REVELAÇÃO – Eulálio

Eulálio estava enjoado, sentia-se com náuseas. Respirava forte, tentando não focar em nada. Era em vão. A casa estava lotada, cheia de pessoas. Ele ia notando os bajuladores, os mesquinhos, os interesseiros, os esnobes. Anos de convívio tornavam-no um experiente avaliador de caráter.

De repente, bateu nele um cansaço e um desânimo. Por muito tempo, sempre orbitou por essas pessoas. Não queria mais. Teve medo de se tornar um deles, de não ser verdadeiro e completo. Não podia ser torpe e vil.

Eulálio resolveu procurar por sua mãe. Pretendia ir embora da maneira que fosse, já que não estava de moto. Ao olhar os pais de Suzana e Bianca conversando, não se sentia mais parte da família. Deixou fluir o ódio pelos Bersani’s, além da mágoa e do arrependimento por ser um deles. Definitivamente era o momento de tomar vergonha na cara e se afastar. Não adiantava ficar preso a familiares que não gostavam dele, que nem o consideravam alguém de respeito:

– Eulálio! – Bianca pegou no ombro dele. – Você pode…?

– Nada do que você possa falar vai me fazer ceder. Eu estou com muita raiva de todo mundo, até de você.

– Eu não fiz nada! Só não quero que você fique se remoendo e sozinho. Essa história da Suzana é algo que…

– Isso é o de menos. É só um pedaço do descaso que toda a família Bersani tem por mim! – ele estava falando alto.

– Primo, você está chamando atenção dos outros. Fala baixo!

– Foi você quem fez escândalo ao empurrar seus irmãos na piscina. Só quero achar minha mãe e ir embora. Pra mim, deu, cansei. Vou largar meu estágio na segunda-feira.

– O quê? Não compreendo. Onde que o estágio se encaixa na sua decepção?

– Não vou ficar mais trabalhando para as empresas Bersani sem qualquer respeito. Não vou mais rastejar. Cansei. Foda-se! Que as fábricas explodam!

Percebendo que tinha plateia, ele parou de falar. Por outro lado, claramente, Bianca juntava as peças do mistério. Ela estava entendendo tudo:

– Eulálio, você quer dizer que trabalha nas empresas Bersani? Você acaba de soltar que é estagiário lá? Meu Deus…

Bianca estava horrorizada com a notícia. Ele podia desmentir, dizer que ela tinha compreendido errado. No entanto, desistiu. Não queria mais fugir, nem ficar na escuridão:

– Sou, há mais de dois anos. Ninguém sabe disso.

– Por quê? Como ninguém descobriu?

– É um conchavo, só a diretora do RH sabe quem eu sou. Todos me conhecem como José.

– Por isso, você tinha a camisa de organizador da corrida…

– Exatamente!

– Você nunca cruzou com meu pai, meu irmão ou a vovó?

– Dei sorte. – ele sorriu, enquanto refletia sobre a farsa.

– Você não foi à festa de aniversário da empresa no ano passado. Você vai esse ano? – Bianca estava preocupada.

– Vou. Que se dane! Que descubram.

Ele deu as costas à prima e voltou a procurar pela mãe. Contudo, Bianca precisava digerir a incrível história. Era surreal demais:

– Você é muito corajoso. Está na toca dos leões.

– Só faço o meu trabalho bem feito. – ele foi simplório.

– Eu não aguentaria de nervoso. Ficaria tensa o tempo todo, sem foco.

Eulálio parou repentinamente. Bianca quase bateu nele. Ainda de costas, comentou:

– Eu fico apreensivo, mas é excitante. Eu torço para que alguém descubra logo. Eu fiz um bom trabalho, sou respeitado no meu setor. Sabia que eles queriam me contratar antes de formado? Tive de recusar.

Ela ficava mais e mais chocada:

– Você é meu exemplo, meu herói! – a prima enlaçou-o por trás. Aquilo tranquilizou Eulálio por segundos.

– Eu quero ir embora. Quero achar mamãe.

– Eu ajudo a procurar.

Os dois fizeram uma vistoria pelo local. Não adiantava perguntar, porque Dona Teresa não era conhecida. Misteriosamente, ela não se encontrava em parte alguma:

– Você percebeu uma coisa? – Bianca, quando queria, sabia ser muito perspicaz. – Não vi a vovó em nossa busca.

Sem responder, Eulálio subiu as escadas sorrateiramente. Devagar, foram caminhando. Um dos quartos estava com a porta quase fechada, uma fresta de luz rasgava o carpete do corredor. Os dois se aproximaram. Quando constataram que Teresa estava de costas, ele fez o sinal de silêncio a Bianca:

– Não é do seu feitio, Teresa, se prostrar a isso. Me chantagear? Logo agora, nessa altura do campeonato? É inconcebível! – Lina zombava

– Estou só apelando. Pra eu conseguir esse dinheiro que é meu por direito, tenho de chantagear. Quero que você me dê a ajuda financeira que se recusou por esses anos todos.

– Esse dinheiro, se existisse, é do Eulálio.

– Você vai ter que me dar! – Teresa foi ríspida.

– Prova que ele existiu! Prova que o banana do meu filho deixou as economias dele para o filho. Isso é rumor. Eu não vou te dar nada, porque eu não te perdoo. Gabriel morreu brigado comigo e com mágoa, por sua causa.

– Você fez a cabeça dele contra mim! – Teresa cuspiu. – Você o fez acreditar que Eulálio não era filho dele, que eu era uma piranha. Na verdade, qualquer mulher que não seja você, não presta, não vale nada.

– E o que você fez, Teresa? Esqueceu? Você deu o golpe do baú!

– Não foi assim! Você sabe que estávamos apaixonados, nós íamos nos casar. Você o afastou de mim. Eu guardo aquela carta falsa até hoje. Como foi capaz de tamanha desumanidade?

– Eu teria feito um bem a todos nós. – Lina riu. – Eu não teria que lidar com uma sujeira dentro de minha família, você teria arranjado outro homem ao invés de se segurar na lembrança de um fantasma.

– E o Eulálio não teria nascido! – Teresa disse com pesar. – Sabe por que desconfiei? Gabriel nunca iria me propor um aborto.

– Você não conhecia meu filho. Ele era centrado. Tudo de ruim que aconteceu a ele foi culpa sua. Você o corrompeu. Você destruiu Gabriel quando ele viu você com uma criança nos braços. Eu não a perdoarei…

Eulálio deixou escapar um alto soluço de choro. Bianca se assustou com as lágrimas escorrendo na face dele, e paralisou. Com o silêncio dentro do quarto, eles compreenderam que a conversa tinha sido interrompida.

O garoto abriu o quarto ao lado e se jogou para dentro. Bianca ficou branca como uma cera ao dar de cara com as duas senhoras, encarando-a:

– Uma neta intrometida! E depois dizem que jornalistas são fofoqueiros. Advogados são uma raça pior. – Lina atacou.

Bianca engoliu fundo:

– Dona Teresa, Eulálio procura a senhora para vocês irem embora. – assim que disse, ela se virou e se trancou no banheiro.

Eulálio deitou na cama e mordeu o edredom de raiva. Chacoalhava. Tinha muita coisa que desconhecia sobre sua vida. Antes de decidir que rumo tomar, buscaria todas as respostas. A verdade viria à tona, custe o que custasse. Traçaria todo o perfil da sua trajetória.

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