JUNÇÃO – Eulálio

Tinha sido uma péssima ideia. Deveria ter refutado. Onde ele estava com a cabeça ao ter cedido às pressões dos colegas de setor para comparecer ao aniversário das empresas Bersani? Era ilógico o que tinha feito. Não conseguia se concentrar, pois tinha medo que descobrissem a farsa. Não sabia o jeito de se portar: como neto ou como estagiário. Ficava no meio do caminho…

Por sorte, percebeu que a festa num hotel tinha favorecido sua proteção. Praticamente as grandes e ilustres figuras foram para a parte de cima, enquanto os funcionários mais simples e ordinários ficaram na parte de baixo. Logo, todo o círculo de colegas de trabalho ou pessoas com as quais cruzava o olhar no dia a dia, estava no segundo pavimento.

Por enquanto, estava acobertado, se não fosse pela foto. Precisava se livrar daquilo. Sabia que sua avó iria destruir tão épico registro, mas tinha medo de alguém reconhecê-lo e pudesse fazer as associações.

Com um jogo de cintura e também sangue frio, alegou estar a mando de sua avó para recuperar a foto rapidamente numa mídia digital, além de apagá-la da câmera. O fotógrafo não suspeitou, estava acostumado com os demandes das pessoas ricas. Além do mais, uma pequena pausa não o faria mal. Os dois foram para uma salinha na qual estava todo o material dos serviçais da festa. Ele descarregou as fotos para um computador, pegou o arquivo e o copiou num CD. Após, apagou o registro.

Com a mídia no bolso do terno, retornou ao primeiro pavimento. Incomodava carregar no peito tamanho ineditismo. Se tivesse coragem iria descartá-lo. No fundo, fazia questão de ter algum item que atestasse uma proximidade entre os quatro e a avó:

– Onde vocês se meteram? Não acho a Bibi. – Camila juntou-se a ele.

– Não sei. Eu estava na parte de baixo. – Mentiu.

– Por quê?

– Queria ver se meus convidados chegaram. – Eulálio soltou sem querer. Não queria dar uma notícia impactante a Camila.

– Quem? Você chamou pessoas para acompanhar nossa desgraça? Não chamaria nenhum amigo para ver o quanto sou desprezada na minha própria família. Nem o Leo, eu animei chamar.

Eulálio sabia qual seria a reação dela. Então, não se demorou tanto:

– Chamei a Sheila… e o Maurício vem também.

– O quê? – Camila ficou chateada. – Eu não quero ver ele, Eulálio. Por que você fez isso? – Aparentemente os quatro primos estavam experimentando uma fase de revolta entre si.

– Eu me senti vulnerável. Eu e Sheila precisamos conversar. O Maurício vem por causa dela.

– E como eu fico nisso? Ele vai querer conversar comigo e eu não consigo. – Camila estava incrédula.

– Foge dele.

– Não! Vai ser sua tarefa, mantê-lo longe de mim. Que saco!

– Pode deixar! – ele tinha ficado chateado. – Eu fico com os dois no segundo pavimento. Você fica aqui em cima.

Assim, ambos se separaram. Enquanto descia as escadas, encontrou-se com Dona Rosa, chefe do RH e única na empresa que sabia da dupla condição dele:

– Está sendo difícil, não está?

– Está. Eu estou com medo o tempo todo de ser descoberto.

– Entendo. Acho que foi uma burrice ter aceitado e forçado sua vinda. Se Lina descobrir, aqui mesmo, ela arranja uma confusão. Talvez fosse melhor você ir embora. Eu acoberto você.

– Tudo bem. Estou esperando dois amigos. Assim que eles chegarem, eu saio.

Os dois se abraçaram. Antes de ela retornar, Eulálio a reteve pelo braço:

– Dona Rosa, obrigado. Foi uma jornada interessante. Eu aprendi muito.

– E eu me diverti um pouco.

Ele ficou vendo-a subir. Antes de terminar de descer os lances de escada, não pode evitar refletir. Entre dois locais, era como ele constantemente estava. No momento, Eulálio estava no meio, entre o primeiro e o segundo pavimento, assim como na vida também estava agarrado entre dois mundos.

Era um Bersani, mas nunca o seria completamente. Era um estagiário competente, mas não podia ser reconhecido, nem levar todos os devidos créditos. Tinha uma ex-namorada que ansiava reatar, mas não se sentia ligado a ela. Queria Catarina, mas ela era totalmente inacessível.

Tinha convidado Sheila a comparecer por puro egoísmo. Não pretendia voltar com o namoro, apesar de Maurício ter confidenciado o quanto ela desejava o garoto. Eulálio queria um escudo. Uma acompanhante permitia que ele ficasse camuflado. Poderia ficar num canto afastado, com ela, sem que os outros se importassem. Não se sentia bem com isso. Ele fora constantemente usado na vida para saber o quanto isso era ruim. Tentou se perdoar por não ter achado outro jeito de se safar dessa história absurda.

O clima da parte de baixo da festa era incrivelmente diferente. Todos estavam mais descontraídos, sem se importar com luxo e ostentação. Queriam apenas se divertir, aproveitar e sentir um orgulho que no cotidiano, às vezes, não percebiam. Rapidamente, Eulálio encontrou sua rodinha de colegas. Conversara sobre o valor daquele festejo, como a comida estava de primeira e se alguém conseguiria ficar com alguma grã-fina da parte de cima. Eles notaram o traje ultra aprimorado do garoto, mas ele não se importou.

Minutos depois, os dois amigos chegaram. Ele e Maurício se cumprimentaram de maneira contida. Com a ex, foi bem mais refreado o contato. Eles não sabiam o que dizer, nem se olhavam nos olhos.

Para quebrar o clima, Eulálio resolveu dar uma volta pelo espaço com eles. Quando iam se retirar, eles deram de cara com Lina. No momento em que ela chegou ao segundo pavimento, a atmosfera se transformou. As pessoas passaram a falar mais baixo, muitos correram para o banheiro. Todos pararam de comer. Também não sabiam como se suceder com a toda poderosa ao redor:

– Eulálio! Sabe que você fica bem nesse setor. Talvez você esteja procurando um emprego de subalterno. É isso? Por que não me falou?  Posso te indicar um lugar de faxineiro.

Maurício e Sheila se afastaram devagar e depois simplesmente deixaram os dois juntos. Eulálio sentiu o maior receio de todos. Talvez aquele fosse o momento da descoberta. Não era ainda. Com medo de comentários posteriores, decidiu por uma abordagem diferente. Ficaria feliz perante a avó. Desse jeito, poderia alegar o privilégio de ter se encontrado com a chefe pela primeira vez, ao contrário do ódio que naturalmente sempre transpareceria entre neto e avó:

– Pensando melhor, acho que quero, sim, você na empresa. Eu sempre tive aversão a isso, mas, se quiser, pode me servir cafezinho. Seria interessante.

– Eu tenho direito ao patrimônio dos Bersani. Se esqueceu? – ele ria. Aquilo a desarmou por alguns instantes.

– Eu não vou deixar que isso aconteça tão facilmente.

– O que mais você pretende fazer comigo? Eu me sinto bem mais determinado ao saber que você não consegue me derrubar. Eu sei que você queria que eu fosse abortado. – Ele manteve a alegria, embora internamente doesse proferir o óbvio.

– Claro que eu queria. – ela entrou no jogo da exultação. – Não ansiava que meu filho tivesse um estigma. Onde já se viu um Bersani com um filho bastardo da empregada? Eu tinha de evitar.

– No fundo, você se arrependeu, não foi? – ele queria ser mais esperto. – Seu filho morreu. Se não fosse por mim, ele estaria perdido. Por que é tão difícil para você aceitar?

– Isso nunca se passou por minha cabeça. Você nunca foi nada. Ainda bem que sua mãe não aceitou dar você para mim. Seria muito pior.

– O quê? – ele não conseguiu manter a felicidade. Ficara sério.

– Você não sabia? Eu pedi para criar você. Teresa não deixou. Ela é uma mulher esperta, sabia que eu faria sua vida um pandemônio.

– Qual é o prazer de nos infernizar?

Eulálio disse e se retirou rápido. Fugiu para a área acima. Mais uma vez, o sentimento de não saber o atormentou. O que mais do seu passado não tinha conhecimento? Sentia-se um fantoche, pois não pudera ser o responsável por muitas das suas escolhas e dos caminhos percorridos.

Virando um copo de uísque, nem percebeu o toque do tio em seu ombro:

– O que está acontecendo? – Cristóvão pediu também uma dose.

– Raiva… ódio… incapacidade. Não aguento mais! Odeio essa família. Minha vontade é destruí-la.

– Lio, não vá por esse caminho. Por favor. Já me senti assim. Tem coisas que são do jeito que são. Ou você aceita, ou se afasta.

– Ou luta! – ele completou. – Eu vou acabar com todo mundo que me maltratou. Eles devem ter podres e coisas sujas, vou descobrir.

– É perda de tempo e de seu potencial. Não vale a pena. – Cristóvão parou de falar, assim que Sheila reapareceu. – Sua namorada! – ele apontou, beijou a garota e saiu. Nenhum dos dois o corrigiu.

Sentados, um do lado do outro, não conseguiram dizer nada, apesar de Sheila ter repassado mentalmente todas as palavras a proferir. Eulálio não queria pensar em situações amorosas complicadas. Tinham tanto o que esclarecer e resolver, mas o panorama estava turvo demais para tal feito:

– Eu… – depois de um tempo, ela tentou. – Eu sinto sua falta.

Mais um longo silêncio, antes das trocas verbais:

– Não consigo te explicar o que sinto. Não me sinto firme, nem preparado. – ele não olhou a ex.

– Por que você me convidou para esse evento? Tenho alguma chance?

Ele se virou e a encarou. Balançou a cabeça afirmativamente. Porém, se arrependeu. Mesmo longe e um pouco tapada, ele sabia que era Catarina ao fundo, junto do namorado. Mais uma vez, suas bases balançaram. Parecia um feitiço irremediável:

– Posso só te fazer um pedido? Eu não estou com cabeça para termos uma conversa longa e verdadeira. Achei que poderia ser hoje, mas não dá.

– Eu sei. Eu percebo.

Sheila o abraçou e colocou a cabeça no ombro dele. Eulálio só desejava que Catarina não visse:

– Você quer ficar sozinho um pouco? – ele assentiu diante da proposta. – Eu deixei o Maurício lá embaixo.

Ele ficou vendo-a sair. No mesmo instante, trocou o primeiro olhar com Catarina. Um furor percorreu o corpo de ambos. Era um sentimento avassalador. Aproveitou a dispersão do namorado e fez um sinal a Eulálio. Ela saiu em direção às escadas. Depois de um tempo, ele foi atrás. Era inusitada a escolha do local para o encontro.

Catarina estava séria. Ele se portou da mesma forma:

– Eu não queria ter vindo. Com isso, eu sofro. Você, mais ainda. Você não merece, ou melhor, não merecemos.

– Eu só quero um motivo. Eu não estou mais namorando. – Eulálio requisitou.

– Mas eu a vi aqui e agora. Como vocês não estão juntos?

– Sheila veio como uma amiga. – comentou.

– Vocês devem estar iguais a nós. Estávamos terminados até antes de ontem. Agora estamos juntos, mas sem firmeza. Só conversamos e choramos, não chegamos a lugar algum. Temos tanta história juntos, fica difícil terminar. Não sei se quero acabar, se quero ficar junto. – Catarina explicava mais para si própria.

– E eu? – ele interferiu. – E se eu fosse uma opção? Não conto?

Catarina subiu os lances que a afastavam dele. Ficaram um de frente para o outro. Ela tocou a mão dele, foi subindo pelo braço. Roçou os dedos no pescoço. E parou em suas bochechas. Eulálio tocou os cabelos dela na ponta e foi subindo. Chegou numa orelha. Ele a puxou suavemente, e Catarina deu uma leve inclinada na cabeça.

De repente, o telefone tocou na bolsa. Os dois se assustaram e se afastaram. Catarina atendeu:

– Oi. Eu… estou subindo. Achei que tinha visto uma amiga embaixo, mas não era. Já estou chegando.

Desligou e sorriu com vergonha:

– Como ficamos? – Eulálio perguntou.

– Do mesmo jeito. – Ela deu um beijo rápido na bochecha dele. Por um triz, o garoto não se virou para que dessem um selinho. Se arrependeu por não ter sido ousado.

Mais uma vez, Eulálio ficou sozinho num lance de escada, entre um andar e outro. Isso estava virando um ciclo. Não sabia, ao certo, qual jeito para combater a repetência sentimental e o eterno retorno nas experiências. No entanto, tinha a convicção de que queria tentar.

Deixou o hotel sem olhar para trás. Não devia satisfações a ninguém. Por enquanto, só queria revalidar as escolhas, pensar nas maneiras de modificar sua trajetória, tentar entender os nós do passado. A única certeza era esta: iria buscar entender tudo o que sua família tinha passado. Sua missão era compreender a contribuição de cada um para sua condição de bastardo. Era a hora de odiar e atrapalhar também, ou seja, pagar com a mesma moeda.

Quem sabe desistisse desse estágio louco dentro das empresas Bersani? Quem sabe resolvesse esquecer as duas, tanto Sheila, quanto Catarina? Quem sabe arranjasse um emprego e se tornasse independente, chegando a chutar a faculdade? Eulálio não estava feliz e satisfeito. Por isso, pretendia mudar e aceitar qualquer transformação à vista. Embarcar no desconhecido podia ser aterrorizante, mas as surpresas das descobertas apresentavam-se como encantadoras e inebriantes. O desconhecido era tentador para quem não tinha nada.

Fim do Primeiro Ciclo de Eulálio

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