VALORIZAÇÃO – Suzana

Depois de umas dez ligações não atendidas, Suzana foi vencida pelo cansaço:

– Ei.

– Ah, até que enfim. – Igor soava mais preocupado do que bravo. – Pensei que você tinha sumido, desaparecido, se mudado.

– É o fim do período, está bem corrido.

– Imagino… Você vai ficar ausente também amanhã e depois?

– Sim, pedi dispensa no resto da semana por causa das provas. Eu me distraí, não estudei como devia.

– Cada vez mais acho que eu posso ter sido causador dos seus problemas. Desculpa.

Suzana não respondeu. Igor permaneceu em silêncio. Ela chegou a olhar o visor do telefone para saber se a ligação não tinha caído:

– Eu quero te ver. Precisamos conversar. – ele pediu.

– Estou muito ocupada, não consigo pensar em mais nada.

– Quando você voltar na semana que vem, estarei em viagem. Podemos nos ver nesse final de semana?

– Não! – Suzana não queria qualquer explicação.

Mais um momento em que permaneceram calados:

– Você está sabendo, não está? – ele estava aflito. Suzana não conseguiu responder. – Virei o assunto da empresa. Só que é tudo mentira. Não estou namorando a alemã. Nós só estamos mais próximos por causa de negócios.

Cortava Suzana escutar os comentários a respeito da aproximação com a empresária da Alemanha, interessada em realizar negócios com a firma. Assim que chegou ao estágio, no início da semana, foi informada da possível atração deles, do flerte e de um desejo praticamente incontrolável. As más línguas diziam que eles saíam todas as noites em encontros românticos. Muitas vezes, afirmava que eles dividiam o mesmo quarto do hotel.

Não tinha nenhum acordo com Igor, no entanto, Suzana se ressentia por não conseguirem lidar com a situação. Ele estava com outra, ela o tinha traído. Agiam de uma forma não condizente com as emoções:

– Ela está totalmente afim de mim, mas eu não tenho vontade de… – Suzana manteve-se quieta. Se tivesse falado algo, teria evitado o fato de maior impacto, que ninguém sabia. – Nós ficamos juntos uma noite só. Eu estava alto por causa da bebida. Mas não foi bom, eu só pensava em você, no seu corpo…

– Igor, não! – Suzana suplicou. – Por favor, não. Não vamos fazer isso. Não vamos nos machucar por causa de nossas vidas particulares. Eu também tenho saído, conhecido outros caras. Eu não pensei em você, não penso em você.

Ela se arrependeu de ter dito aquilo. Era uma mentira deslavada. No entanto, era mais uma evidência do quanto Suzana estava desorientada por dentro, ou seja, suas palavras e ações não condiziam com a revolução em seu íntimo.

Mais uma vez, ela confirmou o visor do telefone. Era a vez de Igor não conseguir dizer nada:

– Tenho uma revisão importante agora. Nós nos falamos depois. Boa viagem.

Sem esperar pelo cumprimento, desligou e adentrou na sala. Para não sofrer na divagação, concentrou-se na lista de quase 50 exercícios. Conversava pouco com os colegas ao lado, pois precisava inundar a mente com cálculos e equações com o objetivo de esquecer os esquemas e teoremas sentimentais:

– Turma, surgiu um problema no departamento. Vou demorar. Vocês vão se ajudando, enquanto não retorno. – o professor anunciou, antes de sair.

Alguns minutos depois, um estudante da frente perguntou, com voz alta, se ela tinha resolvido as questões de número 13, 29 e 37. Ela assentiu, enquanto o resto da sala se espantava:

– Por quê? – ela não entendeu.

– São as mais difíceis. Nem os nerds da turma chegaram a um resultado. – o garoto disse.

– Se quiser, eu te mostro.

– Não. Vá lá na frente e mostre a todos. Salve a turma de mais um pau na Engenharia.

Percebendo os olhares de súplica, Suzana levantou-se e vestiu a carapuça de professora. Aliás, nem foi tão difícil, fluiu para ela a posição de mestre. Não só fez os três mais difíceis, como resolveu outros que apareceram.

Ninguém notou, no entanto, quando o professor tinha retornado e permanecido no fundo da sala, observando. Suzana ficou ruborizada ao perceber a presença do mestre:

– Professor, eu… empolguei. – ela falou.

– Se eu soubesse que estava bem substituído, não teria corrido. – Suzana riu de soslaio com o elogio e retornou ao próprio lugar.

Mesmo não sendo chamado, o docente, momentos depois, sentou-se ao lado dela:

– Nunca poderia imaginar como você explica bem, de maneira calma e precisa.

A princípio, Suzana pensou que ele estava flertando com ela:

– Já pensou em ser monitora? Você tem um tremendo potencial.

– Não! Eu gosto de prática, de fazer. Não me vejo dando aulas. – essa era uma resposta antiga.

– Você deveria pensar nisso. Seria muito bom ter você como minha monitora no próximo semestre. Faça a seleção. Pelo que vi, você vai se sair muito bem.

– Tenho de focar no que quero. A área acadêmica não me atrai.

– Não desperdice um talento. Pense, durante as férias, em diversificar enquanto pode. Se você conseguir conciliar a teoria e a prática, será uma profissional exemplar.

– Nunca pensei em me manter na Universidade.  Fico doida pra sair logo daqui. – Suzana se abriu com ele.

– Se você não se acomodar em nenhum dos dois, tem tudo para atingir a notoriedade. É um aumento no status ser uma professora e engenheira renomada. Na monitoria, você também vai se envolver em pesquisa. Seu currículo vai ganhar peso.

A caminho de casa, Suzana pensou em como se sairia na função de monitora. Que inusitado! A ideia não a deixava transtornada, era até plausível. Ela não poderia prever que talvez um estágio de docência fosse a única saída viável para a futura falta de perspectiva. Sem se controlar, imaginou-se como companheira de Igor. Mudaria a forma de ser vista na firma? E sua família, de que maneira reagiria?

Afastou os questionamentos, uma vez que só importava a própria opinião. A valorização e a convalidação devem ser internas, partir de dentro de si, propensas a manter a pacificação interior. O aval das outras pessoas é somente um plus, apesar de, nem sempre, ser possível se portar desse jeito.

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