três estavam com a respiração em suspenso. – Ah, dane-se, é sobre mim, então vou contar. Ela traiu o pai com um cara que ela tinha amado na adolescência. Acabou engravidando durante o caso. Como sempre, a poderosa Lina quis reverter o jogo, de maneira a atacar e ferir o avô de vocês. Eu seria seu trunfo, uma forma de sempre menosprezá-lo e zombar do coitado, pois ele criaria um filho de outro cara. Quis o destino o contrário. Por tipo sanguíneo, eu sou realmente um Bersani. Ela vai me detestar para sempre pelo fato de não ter servido a seus propósitos.

Aquilo era bizarro demais. As três não iriam esquecer aquela história:

– É verdade? Que coisa mais enrolada. – Bianca comentou.

– Quer dizer que a avó sabe ser uma safada? – Suzana explodiu de rir. – Então, eu tenho a quem puxar. – E voltou à pista bem mais animada.

– Isso é muito raso, eu acho. Tem mais motivos que desconhecemos para tanto ódio. – Camila pensava.

– Eu acho minha mãe tão maluca e desgovernada. Pra mim, essas razões bastam. – Cristóvão arrebatou, retirando-se.

Camila voltou a beijar Maurício, enquanto Bianca refletia sobre o íntimo das pessoas. Ninguém tinha acesso, não se podia saber os reais medos, desejos e impulsos. É tudo tão preservado. Mesmo assim, queremos analisar e atestar como são os sujeitos por dentro. Até no Direito Penal, o dolo, que é a vontade consciente e interna, consegue ser provada pelo externo e pelos atos. No entanto, a ligação entre íntimo e exterior pode ser tão clara?

Bianca temia ser uma pessoa tão alva, quanto seu vestido. Sua bondade ainda iria ser um entrave, deixando-a vulnerável. Teria que se endurecer? Até quando sem perder a honestidade consigo própria e os outros? Não queria ser uma boba para sempre. Por isso, sedimentou o que iria fazer em relação à proposta de viagem em família. Sem mais respostas urgentes, marchou para a pista de dança. Não se pode teimar e forçar, cada ato tem seu desenrolar próprio. Não dá para colher frutos sem estarem maduros.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: