REVELAÇÃO – Camila

– Professor, dá licença? A aluna Camila Bersani pode me acompanhar até a coordenação?

Ela olhou para o material, para o quadro e para o professor, antes de focar a funcionária. Todas as atenções se viraram sobre ela. Arriada, deu um salto na cadeira e se dispôs a caminhar junto da mensageira.

Passando pelos corredores, Camila não compreendia aquele pedido da coordenação. Não tinha qualquer pendência, nem tinha se submetido a algum problema. Ou teria? Esquematizou uma pergunta de sondagem, mas rapidamente chegaram à pequena sala de destino.

Assim que a porta foi batida, ela se espantou. Além do coordenador, dois professores, um homem e uma mulher, de períodos avançados estavam presentes. Todos se cumprimentaram, só depois ela se sentou:

– Camila, é um assunto delicado. Porém, não podemos evitá-lo. Você conhece o professor André?

Ela ficou arrepiada. Temeu com a dúvida se eles perceberam ou não sua reação. A mão da direita, da razão, agarrou a da esquerda, da emoção. Camila mordeu os lábios. Apenas balançou a cabeça, assentindo. Não olhou para os outros dois professores, apesar de sentir a vibração gélida deles:

– Não sei se você soube, mas há algum tempo, houve suspeitas de que ele teve um envolvimento com uma aluna. Ela era orientanda dele. Ao que parece, foi um mal entendido. Eles se afastaram e nada além se sucedeu.

O coordenador fez uma pausa. Recostou-se na cadeira, mas mantendo as mãos apoiadas na mesa. Claramente, Camila se sentia numa emboscada, arrastada contra uma quina, sem poder sair. Resolveu que falaria o mínimo possível. Tudo poderia ser usado contra ela, ou melhor, contra André:

– Isso é sério, muito sério. Não toleramos envolvimentos inapropriados entre alunos e professores, sejam eles de qualquer tipo. O caso fica mais complicado por que o professor André ainda é novo na casa, está em estágio probatório.

Camila queria fingir um desmaio. Ou torceu para que André rompesse na sala e pusesse fim àquele tribunal, como se realizasse um resgate. Embora tenha brincado com o fogo, ela não estava preparada para as consequências:

– Chegou ao nosso conhecimento algo em relação a você. Nós a chamamos aqui a título de verificação apenas. Não queremos prejudicá-la, só ouvi-la. Quanto antes resolvermos isso, melhor.

Com uma coragem nascida do pavor, ela encarou um professor de cada vez:

– Os senhores poderiam ser mais diretos? O que estão buscando?

Um silêncio se instalou entre todos por um período:

– Você teve um caso afetivo com o professor André? – a professora tomou a dianteira.

Camila respirou fundo. Cruzou os braços no peito.  Tinha de ser sincera:

– Não. Não tive um caso amoroso com ele. – Não era uma mentira. Foram alguns momentos casuais.

– O professor André deu em cima de você? – o coordenador tomou as rédeas novamente.

– Não. – Rapidamente, com prazer, ela se recordou da primeira vez que ficaram. Ele não era André, ela não era Camila. Tornaram-se Anderson e Carol, totalmente diferentes e à parte da realidade:

– Vocês tiveram qualquer aproximação sexual ou intencional?

– Sim, tivemos.

O trio ficou assustado novamente. As duas respostas anteriores acalmaram. Contudo, houve um desvio significativo de volta à seriedade:

– Como foi isso? – a professora disse de maneira delicada.

– Eu preciso comentar algo tão pessoal? – Camila teve medo.

– É necessário! – o outro docente disse suas primeiras palavras.

– Algumas vezes, eu permiti um contato. Eu deixei entender que gostaria de ter algo a mais com ele.

– Você? Foi você quem tentou ter um caso com o André? – a professora queria elucidação.

– Foi. Digo por mim, pelo que senti e pelo que fiz. Eu demonstrei ter uma atração por ele. – Aquilo era outra verdade. Do tipo parcial, digamos assim.

– Por quê? Ou melhor, o que motivou você a isso?

Camila percebeu que não conseguiria ser tão efêmera e rasa na totalidade. Se as perguntas se prolongassem, teria de mentir ou seria obrigada a contar toda a verdade. Ela olhou para os próprios pés. Respirou fundo. Daria um último golpe. Pela primeira vez, entendia o significado de sacrifício: pelo bem do outro, aceitava um prejuízo a si mesma. Esse ônus valia por poupar alguém que merecia:

– Eu amo o professor André. Há muito tempo, amo ele. É errado e proibido, mas não resisti. Eu quero ele, desejo-o. Mas não podemos ficar juntos. Sei disso, sempre soube. Só não consegui evitar. Por isso, como não foi possível estarmos juntos, decidi, pelo meu próprio bem, mudar de curso. Semestre que vem, passo para a Antropologia. Já estou com os pedidos de requisição. Peguei na secretaria. Vou me sentir melhor afastada dele que ainda me faz amá-lo com muita intensidade.

Como um zumbi, Camila deixou a coordenação. Caminhou devagar até a sala de aula, entrou, juntou os materiais e saiu do prédio das Ciências Sociais. Afastada, ligou para Eulálio. Pediu que a encontrasse:

– Camila, que cara é essa? – ele a abraçou, ela não respondeu ao contato.

– Eu explico depois. Você me faz um favor? Agora? Se eu for à secretaria e pedir os papéis de mudança de curso, pode ficar muito suspeito. Tem que transparecer que eu já estava intencionada. – ela disse mais para si própria.

– Você pode me explicar o que aconteceu?

– Não agora! Depois! Vá na secretaria e peça os formulários de requisição para mudança de curso. Rápido!

Minutos longos se consumiram até que o primo tivesse voltado:

– Eles tiveram de fazer cópias. – Camila segurou os papéis entregues por Eulálio, como se estivesse em transe. – Você está mudando de curso por causa do André? Você está se prejudicando por causa dele?

Ela permaneceu em silêncio:

– Que raiva! – o primo explodiu. – Tenho um teste agora. Vou chamar Bianca.

Camila só pensava em ir para casa. Foi caminhado lentamente pelos corredores, em direção ao ponto de ônibus. Antes, quando quis André perto, ele não apareceu. Agora, com tudo encerrado, ele surgiu de frente a ela. Estava bem bravo:

– O que você fez?

– Para o seu bem, é melhor não ser visto perto de mim. – Ela tentou se desvencilhar, ele se manteve, bloqueando-a.

– O que você falou?

– A verdade!

– Como? – ele se espantou, alterando o tom de voz. – Eles me inocentaram, sei lá. Terminaram a sindicância sobre meu segundo caso de assédio!

– Eu apenas expus o que aconteceu na minha percepção. – Cada palavra proferida machucava mais a garota.

– Eu preciso saber o que eles perguntaram, o que você respondeu, se…

Camila precisava encerrar o envolvimento. Saiu em disparada, correndo pelos longos corredores. Ele se pôs atrás. Ambos voavam velozmente, desviando-se. Sem rumo, Camila subiu uma escada, caindo num segundo andar. Ficou encurralada num canto escuro. Ela arfava, de medo e paixão, com a aproximação de André. Não queria ser questionada. Doía:

– Por que você fez isso? Por que me inocentou? – eles ficaram cara a cara.

– Não é óbvio?

– Você não precisava. – André estava enfurecido.

– Eu tinha de te proteger! Não podia deixar que te prejudicassem.

– Você não devia! Por que você mentiu?

– Eu disse a verdade! – Ela gritou. Aquela constatação foi o pior choque. – Você não entendeu ainda? – Camila segurou o choro. – Eu não menti em momento algum. Só disse a verdade. Sim, eu desejo você. Sim, eu me aproximei de você diversas vezes. Sim, eu quero trocar de curso. Sim, eu amo você.

André avançou mais. Camila recuou e virou o rosto. Assim que ele esticou o braço para tocá-la, ela o empurrou:

– Acabou, André. É o nosso fim. Me deixa!

Ela andou mais rápido a princípio, depois correu. Escondeu-se no ponto, desejando por um ônibus. Também ansiava para que André não aparecesse:

– Camila? Onde você estava? – Bianca sentou-se ao seu lado.

– Me leva para casa? Eu só quero meu quarto. – pediu.

As primas se abraçaram. Durante o trajeto todo, ficaram juntas. Camila estava entorpecida, enquanto Bianca se segurava para não afobá-la com perguntas. Quando chegaram em casa, Camila soltou o choro, amparada pela prima. Nas histórias, não se comentava a dor interna daqueles que se sacrificavam. Sobressaiam os atos. Os sentimentos pesados e pesarosos eram omitidos. Talvez por serem demasiadamente sufocantes.

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