VALORIZAÇÃO – Camila

Ele tinha percebido que ela estava de más intenções. A roupa estava mais vistosa, bem provocante. A blusa era mais decotada, de várias cores, puxando para o vermelho. Camila tinha escovado o cabelo, exagerado no perfume e se valido da calça mais apertada, a fim de arrebitar a bunda. De qualquer jeito, iria seduzi-lo. Trazê-lo definitivamente para seus braços era a meta.

Enquanto organizava a agenda da semana que vem, ela se questionou se havia exagerado, tanto no visual, quanto na postura. Não era seu feitio se jogar em cima de alguém. Pensou em Suzana. A prima tinha conseguido influenciá-la? Não tinha esse costume ousado. Contudo, desde o fiasco com André, a busca por alguém a ocupar-lhe o coração tinha se tornado desesperadora.

Alguém consegue tomar o lugar cujo dono ainda se mantém presente? Como alcançar e usufruir a posse, se o titular continuava estabelecido? Camila tinha uma meta: achar alguém que tirasse, à força, seu desejo pelo professor. Servia qualquer indivíduo, menos mulheres. Ela gostava pra caramba de homens.

Ao escutar a campainha, demorou a acreditar no que via. Suzana estava do outro lado do vidro, acenando:

– O que você está fazendo aqui, mulher? – Camila questionou a prima. – Eu estava pensando em você.

– Por quê?

– Eu estava… querendo saber… – Camila se embolou pela vergonha. – Uma ajuda, você poderia me… me dar uma mão, quer dizer, um conselho. Mas e você? Está perdida?

– Vim pegar um projeto e passei para te ver. Rola um lanche? Aqui embaixo? Posso te ajudar.

– Bem rapidinho? – Camila determinou.

Assim que avisou Leo e fechou a porta, Suzana parou a prima e a olhou de cima a baixo:

– Você vai aonde com esse visual?

– Eu estou programada para aprontar hoje. – Camila anunciou, adentrando no elevador.

– Que delícia! Posso ir junto?

– Claro que não! Eu vou laçar uma pessoa.

– Menina, o que deu em você? Está totalmente se jogando. Adorei. Posso saber de quem estamos falando?

– Do meu chefe, o Leo!

– Exatamente o que você vai fazer com ele? – Suzana fez uma cara de espanto e de negação.

– Vou jogar um charme antes de irmos embora. Tenho certeza de que vou ficar com ele naquele consultório, hoje à noite.

– Camila, não faça isso. Eu te peço.

– Por ele ser meu chefe? Olha quem fala! Não é você que é doida para dar para o Igor dentro de uma sala de trabalho?

Suzana ficou desarmada. Camila sentiu-se superior. Era muita hipocrisia:

– Eu só falo pelo seu bem. Eu sei dessas coisas. Nada de interessante vai vir, ainda mais com o Leo.

– Você não conhece ele! Meu chefe é ótimo. – Camila saiu do elevador batendo os pés com força.

Até chegarem à lanchonete e fazerem seus pedidos, permaneceram em silêncio. Sozinhas, um pouco depois, Suzana retomou o raciocínio:

– Sei que você não quer que eu me intrometa. Sei também que eu deveria ser a última pessoa a lhe dizer isso por tudo o que fiz. Mas eu te peço. Não avance nele. Nada vai acontecer e você vai ser arrepender.

– Por acaso, você já ficou com ele para saber? Como você pode dizer isso se não sabe quem ele é?

– A irresponsabilidade custa caro. Quando envolve sexo, pior fica.

– Suzana, o fato de você ter se envolvido com tantos homens não a faz uma grande entendedora.

– Então, está bem. Só me conte depois!

O resto do lanche entre elas foi frio e superficial. Não estavam com vontade de fofocar, nem contar qualquer novidade.

O passar do dia foi deixando Camila mais agitada. Não sabia se conseguiria ser capaz. Com a mão segurando o queixo, pensando como agarraria Leonardo, percebeu metade de seu reflexo na tela do computador. Não se reconhecia de verdade. Ajeitou a sobrancelha, fisgou o próprio olhar.

Refletiu sobre os rumos da vida. Mudamos muito rápido. Deixamos de desejar, desejamos o impensável. Podíamos ser mais estáticos e determinados. Não somos parecidos com os insetos, mas constantemente mudamos nossa carapaça. A diferença é que nosso processo ocorria internamente:

– Nem creio que o dia acabou! – Leo surgiu na sala, jogando-se no sofá e esticando as pernas. Camila tomou um susto. – Minha última paciente acabou de me ligar no celular para desmarcar.

Ele deu um sorrisinho. Camila respondeu da mesma maneira. Ela não teria coragem de agarrá-lo no ambiente de trabalho. Definitivamente precisaria de um drinque antes:

– Leo, eu estou meio livre agora. Quer tomar algo?

– Ótima ideia! – ele se levantou num pulo e deixou a sala de espera. Ela achou que ele fosse buscar as suas coisas. Começou a fechar os programas do computador.

Sem entender, Camila se surpreendeu mais uma vez com o chefe parado na soleira segurando uma garrafa de vinho tinto:

– Você se importa de tomar em copos?

– Nem um pouco. – ela respondeu desacreditada.

Os dois ficaram no sofá, bebendo e debatendo trivialidades. Ele contou passagens da faculdade, Camila revelou suas dúvidas. Cada vez mais se aproximavam, porém, como ela descobriria minutos depois, por motivos diferentes. A garota achava que Leo estava caído por ela, que o tinha conquistado.

Durante uma risada dele, ela se inclinou, apoiando a mão direita no ombro dele. Com a outra, puxou a cabeça do dentista e tentou beijá-lo. Os lábios se recostaram:

– O que você está fazendo? – Leonardo gritou, em pé. Transparecia estar enfurecido.

– Eu… achei que a gente… podia se aproveitar, ou melhor, aproveitar mais.

– Por que, Camila? Mesmo sendo seu chefe, nunca lhe dei liberdade para tanto.

– E agora? Toda essa conversa mole? O vinho? A aproximação? Medo de assédio sexual? – Camila queria diminuir a própria culpa.

– Você entendeu errado. Somos amigos.

– Entendi. Você é igual todo mundo, é uma outra versão do André! – Ela estava alterada. Deixou a emoção fluir. – Só muda a profissão. Os dois têm medo das pessoas, não é? Do que as pessoas vão dizer, quando souberem que um namora uma aluna, enquanto o outro fica com a secretária! Vocês são receosos com a reputação, não é esse o motivo?

– Claro que não! – Leonardo olhava para ela estupefato.

– Então é por minha causa, pelo meu corpo feio e grande? Vocês sabem que sou bonita, só não sigo um padrão de beleza magro! Por isso, me renegam.

Leonardo continuava pasmado. Ele voltou a se sentar. Antes que Camila caísse no choro, pegou o rosto dela e disse:

– Não é por isso. Eu sou gay.

Automaticamente, Camila colocou as mãos na boca de susto:

– Me desculpe. – disse ainda com os lábios tapados.

– Eu deveria ter falado antes. Eu até que queria, mas a gente não estava tão próximo assim. Como as coisas se misturaram agora, tive de revelar.

– Ai, me desculpa. – Camila estava morta de vergonha. Ela abraçou as coxas, enterrando a cabeça nas pernas:

– Deixa disso, não se martirize!

– Eu sou uma besta. Nunca poderia imaginar que você fosse gay. Cheguei até a me arrumar especialmente para te seduzir.

Eles se olharam por dois segundos e explodiram de rir. Riram muito. Se abraçaram para selar aquela amizade já concebida:

– Deixa eu te falar uma coisa. – Leo soou o mais honesto. – Ainda não sei o que aconteceu com esse André, mas nenhum homem pode ditar quem você é, o que deseja, o que sonha. Qualquer relacionamento tem de ser… complementador, não norteador. Não quero que você se duvide, ou se desacredite por causa de um cara. Eles não merecem tanto holofote. – ele brincou.

– Posso? – Camila fez biquinho.

– Esse beijo pode!

Camila deu um estalo no rosto dele:

– E vamos continuar a beber em outro bar! – Leo convidou. – Quero saber desse André, vou te contar minha recente separação dramática. Só tem uma coisa: é um bar aonde só vão gays, então, estou pensando só em mim.

– Quem disse que não posso recuperar um homossexual? – ela brincou.

– Convencida! Quem dera pudéssemos mudar as pessoas… Mas boa sorte! Pelo preconceito da minha família, eu seria o primeiro a mudar de time com sua fórmula.

Rindo juntos, fecharam o consultório e foram se descobrir. Apesar de cedo para uma constatação e estar um pouco alterada, Camila percebeu que tinha perdido um potencial namorado, contudo, havia ganhado um amigo mais que especial.

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