Retorno de 4 Primos – o início do 2º Ciclo

Seguindo a lógica de um seriado de TV, 4 Primos entra em recesso (ou hiatus) no mês de abril.

A continuação das trajetórias de Camila, Eulálio, Bianca e Suzana recomeça no início de maio.

No segundo ciclo, saberemos:

– Como ficaram os relacionamentos de Suzana e Igor, Camila e André, Eulálio e Sheila, além da solidão de Bianca;

– Os novos ataques de Lina para atingir os 4 Primos;

– As mudanças nos campos profissionais de todos;

– Outras grandes surpresas.

Em maio, o retorno do 2º Ciclo promete mais emoções e descobertas para os 4 Primos.

Anúncios

JUNÇÃO – Camila

Por qualquer espaço que andava, Camila sabia e percebia que a mãe a estava vigiando. Aquilo era insuportável de todas as maneiras. Sentia-se uma criança que não podia desapontar os pais, não podia se sujar, não podia interagir da forma como queria. Talvez o grande causador dessa ligação seja o fato de ela ser filha única. Se tivesse algum irmão, talvez as atenções fossem divididas. Mais tarde, ela iria compreender que estava absolutamente certa.

A situação não era pior por causa do pai. O que faltava, vindo de Constância, ela adquiria dele. Pedro era um parceiro. Em momento algum, tentava podá-la. Por isso, ela se aproximou. Numa roda de amigos, discursava apaixonado sobre mecânica e produtividade. Camila tinha quase certeza de que outros, além dela, não compreendiam a explicação e a genialidade do assunto.

Quando eles se dispersaram, Pedro pode desviar suas atenções à filha:

– Não está gostando? Cadê seus primos? – ele sempre soube quem eram as verdadeiras companhias de Camila.

– Estão dispersos. Não estamos muito bem uns com os outros.

– Você está com uma cara péssima. Bebe uma com seu pai?

Sabendo da desaprovação materna, aceitou prontamente uma cervejinha com ele. Foi dito e feito! De longe, Constância fez cara de zangada com tamanha parceria entre os dois. Não sabia se o pai fazia de propósito como ela. No entanto, os dois pareciam grandes amigos, numa mesa de bar. Eles riam, descontraíam e se acalentavam:

– Você sente que pertence a isso? – ela fez um gesto amplo, englobando toda a festa.

– Não. Nunca achei que faço parte. Depois que comecei a crescer na empresa, a aumentar minhas responsabilidades, percebi que ganhei mais respeito e consideração, mas não me sinto enquadrado nesse universo.

– A gente passa tanto tempo ao redor da família e da empresa. Apesar disso, não é certo nos sentirmos tão afastados, tão estranhos.

– Ah, filha, abstrai. A pior falta de consideração é o desprezo. Eu não deveria te falar isso, mas… – ele se inclinou para mais perto. – …se você se importar muito com o juízo alheio, acaba não vivendo. Se eu tivesse dado ouvido aos outros, não teria… me casado e você não estaria aqui.

Camila sorriu. Era uma declaração linda. Seria a primeira da noite:

– Eu já sofri muito com sua avó. Pode não parecer, mas ela me atormentou também. Sei o que vocês passam. Talvez eu tenha sido o mais errático de todos os filhos dela. Mesmo quando o Gabriel engravidou a Teresa, não perdi o meu posto de pior. Eu era simplório, não ligava muito para essa vida que ela queria nos forçar a ter.

– Sou um pouco assim… – ela revelou.

– Eu já percebi isso. – ele sorriu. – Sofri tanto antes de você nascer. Sempre achava que não ia dar certo de novo.

Camila fez uma cara branca. Pela primeira vez, percebeu que a comunicação com o pai estaria aberta para um assunto sempre camuflado. Ela desconfiava que algum segredo rondava o seu nascimento. Não demonstrou muita ânsia em saber, a fim de não despertar Pedro perante o tema proibido:

– Por sua mãe, nós teríamos tentado mais. Só que eu estava cansado de tanto aborto. Foram quatro antes de você. Honestamente, eu tinha medo de perder Constância. Era tanto sangue, tanta dor, tanto desapontamento. Ela se forçava e não obtinha êxito. Você é nosso milagre. – ele sorriu e estendeu a mão até o rosto dela. Camila roçou os dedos do pai nas bochechas.

– Eu não sabia que era uma dádiva…

– Seu sangue foi o verdadeiro milagre. Você é do tipo negativo. Os outros não eram. Sua mãe passou a todos eles eritroblastose. Sabe o que é?

– Não me recordo.

– Constância teve contato com sangue positivo antes, numa cirurgia que fez quando garota. Ela é negativa. Por isso, produziu anticorpos. Os bebes sendo Rh positivo eram afetados. Era um tipo forte, ela ficava internada por longos tempos. Todos eles eram homens, acredita?

– Sério? – Camila sabia o quanto um descendente masculino era valioso no meio dos Bersani’s.

– Sim. Eu quis assumir a culpa. Queria inventar alguma doença genética, tipo hemofilia… – ele bebeu mais um gole de cerveja.

Parecia que o assunto tinha se encerrado. Camila ainda pulsava com muitas dúvidas. Resolveu arriscar. Esse movimento seria certeiro:

– Vovó culpou minha mãe. – ela afirmou para dar a entender que sabia de algo.

– Claro. Ela nunca deixou Constância se esquecer do problema. Atormentava, soltava indiretas. Era muito difícil. Eu me contorcia por dentro de raiva. Aos poucos, minha mãe substituiu os comentários pelo olhar. Ela passou a mirar Constância de maneira a deixar claro que nunca esqueceria, que sempre a culparia. Era uma agressão velada e direta. Sua mãe queria continuar tentando outros filhos. Eu não deixei. Eu evitei o sofrimento físico naquele momento, mas não pude prever o sofrimento moral que ela teria de carregar. Na minha opinião, só uma pessoa foi mais destratada pela sua avó do que a Constância: Eulálio, seu primo.

Camila ficou pensativa. Era tanta informação nova. Por mais que não tivesse culpa, sentia-se um fardo para os pais. Apesar de ter sido uma sobrevivente, também se sentia defeituosa como os irmãos perdidos:

– Eles tinham nome? Tiveram nome? – ela perguntou.

– Os dois primeiros sim. Os últimos não. Perdemos a esperança. Você só ganhou um nome quando nasceu. Não conseguíamos fazer planos.

A garota se solidarizava com aquela situação pretérita. De alguma forma, prometeu amenizar a situação. Não podia carregar tanta desfeita, ou propiciar mais angústia e pesar:

– Você está com uma cara terrível, minha filha. Eu não devia ter comentado nada, ainda mais agora em momento de festa.

A contragosto e forçado, ela esboçou um sorriso e o abraçou. A mãe apareceu naquele momento. Camila ficou feliz com a aparição e a agarrou também. Os três ficaram grudados por um longo período. No princípio, estava incômodo, mas depois perceberam o quão reconfortante era. Fazia tempos que não se expressavam sem palavras ou que verdadeiramente ficassem próximos e unidos:

– Eu preciso mijar! – Pedro cortou o clima e deixou as duas a sós.

– Dá uma maneirada na bebida, por favor. – Constância disse assim que tomou o lugar do esposo.

Em outra situação, Camila ficaria brava e responderia. Hoje não. Ela sorriu de maneira amável:

– Não entendo por que você não convidou o Leo. Vocês trabalham juntos. Alguma coisa tem de sair dessa relação.

– Mãe, acredite em mim, pelo menos dessa vez. Nunca vai rolar nada entre eu e meu chefe. – ela frisou bem as palavras.

– Que cara é essa? E cruza as pernas. Daqui a pouco, qualquer um vai ver sua calcinha, porque esse vestido…

– Obrigada. – A garota interrompeu. – Posso não compreender seus motivos, mas sei que tem boas intenções. Não irei desapontá-la.

– Do que você está falando?

– Do que você passou por mim. Se eu pudesse escolher, teria vindo como um homem. Poderia ter aliviado seu fardo.

Constância estava sobressaltada. Não queria reviver ou relembrar, muito menos com a filha.  Pedro não tinha o direito de ter revelado os transtornos passados por eles. Era um segredo que não precisava vir à tona:

– Você não precisa se importar com isso. Acabou, passou. – Ela estava embargada.

– Passei a compreender você melhor, mãe. Entendo as suas cobranças.

– Você diz isso agora, da boca pra fora. Camila, o que eu quero de você é uma coisa: seja ambiciosa. Eu deveria ter sido mais determinada e focada. Não vejo isso ao seu redor. Você não luta, você não procura, você não deseja! A pessoa ambiciosa cresce, porque quer mais, quer sempre o melhor. Ela não para nunca. Você vai trocar de curso, eu não me oponho. Só espero que você deixe de ser apática, que aprenda e se dedique. Você tem oportunidades, mas elas caem ao seu redor e você não as aproveita. Eu não quero ver a minha filha única perdida e desencontrada. Esse é meu maior pesar. Saber que você fracassou, que não alcançou, que não foi feliz.

Sem perceber, lágrimas escorreram pelo rosto de Camila. Aquilo era pesado e intenso. Continha uma verdade fulminante. Ela não conseguiria refutar ou rebater:

– Atrapalho? Acho que não. – Lina se colocou no meio das duas. Camila se virou para a frente do bar, limpando as lágrimas.

– Deseja beber algo? Eu pego. – Constância desviou a atenção da sogra por momentos a fim de que Camila se recompusesse.

– Estou ótima, embora esteja assombrada. Camila, mais uma vez, suas escolhas de roupas são horríveis. Seu vestido está descosturando atrás, perto da alça.

Para destacar o local, Lina fez questão de puxar as pontas e arregaçar mais a parte rompida. Camila deu um pulo do banco e se virou. Se deixasse, ficaria rasgada e pelada para o prazer da avó:

– Você não tem nenhum senso de decência. Nem parece ser minha neta. Se morasse comigo, eu vigiaria o que você come. Constância, você e ela poderiam fazer uma dieta.

– Nós vamos entrar na academia, não vamos, filha?

Camila queria dar uma resposta para a avó, no entanto, se conteve. Perto da mãe, teria mais respeito e seguiria as regras dela:

– Claro! Já sei em qual podemos ir. Lá, teremos muita aula de aeróbica. Vamos nos divertir e queimar muitas calorias. – Camila não estava mentindo, andava interessada em cuidar mais do corpo.

Lina, por outro lado, esperava alguma reação da neta. Assim, poderia rebater. Ela ficou sem saída:

– É lindo ver duas filhas se darem tão bem. Graças a Deus, não fui ‘abençoada’ com isso. – disse e saiu.

– Por que ela é assim? – Camila olhou a pompa da avó pelo salão.

– Passado. É tudo uma carcaça. Lina esconde algo. Só que ninguém foi esperto o suficiente para saber onde achar. – Constância deu um beijo na filha e se retirou.

Pedro também não apareceu de novo. Por isso, Camila foi procurar os primos. Eles estavam sumidos. No andar inferior, encontrou Maurício e Sheila sentados. Ele estava disperso, embora tenha ficado alerta no momento em que ela surgiu no campo de visão dele. Já a ex-namorada de Eulálio aparentava uma melancolia tremenda:

– Onde está todo mundo?

– Sumiu. – Sheila não estava para papo.

– Estávamos quase indo embora. Eulálio não responde o celular e a gente não conhece ninguém por aqui. – Maurício respondeu.

Meio sem paciência, Camila virou as costas e voltou suas atenções para a festa. Mal se afastou, Maurício se pôs na frente:

– Camila… Você está tão… Bem, tem muito tempo que não te vejo… Eu vim por… Eu aceitei vir a essa festa por sua causa. Desde aquele dia, no aniversário do seu tio, eu… sei lá. Foi bom demais, não foi? Eu gostei de quando… Droga! Perco as palavras perto de você.

Camila se manteve em silêncio. Como queria corresponder àquela agitação dele. Se pudesse, corroboraria e se entregaria mais uma vez. Contudo, seria um erro. Maurício havia sido um substituto apenas, alguém para tentar diminuir o sofrimento e a dor. Não merecia ser ludibriado:

– Maurício, eu estava bêbada. Você também. Foi uma loucura. Apenas isso! Não consigo conceber que você tenha se apaixonado por mim naquele estado louco.

– O amor não é tão racional assim. Dá pra escolher o que a gente sente? Dá pra controlar? Veja Sheila. A razão manda ela desistir. Já os sentimentos fortes mandam continuar.

– É diferente. Eles tiveram envolvimento.

– Nós também. – ele pontuou. – Por que não nos damos uma chance? Eu posso surpreender você.

Camila suspirou. Era verdade. Pior não ficaria. Quem sabe, por uma obra do destino, ele poderia ser mais do que ela esperaria. Talvez ela devesse se permitir o improvável. A cura, muitas das vezes, está onde não percebemos. Não sabemos o quanto a solução está perto:

– Eu não posso prometer nada a você. Estou devastada por dentro, Maurício. Sofri, há pouco tempo, por alguém que gostei muito. Achei que ele fosse meu grande amor.

– Deixa eu te ajudar a superar? Eu quero tentar.

Ela o abraçou. Mentalmente, disse sim. Depois, perceberia como tinha sido uma aceitação em vão:

– Isso é maravilhoso. Eu agradeço. Vamos sair daqui? – ela sugeriu.

– O que você preferir.

– Me espera na entrada do hotel. Só vou despedir dos meus pais.

– E eu vou dar adeus a Sheila.

Satisfeita, Camila retornou ao piso superior. Agir era melhor do que se afundar na inércia. Aparentemente André também pensava da mesma forma. Ela não conseguia acreditar que ele estivesse olhando para ela intensamente e se aproximando cada vez mais. Ela parou, esperando pela chegada. Se acaso se mexesse, cairia. O professor estava lindo, trajando um terno simples. Parecia uma miragem:

– Até que enfim, encontrei você. E nem é uma festa tão grande.

– O que você está fazendo aqui?

– Precisava ver você. – ele respondeu.

– Enlouqueceu?

– Sim, por você. Sou loucamente apaixonado por você. Não consigo evitar, é maior do que eu poderia prever. É errado, mas eu não quero mais lutar contra. Quero você do meu lado. Eu te amo, Camila Bersani. Não me interessa se você é minha aluna.

– Como você entrou na festa? – Ela estava alucinada com a declaração. Não raciocinava direito, por isso, desviou o assunto.

– Eu sabia do evento pela turma do futebol da Suzana. Eu só menti. Me apresentei como Anderson, é claro. – Ele riu sem graça, ela também não se segurou. – Inventei que perdi meu convite. Disse que era um fornecedor importante e grande amigo dos netos da empresa. Citei o nome dos sete primos.

– Na ordem, do mais velho à mais nova? – ela brincou.

– Aí é pedir demais.

– E eles deixaram você entrar? Simples assim?

– Alguém resiste ao meu charme?

– Bom, eu não resisto. – Ela se aproximou dele que, rapidamente, laçou Camila pela cintura. – O que você está fazendo?

– Eu falo sério. Vou lutar para você. Não quero esconder nada.

– E a faculdade?

– Vamos dar um jeito. O que importa agora é ficar com você.

André ia beijá-la. Ela desviou, saindo de seus braços:

– Não aqui! Por favor, vamos sair.

Lado a lado, eles foram em direção à escada. Só quando chegou ao saguão, Camila viu Maurício na entrada e se assustou. Ela foi para o balcão da recepção automaticamente. Precisava se esconder. Não queria magoar ninguém. André não entendeu.

Procurando uma saída, lembrou-se das palavras de sua mãe:

– Vamos ficar aqui mesmo! – ela disse ao amado. – Nós queremos um quarto, o mais especial que você tiver. – Falou para a recepcionista.

– Eu pago, então! – André embarcou na loucura.

No elevador, eles não se aguentavam. As mãos se tocavam de leve, a respiração ficava mais ofegante. Fechavam os olhos de paixão. O ascensorista estático não percebia nada.

No momento em que as portas se fecharam, André encurralou Camila numa parede:

– Eu quero muito você.

Um beijo espetacular fez com que os dois se esquecessem de tudo. Mais uma vez, se entregaram:

– Eu também amo você, André. Amo muito.

Se não tivessem pudor, teriam feito sexo naquele corredor. No entanto, conseguiram se conter e entrar no quarto. Ao ouvir a porta bater, Camila só pensou que também estava fechando uma nova fase em sua vida. Teria refletido mais, no entanto, se jogou com força e ardor nos braços de André. Como de costume, de maneira natural e instintiva, deram vazão ao amor, sem se importar com as dificuldades e as consequências que viriam. E foi mais que sensacional, tinha sido esplêndido e fabuloso.

Fim do Primeiro Ciclo de Camila

JUNÇÃO – Eulálio

Tinha sido uma péssima ideia. Deveria ter refutado. Onde ele estava com a cabeça ao ter cedido às pressões dos colegas de setor para comparecer ao aniversário das empresas Bersani? Era ilógico o que tinha feito. Não conseguia se concentrar, pois tinha medo que descobrissem a farsa. Não sabia o jeito de se portar: como neto ou como estagiário. Ficava no meio do caminho…

Por sorte, percebeu que a festa num hotel tinha favorecido sua proteção. Praticamente as grandes e ilustres figuras foram para a parte de cima, enquanto os funcionários mais simples e ordinários ficaram na parte de baixo. Logo, todo o círculo de colegas de trabalho ou pessoas com as quais cruzava o olhar no dia a dia, estava no segundo pavimento.

Por enquanto, estava acobertado, se não fosse pela foto. Precisava se livrar daquilo. Sabia que sua avó iria destruir tão épico registro, mas tinha medo de alguém reconhecê-lo e pudesse fazer as associações.

Com um jogo de cintura e também sangue frio, alegou estar a mando de sua avó para recuperar a foto rapidamente numa mídia digital, além de apagá-la da câmera. O fotógrafo não suspeitou, estava acostumado com os demandes das pessoas ricas. Além do mais, uma pequena pausa não o faria mal. Os dois foram para uma salinha na qual estava todo o material dos serviçais da festa. Ele descarregou as fotos para um computador, pegou o arquivo e o copiou num CD. Após, apagou o registro.

Com a mídia no bolso do terno, retornou ao primeiro pavimento. Incomodava carregar no peito tamanho ineditismo. Se tivesse coragem iria descartá-lo. No fundo, fazia questão de ter algum item que atestasse uma proximidade entre os quatro e a avó:

– Onde vocês se meteram? Não acho a Bibi. – Camila juntou-se a ele.

– Não sei. Eu estava na parte de baixo. – Mentiu.

– Por quê?

– Queria ver se meus convidados chegaram. – Eulálio soltou sem querer. Não queria dar uma notícia impactante a Camila.

– Quem? Você chamou pessoas para acompanhar nossa desgraça? Não chamaria nenhum amigo para ver o quanto sou desprezada na minha própria família. Nem o Leo, eu animei chamar.

Eulálio sabia qual seria a reação dela. Então, não se demorou tanto:

– Chamei a Sheila… e o Maurício vem também.

– O quê? – Camila ficou chateada. – Eu não quero ver ele, Eulálio. Por que você fez isso? – Aparentemente os quatro primos estavam experimentando uma fase de revolta entre si.

– Eu me senti vulnerável. Eu e Sheila precisamos conversar. O Maurício vem por causa dela.

– E como eu fico nisso? Ele vai querer conversar comigo e eu não consigo. – Camila estava incrédula.

– Foge dele.

– Não! Vai ser sua tarefa, mantê-lo longe de mim. Que saco!

– Pode deixar! – ele tinha ficado chateado. – Eu fico com os dois no segundo pavimento. Você fica aqui em cima.

Assim, ambos se separaram. Enquanto descia as escadas, encontrou-se com Dona Rosa, chefe do RH e única na empresa que sabia da dupla condição dele:

– Está sendo difícil, não está?

– Está. Eu estou com medo o tempo todo de ser descoberto.

– Entendo. Acho que foi uma burrice ter aceitado e forçado sua vinda. Se Lina descobrir, aqui mesmo, ela arranja uma confusão. Talvez fosse melhor você ir embora. Eu acoberto você.

– Tudo bem. Estou esperando dois amigos. Assim que eles chegarem, eu saio.

Os dois se abraçaram. Antes de ela retornar, Eulálio a reteve pelo braço:

– Dona Rosa, obrigado. Foi uma jornada interessante. Eu aprendi muito.

– E eu me diverti um pouco.

Ele ficou vendo-a subir. Antes de terminar de descer os lances de escada, não pode evitar refletir. Entre dois locais, era como ele constantemente estava. No momento, Eulálio estava no meio, entre o primeiro e o segundo pavimento, assim como na vida também estava agarrado entre dois mundos.

Era um Bersani, mas nunca o seria completamente. Era um estagiário competente, mas não podia ser reconhecido, nem levar todos os devidos créditos. Tinha uma ex-namorada que ansiava reatar, mas não se sentia ligado a ela. Queria Catarina, mas ela era totalmente inacessível.

Tinha convidado Sheila a comparecer por puro egoísmo. Não pretendia voltar com o namoro, apesar de Maurício ter confidenciado o quanto ela desejava o garoto. Eulálio queria um escudo. Uma acompanhante permitia que ele ficasse camuflado. Poderia ficar num canto afastado, com ela, sem que os outros se importassem. Não se sentia bem com isso. Ele fora constantemente usado na vida para saber o quanto isso era ruim. Tentou se perdoar por não ter achado outro jeito de se safar dessa história absurda.

O clima da parte de baixo da festa era incrivelmente diferente. Todos estavam mais descontraídos, sem se importar com luxo e ostentação. Queriam apenas se divertir, aproveitar e sentir um orgulho que no cotidiano, às vezes, não percebiam. Rapidamente, Eulálio encontrou sua rodinha de colegas. Conversara sobre o valor daquele festejo, como a comida estava de primeira e se alguém conseguiria ficar com alguma grã-fina da parte de cima. Eles notaram o traje ultra aprimorado do garoto, mas ele não se importou.

Minutos depois, os dois amigos chegaram. Ele e Maurício se cumprimentaram de maneira contida. Com a ex, foi bem mais refreado o contato. Eles não sabiam o que dizer, nem se olhavam nos olhos.

Para quebrar o clima, Eulálio resolveu dar uma volta pelo espaço com eles. Quando iam se retirar, eles deram de cara com Lina. No momento em que ela chegou ao segundo pavimento, a atmosfera se transformou. As pessoas passaram a falar mais baixo, muitos correram para o banheiro. Todos pararam de comer. Também não sabiam como se suceder com a toda poderosa ao redor:

– Eulálio! Sabe que você fica bem nesse setor. Talvez você esteja procurando um emprego de subalterno. É isso? Por que não me falou?  Posso te indicar um lugar de faxineiro.

Maurício e Sheila se afastaram devagar e depois simplesmente deixaram os dois juntos. Eulálio sentiu o maior receio de todos. Talvez aquele fosse o momento da descoberta. Não era ainda. Com medo de comentários posteriores, decidiu por uma abordagem diferente. Ficaria feliz perante a avó. Desse jeito, poderia alegar o privilégio de ter se encontrado com a chefe pela primeira vez, ao contrário do ódio que naturalmente sempre transpareceria entre neto e avó:

– Pensando melhor, acho que quero, sim, você na empresa. Eu sempre tive aversão a isso, mas, se quiser, pode me servir cafezinho. Seria interessante.

– Eu tenho direito ao patrimônio dos Bersani. Se esqueceu? – ele ria. Aquilo a desarmou por alguns instantes.

– Eu não vou deixar que isso aconteça tão facilmente.

– O que mais você pretende fazer comigo? Eu me sinto bem mais determinado ao saber que você não consegue me derrubar. Eu sei que você queria que eu fosse abortado. – Ele manteve a alegria, embora internamente doesse proferir o óbvio.

– Claro que eu queria. – ela entrou no jogo da exultação. – Não ansiava que meu filho tivesse um estigma. Onde já se viu um Bersani com um filho bastardo da empregada? Eu tinha de evitar.

– No fundo, você se arrependeu, não foi? – ele queria ser mais esperto. – Seu filho morreu. Se não fosse por mim, ele estaria perdido. Por que é tão difícil para você aceitar?

– Isso nunca se passou por minha cabeça. Você nunca foi nada. Ainda bem que sua mãe não aceitou dar você para mim. Seria muito pior.

– O quê? – ele não conseguiu manter a felicidade. Ficara sério.

– Você não sabia? Eu pedi para criar você. Teresa não deixou. Ela é uma mulher esperta, sabia que eu faria sua vida um pandemônio.

– Qual é o prazer de nos infernizar?

Eulálio disse e se retirou rápido. Fugiu para a área acima. Mais uma vez, o sentimento de não saber o atormentou. O que mais do seu passado não tinha conhecimento? Sentia-se um fantoche, pois não pudera ser o responsável por muitas das suas escolhas e dos caminhos percorridos.

Virando um copo de uísque, nem percebeu o toque do tio em seu ombro:

– O que está acontecendo? – Cristóvão pediu também uma dose.

– Raiva… ódio… incapacidade. Não aguento mais! Odeio essa família. Minha vontade é destruí-la.

– Lio, não vá por esse caminho. Por favor. Já me senti assim. Tem coisas que são do jeito que são. Ou você aceita, ou se afasta.

– Ou luta! – ele completou. – Eu vou acabar com todo mundo que me maltratou. Eles devem ter podres e coisas sujas, vou descobrir.

– É perda de tempo e de seu potencial. Não vale a pena. – Cristóvão parou de falar, assim que Sheila reapareceu. – Sua namorada! – ele apontou, beijou a garota e saiu. Nenhum dos dois o corrigiu.

Sentados, um do lado do outro, não conseguiram dizer nada, apesar de Sheila ter repassado mentalmente todas as palavras a proferir. Eulálio não queria pensar em situações amorosas complicadas. Tinham tanto o que esclarecer e resolver, mas o panorama estava turvo demais para tal feito:

– Eu… – depois de um tempo, ela tentou. – Eu sinto sua falta.

Mais um longo silêncio, antes das trocas verbais:

– Não consigo te explicar o que sinto. Não me sinto firme, nem preparado. – ele não olhou a ex.

– Por que você me convidou para esse evento? Tenho alguma chance?

Ele se virou e a encarou. Balançou a cabeça afirmativamente. Porém, se arrependeu. Mesmo longe e um pouco tapada, ele sabia que era Catarina ao fundo, junto do namorado. Mais uma vez, suas bases balançaram. Parecia um feitiço irremediável:

– Posso só te fazer um pedido? Eu não estou com cabeça para termos uma conversa longa e verdadeira. Achei que poderia ser hoje, mas não dá.

– Eu sei. Eu percebo.

Sheila o abraçou e colocou a cabeça no ombro dele. Eulálio só desejava que Catarina não visse:

– Você quer ficar sozinho um pouco? – ele assentiu diante da proposta. – Eu deixei o Maurício lá embaixo.

Ele ficou vendo-a sair. No mesmo instante, trocou o primeiro olhar com Catarina. Um furor percorreu o corpo de ambos. Era um sentimento avassalador. Aproveitou a dispersão do namorado e fez um sinal a Eulálio. Ela saiu em direção às escadas. Depois de um tempo, ele foi atrás. Era inusitada a escolha do local para o encontro.

Catarina estava séria. Ele se portou da mesma forma:

– Eu não queria ter vindo. Com isso, eu sofro. Você, mais ainda. Você não merece, ou melhor, não merecemos.

– Eu só quero um motivo. Eu não estou mais namorando. – Eulálio requisitou.

– Mas eu a vi aqui e agora. Como vocês não estão juntos?

– Sheila veio como uma amiga. – comentou.

– Vocês devem estar iguais a nós. Estávamos terminados até antes de ontem. Agora estamos juntos, mas sem firmeza. Só conversamos e choramos, não chegamos a lugar algum. Temos tanta história juntos, fica difícil terminar. Não sei se quero acabar, se quero ficar junto. – Catarina explicava mais para si própria.

– E eu? – ele interferiu. – E se eu fosse uma opção? Não conto?

Catarina subiu os lances que a afastavam dele. Ficaram um de frente para o outro. Ela tocou a mão dele, foi subindo pelo braço. Roçou os dedos no pescoço. E parou em suas bochechas. Eulálio tocou os cabelos dela na ponta e foi subindo. Chegou numa orelha. Ele a puxou suavemente, e Catarina deu uma leve inclinada na cabeça.

De repente, o telefone tocou na bolsa. Os dois se assustaram e se afastaram. Catarina atendeu:

– Oi. Eu… estou subindo. Achei que tinha visto uma amiga embaixo, mas não era. Já estou chegando.

Desligou e sorriu com vergonha:

– Como ficamos? – Eulálio perguntou.

– Do mesmo jeito. – Ela deu um beijo rápido na bochecha dele. Por um triz, o garoto não se virou para que dessem um selinho. Se arrependeu por não ter sido ousado.

Mais uma vez, Eulálio ficou sozinho num lance de escada, entre um andar e outro. Isso estava virando um ciclo. Não sabia, ao certo, qual jeito para combater a repetência sentimental e o eterno retorno nas experiências. No entanto, tinha a convicção de que queria tentar.

Deixou o hotel sem olhar para trás. Não devia satisfações a ninguém. Por enquanto, só queria revalidar as escolhas, pensar nas maneiras de modificar sua trajetória, tentar entender os nós do passado. A única certeza era esta: iria buscar entender tudo o que sua família tinha passado. Sua missão era compreender a contribuição de cada um para sua condição de bastardo. Era a hora de odiar e atrapalhar também, ou seja, pagar com a mesma moeda.

Quem sabe desistisse desse estágio louco dentro das empresas Bersani? Quem sabe resolvesse esquecer as duas, tanto Sheila, quanto Catarina? Quem sabe arranjasse um emprego e se tornasse independente, chegando a chutar a faculdade? Eulálio não estava feliz e satisfeito. Por isso, pretendia mudar e aceitar qualquer transformação à vista. Embarcar no desconhecido podia ser aterrorizante, mas as surpresas das descobertas apresentavam-se como encantadoras e inebriantes. O desconhecido era tentador para quem não tinha nada.

Fim do Primeiro Ciclo de Eulálio

JUNÇÃO – Bianca

Bianca curtiu muito a sequência de ações vivenciadas por Suzana. Ela ria por dentro, esquecendo-se, por instantes, do temor que sentia ao vir para a festa de comemoração às empresas Bersani. A prima representava um exemplo, pois ela não aguentava mais se isolar e não poder expressar o que sentia. Havia um anseio querendo romper dentro de si e externar: o pedido de ajuda.

Queria contar aos primos o que vivenciou, relembrar toda a história com Júnior e encontrar um jeito de combater seu defeito físico. Nunca comentou com sua ginecologista, não teve coragem de perguntar os motivos da frigidez em mulheres. Será que deveria primeiro buscar por causas físicas? Depois poderia procurar um psicólogo? Só sabia que o medo de não conseguir sentir ou dar prazer barraram-na na busca por um amor. Tinha muito tempo que ela não se permitia a um relacionamento:

– Bianca, manda o Lio mudar essa cara. – Camila a tirou do mundo dos pensamentos. – Você não pode ficar bravo com Suzana pra sempre.

– Não quero falar sobre isso. – ele cortou.

– Eu já disse. – Bianca repetiu. – É um exagero brigar com ela, ainda mais por causa disso. Suzana segue o fluxo. Se ela quer alguém, ela se joga e vai. Ela pega de acordo com o que sente. Não aconteceu porque não houve clima. Não foi premeditado. – Mais tarde, ela ia repetir o mesmo discurso para outro interlocutor.

– Ah, tchau para vocês. – Eulálio saiu, deixando-as.

Camila olhou para a prima com um pesar. Não gostavam de distanciamentos:

– Vou circular por aí. Me acompanha? – Camila convidou. Ela ia aceitar, mas viu Júnior com os irmãos, no centro da festa. Ela se endureceu.

– Não. Vou ficar paradinha. É melhor.

Bianca optou por ficar sozinha e camuflada. Afinal, queria evitar Júnior pra sempre a qualquer preço. No entanto isso, não seria possível. Eventualmente ele a acharia, pois estava doido para reiniciar o tormento.

Algumas pessoas a cumprimentaram, perguntaram pela faculdade, transmitiram simpatia, e outras a ignoraram. Era normal. Bianca não era nenhuma estrela da família como seus irmãos. Eles ficavam totalmente ocupados em eventos assim. Eram requisitados, chamados e apreciados. Desde que chegaram, ficavam na parte central rindo e aparecendo. Sempre foi assim. Junto de Sandro, eram o trio de ouro. Os outros formavam o quarteto da insignificância.

Sentada em um banco, não percebeu quando Nando sentou-se próximo e longe ao mesmo tempo. Ela estranhou:

– Oi. – ele disse timidamente. Ela sorriu apenas. – Está se divertindo? – Bianca novamente não respondeu, apenas balançou a cabeça.

Quanta hipocrisia! Assim como Eulálio em relação à Suzana, Bianca não queria qualquer contato com os irmãos. Estava abalada com eles e ressentida pela forma como era tratada:

– Fico lembrando as palavras de Suzana para Sandro… Não queria que você me dissesse aquilo, em hipótese alguma. – A sinceridade do irmão despertou-a. Ele tinha toda a atenção (e surpresa) dela. – Não é correto sermos irmãos e ficarmos distantes. Quero te ajudar, saber de você…, sei lá. Não gostaria de ser negligente.

– Por que isso agora?

– Porque foi quando percebi. Somos irmãos, não desconhecidos. Acho que ser irmão mais velho serve pra isso.

– Não. Eu estou bem, não preciso de nada. – Mentiu. O que ela precisava era exatamente de uma pessoa distanciada como o irmão. Se tivesse cedido, uma boa, saudável e importante parceria teria surgido para ambos. – Dá pra resolver tudo sozinha. Talvez meu maior desafio, nessa vida, seja comigo mesmo. Eu sou o meu próprio propósito.

– Sabia que você responderia algo assim, que não precisa de tanto apoio. Você é muito egocêntrica na forma como se porta.

– E você é um capacho do Nei. – ela se descontrolou. Não seria a última vez naquela noite.

Eles se olharam. As acusações eram verdadeiras, não cabia defesa. No entanto, estavam arrependidos. Não queriam qualquer embate. Fernando realmente ansiava por se reaproximar da irmã, só não sabia como se proceder. Bianca desejava ter mais apoio em sua vida. Apesar de constrangidos, eles poderiam ter se acertado, se não fosse a aparição de Lina:

– Fernando, querido, por que está perdendo tempo aqui, com ela?

Bianca olhou brava para ele. O semblante do irmão mudou automaticamente com a chegada da avó. Tornou-se subserviente. Como um fantoche, ele respondeu com desprezo:

– Nem sei. Eu me desconcertei.

– Essa festa é para vencedores fazerem contatos. Não sei por qual motivo alguns ainda teimam em comparecer. – Lina alfinetou.

– Eu vou voltar a conversar com as pessoas.

– Querido, antes você poderia chamar o Miguel? Aquele que você conheceu hoje? Ele é a cara da sua irmã.

– Como? De novo? Achei que vocês tivessem se cansado dessa palhaçada de enfiar um casamento na minha vida. Quero ser independente.

– Essa palavra não vai constar na sua vida tão facilmente. – A avó disse de maneira forçada.

Bianca abaixou a cabeça e a sacudiu em negativa, enquanto o irmão saía para executar as ordens da matriarca. De fato, palavras não representavam nada. Elas se perdem, ganham outros sentidos na memória dos outros, ficam dispersas. É o instrumento mais fácil para atingirmos o outro, porém, é o mais fraco. Atos e gestos são mais representativos e marcantes, se tornam mais significativos. No fundo, Bianca ainda não tinha percebido que não deveria se preocupar com as ameaças.

– Sabe, eu acho que você andou perdendo a noção de quem eu sou. – Lina deu continuidade. – Eu tento fazer você se ajeitar. Todos vão sair ganhando se você se adequar. Dê uma chance a esse garoto. Ele é rico, tem boa família, é viajado. Se com essas qualidades não há garantia de sucesso matrimonial, imagina com os defeituosos.

– Quanto mais você me força, mais firme fico na minha posição em recusar. Mais desejo ficar sozinha e ser independente.

– Você ainda depende de mim. Você carrega o meu nome. Não dá para desvencilhar. Infelizmente você quer fazer dele um empecilho, ao invés de ser seu trampolim.

– Se for assim, passo assinar o sobrenome de minha mão a partir de agora.

– Isso não resolve. O ‘Bersani’ persegue e impregna. Prepare-se, minha querida, antes de você perceber, eu farei você entender o quanto é importante se encaixar na engrenagem da nossa família. Eu te dei uma chance de sair. Você não quis.

– Sair? – Bianca não compreendeu do que ela poderia estar se referindo. – Do que você está falando?

– Irmã, esse é o Miguel! – Nando chegou com o pretendente, colocando-se ao lado da avó.

Ela nem prestou atenção no garoto. Olhava Lina. Sentia que era uma guerra perdida. Sempre a avó iria arranjar um jeito de desmotivá-los ou derrubá-los. Valia a pena continuar?

Ela girou nos calcanhares e se afastou. Odiava aquela situação. Decidiu ir embora. Sem passar pela entrada principal, pois não queria chamar atenção, foi pelos fundos da festa, com a intenção de cruzar a cozinha. Sem ligar para os olhos assustados e as reclamações, Bianca foi transpondo garçons, copeiras e cozinheiros. Ao chegar numa área de descanso, em cima de uma das saídas do hotel, teve de parar com o susto de se deparar com Luca. Ele fumava. O cigarro ficou a meio caminho da boca ao olhá-la:

– Ei. – ela sussurrou.

– Oi. Você está indo embora? – Ao perceber que estava numa pose de pateta, Luca jogou o cigarro fora.

– Acho que sim, não sei. – Bianca queria ficar de papo com ele. – Precisei sair um pouco daquele ambiente.

– Você me reconhece? – ele perguntou. Ela fez cara de que não entendeu. – Você se recorda de mim?

– Claro! Da livraria. Também sei que você teve algo com minha prima.

– Suzana não me reconheceu! – ele disse de maneira triste. – Troquei meu horário na livraria só por causa dessa festa. Era uma forma de me aproximar dela.

– Por que você está me dizendo isso? – Bianca não concordava com tanto afeto em relação à prima. Sentia-se preterida mais uma vez.

– Eu servi ela várias vezes, mas ela nem se lembrou. Eu era um fantasma.

Bianca lutou contra o sentimento de consolação. No final, não aguentou:

– Não é sua culpa. Suzana é assim. Você foi só mais um. Ela não é de ninguém, é de todos. Não acho que vai existir alguém capaz de fisgá-la.

Luca relaxou ao ver o sorriso de complacência que ela transmitia. Por isso, se permitiu ser sincero com Bianca. Porém, iria cruzar uma linha complicada:

– Você me ajudaria? Você conseguiria mandar um recado para Suzana? Ou arranjar um encontro entre nós dois?

Bianca ficou revoltada. Ele estava sugerindo que ela fosse uma alcoviteira:

– Luca, você está doido? Eu acabei de falar com você para abstrair. Pra que insistir, seu lunático?! Você está perdendo seu tempo, seu ridículo! – ela gritou.

– Se você não quer me ajudar, é só falar, não precisa agredir. – ele partiu pra cima dela, estavam mais próximos, cara a cara.

– Então, abra os olhos. Deve ter outras pessoas te querendo e você não vê por causa de uma paixonite pela mulher mais libertina que conheço.

– Você deve ter ciúmes dela. Ela é bem mais bonita e consegue chamar atenção. Você é uma apagada! – Assim, começou a troca de acusações falsas.

– Olha quem fala! Você deve ser um daqueles letrados que se acha, que pode julgar a todos. O problema é que você não se enxerga!

– Você também não. Deve ser uma mimada que tem tudo na mão. Não deve saber fazer nada, não deve ter coragem para buscar o que quer.

– Não sou assim! – gritou com raiva.

Aquelas palavras foram um estopim. Eram o terror na cabeça de Bianca. Tudo o que não queria ouvir ou ser. Por isso, num impulso, ela fez o improvável. Lançou os braços no pescoço de Luca e o puxou para um beijo. A princípio, ele resistiu, depois, cedeu. Ele a enganchou na cintura. Ela enterrou as mãos no cangote do rapaz.

Eles se beijaram da maneira mais intensa e simples possível. Há anos tinham perdido o sabor de um beijo maravilhoso e desconcertante, capaz de fazê-los abstrair de tudo:

– Que escândalo! Que baixo nível!

Os dois se separam assustados. A supervisora do buffet estava incrédula:

– Eu avisei que meus garçons tinham de ser exemplares, não podiam flertar, agredir, ou brincar com os convidados. E você me traz uma ralé para ficarem juntos, nos fundos, de pouca vergonha. Você está dispensado, some da minha frente.

– Não foi culpa dele! – Bianca tentou remediar.

– Cala a boca, sua piranha. – A garota se assustou com a grosseria.

– Dobra essa língua, ela é uma Bersani! – Luca apelou, fazendo Bianca ficar possessa com a verdade. Sentia raiva do sobrenome.

A mulher ficou branca e pálida. Não acreditava na cena. Não sabia o que dizer:

– Me desculpe. Bem que me falaram que Dona Lina tinha uma neta vaga…, digo, assanhada. – ela se corrigiu. Claramente se referia a Suzana, a causadora indireta daquele evento atípico. – Eu vou sair daqui, para deixá-los mais à vontade.

Bianca queria chorar de vergonha e de ódio. Ao sair correndo, virou o pé no primeiro lance da escada que dava da área de descanso ao térreo. Ela saiu rolando extremamente rápido. Não deu tempo de Luca alcançá-la.

Desesperado, ele a pegou no colo e chegou à rua. Sem pensar, rumou para um hospital que ficava perto. Bianca aninhou-se no colo do rapaz. Esqueceu-se de tudo. Apesar da dor, a sensação era boa.

Ela foi para um quarto particular, assim que disse o nome Bersani mais uma vez. Fizeram radiografias, mas era apenas uma torção. Com medo, ela inventou e reclamou estar com muita dor. Implorou por remédios mais fortes. Desejava apagar de tudo. Os médicos não iriam ceder se fosse outra paciente. Por ela ser uma ilustre, satisfizeram seu desejo. Deram um forte calmante para dormir. Assim, ela fugiu da realidade e imergiu dentro de si própria. Ainda não estava completamente pronta pra enfrentar os verdadeiros desafios.

Fim do Primeiro Ciclo de Bianca

JUNÇÃO – Suzana

Que mulher não se admira longamente perante o espelho, ainda mais bem arrumada num vestido de gala? Por algum motivo, Suzana não se sentia confiante apesar de aparentar enorme deslumbre. Sua imagem refletida transmitia uma seriedade e uma palidez incríveis e gritantes por causa do vestido azul petróleo. A maquiagem dava-lhe um ar enigmático, e os cabelos, presos num longo rabo de cavalo, aumentavam a rigidez apenas aparente.

Estava cansada de tantos golpes da vida, necessitando de um período para ficar parada. Em pouco tempo, tinha mudado tanto e experimentado novas formas de pensar. Sentia-se diferente, em transformação. De algum modo, sem perceber, dera início a um ciclo de mudanças. Amedrontava-se com a ausência de noção sobre para onde estava encaminhando. Suzana não sabia que estava no meio de um processo de consolidação. Só depois de vencida essa etapa, poderia sedimentar sua essência:

– Cada vez mais acho você parecida comigo. – Valéria colocou-se atrás da filha. Suzana riu com o comentário.

Elas ficaram se olhando e se avaliando. Era inegável que fisicamente não se assemelhavam, a começar pelo fato de a mãe ser morena, enquanto a filha sempre fora loura. Suzana tinha um porte altivo, arredio, determinado e expansivo. Valéria era um pouco mais baixa, delicada, centrada e sólida:

– Não me refiro ao externo. Acho que somos parecidas aqui dentro. – Valéria tocou no peito da filha.

– Não te vejo há quanto tempo? – Suzana perguntou, virando-se. Elas ficaram frente a frente.

– Nem sei. Viajo tanto. Chego a perder a noção de tudo. Vamos para mais uma festa de comemoração às empresas Bersani? – desconversou. – Eu tenho que celebrar muito, pois são elas que pagam o meu luxo. – a mãe ironizou. Suzana riu mais uma vez.

Dirigindo, a garota não se conteve:

– Você não sente falta de nós? Da sua família?

– Hum… Não sei, não penso nisso. Passei a fazer o que eu queria depois que cumpri minhas obrigações. Amo vocês, amo o seu pai, mas não nasci pra ser dona de casa ou esposa de fachada. Decidi que ia desbravar e rodar. Nós, querida, não nascemos para sermos passivas. Somos ativas, fazemos. A verdade é que se eu tivesse sua idade, nunca me casaria. Seria do mundo, pertencia a todos e a ninguém.

– Entendo o que você sente. Tenho essa motivação desbravadora. Mas e os que ficam? E nós que nunca temos você ao lado?

– De que adianta ficarmos juntas se eu sofro com a prisão? Ou de que adianta ficarmos perto se eu a sufocar com minha presença? Pode parecer egoísta, minha filha, mas nós temos que pensar só em nós. Se não fizermos assim, se não nos valorizarmos, ninguém vai fazer por nós.

Suzana queria concordar. Valéria sabia que ela entendia. Porém, não conseguiram expor, mais uma vez, o quanto eram iguais. Mesmo afastadas, de alguma forma, a mãe obteve sucesso em moldar o caráter da filha. Há certos aprendizados que são naturais ou dependem de muito pouco. Embora tenha ficado raramente ao redor, Valéria proporcionou uma influência precisa no momento em que Suzana se desenvolvia.

Assim que chegaram ao salão de convenções do maior hotel da cidade, elas se separaram. O lugar já estava abarrotado, mesmo tendo chegado mais cedo. Sandro estava com o pai perto do palco. Ela ainda estava com raiva do irmão, por isso, decidiu circular.

Muito luxo, muitos flashes e muita ostentação sedimentaram-se como as marcas daquele evento. Era bom se sentir parte, mas às vezes era um pouco sofrido. Enquanto se servia de uma bebida, compreendeu o sentido de liberdade da própria mãe. Nós mesmos deveríamos ser nossos próprios chefes. Não devíamos deixar as rédeas na mão de ninguém. Contudo, frequentemente as direções, principalmente as emocionais, eram relegadas a um terceiro que não dá qualquer valor e só traz prejuízo.

Ao lado de Suzana, um garçom sentia-se da mesma forma. Luca estava chocado em servi-la, sem que ela percebesse quem ele era. Tinham transado, tinham se envolvido, ele tinha se apaixonado. Em vão, pois ela não nutria nada. Ele era só mais um. Da mesma forma que machucamos e brincamos com os sentimentos alheios, outros são nossos carrascos. É um ciclo cruel.

Ele tentou se reportar a ela, mas ficou com medo. Foram instruídos apenas a servir, sem interagir. No entanto, ele quebraria essa regra a força, embora torcesse por impressionar para poder manter o trabalho temporário como fonte de renda extra.

Suzana encontrou um ex-professor da Engenharia que conversava com outro senhor. Naturalmente ela destilou toda a simpatia entre os dois. Mais uma vez, se destacava sem esforços. A história se repetia:

– Suzana, você como sempre abrilhantando e alegrando nossos convidados. – Lina cumprimentou os dois senhores, antes de trocar um abraço falso com a neta. – Você sempre consegue chamar atenção.

– Claro. Aprendi que temos de sobressair com nossos melhores atributos. – Naquele evento, ao contrário de outros encontros, os quatro primos iriam enfrentar timidamente Dona Lina.

– Cavalheiros, os senhores nos dariam licença? Preciso trocar uma palavrinha em particular com Suzana.

As duas foram para uma parte mais afastada, a caminho dos banheiros. Suzana ficou de costas para as pessoas, bem à vista. Lina estava escondida. Esse arranjo geraria um evento improvável e impensável:

– Eu me adiantei a você. – a poderosa matriarca tentou diminuir a falsidade. – Não quero vexames na minha festa como o que estava prestes a ocorrer.

– Como assim? Eu não entendo. Sou tão recatada. – Suzana foi bem mais dissimulada. Lina respondeu rindo.

– Não quero ver você se esfregando em vários, se oferecendo a qualquer um. Por favor, tome essa chave. Reservei um quarto para você. Leve quantos quiser e faça às escondidas toda a devassidão que sei que você é capaz.

Suzana não acreditava. Olhava para a chave e para a avó. A vontade era fazer um escândalo. Porém, não valia nada. Só iria desmerecer a si própria mais, enquanto sua avó posaria como uma vítima:

– Com certeza! – ela pegou a chave velozmente. – Vou aproveitar com prazer, pode acreditar. Quem dera todas as comemorações me garantissem prazer fácil.

Ao se virar, a garota deu de cara com os três primos. Eles tinham acabado de chegar. Foram cumprimentar Suzana, sem perceber a conversa íntima. Enquanto se beijavam, Lina ficou bloqueada sem poder retornar à festa.

No mesmo instante, um fotógrafo, acompanhado de duas socialites, apareceu. Ele rapidamente reconheceu os quatro netos, com a avó por trás. Propôs uma foto. Eles gelaram. Nunca tinham um registro juntos. Aquilo era inédito. Contudo, com as ilustres figuras, Lina se pôs no meio deles para um registro histórico: Eulálio se colocou na ponta, seguido por Bianca; Suzana tomou o outro lado rapidamente, deixando Camila em contato com a avó:

– Eu não acredito. No creo! – disse Bianca no momento em que ficaram a sós.

– Estou paralisada. – Camila comentou.

– Isso é um daqueles eventos únicos, como um cometa que passa pela Terra de mil em mil anos. – Eulálio explicitou.

– Garanto que antes da festa acabar, essa foto será apagada. – Suzana debochou.

Eles estavam estranhos entre eles. Foram pegar bebidas e comer algo. Não tinham assunto. Incomodada, Suzana se dispersou. Arrependeu-se logo em seguida. Deu de cara com Cristóvão:

– Tio. Não tinha visto você.

Eles se beijaram e se abraçaram estranhamente. Ela chegou a olhar em volta, ansiando para que algum primo surgisse e não permitisse que uma conversa constrangedora acontecesse. Mesmo que fiquem muito tempo em suspenso, as coisas tendem, em algum momento, a pedir explicações.

Tio e sobrinha se atualizaram, conversaram trivialidades e riram um pouco. Suzana percebia pelo jeito e pelo olhar o quanto ele estava querendo entrar no assunto. Era uma necessidade para ele:

– Suzana, a gente precisa…

– Não, tio Cris! Se for sobre aquela noite, esquece. – ela pediu.

– A gente tem que… Eu tenho que falar. – ele implorou.

– Sobre o quê? É melhor deixar pra lá. Foi errado, não foi? Foi indevido. Só que a gente não sabia.

– Eu não paro de pensar sobre o que senti, sobre ter você nos braços. Você está impregnada em mim.

– Quê? – Suzana deu dois passos para trás. Ela estava chocada. Cristóvão tentou reaproximar. Ela recuou mais:

– Eu acho que eu amo você.

– Não. – ela gritou. Muitos olharam para os dois, inclusive os três primos e Lina. – Tio Cristóvão, por favor, não. – ela disse baixinho, olhando para os pés.

Num rompante, ela correu para a área do banheiro, desviando para as escadarias. Decidiu ir embora. Queria se isolar. Desejava receber um castigo. Alguma reparação deveria ocorrer para que ela purgasse um pecado tão grande e sem culpa, na verdade. No entanto, ela teria mais surpresas naquela noite. Ao trocar olhar com Igor, parou repentinamente. Ele estava recostado na parede, formando um círculo com outros homens. Não era possível que ele também estivesse ali:

– Nem eu sabia que era um dos amigos das empresas Bersani, pois, fornecedor, sei que não sou. Talvez o convite tenha vindo por sua causa. – ele deu dois beijos nela, assim que dispensou os parceiros. – Tem tanto tempo que não vejo você. Confesso que fiz questão de vir por sua causa.

A conversa verdadeira e amedrontadora com a mãe, o embate com a avó, a foto histórica, o afastamento dos primos, a revelação louca do tio e a mágica aparição de Igor deixaram-na totalmente aberta e vulnerável, clara e intensa como uma cascata:

– Igor, eu nunca quis saber o que era amar, mas eu amo você. Eu acho que quero você. Quero estar junto. Sei dos complicadores e da nossa distância. Mesmo assim, eu continuo querendo você mais e mais. – Aquelas palavras também eram inéditas. Suzana nunca se imaginou se abrindo com um cara antes.

– Eu também não consigo me afastar de você. Fica comigo? De uma vez por todas?

Suzana voou no pescoço dele e deu um beijo mais que caloroso em Igor. Lina, que estava perto, fingiu não ver, ao contrário dos outros primos, que vibraram sem se espantar com a cena típica. Ela pegou na mão de Igor e cruzou a festa com ele. Luca e Cristóvão amarguraram uma derrota ao vê-la feliz e acompanhada:

– Vó, estou indo para o quarto. – Suzana passou onde Lina, rodeada por conhecidas, estava e parou chacoalhando as chaves. – Vou fazer uma festinha melhor, já que a senhora é tão liberal e me deu um quarto.

Assim que as portas do elevador se fecharam, Suzana e Igor se agarraram. Se beijaram loucamente. Se fundiram. Se entregaram. Se amaram. Eles ficaram grudados, no quarto do hotel, por todo o resto todo do final de semana. Além do sexo, eles se abriram e se acertaram de uma maneira imprevista. Não iriam esquecer tudo o que confidenciaram. Selavam uma possível vida juntos, como marido e mulher, ou engenheiros e amantes em busca de novos mercados e estabilidade. O futuro era o mais amplo para ela. Valia a pena buscar o desconhecido.

Fim do Primeiro Ciclo de Suzana