VALORIZAÇÃO – Bianca

Três palavras, por incrível que pareça, proferidas sem maldade por Nei, tiveram um impacto fulminante na cabeça de Bianca:

– Júnior vai voltar. – o irmão anunciara, enquanto chegavam em casa para o almoço.

Já era um dia totalmente atípico. Para começar, tinha tido outra briga com o pai, no café da manhã, por causa da viagem. Ele queria entender a recusa dela, enquanto a filha se esquivava. Depois, na faculdade, descobriu ter tirado uma nota boa na prova de Processo, apesar de não ter estudado nada. Parecia que sua mente tinha vida própria. Realmente sua cabeça iria se mostrar extremamente fervilhante e sem controle, ao trazer a tona os piores momentos da vida da garota.

Para fechar, assim que chegara ao estágio, recebera um convite. Aceitara no supetão, pois já estava desequilibrada emocionalmente. No decorrer da tarde, ao notar as possíveis intenções da chamada, antes que enlouquecesse, decidiu que se havia alguém imparcial pra uma opinião num momento de tremenda dúvida, Camila era a escolha mais acertada:

– Prima, é Bianca!

– Por que você está sussurrando?

– Porque estou tensa, mais do que o normal. Não sei o que fazer. Meu chefe acaba de me convidar para um happy hour. Achei que era um encontro geral com todos, mas acabei de descobrir que é exclusivo. Só seremos nós dois. E tem outro detalhe: ele não costuma chamar estagiários para beber.

– Qual é o seu medo? Você acha que ele pode assediar? – Camila estava intrigada.

– Não sei. Não consigo imaginar se ele seria capaz de um golpe baixo. Eu gosto do senhor Armando, porque ele me trata bem, confia no que faço. Só que ele é casado. Mas eu não quero ser indelicada, desistindo do contato dele. Eu aprendo bastante o vendo em prática. Por favor, me diga o que fazer.

– Realmente o painel é complicado. Eu não faço ideia.

– Me ajude, Camila. Não liguei para o Lio, porque ele ia dizer que é assédio e que eu deveria sair fora. Não liguei para Suzana, porque ela ia achar o máximo e mandar eu ir cair nos braços do meu chefe. Só você pode me salvar.

– Bianca, a questão é que você não sabe de nada ainda. Só vai saber se entrar em campo e sondar o que está pegando. Então, saia com o chefe e veja as intenções dele. Quanto mais cedo fizer isso, melhor. Antes tarde do que quando as coisas estiverem com mais envolvimento. Me entende?

Horas mais tarde, Bianca esperava no saguão pela chegada do chefe. Tremia de nervoso. Era uma situação inesperada. Desde Júnior, não se via mais como uma mulher desejada. Acreditava não ter qualquer sex appeal. Ou será que ela o cativara com a personalidade? Isso poderia ser bom, pois beleza, de fato, era algo passageiro.

Ao se sentar no sofá, ela se sentia envergonhada pela situação. Poderia virar fofoca entre os advogados. Seria um tremendo escândalo. Arrepiou friamente por se lembrar da crise evitada há quase dois anos. Por sorte, Júnior nunca revelou a verdade sobre ela. Cansada de tanto sentir medo e terror, não acreditou ao descobrir que ele resolvera morar no exterior. Desde então, o segredo estava guardado e selado, até a notícia de Nei abalar as estruturas internas da irmã.

Afinal, por que fora tão afoita com o Júnior? Ele fora o primeiro homem que desejou, o segundo a levá-la para a cama. Por sua culpa, deixou-o desgostoso e criou para si um estigma terrível.

Era ela realmente responsável? Era um problema interno, por isso, deveria ter sido testada. No entanto, não quis descobrir ser era físico ou psicológico. No início, à noite, antes de dormir, se questionava sobre a razão daquele entrave. Nunca teve coragem de contar a ninguém. Chorou, imensas vezes, sozinha, até que abstraiu, já que não parecia ter solução. Mesmo com tanta variedade e oportunidades ao redor, ela optara por se fechar. Alguns problemas travados tendem a ficar sem solução. Em relação à sua vida amorosa, Bianca nunca conseguiu mudar essa percepção:

– Que cara aflita! Algum problema? – Armando aparecera em frente a ela.

– Nada não. – respondeu no susto.

Dentro do elevador, ambos estavam sem graças com a proximidade e a falta de assunto. E se Armando a agarrasse naquele espaço fechado? Começou a apertar a mão de tanto nervoso. No estacionamento, houve outro indício: ele foi um cavalheiro, abrindo a porta para ela. Bianca tinha um defeito. Ela se iludia muito com o exterior.

No bar, só piorou. Eles se sentaram na mesa mais afastada, num canto escuro e reservado. Era tarde demais. Como dar a Armando uma desculpa para fugir desse típico encontro de amor?

– Você está quieta e apreensiva. Está nervosa? – por cima da mesa, ele segurou a mão dela. – Eu só quero me aproximar mais de você.

Bianca queria gritar. É lógico que sonhara em encontrar um homem especial que a valorizasse e a respeitasse. Contudo, o envolvimento com Júnior havia sido um desastre. Ele foi um dos motivos para a garota ter se afundado nos estudos, deixando a azaração de lado. Pela forma como sofreu, passara a ter um receio paralisador. Estava fechada no quesito amor por causa de seu defeito:

– Por quê? – ela teve de sondar.

– Eu gosto de você.

Bianca soltou um suspiro assustado. Não podia ser real, não devia ter acontecido, não conseguiria mais olhar para ele:

– Não desse jeito, Bianca. Eu sou casado, muito bem casado e feliz. Desculpe se atormentei você com essa suspeita. Nada disso! Bem, se eu fosse solteiro e da sua idade, com certeza, investiria em você.

Ela não acreditava no que ouvira. Piscou várias vezes. Ele não a queria, mas a estava cantando? Estava satisfeito no casamento, mas revelara o quanto a admirava e a desejava? Não teve como evitar uma memória antiga de Júnior, esquecida há muito: “Eu tenho vergonha de ter me relacionado contigo. Tentei diversas vezes, mas me desculpe por mentir e te iludir. Não consigo, de jeito nenhum. Bem, se eu não tivesse tido outras mulheres, quem sabe, poderia aceitar sua falha. Por que você não procura ajuda, você é com certeza uma mulher…”

– Bianca! Bianca! – Armando a trouxe de volta à realidade. – Você está totalmente dispersa.

– Realmente. Você me dá um momento? Vou ao toalete passar uma água no rosto.

Recostada na pia, ela estremecia num ritmo acelerado. Por que estava se lembrando daquilo? Precisava superar, embora nunca tenha tentado. Desde que Júnior fora embora, não tinha ido para cama com ninguém mais. Teria tido a sorte de o problema ter desaparecido por conta própria?

Olhando-se no espelho, sentiu vergonha. Ninguém sabia, porque não conseguiria aceitar o julgamento dos outros. Fechou os olhos e relembrou mais uma passagem do ex-ficante, dentro do banheiro da casa da avó: “Você está bêbada e tentando me seduzir. Para! Eu não quero. De jeito nenhum, vou fazer sexo com você de novo. Me recuso! Você é muito ruim de cama, nas vezes que fizemos, foi tudo terrível. Na minha opinião, você é frígida! Isso sim!”

Jogando mais água no rosto, respirou fundo para esquecer aquilo. Estava enlouquecendo. Tinha de ir para casa imediatamente.

Chegando à mesa, não compreendeu o que via. No lugar do chefe, estava um jovem sentado. Assim que ela se aproximou, ele se levantou sorridente e a cumprimentou com um aperto de mão:

– Você é a famosa Bianca? Sou o Carlos Armando, filho do seu chefe. Meu pai fala demais de você. Ele a admira tanto. Às vezes, mamãe chega a ter ciúmes.

– E onde ele está?

– Ah, não vou mentir. Isso tudo foi uma armação. Ele está dando um jeito de eu me aproximar de você. Quer que nos conhecemos. Ele torce para que você se torne a nora dele.

Era o dia mais estranho da vida dela. Tudo estava descontrolado e fora de órbita:

– Você quer pedir algo para comer?

Ele estava sendo muito simpático e solícito. E se ele passasse a gostar dela? E quisesse ir para cama? Não queria que mais uma pessoa soubesse da sua condição, da sua trava. Preferia ficar sozinha. O maior medo era que Júnior revelasse a alguém e, principalmente a seus irmãos, que ela era uma mulher broxa, entre quatro paredes. Afinal, uma mulher também pode broxar? Existiria essa denominação feminina?

– Carlos, eu esqueci meu… batom no banheiro. Eu vou buscar.

Ela refez o caminho, mas se desviou no momento em que não estava mais à vista. Ela saiu em disparada do local. Era indelicado, mas não conseguia sustentar aquela situação. Qualquer elogio, qualquer estima mostrados pelos homens não conseguiriam derrubar a ótica que ela tem carregado desde o fiasco com Júnior.

Às vezes, há um lado positivo em se ocultar nossos medos e problemas. Bianca não estava preparada para enfrentá-los. Isso era claro. A garota tinha acabado de afundar numa grande tristeza depressiva, com a palavra frígida pulsando em sua mente. Pegou o primeiro ônibus que viu, foi para os fundos e chorou. Sem noção do tempo, deu várias voltas, completando o mesmo itinerário inúmeras vezes.

Ela não tinha noção do quão devastador havia sido permanecer estática e fria no patamar da solidão. Não percebia que dependia dela superar, pois só enxergava a saída por meio da validação positiva de alguém. Ela era mais uma vítima do mundo pós-moderno: não importa a maneira como você se entende, só o coletivo pode gerar valor, quando um grande número de pessoas convalida quem você é.

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