VALORIZAÇÃO – Eulálio

Passou pela tenda de saúde por algumas vezes. Não teve nenhuma atenção despertada. Ainda não se preocupava com questões de glicose, pressão, exercícios físicos e postura. O corpo novo, sem sinais de problemas, deixava Eulálio focar em outras questões, mais especificamente na trajetória profissional e na vida amorosa. Se fosse outra médica a abordá-lo no passeio, o encontro teria sido antecipado. De qualquer forma, tem muitos fatos que devem acontecer, não importa a força dos subterfúgios.

Por causa da ausência de um professor, teve as duas ultimas aulas canceladas. Ao invés de estudar para os exames finais, ele se permitiu passear pelo comércio central da cidade. Precisava cotar preços de terno. Provavelmente era o traje a ser usado na festa de comemoração ao aniversário das empresas Bersani, evento já em vias de planejamento. No ano anterior, pôde faltar, não tinha tanto tempo de casa. Agora, o painel era diferente. Sobre a farsa no estágio, ele ainda estava tranquilo, pois não poderia prever mudanças na organização que poderiam por tudo a ruir. Mais aflições eram previstas para Eulálio. Uma delas se iniciaria naquela simples manhã de ócio, graças a um impulso incontrolável.

Gostaria que Sheila estivesse com ele na aprovação da cor e do formato da indumentária, considerada típica de sucesso. Como imaginava manter o mesmo corpo e antevia ser alguém notório, optara em pagar um pouco mais por um terno de qualidade. Era um gasto com ares de otimismo.

Depois de duas visitas a estabelecimentos e quatro provas, notou que a namorada só o encontraria uma hora mais tarde, em frente a uma agência de viagens. Ficara impaciente com a espera. Por que Sheila conseguia envolvê-lo e dominá-lo tão facilmente? Afinal, podendo tirar quinze dias de descanso, viajar acompanhado a algum local turístico parecia fadado ao descontentamento. Nas futuras folgas, ansiava pela simplicidade. Fugir do cotidiano era o que ele mais queria. Afastar-se da normalidade por um tempo era um deleite requisitado.

Já que a vida tende a ser antagônica em nossos desejos, uma aproximação mais que esperada fez-se presente, ao passar mais uma vez pela tenda de saúde armada na praça. Sua visão periférica percebeu aquela virada de cabelo. Ele estancou no meio do passeio, girou automaticamente o tronco e procurou por ela. Devagar, foi adentrando para confirmar a certeza: Catarina era uma das alunas que estavam promovendo uma ação social.

Sem graça, deu as costas e pôs se a ler uns banners sobre o funcionamento dos rins. O sentimento era inexplicável. Na verdade, era Catarina quem o domava, que o fazia perder o prumo, que o deixava repensando tudo. Amaldiçoou o momento em que trocaram os primeiros olhares, a força transmitida, a cumplicidade alcançada. Estaria bem mais livre sem ela para assombrá-lo.

Eulálio sabia que deveria fugir daquela tenda, dar as costas para a presença de Catarina. Não ia render nada entre eles, porque não estavam dispostos. Porém, o comando dela tinha forças tremendas. Qualquer migalha que ela oferecesse, ele pegaria com prazer e contentamento:

– Eulálio! Que bom encontrar alguém mais jovem aqui.

Catarina sorria. Eulálio, por alguns segundos de deslumbramento, esqueceu-se de reagir. Ao deixá-la incomodada, partiu para um abraço. O constrangimento só crescia:

– Me desculpe. Tem tanto tempo que não te vejo. – Ele comentou.

– É verdade. Às vezes, eu me pegava imaginando por onde você estava.

Catarina se portava de maneira honesta? Ele deveria ficar contente por permear os pensamentos da amada? Decidiu consentir:

– Também gostaria de descobrir o que você anda fazendo. É uma pena estarmos separados.

Catarina deu um leve arrepio. Eulálio percebeu. Tinha ido longe demais:

– Fiquei reclusa por muito tempo, totalmente desmotivada com a vida. A faculdade apertou, e… Nada emocionante aconteceu. A vida está muito parada.

Ele se sentia da mesma maneira. Apesar de ter uma faculdade, um estágio e uma namorada, vivenciava a sensação de estar incompleto:

– É geral. O mundo está muito corrido, egocêntrico, estranho. Ninguém é mais honesto com os outros.

– Não pensei em ter uma conversa tão existencial logo contigo. – ele rebateu.

De maneira clara, ela ficou contrariada com aquelas palavras. Não gostou. Estava tudo dando errado. Depois daquele encontro, Eulálio percebeu que deveria abandonar Catarina. No entanto, aquele dia era destinado a contrariedades. Mais disposto a ela, o garoto se configuraria:

– Eu vou embora, não quero atrapalhar seu trabalho.

Ele começou a se afastar. Ela pegou-o pelo braço:

– A gente precisa conversar um dia.

As pernas de Eulálio tremiam de leve. Não era do jeito esperado, mas eram as palavras que tanto ambicionou:

– Por quê?

– Meu namoro… não está bem. Fico pensando… Fico criando situações com você em minha cabeça.

Tão próximos, foi incontrolável. Ele, mais uma vez, partiu para beijá-la, sem se importar onde estavam, rodeados por tantas pessoas. Decidida, Catarina largou o braço de Eulálio e se afastou:

– Você só foge! – ele afirmou. – É algum tipo de tática? É sua forma de me possuir? – A garota olhava ao redor, preocupada com algum vexame.

– Eu não terminei meu namoro. Ainda tenho alguém.

– Então, não me diga bobagens.

– Eulálio…

Ele estava enfurecido. Perdeu o controle, se sentia menosprezado. Catarina não tinha direito de brincar com as emoções dele. Marchando para bem longe, a reação foi ao contrário. Mais desejava voltar e fazer uma loucura. Sem saber como proceder, sentou-se numa lanchonete. Pediu um suco que não intentava tomar.

A imprecisão imperou em seus pensamentos. Como proceder? Desejar uma mulher, estando com outra, conduzia a uma carga enorme de descontentamento. A vida nunca é como imaginamos, mas o panorama sentimental dele estava totalmente enviesado. De alguma maneira, necessitava de mais rigor e determinação. Tinha de começar a se tornar um administrador melhor da própria vida. Para isso, precisava ser um líder e ter empreendedorismo, mesmo que isso causasse efeitos colaterais desagradáveis.

Sheila veio pulando na direção dele, no local marcado de encontro. Passou os braços pelo pescoço de Eulálio. Deu-lhe um beijo:

– Estou muita empolgada com nossa primeira viagem. Meu amigo disse que vai nos fazer um preço camarada.

– Sheila, isso não é uma boa ideia.

– Gastar dinheiro a passeio? – Ela não tinha percebido nada.

– Não. Nós dois! Nosso namoro precisa de tempo, de afastamento.

– De jeito nenhum. O que está acontecendo? O que foi? Podemos consertar.

– Não, não posso continuar. Eu não amo você. Nunca amei.

Teve de apelar, teve de jogar duro. Foi uma medida drástica, a fim de recuperar o controle de si mesmo, mas inteiramente necessária. É fazer o errado, esperando que no fim dê certo.

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