REVELAÇÃO – Bianca

Num domingo produtivo, deitada na cama, com os pés para o alto na cabeceira, Bianca começava a ler ‘Orgulho e Preconceito’. Experimentava uma felicidade tranquila, embora tudo estivesse prestes a ruir. Na parte da manhã, tinha terminado ‘As Vantagens de Ser Invisível’; à tarde, estudou Direito Civil e agora se permitia ter outro momento literário.

Sem perceber, seu irmão Nei abriu a porta e ficou recostado no batente por alguns instantes. Assim que notou a presença, Bianca deu um salto, colocando-se sentada, na cama. Ele sempre colocava medo. Com os braços cruzados e o olhar frio, só piorava a percepção:

– Vida boa. – ele comentou.

– Quer alguma coisa? – Bianca pensou em expulsá-lo, mas se o agredisse, poderia ser bem pior.

– Só estou reparando em você. Como você mudou.

Incomodada, a garota recuou um pouco, com as mãos atrás:

– Tem tempo que não nos encontramos… – ele deixou no ar.

– É. – Bianca já sofria por dentro.

– Você não faz ideia, não é? – ele riu rapidamente, na certa debochando. – Descobri. Sei do seu segredo.

Bianca arregalou os olhos. Ficou petrificada. Júnior deveria ter contado ao irmão sobre a intimidade dela. Era uma tragédia anunciada, apesar do anseio fervoroso para que fosse evitado de algum jeito:

– Não tenho nada a esconder. – ela tentou ser indiferente.

– Não?! Eu teria de vergonha de ser como você é tão estranha, tão complicada.

– Bianca, o pai está querendo falar com você. – Nando apareceu ao lado do irmão. – Ele espera que todos nós fossemos para a sala.

Bianca esperou um pouco, para se recompor. Nei era muito pérfido. Ele aproveitaria o pior momento para puni-la. Se pudesse, fugiria pela janela. Era infantilidade, mas o medo revela qualquer tipo de saída.

Ao encontrar os familiares reunidos, ela se assustou com a presença da avó. Lina estava no meio dos dois irmãos, abraçando-os como se fossem pintinhos debaixo de asas. Seus pais, Israel e Patrícia, conversavam num volume mais baixo. Embora estivesse na própria casa, sentia-se uma intrusa, não sabia onde se sentar:

– Você não vai crescer mais. – Nei soltou.

– Na cadeira, filha. – Israel apontou para o móvel solitário, que a deixava como se fosse a cabeça do encontro, já que os pais estavam de frente para a avó e os irmãos.

O silêncio era reinante. Bianca avaliou cada um dos presentes. Nei estava excitado; Nando, impassível; Lina, vibrante; Israel, contrariado; Patrícia, encurralada. Vontades conflitantes cruzaram a mente dela. Queria perguntar, ao mesmo tempo em que só ansiava por ficar calada:

– Como… – O pai pigarreou. – Como estão os estudos? Bem?

Bianca balançou a cabeça afirmativamente. Aonde eles queriam chegar? Mais uma vez, ela desejou pedir que adiantassem o assunto, na mesma intensidade em que gostaria que algo surpreendente ocorresse e dispersasse o grupo:

– Está se preparando? Estudando para concursos como sempre? – Israel se manteve no mesmo tema.

– Claro. Não paro de pensar no futuro.

– Isso está muito claro! – Nei debochou.

– Eu falo! – O pai foi rígido. – Você tem ficado à tarde fazendo o quê?

Mesmo somente com perguntas sobre o futuro acadêmico, Bianca, em momento algum, suspeitou sobre o motivo daquela reunião. Ela estava com Junior na cabeça, impedida de conjeturar a verdadeira descoberta:

– Estudando. – ela respondeu bem baixo.

– O quê? – o pai perquiriu.

– Israel, por favor, seja mais direto. Isso está muito… – Lina buscava uma palavra.

– Chato? Enrolado? – Nei ajudou.

– Você vai ter coragem ou não? – a matriarca indagou seriamente.

Os três netos se assustaram com a ameaça, com o ar inquisitório emanado de maneira direta e explícita. Israel não se moveu. Lina se levantou. Abriu a bolsa e tirou um maço de notas. Foi até Bianca. Jogou o dinheiro em cima dela. A garota segurou-se firme nos braços da cadeira. Não compreendia:

– Você fez por dinheiro? Seu afronte à nossa empresa foi por causa de grana? Aqui está! Ou está faltando algo? – A avó não gritava, mas falava bem forte.

– Eu não compreendo. – Bianca praticamente se desculpava.

Patrícia deu um cutucão no marido. Ele estava tão chocado como qualquer um:

– Onde você estava com a cabeça, Bianca? – Israel se levantou, mas ficou atrás da mãe. – A firma onde você faz estágio já moveu vários processos contra os Bersani’s.

– Pensou que nunca iríamos descobrir? – Nando perguntou, apontando para si e para o irmão comparsa.

Mais uma pancada no íntimo da garota. Ela, então, havia sido ingênua? Sua contratação pelo doutor Armando teria sido intencional? A falta de experiência indicava isso:

– Eles nunca falaram nada, nunca comentaram. – Disse mais a si mesma, sem encarar os familiares.

– Pelo amor de Deus! Eles vão te usar. O seu estágio é uma peça de ataque a nós. Você se deixou seduzir como uma…

– Boba? Otária? Idiota? – Nei completou, com prazer, a avó.

Todos os olhares se voltaram para ele. Enquanto isso, Bianca se levantou e foi para trás da cadeira. Ela se posicionou de costas para todos. Sentia-se encurralada, desvalorizada, desacreditada:

– Você sabe o que vai ter que fazer. – Lina afirmou. Bianca gelou ao sentir o sopro de palavras em sua nuca. – Nunca mais voltar lá, acabar com esse estágio. Aceitar a viagem de seus pais como desculpa.

– Nunca! – Bianca se virou rápido e enfrentou todos. – De jeito nenhum! – Ela estava tomada por uma força descontrolada.

– O quê? Você está afirmando que não vai sair? Que vai ficar como está? Minha vontade é de te dar um tapa para te acordar.

– Dá, então! – ela enfrentou. – Mas eu não deixo o meu estágio. Estou no Direito de Família. As ações contra vocês devem ser empresariais. Não vou me meter nesse assunto. Dá para separar totalmente.

– Só se for em seu mundo de sonhos. – Nei interpôs.

Bianca resolver sair em retirada. Se ninguém ia defendê-la, preferia ficar sozinha. Lina agarrou-a pelo braço e a sacudiu. Todos se retesaram. Ninguém se mexeu:

– Resolveu ser criança de novo? Fazer birra? Você vai ter que honrar nossa família, me respeitar. – A matriarca dizia e aumentava a intensidade como apertava o braço da neta, que não sentia nada.

– Eu devo ter respeito? Baseado em quê? Você nunca me respeitou. Você sempre me odiou. Acho ótimo estar num lugar onde você não submete seu poder. – Bianca processou todos os argumentos. – Me arrependo de não ter feito isso antes. Fiquei perto demais de vocês e me intoxiquei. Não quero precisar daquilo que vocês querem me obrigar. Vou chegar aonde bem quiser, do meu jeito, sem qualquer interferência.

– Você não me conhece. Eu vou fazer você sair de lá. – A avó soava certeira.

– Vou esperar. Trabalhando. Aprendendo. Ganhando meu próprio dinheiro.

As duas se encararam. Se enfrentaram. Se odiaram. Lina soltou-a:

– Eu vou com vocês na viagem de férias. Vamos nos divertir muito, meus netos. Tomarei o lugar dessa desalmada. Nós não vamos para o Chile. Iremos à América do Norte. Acho o Canadá lindo. Eu vou providenciar…

Bianca abstraiu às palavras de despeito de sua avó, já que seu maior sonho era ir aos Estados Unidos.

A descoberta de seu estágio secreto fora bem pior do que imaginava. Antes de fechar a porta do quarto, o pai apareceu em frente a ela:

– Por mim. Por mim, eu peço. Deixe esse escritório.

– Em troca de quê? O que eu vou fazer? Por incrível que pareça, eu despertei, me encontrei. Eu me fiz ser reconhecida, vista, notada. Se vocês tivessem me enxergado e me levado em consideração, talvez eu estivesse em outro caminho. Só o que querem é me arranjar um casamento. Agora que comecei a ser independente, não quero mais parar. Passei a amar o campo de família.

– Direito de Família? Pensava que você sonhava em ser juíza. Não quer ser funcionária pública?

– Mudei. Olha que inusitado! Talvez eu possa fazer mudanças nas famílias dos outros, porque não posso fazer na minha.

Israel não podia rebater. Ninguém obteve sucesso tentando controlar os Bersani’s. No entanto, ele viu uma fagulha dentro da filha. Seria um pecado apagá-la, apesar de os dois saberem que as próprias situações atávicas se mantinham firmes e persistentes.

De repente, Bianca começou a chorar naturalmente:

– Por que as coisas têm que ser assim?

Israel abraçou a filha e beijou o topo de sua cabeça:

– Você, como futura advogada, sabe melhor que eu. Tem que se seguir as formas e os jeitos de se proceder. Uma vez ou outra, conseguimos ludibriar o caminho que foi traçado sem termos ciência dele.

Israel também chorou, porém em silêncio, pois queria confortar a filha. Não precisaram dizer mais nada.

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