JUNÇÃO – Suzana

Que mulher não se admira longamente perante o espelho, ainda mais bem arrumada num vestido de gala? Por algum motivo, Suzana não se sentia confiante apesar de aparentar enorme deslumbre. Sua imagem refletida transmitia uma seriedade e uma palidez incríveis e gritantes por causa do vestido azul petróleo. A maquiagem dava-lhe um ar enigmático, e os cabelos, presos num longo rabo de cavalo, aumentavam a rigidez apenas aparente.

Estava cansada de tantos golpes da vida, necessitando de um período para ficar parada. Em pouco tempo, tinha mudado tanto e experimentado novas formas de pensar. Sentia-se diferente, em transformação. De algum modo, sem perceber, dera início a um ciclo de mudanças. Amedrontava-se com a ausência de noção sobre para onde estava encaminhando. Suzana não sabia que estava no meio de um processo de consolidação. Só depois de vencida essa etapa, poderia sedimentar sua essência:

– Cada vez mais acho você parecida comigo. – Valéria colocou-se atrás da filha. Suzana riu com o comentário.

Elas ficaram se olhando e se avaliando. Era inegável que fisicamente não se assemelhavam, a começar pelo fato de a mãe ser morena, enquanto a filha sempre fora loura. Suzana tinha um porte altivo, arredio, determinado e expansivo. Valéria era um pouco mais baixa, delicada, centrada e sólida:

– Não me refiro ao externo. Acho que somos parecidas aqui dentro. – Valéria tocou no peito da filha.

– Não te vejo há quanto tempo? – Suzana perguntou, virando-se. Elas ficaram frente a frente.

– Nem sei. Viajo tanto. Chego a perder a noção de tudo. Vamos para mais uma festa de comemoração às empresas Bersani? – desconversou. – Eu tenho que celebrar muito, pois são elas que pagam o meu luxo. – a mãe ironizou. Suzana riu mais uma vez.

Dirigindo, a garota não se conteve:

– Você não sente falta de nós? Da sua família?

– Hum… Não sei, não penso nisso. Passei a fazer o que eu queria depois que cumpri minhas obrigações. Amo vocês, amo o seu pai, mas não nasci pra ser dona de casa ou esposa de fachada. Decidi que ia desbravar e rodar. Nós, querida, não nascemos para sermos passivas. Somos ativas, fazemos. A verdade é que se eu tivesse sua idade, nunca me casaria. Seria do mundo, pertencia a todos e a ninguém.

– Entendo o que você sente. Tenho essa motivação desbravadora. Mas e os que ficam? E nós que nunca temos você ao lado?

– De que adianta ficarmos juntas se eu sofro com a prisão? Ou de que adianta ficarmos perto se eu a sufocar com minha presença? Pode parecer egoísta, minha filha, mas nós temos que pensar só em nós. Se não fizermos assim, se não nos valorizarmos, ninguém vai fazer por nós.

Suzana queria concordar. Valéria sabia que ela entendia. Porém, não conseguiram expor, mais uma vez, o quanto eram iguais. Mesmo afastadas, de alguma forma, a mãe obteve sucesso em moldar o caráter da filha. Há certos aprendizados que são naturais ou dependem de muito pouco. Embora tenha ficado raramente ao redor, Valéria proporcionou uma influência precisa no momento em que Suzana se desenvolvia.

Assim que chegaram ao salão de convenções do maior hotel da cidade, elas se separaram. O lugar já estava abarrotado, mesmo tendo chegado mais cedo. Sandro estava com o pai perto do palco. Ela ainda estava com raiva do irmão, por isso, decidiu circular.

Muito luxo, muitos flashes e muita ostentação sedimentaram-se como as marcas daquele evento. Era bom se sentir parte, mas às vezes era um pouco sofrido. Enquanto se servia de uma bebida, compreendeu o sentido de liberdade da própria mãe. Nós mesmos deveríamos ser nossos próprios chefes. Não devíamos deixar as rédeas na mão de ninguém. Contudo, frequentemente as direções, principalmente as emocionais, eram relegadas a um terceiro que não dá qualquer valor e só traz prejuízo.

Ao lado de Suzana, um garçom sentia-se da mesma forma. Luca estava chocado em servi-la, sem que ela percebesse quem ele era. Tinham transado, tinham se envolvido, ele tinha se apaixonado. Em vão, pois ela não nutria nada. Ele era só mais um. Da mesma forma que machucamos e brincamos com os sentimentos alheios, outros são nossos carrascos. É um ciclo cruel.

Ele tentou se reportar a ela, mas ficou com medo. Foram instruídos apenas a servir, sem interagir. No entanto, ele quebraria essa regra a força, embora torcesse por impressionar para poder manter o trabalho temporário como fonte de renda extra.

Suzana encontrou um ex-professor da Engenharia que conversava com outro senhor. Naturalmente ela destilou toda a simpatia entre os dois. Mais uma vez, se destacava sem esforços. A história se repetia:

– Suzana, você como sempre abrilhantando e alegrando nossos convidados. – Lina cumprimentou os dois senhores, antes de trocar um abraço falso com a neta. – Você sempre consegue chamar atenção.

– Claro. Aprendi que temos de sobressair com nossos melhores atributos. – Naquele evento, ao contrário de outros encontros, os quatro primos iriam enfrentar timidamente Dona Lina.

– Cavalheiros, os senhores nos dariam licença? Preciso trocar uma palavrinha em particular com Suzana.

As duas foram para uma parte mais afastada, a caminho dos banheiros. Suzana ficou de costas para as pessoas, bem à vista. Lina estava escondida. Esse arranjo geraria um evento improvável e impensável:

– Eu me adiantei a você. – a poderosa matriarca tentou diminuir a falsidade. – Não quero vexames na minha festa como o que estava prestes a ocorrer.

– Como assim? Eu não entendo. Sou tão recatada. – Suzana foi bem mais dissimulada. Lina respondeu rindo.

– Não quero ver você se esfregando em vários, se oferecendo a qualquer um. Por favor, tome essa chave. Reservei um quarto para você. Leve quantos quiser e faça às escondidas toda a devassidão que sei que você é capaz.

Suzana não acreditava. Olhava para a chave e para a avó. A vontade era fazer um escândalo. Porém, não valia nada. Só iria desmerecer a si própria mais, enquanto sua avó posaria como uma vítima:

– Com certeza! – ela pegou a chave velozmente. – Vou aproveitar com prazer, pode acreditar. Quem dera todas as comemorações me garantissem prazer fácil.

Ao se virar, a garota deu de cara com os três primos. Eles tinham acabado de chegar. Foram cumprimentar Suzana, sem perceber a conversa íntima. Enquanto se beijavam, Lina ficou bloqueada sem poder retornar à festa.

No mesmo instante, um fotógrafo, acompanhado de duas socialites, apareceu. Ele rapidamente reconheceu os quatro netos, com a avó por trás. Propôs uma foto. Eles gelaram. Nunca tinham um registro juntos. Aquilo era inédito. Contudo, com as ilustres figuras, Lina se pôs no meio deles para um registro histórico: Eulálio se colocou na ponta, seguido por Bianca; Suzana tomou o outro lado rapidamente, deixando Camila em contato com a avó:

– Eu não acredito. No creo! – disse Bianca no momento em que ficaram a sós.

– Estou paralisada. – Camila comentou.

– Isso é um daqueles eventos únicos, como um cometa que passa pela Terra de mil em mil anos. – Eulálio explicitou.

– Garanto que antes da festa acabar, essa foto será apagada. – Suzana debochou.

Eles estavam estranhos entre eles. Foram pegar bebidas e comer algo. Não tinham assunto. Incomodada, Suzana se dispersou. Arrependeu-se logo em seguida. Deu de cara com Cristóvão:

– Tio. Não tinha visto você.

Eles se beijaram e se abraçaram estranhamente. Ela chegou a olhar em volta, ansiando para que algum primo surgisse e não permitisse que uma conversa constrangedora acontecesse. Mesmo que fiquem muito tempo em suspenso, as coisas tendem, em algum momento, a pedir explicações.

Tio e sobrinha se atualizaram, conversaram trivialidades e riram um pouco. Suzana percebia pelo jeito e pelo olhar o quanto ele estava querendo entrar no assunto. Era uma necessidade para ele:

– Suzana, a gente precisa…

– Não, tio Cris! Se for sobre aquela noite, esquece. – ela pediu.

– A gente tem que… Eu tenho que falar. – ele implorou.

– Sobre o quê? É melhor deixar pra lá. Foi errado, não foi? Foi indevido. Só que a gente não sabia.

– Eu não paro de pensar sobre o que senti, sobre ter você nos braços. Você está impregnada em mim.

– Quê? – Suzana deu dois passos para trás. Ela estava chocada. Cristóvão tentou reaproximar. Ela recuou mais:

– Eu acho que eu amo você.

– Não. – ela gritou. Muitos olharam para os dois, inclusive os três primos e Lina. – Tio Cristóvão, por favor, não. – ela disse baixinho, olhando para os pés.

Num rompante, ela correu para a área do banheiro, desviando para as escadarias. Decidiu ir embora. Queria se isolar. Desejava receber um castigo. Alguma reparação deveria ocorrer para que ela purgasse um pecado tão grande e sem culpa, na verdade. No entanto, ela teria mais surpresas naquela noite. Ao trocar olhar com Igor, parou repentinamente. Ele estava recostado na parede, formando um círculo com outros homens. Não era possível que ele também estivesse ali:

– Nem eu sabia que era um dos amigos das empresas Bersani, pois, fornecedor, sei que não sou. Talvez o convite tenha vindo por sua causa. – ele deu dois beijos nela, assim que dispensou os parceiros. – Tem tanto tempo que não vejo você. Confesso que fiz questão de vir por sua causa.

A conversa verdadeira e amedrontadora com a mãe, o embate com a avó, a foto histórica, o afastamento dos primos, a revelação louca do tio e a mágica aparição de Igor deixaram-na totalmente aberta e vulnerável, clara e intensa como uma cascata:

– Igor, eu nunca quis saber o que era amar, mas eu amo você. Eu acho que quero você. Quero estar junto. Sei dos complicadores e da nossa distância. Mesmo assim, eu continuo querendo você mais e mais. – Aquelas palavras também eram inéditas. Suzana nunca se imaginou se abrindo com um cara antes.

– Eu também não consigo me afastar de você. Fica comigo? De uma vez por todas?

Suzana voou no pescoço dele e deu um beijo mais que caloroso em Igor. Lina, que estava perto, fingiu não ver, ao contrário dos outros primos, que vibraram sem se espantar com a cena típica. Ela pegou na mão de Igor e cruzou a festa com ele. Luca e Cristóvão amarguraram uma derrota ao vê-la feliz e acompanhada:

– Vó, estou indo para o quarto. – Suzana passou onde Lina, rodeada por conhecidas, estava e parou chacoalhando as chaves. – Vou fazer uma festinha melhor, já que a senhora é tão liberal e me deu um quarto.

Assim que as portas do elevador se fecharam, Suzana e Igor se agarraram. Se beijaram loucamente. Se fundiram. Se entregaram. Se amaram. Eles ficaram grudados, no quarto do hotel, por todo o resto todo do final de semana. Além do sexo, eles se abriram e se acertaram de uma maneira imprevista. Não iriam esquecer tudo o que confidenciaram. Selavam uma possível vida juntos, como marido e mulher, ou engenheiros e amantes em busca de novos mercados e estabilidade. O futuro era o mais amplo para ela. Valia a pena buscar o desconhecido.

Fim do Primeiro Ciclo de Suzana

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