JUNÇÃO – Bianca

Bianca curtiu muito a sequência de ações vivenciadas por Suzana. Ela ria por dentro, esquecendo-se, por instantes, do temor que sentia ao vir para a festa de comemoração às empresas Bersani. A prima representava um exemplo, pois ela não aguentava mais se isolar e não poder expressar o que sentia. Havia um anseio querendo romper dentro de si e externar: o pedido de ajuda.

Queria contar aos primos o que vivenciou, relembrar toda a história com Júnior e encontrar um jeito de combater seu defeito físico. Nunca comentou com sua ginecologista, não teve coragem de perguntar os motivos da frigidez em mulheres. Será que deveria primeiro buscar por causas físicas? Depois poderia procurar um psicólogo? Só sabia que o medo de não conseguir sentir ou dar prazer barraram-na na busca por um amor. Tinha muito tempo que ela não se permitia a um relacionamento:

– Bianca, manda o Lio mudar essa cara. – Camila a tirou do mundo dos pensamentos. – Você não pode ficar bravo com Suzana pra sempre.

– Não quero falar sobre isso. – ele cortou.

– Eu já disse. – Bianca repetiu. – É um exagero brigar com ela, ainda mais por causa disso. Suzana segue o fluxo. Se ela quer alguém, ela se joga e vai. Ela pega de acordo com o que sente. Não aconteceu porque não houve clima. Não foi premeditado. – Mais tarde, ela ia repetir o mesmo discurso para outro interlocutor.

– Ah, tchau para vocês. – Eulálio saiu, deixando-as.

Camila olhou para a prima com um pesar. Não gostavam de distanciamentos:

– Vou circular por aí. Me acompanha? – Camila convidou. Ela ia aceitar, mas viu Júnior com os irmãos, no centro da festa. Ela se endureceu.

– Não. Vou ficar paradinha. É melhor.

Bianca optou por ficar sozinha e camuflada. Afinal, queria evitar Júnior pra sempre a qualquer preço. No entanto isso, não seria possível. Eventualmente ele a acharia, pois estava doido para reiniciar o tormento.

Algumas pessoas a cumprimentaram, perguntaram pela faculdade, transmitiram simpatia, e outras a ignoraram. Era normal. Bianca não era nenhuma estrela da família como seus irmãos. Eles ficavam totalmente ocupados em eventos assim. Eram requisitados, chamados e apreciados. Desde que chegaram, ficavam na parte central rindo e aparecendo. Sempre foi assim. Junto de Sandro, eram o trio de ouro. Os outros formavam o quarteto da insignificância.

Sentada em um banco, não percebeu quando Nando sentou-se próximo e longe ao mesmo tempo. Ela estranhou:

– Oi. – ele disse timidamente. Ela sorriu apenas. – Está se divertindo? – Bianca novamente não respondeu, apenas balançou a cabeça.

Quanta hipocrisia! Assim como Eulálio em relação à Suzana, Bianca não queria qualquer contato com os irmãos. Estava abalada com eles e ressentida pela forma como era tratada:

– Fico lembrando as palavras de Suzana para Sandro… Não queria que você me dissesse aquilo, em hipótese alguma. – A sinceridade do irmão despertou-a. Ele tinha toda a atenção (e surpresa) dela. – Não é correto sermos irmãos e ficarmos distantes. Quero te ajudar, saber de você…, sei lá. Não gostaria de ser negligente.

– Por que isso agora?

– Porque foi quando percebi. Somos irmãos, não desconhecidos. Acho que ser irmão mais velho serve pra isso.

– Não. Eu estou bem, não preciso de nada. – Mentiu. O que ela precisava era exatamente de uma pessoa distanciada como o irmão. Se tivesse cedido, uma boa, saudável e importante parceria teria surgido para ambos. – Dá pra resolver tudo sozinha. Talvez meu maior desafio, nessa vida, seja comigo mesmo. Eu sou o meu próprio propósito.

– Sabia que você responderia algo assim, que não precisa de tanto apoio. Você é muito egocêntrica na forma como se porta.

– E você é um capacho do Nei. – ela se descontrolou. Não seria a última vez naquela noite.

Eles se olharam. As acusações eram verdadeiras, não cabia defesa. No entanto, estavam arrependidos. Não queriam qualquer embate. Fernando realmente ansiava por se reaproximar da irmã, só não sabia como se proceder. Bianca desejava ter mais apoio em sua vida. Apesar de constrangidos, eles poderiam ter se acertado, se não fosse a aparição de Lina:

– Fernando, querido, por que está perdendo tempo aqui, com ela?

Bianca olhou brava para ele. O semblante do irmão mudou automaticamente com a chegada da avó. Tornou-se subserviente. Como um fantoche, ele respondeu com desprezo:

– Nem sei. Eu me desconcertei.

– Essa festa é para vencedores fazerem contatos. Não sei por qual motivo alguns ainda teimam em comparecer. – Lina alfinetou.

– Eu vou voltar a conversar com as pessoas.

– Querido, antes você poderia chamar o Miguel? Aquele que você conheceu hoje? Ele é a cara da sua irmã.

– Como? De novo? Achei que vocês tivessem se cansado dessa palhaçada de enfiar um casamento na minha vida. Quero ser independente.

– Essa palavra não vai constar na sua vida tão facilmente. – A avó disse de maneira forçada.

Bianca abaixou a cabeça e a sacudiu em negativa, enquanto o irmão saía para executar as ordens da matriarca. De fato, palavras não representavam nada. Elas se perdem, ganham outros sentidos na memória dos outros, ficam dispersas. É o instrumento mais fácil para atingirmos o outro, porém, é o mais fraco. Atos e gestos são mais representativos e marcantes, se tornam mais significativos. No fundo, Bianca ainda não tinha percebido que não deveria se preocupar com as ameaças.

– Sabe, eu acho que você andou perdendo a noção de quem eu sou. – Lina deu continuidade. – Eu tento fazer você se ajeitar. Todos vão sair ganhando se você se adequar. Dê uma chance a esse garoto. Ele é rico, tem boa família, é viajado. Se com essas qualidades não há garantia de sucesso matrimonial, imagina com os defeituosos.

– Quanto mais você me força, mais firme fico na minha posição em recusar. Mais desejo ficar sozinha e ser independente.

– Você ainda depende de mim. Você carrega o meu nome. Não dá para desvencilhar. Infelizmente você quer fazer dele um empecilho, ao invés de ser seu trampolim.

– Se for assim, passo assinar o sobrenome de minha mão a partir de agora.

– Isso não resolve. O ‘Bersani’ persegue e impregna. Prepare-se, minha querida, antes de você perceber, eu farei você entender o quanto é importante se encaixar na engrenagem da nossa família. Eu te dei uma chance de sair. Você não quis.

– Sair? – Bianca não compreendeu do que ela poderia estar se referindo. – Do que você está falando?

– Irmã, esse é o Miguel! – Nando chegou com o pretendente, colocando-se ao lado da avó.

Ela nem prestou atenção no garoto. Olhava Lina. Sentia que era uma guerra perdida. Sempre a avó iria arranjar um jeito de desmotivá-los ou derrubá-los. Valia a pena continuar?

Ela girou nos calcanhares e se afastou. Odiava aquela situação. Decidiu ir embora. Sem passar pela entrada principal, pois não queria chamar atenção, foi pelos fundos da festa, com a intenção de cruzar a cozinha. Sem ligar para os olhos assustados e as reclamações, Bianca foi transpondo garçons, copeiras e cozinheiros. Ao chegar numa área de descanso, em cima de uma das saídas do hotel, teve de parar com o susto de se deparar com Luca. Ele fumava. O cigarro ficou a meio caminho da boca ao olhá-la:

– Ei. – ela sussurrou.

– Oi. Você está indo embora? – Ao perceber que estava numa pose de pateta, Luca jogou o cigarro fora.

– Acho que sim, não sei. – Bianca queria ficar de papo com ele. – Precisei sair um pouco daquele ambiente.

– Você me reconhece? – ele perguntou. Ela fez cara de que não entendeu. – Você se recorda de mim?

– Claro! Da livraria. Também sei que você teve algo com minha prima.

– Suzana não me reconheceu! – ele disse de maneira triste. – Troquei meu horário na livraria só por causa dessa festa. Era uma forma de me aproximar dela.

– Por que você está me dizendo isso? – Bianca não concordava com tanto afeto em relação à prima. Sentia-se preterida mais uma vez.

– Eu servi ela várias vezes, mas ela nem se lembrou. Eu era um fantasma.

Bianca lutou contra o sentimento de consolação. No final, não aguentou:

– Não é sua culpa. Suzana é assim. Você foi só mais um. Ela não é de ninguém, é de todos. Não acho que vai existir alguém capaz de fisgá-la.

Luca relaxou ao ver o sorriso de complacência que ela transmitia. Por isso, se permitiu ser sincero com Bianca. Porém, iria cruzar uma linha complicada:

– Você me ajudaria? Você conseguiria mandar um recado para Suzana? Ou arranjar um encontro entre nós dois?

Bianca ficou revoltada. Ele estava sugerindo que ela fosse uma alcoviteira:

– Luca, você está doido? Eu acabei de falar com você para abstrair. Pra que insistir, seu lunático?! Você está perdendo seu tempo, seu ridículo! – ela gritou.

– Se você não quer me ajudar, é só falar, não precisa agredir. – ele partiu pra cima dela, estavam mais próximos, cara a cara.

– Então, abra os olhos. Deve ter outras pessoas te querendo e você não vê por causa de uma paixonite pela mulher mais libertina que conheço.

– Você deve ter ciúmes dela. Ela é bem mais bonita e consegue chamar atenção. Você é uma apagada! – Assim, começou a troca de acusações falsas.

– Olha quem fala! Você deve ser um daqueles letrados que se acha, que pode julgar a todos. O problema é que você não se enxerga!

– Você também não. Deve ser uma mimada que tem tudo na mão. Não deve saber fazer nada, não deve ter coragem para buscar o que quer.

– Não sou assim! – gritou com raiva.

Aquelas palavras foram um estopim. Eram o terror na cabeça de Bianca. Tudo o que não queria ouvir ou ser. Por isso, num impulso, ela fez o improvável. Lançou os braços no pescoço de Luca e o puxou para um beijo. A princípio, ele resistiu, depois, cedeu. Ele a enganchou na cintura. Ela enterrou as mãos no cangote do rapaz.

Eles se beijaram da maneira mais intensa e simples possível. Há anos tinham perdido o sabor de um beijo maravilhoso e desconcertante, capaz de fazê-los abstrair de tudo:

– Que escândalo! Que baixo nível!

Os dois se separam assustados. A supervisora do buffet estava incrédula:

– Eu avisei que meus garçons tinham de ser exemplares, não podiam flertar, agredir, ou brincar com os convidados. E você me traz uma ralé para ficarem juntos, nos fundos, de pouca vergonha. Você está dispensado, some da minha frente.

– Não foi culpa dele! – Bianca tentou remediar.

– Cala a boca, sua piranha. – A garota se assustou com a grosseria.

– Dobra essa língua, ela é uma Bersani! – Luca apelou, fazendo Bianca ficar possessa com a verdade. Sentia raiva do sobrenome.

A mulher ficou branca e pálida. Não acreditava na cena. Não sabia o que dizer:

– Me desculpe. Bem que me falaram que Dona Lina tinha uma neta vaga…, digo, assanhada. – ela se corrigiu. Claramente se referia a Suzana, a causadora indireta daquele evento atípico. – Eu vou sair daqui, para deixá-los mais à vontade.

Bianca queria chorar de vergonha e de ódio. Ao sair correndo, virou o pé no primeiro lance da escada que dava da área de descanso ao térreo. Ela saiu rolando extremamente rápido. Não deu tempo de Luca alcançá-la.

Desesperado, ele a pegou no colo e chegou à rua. Sem pensar, rumou para um hospital que ficava perto. Bianca aninhou-se no colo do rapaz. Esqueceu-se de tudo. Apesar da dor, a sensação era boa.

Ela foi para um quarto particular, assim que disse o nome Bersani mais uma vez. Fizeram radiografias, mas era apenas uma torção. Com medo, ela inventou e reclamou estar com muita dor. Implorou por remédios mais fortes. Desejava apagar de tudo. Os médicos não iriam ceder se fosse outra paciente. Por ela ser uma ilustre, satisfizeram seu desejo. Deram um forte calmante para dormir. Assim, ela fugiu da realidade e imergiu dentro de si própria. Ainda não estava completamente pronta pra enfrentar os verdadeiros desafios.

Fim do Primeiro Ciclo de Bianca

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