REVELAÇÃO – Suzana

Duas buzinadas e Eulálio veio correndo. Ele estava de terno, totalmente impecável:

– Muito obrigado por vir nos pegar. – Ele deu dois beijinhos em Suzana. – De moto, minha mãe não iria. Ela já está vindo.

– Eu que agradeço. Não queria chegar sozinha nessa festa.

– Não sei o que deu na minha mãe. Ela não gosta de se misturar com os Bersani’s. De repente, fica toda animada com a comemoração íntima de aniversário da empresa. Eu nem queria ir.

– Todo mundo está tão envolvido com coisas sentimentais. – Ela pontuou, sem se incluir. – Nem Bianca ou Camila estavam animadas a ir. Elas vão empurradas. Falando nisso, como está a vida de solteiro?

O primo refletiu um pouco. Ele não tinha intenção de conversar:

– Lio, você tem que parar com isso. Você é tão fechado. Por algum motivo bobo, você nos deixa de fora. Queremos te ajudar, dar um apoio. O que motivou o término repentino?

– Eu vi Catarina. Aquilo me abalou muito. Só que ela está totalmente inacessível. E eu gostava da companhia da Sheila. Eu só perco as estribeiras quando penso ou vejo a Catarina.

– Suzana! Você é um anjo.

– Você está bonitona, Dona Teresa. – Suzana se virou no banco para beijar a mãe de Eulálio, assim que ela se sentou no banco de trás.

No caminho, os três conversaram trivialidades:

– A última vez que compareci ao jantar de família pelo aniversário das empresas dos Bersani’s, Eulálio deveria ter uns cinco anos. Foi horrível. Todos me viam como uma intrusa. Bem, ainda vão me olhar assim, sempre.

Suzana expiou pelo retrovisor. Sempre tem um preço a ser pago quando não condizemos com as expectativas alheias? Ela ia descobrir mais tarde que as pessoas querem determinar os outros, baseando-se no exterior. Com isso, todos se decepcionam, se machucam e não se entendem. Se fossem mais honestos, caridosos e receptivos, a harmonia poderia ser mais recorrente. Cada um quer moldar seus parceiros, sem se importar que eles sempre têm automotivações.

Pelo nome, o jantar íntimo deveria ter número reduzido de pessoas. A princípio, apenas os parentes poderiam comparecer. No entanto, o evento alcançou tanto status e se tornou mais um jogo de poder. Passou a ser impossível barrar a elite da cidade, os amigos e os fornecedores. O festejo sempre acontecia uma semana antes da principal solenidade comemorativa da empresa, na casa de Dona Lina:

– Cumprimentaram a nossa amada anfitriã? – Suzana encontrou as primas num canto afastada da varanda.

– Minha mãe me obrigou. – Camila respondeu.

– Eu estava com meus irmãos. Segui o fluxo. – Bianca disse sem ânimo.

As duas de preto contrastavam com o amarelo ovo do vestido de Suzana. Eulálio apareceu logo em seguida com um garçom a tiracolo:

– Vamos beber, primas! É a forma de desafogar.

– Falou a minha língua. – Suzana bateu palmas.

Camila relatou o ocorrido com André, como se sentia mal pela descoberta na faculdade do rolo entre eles. Ela não estava preparada para um fim tão inusitado:

– Você foi muito corajosa. A forma como você conduziu… – Bianca expressou o sentimento coletivo.

Eulálio contou o encontro com Catarina. Tentou explicar os sentimentos conflitantes que sentia por ela e pela ex. Disse que precisava ficar sozinho, mas estava tão confuso:

– Eu escutei uma coisa. – Bianca estava falante demais. – Nei e Fernando chamaram ela e o namorado. Mas Catarina alegou que não podia vir por causa de estudos. Será que ela está te evitando?

O primo ficou triste e alegre ao mesmo tempo. Ele recebeu um abraço coletivo. Naquele momento, eles apenas sorriram. Era boa e verdadeira a ligação entre eles:

– Eu estou cansada de ficar em pé. Podemos sentar num banquinho perto da piscina? – Camila propôs.

A caminho, Suzana se recordou de algo que a incomodava:

– Tio Cristóvão está na festa?

– Não. – Eulálio respondeu. – Ele só vem semana que vem. Está preso em viagem.

– Que loucura foi aquele aniversário dele. – Bianca comentou.

– Sem comentários, por favor. – Camila disse repentinamente. – Escutou Suzana? – A prima não segurou o riso.

– Camila, você sabe que o Maurício não para de me perguntar por você. Por que não investe?

– Não consigo ser como você. – ela disse, sentando-se. – Não estou condenando, mas não vou me aproximar do Maurício para esquecer o André.

– Por que estamos sempre fugindo? – Suzana perguntou.

Ninguém respondeu. Eles ficaram olhando a festa, os convidados, o clima de polidez e ostentação ao redor:

– O pior é fugir de si mesma. – Bianca disse timidamente. Os três suspiraram.

– Que encontro! Chamem o fotógrafo. – Nei apareceu junto de Sandro e Fernando.

– Os sete primos juntos é algo raro. Vamos chamar a vovó para essa foto histórica! – Sandro debochou.

– Não sabia que você era bem-vindo, Eulálio? – Nei atiçou. Bianca segurou o braço de Lio de uma maneira imperceptível.

– O que vocês querem? – Suzana tomou a dianteira. – É uma foto? A gente faz no meu celular agora. Assim, podemos curtir esse evento livres uns dos outros.

– Ah, esqueci que você tem uma meta a bater, não é prima? Pra quantos homens você vai dar hoje? – Nei alfinetou. – Eu me esqueço do seu ideal de vida.

– Você morre de inveja, não é, Nei? Mesmo sendo mulher, eu sou muito mais pegadora que você. Que coisa, não? Perdeu pra mim.

Os três tinham ido provocar Eulálio. Nei teve um descontrole repentino. Suzana o fez desviar o foco para ela. No entanto, ele ia conseguir atiçar também o primo bastardo:

– Eu alio quantidade e qualidade. Você está a fim apenas de números e, por isso, se rebaixa. Sabe a verdade? Eu tenho nojo de ter ficado com você, de ter ido para cama contigo! – Nei esbravejou.

– Eu é que devia ficar envergonhada. Você é péssimo, um animal bruto.

Aquela revelação foi chocante para Eulálio, Camila e Bianca. Tinha mais:

– Você está tão acostumada que nem aprecia o que é bom. – vangloriou-se, de braços abertos. – Fico pensando qual é a nota que você deu ao babaca do bastardo.

– Eu nunca fiquei com Eulálio! – Suzana defendeu-se.

– Nunca? Ah, por ele ser gay! Está explicado. Sempre achei que ele fosse um viadinho. – Bianca apertou mais forte o braço do primo. – Esse é o único motivo, pois você me pegou e pegou o Nando. Você gosta de pessoas da família, estou sacando agora. Aposto que você pegou o tio Cristóvão também. – Suzana ficou nervosa. – Só não pegou nossos pais por serem mais velhos, certo? Ah, e não pegou o Sandro só porque ele é seu irmão.

Bianca não se controlou. Deu um salto e se colocou cara a cara com o irmão:

– Nei! Cala a boca! Você é um escroto. Que indelicadeza, seu ridículo. Sai daqui.

Sem ter medido a força, Bianca deu um empurrão em Nei, que inesperadamente perdeu o equilíbrio. Ele tentou se segurar no irmão, mas ambos foram parar dentro d’água. Enfurecidos, xingavam a irmã. Assustada, ela saiu correndo para dentro da festa. Nesse ínterim, Camila e Sandro riam, enquanto Eulálio encarava Suzana:

– Você nunca… me quis? Eu nunca fiz seu estilo… Por quê? O que tenho eu de errado?

– Eulálio, eu não sei explicar isso.

Insatisfeito, ele também se refugiou na festa. Os irmãos molhados pediram que Sandro fosse dar um jeito, que ele buscasse uma toalha:

– Por eles, você faz tudo, dá tudo. – Suzana disse, fazendo-o parar. – Eu sou sua irmã e nunca percebi qualquer carinho ou ajuda sua. Nessa confusão toda, o que me entristece é que você não me defendeu. Você aceitou o julgamento deles. Você concordou. Logo, você, que é meu irmão. Não esperava… Nós somos dois estranhos, Sandro.

Ela se levantou e tomou o caminho do estacionamento. Camila a acompanhou:

– Eu vou embora. – Suzana anunciou.

– Eu nunca quis vir pra cá. Quero ir embora também dessa festa chata. Não estou a fim de comemorar nada.

Dirigindo velozmente, Suzana não queria comentar nada:

– Eu não tenho irmão. Não sei como você se sente. Mas… Você pode compensar. Comigo, com o Lio, com a Bianca. Nós podemos ser seus irmãos.

Suzana olhou a prima. Os quatro primos conseguiriam firmar laços fraternais entre si?

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