TEMPORÃO – Suzana

Sem noção de nada, transloucada, entregue em outras dimensões, Suzana estava fora de si. Tinha bebido tanto, dançado freneticamente e rodado a cabeça várias vezes que estava quase entrando em colapso. As pessoas até se afastavam dela, com medo de algum golpe de dança e por vergonha também. Ela não percebeu e nem se importaria, pois se sentia solta. O aniversário do tio Cristóvão estava ótimo, Camila estava pegando Maurício, Eulálio tinha sumido com Sheila, e Bianca se divertia na pista, não tão bêbada quanto ela. Para fechar, o aniversariante deixou que ela dormisse no sítio, ao invés de retornar após o término. Assim, Suzana iria aproveitar tudo.

No entanto, ela estava ficando incomodada. O tecladista, o mais bonito da banda, não cedia ao seu charme e sedução. Embora tenha feito sexo a tarde toda com Edgar, ela precisava fechar aquela noite com um cara em seus braços. Sabia que não deveria condicionar sua felicidade ao sucesso com o sexo oposto, mas era incontrolável. A festa só seria um arraso, se tivesse um homem esfregando nela. Suzana ia se arrepender no dia seguinte por ter exaltado e requisitado o sexo, pois ela protagonizaria cenas inapagáveis.

Como uma mente bêbada tende a ficar descontrolada, ela nem notou, quando se pôs a pensar em Igor. Ele poderia surgir na festa naquele momento e a tomar pelos braços. Acabou experimentando uma carência profunda. Isolada, rumou para dentro da casa. Precisava beber uma água e respirar, senão acabaria vomitando em cima de alguém.

Com a cabeça latejando, sentou-se num sofá e repensou sobre seu jeito carnal. Estaria ele fora de controle? Suzana era uma ninfomaníaca sem cura? Realmente o álcool é imprevisível, já que fez a garota questionar sua conduta tão decidida. Ela sempre colocou o prazer em pé de igualdade a outras necessidades, em algumas situações até em superioridade. Não seria a hora de começar a reconfigurar os objetivos e a intensidade de sua vida sexual? Suzana, como qualquer um, tinha medo do preço a ser pago pelos próprios atos:

– Suzana! Me ajuda! – Camila se jogou no sofá, ao lado dela.

– Eu acho que não tenho condição de fazer nada… Me deixa quieta!

– Só você pode me salvar! O Mauricio quer transar comigo e eu…

– Você está a fim de dar? Ótimo! Ainda não enxerguei o entrave. Ixi, falei bonito agora. Não devo estar tão mamada na cachaça assim. – Suzana estava em outro mundo.

– Droga! É melhor eu fugir! Vai ser uma vergonha!

– Prima, é sexo! Não tem nada de difícil ou complicado. Se joga, vai ser feliz. Eu queria ter um homem, qualquer um, me querendo agora.

– Eu também desejo ele, mas tem tanto tempo que não faço sexo. Não me preparei. Estou toda cabeluda, uma floresta enorme. – Camila revelou a questão.

– Ah, começo a entender o drama. Você quer se depilar?

– Com quem vou conseguir uma gilete?

Suzana levantou-se num pulo. Ela até poderia não ter sexo, mas se outro indivíduo fizesse, iria se sentir parte da transa. Essa seria sua missão da noite.

Acompanhando a prima, Camila parou no quarto do tio Cristóvão. Suzana começou a vasculhar as malas e os armários:

– Anda! Vai procurar no banheiro! – ordenou. Segundos depois, desabou desanimada na cama. – Pode parar! Ele usa barbeador elétrico.

– Tem uns dois velhos aqui. Não tenho coragem de passar na minha… Você sabe, é uma área tão sensível!

– De acordo.

De repente, Suzana teve uma revelação. Lembrou-se de algo que ouvira. Pediu para a prima esperar por ela e saiu em disparada para os fundos, onde sabia que os integrantes da banda tinham se arrumado antes do show. Ela escutara que eles se prepararam no sítio, antes de subirem ao palco. Tomaram banho e arrumaram o visual. Assim que dois copeiros se afastaram, ela entrou no local proibido e alheio. Apesar de bêbada, a adrenalina a despertou por um momento. Estava determinada a achar a gilete. Mais rápido do que imaginava, logrou sucesso.

No quarto, Suzana chegou gritando e exultante:

– Eu sou foda! Consegui! Anda logo, porque você o deixou esperando demais. Nada de fazer desenho, triângulos, nem nada. – ela instruiu.

– Eu estou muito ruim pra usar uma gilete. É até um perigo.

– Então, tira tudo e rápido! – Suzana apontou a solução mais lógica.

– Eu nunca fiquei sem nada.

– Hum, então você vai amar o contato dele sem ter pelos. Vai delirar com a sensação!

Satisfeita consigo própria, Suzana começou a se retirar do quarto. Camila foi mais rápida e a bloqueou:

– O que foi? Me deixa passar!

– Se eu parar para pensar no que estou fazendo, se eu entrar nesse banheiro e abaixar minha cabeça… Eu não vou conseguir, Suzana. Eu vou vomitar, cair de cara no chão, e… vou pensar no André.

Suzana notou que a prima estava prestes a chorar. Ela reverteu a posição de supremacia. Pegou os braços de Camila e, rodando-a, empurrou a garota pra dentro do banheiro:

– Deixa que eu faço. Eu vou raspar você. – Suzana bateu a porta assim que fez o pronunciamento para dar mais impacto.

Alguns minutos mais tarde, ela retornou a festa para procurar Maurício. Com medo de que Camila desistisse, ela se comprometeu a chamar o garoto. Mais que isso, Suzana o encaminhou até o quarto de Cristóvão. Ele tinha uma cara de muito chateado por ter perdido a pretendente de vista.

Depois que o jogou para dentro do cômodo, Suzana carregou o sentimento de satisfação estampado no rosto. Decidiu não aprontar mais naquele dia. Iria procurar um quarto para apagar e esquecer a vida. No entanto, a sua ideia de que Camila tinha ficado no quarto do tio, por causa da cama maravilhosa, seria a causadora de uma reviravolta inesperada, se isso não for um pleonasmo.

A primeira porta aberta fez Suzana soltar um gemido de susto. Ao acender a luz, pegou Eulálio e Sheila no flagra. A empolgação devia ter sido imensa, pois os dois não passaram o trinco. O espanto envolveu a posição do casal: ela estava de pernas abertas e erguidas em ‘V’, enquanto Eulálio estava ajoelhado de cara no ponto de interseção dos dois traços formadores da letra em questão. Era uma revanche, pois o primo já tinha pegado-a no flagra antes. Ela o faria lembrar o quão inusitada era a vida.

Fingindo estar estonteada, pediu desculpas. Naquele momento, ela desejou, ansiou, suplicou para que um homem surgisse em seus braços. Contudo, o estado dela não permitia que caçasse algum. Rapidamente adentrou no quarto da frente.  Esse estava vazio. Tirou o vestido, ficando apenas de calcinha e sutiã. Durante um momento indefinido, sem poder conceituar se dormia ou estava em coma alcoólico, alguém entrou e se jogou de costas na cama. Pelo jeito e pelo respirar, ela sabia que era um cara.

Automaticamente, acariciou-o e se esfregou nele. A reação foi automática e explosiva. Eles se beijaram, se agarraram e fizeram um sexo bem diferencial por causa da excitação etílica.

De manhã, Suzana estava destruída. Queria vomitar e comer ao mesmo tempo. Sentou-se na cama. A mão do parceiro roçou nas costas dela. Entendendo que teria uma rodada matinal de sexo, virou-se. O susto a fez gritar e a se colocar de pé. Petrificado e pasmado, Cristóvão também não sabia o que dizer.

Sobrinha e tio se encararam incrédulos. Ela pegou seus pertences e voou para fora do quarto. Até chegar em casa, tentou, em vão, esvaziar a mente pelo deslize que cometera. Antes do tempo, ela teria que enfrentar as consequências de ter sido imprudente. Afinal, sexo não era tão libertário e necessário quanto havia pregado a noite toda por atos e pensamentos.

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